Marxismo e Educação



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Marxismo e Educação
Helton Sales

A discussão realizada neste texto busca analisar elementos essenciais em torno do tema Educação e Marxismo. Sistematiza fragmentos do pensamento de Marx e Engels sobre Educação; analisa a base do pensamento Marxista sobre Educação e História.

Marx e Engels, no livro "A Ideologia Alemã", realizam uma crítica à concepção idealista da História1 e demonstram a necessidade da análise contextual e sociológica do período histórico do séc. XIX para uma possível transformação social na Alemanha e no Mundo.

A crítica de Marx e Engels em relação ao idealismo hegeliano se dava na medida em que este afirmava que é o pensamento que constitui o homem real e que as ideias são agentes fundamentais ou únicos da transformação histórica.

O materialismo Histórico2 desmistifica a inversão realizada pelos hegelianos, analisa a mentalidade social de baixo para cima, desce a filosofia dos céus para terra, reconhece que as ideias e seu desenvolvimento são frutos da evolução material dos homens e que não existe, portanto, história das ideias, mas uma história vivida e construída por "homens vivos" que com sua luta por sobrevivência e subsequente vivência desenvolve as relações de produção3.

A mudança dessas relações de produção e o desenvolvimento das mesmas é que geram as ideias, a filosofia, a religião, os valores morais, as leis, em suma, a mentalidade social; Assim é a realidade material que determina as ideias e não ao contrário, como podemos verificar na reflexão de Marx-Engels:

São os homens que desenvolvem a sua produção material e o seu intercâmbio material que, ao mudarem essa sua realidade, mudam também o seu pensamento e os produtos do seu pensamento. Não é a consciência  que determina a vida, é a vida que determina a consciência. (MARX, ENGELS, 1993)
Marx demonstra no materialismo histórico que a mentalidade social ou a "superestrutura social"4 é fruto do desenvolvimento das relações materiais vividas e construídas pelos homens. Esse processo é dialético, marcado pelo antagonismo de classe presente na “infra-estrutura social”4.

Observa-se, então, que o desenvolvimento das ideias não é fruto delas mesmas, mas das relações materiais históricas construídas pelos Homens. A mentalidade burguesa do séc. XIX é uma construção histórica fruto do desenvolvimento dos meios materiais de vida: os "meios de produção”5.

No pensamento de Marx e Engels, a crítica aos hegelianos seria, portanto, a sistematização do materialismo histórico: a relação da filosofia com a vida e problemáticas sociais que afetam a situação do homem na sociedade burguesa.

Assim, como a base do Marxismo é o materialismo histórico, a concepção de educação Marxista também tem como base o materialismo histórico.

O significado do conhecimento em Marx parte do empirismo positivista6, no primeiro momento, na análise do objeto e na sua descrição e a partir desse momento de observação se realiza a abstração do objeto, sua conceituação geral, universal e científica.

No segundo momento ocorre a inversão, o racionalismo idealista1, em que as determinações abstratas retornam ao nível do concreto.


O primeiro passo reduziu a plenitude da representação a uma determinação abstrata; pelo segundo, as determinações abstratas conduzem à reprodução do concreto pela via do pensamento. (MARX, 1973).
Esse retorno, então, será a problemática da vinculação da filosofia com a realidade material, configurando assim ,o foco da pedagogia Marxista.

Neste sentido, a educação para Marx não poderá ser pensada de forma independente ou desvinculada da realidade material do homem, mas as relações materiais devem ser pensadas como parte do processo de educação.

Assim, notamos o materialismo histórico como base do processo educacional e a crítica à concepção de educação burguesa que não considera os educandos como homens concretos, síntese das relações sociais, mas como homens abstratos.

Os problemas educativos deixam, portanto, de ser problemas de ideais gerais (abstrações) da humanidade e de categorias sagradas e passam a ser trabalhados como problemas históricos, de uma determinada época e de uma determinada sociedade.

O educador não deve pensar que poderá estabelecer ideais educativos de forma arbitrária, sem reconhecer as etapas do processo de desenvolvimento histórico, mas deve trabalhar a educação dentro da evolução das relações materiais vividas pelo aluno concreto-real.

A História como processo expresso na divisão do trabalho, no surgimento da propriedade privada e de uma sociedade classista, na qual o Estado é seu representante, leva-nos a pensar na ligação entre a ideia e os interesses históricos de classe, nos quais se encontra o conhecimento sistematizado, síntese das relações sociais.


Os indivíduos que constituem a classe dominante possuem, entre outras coisas, uma consciência, e é em conseqüência disso que pensam; na medida em que dominam enquanto classe e determinam uma época histórica em toda extensão, é lógico que esses indivíduos dominem em todos os sentidos, que tenham, entre outras, uma posição dominante como seres pensantes, como produtores de ideias, que regulamentem a produção e distribuição dos pensamentos de sua época; as suas ideias são, portanto, as ideias dominantes de sua época. . (MARX, ENGELS, 1993).
O educando concreto herda esse conhecimento sistematizado das gerações anteriores e se expressa na sua assimilação e a partir desse conhecimento historicamente construído ocupa seu papel na divisão social do trabalho.
Os homens fazem sua própria História, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstância de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como pesadelo o cérebro dos vivos. (MARX, 1997).
A educação para Marx e Engels, portanto, não só está diretamente ligada ao desenvolvimento material do mundo e interesses de classe, mas, também, tem um papel político e transformador social, uma práxis libertadora capaz de uma mudança de mentalidade e construção de uma nova ordem social.

A educação tem como tarefa histórica a emancipação do homem, sua libertação das ilusões ou "ideologias”, mostrando-lhe as raízes sociais das mesmas e gerando uma práxis revolucionária para modificar o mundo.


Se o homem forma todos os seus conhecimentos, as suas sensações, etc.,na base do mundo dos sentidos e da experiência dentro do mundo, trata-se, pois,conseqüentemente,de organizar o mundo empírico de modo que o homem se experimente a si mesmo enquanto homem. (MARX, ENGELS, 2003).
Em suma, a educação Marxista fundamenta-se na análise do processo histórico. Esta concepção constitui um ponto de partida não só para crítica à sociedade burguesa, mas para construção de uma pedagogia concreta que através de uma práxis libertadora modifique o mundo.

REFERÊNCIAS:

ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos do estado: nota sobre os aparelhos ideológicos do Estado. 9.ed. Rio de Janeiro: Graal, 2003.


BOTTOMORE, T. B. et al. Dicionário do pensamento marxista. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, c1988.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 46. ed. São Paulo: Cortez, 2005.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 34. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2006.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 44. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2006.
LOMBARDI, José Claudinei e SAVIANI, Dermeval (orgs.). Marxismo e Educação: debates contemporâneos. Campinas, SP: Autores Associados, 2005.
MARX, Karl. Contribuição para a crítica da economia política. 3. ed. Lisboa: Estampa, 1973.
MARX, Karl. O 18 brumário e carta a Kugelmann. 6.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã : (I-Zeuerbach). 9.ed. São Paulo: HUCITEC, 1993.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A sagrada família, ou, A crítica da Crítica crítica contra Bruno Bauer e consortes. São Paulo: Boitempo, 2003.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Crítica da educação e do ensino. Lisboa: Moraes, 1978.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do partido comunista. 14. ed. Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2008.


PLEKHANOV, Gheorghi Valentinovitch. A concepção materialista da história: da filosofia da história, da concepção materialista da história, o papel do indivíduo na história. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.
SUCHODOLSKI, Bogdan. Teoria marxista da educação. Lisboa: Estampa, 1976.


1 O Idealismo Histórico entende as ideias ou a consciência como os agentes fundamentais ou únicos da transformação histórica.

2 O mundo das ideias é produto do mundo real e não seu produtor.

3 Relações sociais de produção refere-se ás formas estabelecidas de distribuição dos meios de produção e do produto, e o tipo de divisão social do trabalho numa dada sociedade e em um período histórico determinado.

4 Para Marx a base material ou econômica constitui a infra-estrutura da sociedade, que exerce influência direta na super-estrutura, ou seja, nas instituições jurídicas, políticas (as leis, o Estado) e ideológicas (as artes, a religião, a moral) da época.

5 O conceito de forças produtivas refere-se aos instrumentos e habilidades que possibilitam o controle das condições naturais para a produção, e seu desenvolvimento.

6 Augusto Comte. (1798-1857) fundador do positivismo, extensão dos métodos científicos das ciências naturais ao estudo da sociedade: a criação de uma “sociologia” cientifica.



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