Mary graham, um olhar curioso sobre o brasil



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βelδimonato.wordpress.com HISTÓRIA

Profª Isabel Cristina Simonato






MARY GRAHAM, UM OLHAR CURIOSO SOBRE O BRASIL
No momento anterior à independência do Brasil, período conturbado da nossa história, a inglesa Mary Graham aqui chegou, mais precisamente no dia 21 de setembro de 1821, quando a fragata Dóris aportou na cidade do Recife. Em Diário de uma viagem ao Brasil, publicado em 1956, ela registrou sua permanência no Brasil entre os anos de 1821, 1822 e 1823 (embora ela tenha ficado aqui até 1824), e neste texto, é possível ver reflexos do contexto brasileiro da época, bem como da grande influência que a Inglaterra exercia no cenário histórico de então.

A escritora, pelo menos inicialmente, tinha como objetivo escrever suas impressões especificamente para o público britânico, como ela mesma afirma em determinada passagem de seu diário. (...) Em uma das diversas festas da corte que compareceu, a viajante comentou a beleza e a elegância das mulheres presentes, mas de maneira breve, pois segundo ela, isto não interessaria a seus amigos ingleses, para quem ela estava escrevendo o diário:


Erraria se não mencionasse as damas da corte. Com olhos parciais preferiria minha bela patrícia, a nova marquesa; mas é preciso mencionar ainda a doce e jovem esposa Maria de Loreto, e um grupo de outras da mais atrativa aparência; depois havia as joias da baronesa de Campos e as da viscondessa do Rio Seco, inferiores somente às da Imperatriz. Mas não é possível enumerar todas as riquezas ou belezas presentes, nem interessaria aos meus amigos ingleses, para quem este jornal é escrito se eu o pudesse fazer.
Um livro escrito para europeus, com explicações para europeus, com assuntos de interesse dos europeus sobre o Novo Mundo1 e todas as suas peculiaridades. O que em parte explica a grande variedade de assuntos encontrados no relato de Mary Graham: festas da corte, escravidão, política, comidas, etc. Muito do que ela viu e aprendeu sobre o Brasil e que poderia ser considerado “exótico” e “pitoresco”2 pelo seu público leitor, foi incluído no diário.

O olhar feminino captou detalhes geralmente não encontrados nos relatos masculinos, (...) na esfera dos costumes, a autora fala sobre os hábitos das pessoas, miudezas, variedades e coisas pitorescas, abrangendo assim um espaço maior do que seu íntimo, sua moradia e seus locais de trabalho, com passagens do diário que abrangem os costumes, os hábitos dos brasileiros. Um comportamento bem comum da escritora era caminhar pelas ruas, observando os aspectos dos lugares pelos quais passava, para narrar suas impressões e observações, pois assim tornaria a leitura dos seus relatos mais interessantes e atraentes para o público a que se destinava.

Uma boa amostra da incrível coletânea de assuntos feita pela autora é a curiosíssima descrição de um jantar que nem estava presente, e sim alguns dos oficiais da fragata Dóris, que devem ter lhe contado o que se passara para que ela pudesse registrá-lo em sua narrativa. Quando ainda se encontravam em Pernambuco, um dia os oficiais do navio saíram para buscar mais provisões, e no lugar para onde se dirigiram foram convidados para participar de um jantar. O fato de a narradora mencionar detalhes com os quais os brasileiros não pareciam se importar já mostra que eles não eram comuns para ela, e que ela sim se importava. Não havia cadeiras nem talheres para todos, logo, estes objetos foram dados aos estrangeiros, ao passo que os nativos não se incomodaram em comer em pé e com as mãos. O festival das mais variadas mãos sendo enfiadas nos mais variados pratos, sem qualquer preocupação da parte dos presentes é descrito em detalhes:
As raras cadeiras existentes no local foram destinadas aos estrangeiros. O resto do grupo ficou de pé durante a refeição. Aos estrangeiros, também, foram dados colheres e garfos, mas a falta de talheres não pareceu embaraçar os brasileiros. Cada pessoa recebeu um pequeno prato fundo de bom caldo de carne bien doré. Quanto ao resto todo mundo pôs a mão no prato.
Graham ainda descreve os alimentos que havia à mesa e acrescenta:
Dentro desses (pratos) também cada homem punha sua mão indiscriminadamente, e metendo seu bocado no prato fundo, ensinaram aos nossos oficiais como comer este substituto do pão de trigo e engolir sem preocupação de ordem ou limpeza. Todas as espécies de pratos foram misturadas e tocadas por todas as mãos.
Falando na falta de etiqueta dos brasileiros, a viajante entrou em outra faceta da esfera dos costumes, a da educação, criticando muito a falta de boas maneiras em portugueses e brasileiros, a precariedade da cultura na colônia e entre seus habitantes, ao mesmo tempo que também critica a situação local da imprensa e a falta do hábito da leitura.

De acordo com Mary Graham, era raro encontrar pessoas bem informadas, com quem se pudesse conversar, sendo que, quem morava aqui, nem se comparava às pessoas bem educadas da Europa. Ela mostrou um povo que não lia, chegando a mencionar como era difícil – quase impossível – encontrar uma boa biblioteca. A narradora também apontava para o precário estado do sistema de educação ou sua quase inexistência, fator que de acordo com seu entendimento, agravaria esta situação ainda mais. Ela expressa suas opiniões a este respeito em mais de uma passagem de seu diário. (...)

O trecho abaixo narra uma festa no campo que compareceu, nos arredores de Salvador, e ilustra claramente suas opiniões sobre este assunto:
Quanto à sociedade portuguesa daqui, sei dela tão pouco que seria presunçoso dar uma opinião a respeito. Encontrei dois ou três homens do mundo bem informados e algumas mulheres vivamente conversáveis, mas ninguém, em nenhum sexo, que me lembrasse os homens e senhoras bem educadas da Europa. Aqui o estado da educação geral é tão baixo que é preciso mais do que o talento comum e o desejo de conhecimentos para alcançar um bom nível. [...] a quota de leitura de livros é escassa.
Ampliando cada vez mais a abrangência dos assuntos tratados na narração, Mary Graham também escreveu sobre coisas que afetavam os povos visitados de uma maneira mais geral, tais como escravidão e política, por exemplo. A existência destas passagens mostra o interesse da autora em investigar não só detalhes “pitorescos” e “exóticos” do Brasil, mas também coisas mais importantes.

Para a Inglaterra3, a escravidão não era interessante porque não cooperava com seus interesses econômicos. Entretanto, Graham, nas dezessete vezes em que criticou a escravidão abertamente ao longo das mais de trezentas páginas de seu diário, não mencionou (lógico!!) estes interesses uma única vez. Seu ataque a este sistema é estritamente pelo seu aspecto cruel e desumano.

Na sua narrativa ela transmitiu o choque perante a escravidão de maneiras diferentes; como quando descreveu os mercados de escravos nas cidades; os senhores que maltratavam seus empregados; os escravos velhos abandonados à própria sorte e que acabavam morrendo ao relento; as reclamações dos senhores quanto à imoralidade de seus empregados (segundo Graham, o próprio sistema deturpava a índole dos negros, transformando-os em más influências, o que explicaria estas reclamações); as atrocidades ocorridas nos navios negreiros; ou até mesmo a escravidão dos índios.

As descrições que Graham faz dos mercados de escravos são ao mesmo tempo cruas e apaixonadas. A autora se dizia profundamente comovida com aquilo que via, fazendo questão de descrever em detalhes, transmitindo para o seu leitor esta sensação de choque que sentia ao visitar tais lugares. Quando narrou a sua visita ao Valongo, o mercado de escravos do Rio de Janeiro, ela fala no triste estado dos negros postos à rua para serem vendidos, abatidos e com sinais de doenças.

Também aponta um grupo de escravos adolescentes, senão ainda crianças, e que já estavam à venda:
Vi hoje o Val Longo [Valongo]. É o mercado de escravos do Rio. Quase todas as casas dessa longuíssima rua são um depósito de escravos. Passando pelas suas portas à noite, vi na maior parte delas bancos colocados rentes às paredes, nos quais filas de jovens criaturas estavam sentadas, com as cabeças raspadas, os corpos macilentos, tendo na pele sinais de sarna recente. Em alguns lugares as pobres criaturas jazem sobre tapetes, evidentemente muito fracas para sentarem-se. Em uma casa as portas estavam fechadas até meia altura e um grupo de rapazes e moças, que não pareciam ter mais de quinze anos, e alguns muito menos, debruçavam-se sobre a meia porta e olhavam a rua com faces curiosas. Eram evidentemente negros bem novos.
Ao se deparar com este grupo de escravos muito novos, Graham se aproximou para olhá-los de perto, e diz ter sentido vontade de chorar ao ver criaturas em tão triste estado, descreveu que se comoveu ao notar a alegria deles ao vê-la, e discorre sobre o mal que a escravidão traz para todos, escravos e senhores. Segundo a viajante, pelo mal tratamento que os escravos recebem, eles nem podem ser bons trabalhadores, o que prejudicaria seus senhores também, não havendo benefícios para ninguém. (...)

Revista História Viva, julho.2010 (texto adaptado).



1 Maneira que durante séculos os europeus se referiram ao Continente Americano.

2 Por exótico e pitoresco entende-se costumes, comportamentos, natureza, meio ambiente etc., comuns deste lado do Atlântico e muito diferentes da Europa.

3 Naquele momento específico, os ingleses se transformaram em ‘fervorosos’ defensores do fim do tráfico de africanos, mas não se esqueça que no passado – não muito distante – a Inglaterra obteve grandes lucros com o comércio humano.



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