Mas antes livra-nos do mal… Algumas ideias sobre isto a que chamamos Mal 1



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Mas antes livra-nos do MAL…

Algumas ideias sobre isto a que chamamos Mal

1| O Mal é entendido como Relação. Ou, melhor, o Mal é entendido em relação… a nós! Por isso chamamos igualmente “Mal” a tudo o que nos causa Sofrimento pessoal. Mas, com efeito, há distinções importantes que temos que fazer, porque nós misturamos as dimensões da Finitude e da Maldade. A Finitude é a nossa condição criatural de Debilidade; a Maldade é a nossa tentação tantas vezes realizada de Desumanidade. São coisas bem diferentes. O resultado? Sofrimento. Mas nem todo o Sofrimento tem como causa o que nós chamamos, indiferenciadamente, de Mal. A doença que nos afecta ou faz definhar alguém que amamos não é Mal da mesma maneira que a fome mortal que milhões de seres humanos no mundo são obrigados a padecer. Porque a primeira radica na nossa Debilidade e Finitude e a segunda é causada pela nossa Injustiça e Desumanidade estruturada.

Porque somos muito auto-centrados, até costumamos chamar mais Mal ao Sofrimento que nos diz respeito individualmente do que ao Sofrimento causado por estruturas de Injustiça e opressão. Quando rezamos “liberta-nos do Mal” estaremos a dizer “liberta-nos da nossa Debilidade e Finitude, do nosso Sofrimento físico” ou “liberta-nos da nossa Injustiça e Desumanidade que causa o Sofrimento mais atroz, o Sofrimento de um Mundo às avessas do Teu Nome, do Teu Reino, do Teu Querer”?



2| Depois, as coisas muitas vezes se misturam… O que chamamos catástrofes naturais, por exemplo, que são experimentados como Mal e causa de Sofrimento para tantas pessoas… Não é por acaso que costumam afectar sobretudo massas de pessoas pobres! Em muitos países, por exemplo, onde repetidamente as épocas das monções provocam cheias desastrosas e levam casas aos milhares e vidas às centenas. Porquê? Catástrofe natural? Não… Não é “natural” construir ali… São as multidões de pobres que não têm onde construir casa, que são empurrados por uma estrutura social injusta para as franjas das cidades, obrigados a assentar vida onde toda a gente sabe que é muito incerto. E depois, as casas… são daquelas que a água leva, claro, porque não há possibilidades de fazer melhor… É apenas um exemplo, porque nem tudo é tão só “natural” como às vezes se quer fazer crer. Ou construções em falésias… ou em dunas próximo do mar… A propósito disto, ainda há pouco tempo escrevi um texto sobre um acidente que matou vários trabalhadores na construção da Barragem Foz-Tua, projecto arrogante e corrupto, ideia do deus-dinheiro cuja fé move montanhas, literalmente. E as derrocadas começaram a acontecer nessas montanhas, provocadas por tantas explosões de dinamite em terreno xistoso. Morreram os trabalhadores e a EDP justificou imediatamente que não tinha havido negligência dos trabalhadores mas tinha sido um “acidente natural”. Não, não é natural andar a esventrar monte daquela maneira. Por isso chamei ao texto “Sobre um acidente nada acidental”. A culpa não foi da negligência dos trabalhadores, não; foi da ganância dos investidores que, contra tudo e contra todos, querem transformar pedras em pão (para eles!). Podíamos dar tantos exemplos com acidentes na estrada… a maior parte dos acidentes não são nada acidentais, são a consequência de uma condução perigosa…

Não gosto de explicações fáceis nem as tento dar; mas também não gosto que se misture tudo sem distinguir umas coisas das outras. A nossa vida, porque está ainda em processo, está marcada pela Finitude e pela Debilidade, que nos toca e faz sofrer sem que isso implique culpa de ninguém. Mas muitas vezes a nossa Finitude e Debilidade é agredida por maneiras de viver que não respeitam os limites de quem somos e do que precisamos.



3| Uma outra distinção muito importante é entre Castigo e Consequência. Muitas coisas que, numa linguagem religiosa simplista, são chamadas Castigo Divino, não são mais do que Consequências Humanas das nossas escolhas e abusos. Na narrativa bíblica esta distinção nunca está feita assim de maneira conceptual, como estou a escrever agora, porque toda ela está contextualizada num pensamento religioso Providencialista, a fé num Deus que controla a história de maneira directa e absoluta. A Humanidade não tinha chegado ainda à compreensão da Autonomia do Mundo como hoje a pensamos. Então, tudo o que acontece é referido à acção de Deus, bom ou mau.

Mas na linguagem da escritura é evidente que os avisos que Deus faz diante do Mal e as admoestações diante do Pecado são interpretações históricas feitas já em retrospectiva (porque a escrita não é “em directo”, vem sempre muito depois da vida já vivida, como interpretação e aprendizagem) das Consequências que se passam quando se abandona o Projecto que Deus propõe aos Homens. Estas Consequências desastrosas das nossas opções contrárias ao Projecto Amoroso e Salvador de Deus, são sempre escritas em forma de Castigos que Deus dá. Nós hoje, discípulos de Jesus e animados pelo Espírito de Deus que continuamente faz evoluir a História para mais purificadas compreensões do Mistério da Vida, conseguimos distinguir perfeitamente, mesmo na escritura, que o Deus Bíblico é o Deus Todo-Perdão, que o Mal não atrai Castigos Divinos mas gera Consequências de uma Desumanidade às vezes estonteante.

Lembro apenas a parábola do Filho Perdido (Lc 15). O filho que virou costas à vida a dois com o Pai, foi ou não foi castigado? Sim… mas não pelo Pai! É bem claro nessa parábola de Jesus como o nosso Mestre faz a distinção entre Consequências do nosso Pecado e Castigo Divino; Castigo é coisa que não se vê naquele Pai da parábola… que mal o viu ao longe “correu ao seu encontro, atirou-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos”… O Castigo do Mal sobre os Homens não é acção de Deus; infelizmente, o Castigo faz parte da própria engrenagem do Mal. Por outras palavras: não saímos impunes das nossas opções injustiças…

4| Talvez o Mal não seja uma “questão”… certamente, não é um “tema”… mas é um escândalo, um doloroso espanto diante do qual não é possível habituar-se sem deixar de ser humano pelo caminho. O Mal não é uma questão, repito… mas um escândalo que levanta muitas questões. A primeira de todas: “Porquê???” Muito perto desta, o Mal costuma levantar também a pergunta por um deus.

A escritura bíblica costuma situar-se muito bem no entramado da nossa vida tal como a vivemos. Não é um escrito cosmético nem moralizante. É profundamente realista nas tantas cores com que pinta o mundo e a história. Por isso é que para mim, ir à bíblia, é um exercício de lucidez; sinto que me ajuda a ver melhor, a aprender com as interpretações de outros, releituras da história humana já muito mastigadas e postas à prova… Na bíblia, como na vida, o Mal não nos aparece como uma questão, mas como um Mistério dolorosamente indecifrável; como na vida, também na bíblia o Mal não se intromete no meio dos dias como tema de reflexão mas como escândalo e segredo mais fundo que as palavras com que medimos e prevemos a realidade. O Mal é, de facto, um Mistério… curiosamente, na bíblia, como o reverso de um outro Mistério, este amoroso, o lado lunar de uma Aliança de Ternura Segredada a nós pelo Deus da Vida e do Bem. O Mal aparece-nos como um Mistério também, um Segredo da Vida, no reverso da Vida, uma afronta a Deus e ao Ser Humano, um pan-demónio…

Com efeito, quando rezamos “liberta-nos do Mal” não estamos a referir-nos simplesmente às maldades individuais, pequenas ou maiores dos nossos dias, mas à lógica e poder do Mal que precede e ultrapassa qualquer opção individual. O Mal é um dinamismo, uma direcção torcida da história, uma maneira de projectar a vida, um sentido programático que leva à destruição… Não é simplesmente “acto”, e é mais ainda que “atitude”… é dinamismo histórico que precede e ultrapassa cada indivíduo. Possui a característica de uma Estrutura, um Sistema ou Lógica dentro da qual depois se funciona individualmente, num processo de passarmos de vítimas a culpados, de habitantes de uma história marcada pelo Mal a actores desta história. O Mal radical ou original (radical de radix, raiz; original de origem: na raiz de nós mesmos, que se perde nas origens) é esta Solidariedade no Mal de que todos fazemos parte, cada um de uma maneira única. É aqui, nesta teia, que clamamos a Deus num NOSSO Universal: “Liberta-NOS do Mal”. Não estamos apenas a dirigir-nos a um deus “meu” que resolva em mim os bloqueios à minha virtude individual…

5| O Mal põe-nos sempre a questão por Deus… Uma das tarefas mais urgentes para um renovado olhar sobre o problema do Mal é purificar cristã(lina)mente a imagem que temos de Deus e do Seu agir.

Porque falamos de um Deus Criador, mas o imaginamos muitas vezes como uma divindade “fabricante”…


Porque falamos de um Deus Pai, mas o imaginamos muitas vezes como uma divindade “paternalista”…
Porque falamos de um Deus Mãe, mas o imaginamos muitas vezes como uma divindade “madrasta”…

O Deus Criador, Pai e Mãe é Criador no activo de uma obra ainda em marcha, não terminada nem perfeita; é Pai de filhos ainda em geração (e em fase bem atabalhoada); e Mãe que muitas vezes sofre a impotência de amar no sofrimento e no não-poder.

Não me canso de dizer que a grande conversão da Fé bíblica é a passagem de um deus com poderes ao Deus com Projecto; de um deus referido à ideia de poder ao Deus com um Sonho de Amor; de um deus endeusado ao Deus Pessoal e Histórico dos escravos em êxodo e de Jesus de Nazaré.

6| Estamos ainda muito marcados por uma interpretação mitológica dos relatos criacionais do Génesis, segundo a qual o mundo foi criado perfeito e acabado e depois em nós é que a coisa se estragou.

O Jardim da convivência Humano-Divina em perfeita Aliança,


da comunhão Humana em perfeita reciprocidade e bondade
e da interacção de todos os seres da Criação em impecável Harmonia
não é algo que aconteceu há muito muito tempo, mas uma maneira de dizer o Projecto de Deus para a Criação, uma linguagem para afirmar a Esperança no Sonho que Deus está a realizar connosco. Esse jardim não é do passadoé futuro, é plenitude, não cabe sequer nos confins do desenrolar temporal da História. De maneira tão bonita o diz esse relato genesíaco (Gen 2), quando nos descreve esse “lugar” banhado por quatro rios, dois deles que conseguimos encontrar no nosso mapa-mundi (Tigre e Eufrates) e dois outros que ninguém sabe onde ficam (Físon e Guíon) porque não ficam na banda de cá do mundo…

É importante não esquecer este carácter ainda genesíaco da história (em génese), para não entendermos o Mal apenas como contradição a uma perfeição que outrora já existiu mas como condição de uma realidade ainda em criação. A palavra “Pecado”, na sua raiz significa exactamente isso, “o que falta”. Ainda em português, para dizermos de algo ou alguém a quem falta alguma coisa dizemos que está “pêco”, exactamente a raiz latina da palavra “pecado”… O Pecado não é apenas a nossa condição contraditória em relação ao Projecto de Deus, é originalmente a nossa (e de toda a Criação!) condição de incompletude.

Enquanto o Mundo estiver em realização, enquanto a Criação estiver em feitura, a Vida está marcada pela ambiguidade e pela finitude. É neste contexto que a dura aparição do Mal e do Sofrimento são inevitáveis, fazendo-nos repensar (mais do que maldizer) a nossa fragilidade

7| Teremos a coragem de dizer: “Se Deus é pura Bondade e todo Amor – e nada senão Amor – a Fé intui que, se há Mal no mundo não é porque Deus o queira nem porque Deus o permita, mas porque ainda não pode ser de outra maneira”? Por outras palavras: é inevitável numa Criação em Processo e no seio de uma Humanidade em génese

8| O Deus que Cria (está a criar!) por Amor é, por essência, o Anti-Mal, e todo o discurso religioso que não coloque Deus do lado da Sua Criatura lutando com ela contra os males que a fazem sofrer e, em última instância, a descriam, é um palavreado que devemos denunciar como falso. Com que autoridade? Jesus de Nazaré e a declaração divina da sua Ressurreição.

9| Muitas vezes se fala do “abandono de Deus” a Jesus na Hora da sua Paixão, supremo confronto na vida de Jesus (e na vida de Deus?) com o Mistério do Mal. Mas não é verdadeiro… Diante do Mal, a morte violenta de Jesus não significa um abandono de Deus mas o último modo possível da Sua Presença! Deus não o abandona ao sofrimento… a última maneira de Deus não o abandonar é sofrer com ele e nele. Deus não tem mais outra maneira de estar Presente nessa Hora! Não Lho permitiram… não Lho permitimos… Uma Presença não intervencionista nem violenta, mas Solidária, na mais verdadeira e real com-paixão, união vital e ressuscitante com todos os que sofrem o drama da iniquidade: todos os que o sofrem, uns como vítimas, outros como autores…

10| Precisamos de mudar de Deus para conseguirmos uma inversão radical de perspectivas: de um deus com poderes a um Deus com Projecto! Assim se torna claro o que deveria sê-lo já desde o princípio da revolução bíblica: Deus é o primeiro empenhado na luta contra o Mal, e é Ele quem está contínua e incansavelmente solicitando a nossa colaboração. Não é Deus que nos falta (fica pêco, tem pecado) na nossa luta contra o Mal… somos nós que Lhe faltamos (pecamos) a Ele vezes demais! O Mal que existe no mundo não existe porque Deus o quer ou permite mas por falta de conversão nossa ao Seu Projecto e por pecarmos (faltarmos) à colaboração com a Sua Acção contínua na história a nosso favor.

Ele não desiste do Seu Projecto nem de nós, mas não tem poder para nos violentar nem para Se impor pela força… Não tem poder para isso porquê? Porque Deus é Deus!!! Eis escavacada a nossa lógica endeusada do costume quando utilizamos as mais espontâneas imagens acerca da divindade…



Deus luta contra o Mal, mas de maneira não-violenta, porque o contrário implicaria lutar contra nós! Deus lá tem o Seu jeito, e eu acredito que é o mais sábio e eficaz… Fio-me do Juízo de Deus, mais do que da falta dele dos Homens. Nas nossas faltas de juízo, vamos destruindo “homens maus” para acabarmos com o Mal no mundo, mas com isto apenas o acrescentamos! Deus não aceita a opção de não lutar contra o Mal com a mesma convicção com que não aceita a opção de, para isso, ter de lutar contra nós.

11| O Mal não morre com os maus… eis o Mistério do Mal

O Bem não morre com os bons… eis o Mistério da Esperança

O Deus de Jesus absorve em Si a maldade, extinguindo-a,
e ReSuscita eternamente a Bondade, plenificando-a… eis o Mistério Pascal!

12| Uma palavra sobre os “nomes” do Mal na bíblia… É muito delicado interpretar a linguagem da escritura sobre o Mal porque implica olhar para expressões de Fé e de linguagem cultural vinculadas a uma concepção do mundo já superada há muito… Mas percebamos, pelo menos, a distinção entre três conceitos: personificação, personagem e personalização.

Há uma Personificação do Mal na bíblia, são dados nomes e figuras ao mal (Satan, Diabolos, Príncipe deste Mundo, o Mentiroso desde o princípio, Senhor das Trevas, vários tipos de bestas pelo caminho, etc.) como instrumento narrativo para falar do Mistério da Iniquidade e na força da Desumanidade tantas vezes experimentada.

O problema foi passar tão facilmente da Personificação do Mal ao Mal como Personagem, como se existisse um ser espiritual real, uma criatura misteriosa que é a causa do Mal no mundo, o Anti-Deus. Mas a passagem a fazer, para compreender, é outra… A Personificação do Mal deve ser entendida não como “Personagem” maligna mas como Personalização do Mal. Quer dizer: o Mal nunca é experimentado de forma vaga, aérea, etérea ou abstracta (o mesmo se diga da Graça, do Bem e da Bondade) mas de maneira pessoal, tem sempre a ver com situações concretas de desagregação, experiências históricas de desumanidade, ideologias de opressão, mentalidades e escolhas que corporizam o anti-humano. Seja através de grupos ou indivíduos concretos, de sistemas estruturados ou interacções pontuais, o Mal é um dinamismo personalizado, experimenta-se como acção de pessoas sobre pessoas.

Na bíblia, esta Personalização do Mistério da Iniquidade é Personificado em Bestas, Monstros e Seres das Profundidades dos Abismos: todas elas se referem sempre a poderes, impérios, ditadores ou regimes iníquos que estavam de turno na altura que as coisas foram escritas, desde o poder do ditador Antíoco Epifânio, Besta com os seus tantos chifres, numa mistura de palavras de homem e corpo animalesco como o descreveu Daniel, ao sistema Imperial de Roma, a grande Besta Diabólica do Apocalipse…

A mentalidade bíblica talvez seja menos sacralizada do que estamos habituados a pensar, porque entende o Mal como realidade intra-histórica: o Mal ganha corpo em forças e representações colectivas face às quais as pessoas individualmente dificilmente se podem proteger.

No relato bíblico das Origens o Mal não faz parte do Projecto, não pertence ao Querer de Deus e não existe no mundo divino, ao contrário de todas as mitologias criacionais das religiosidades que circundavam Israel, em que havia sempre deuses bons e maus, a maldade existia no mundo dos deuses e tinha sido colocada na terra por eles, logo no acto criador. Revolucionariamente, na bíblia a origem do Mal é “atirada para a terra”, quer dizer, o Mal não tem explicação mitológica mas humana, não podemos contar com Deus para fazer uma “história do Mal”. Perceber esta novidade é extraordinário…

Daqui nasce uma grande Boa Notícia! Em todas as mitologias o mal era eterno, porque pertencia ao mundo eterno dos deuses: eterno significa dizer que não tinha tido começo e, por isso, não teria fim… Mas o livro do Génesis abre com uma espantosa Boa Notícia de Esperança (na teologia é chamada de Proto-Evangelho, Primeiro Evangelho, Primeira Boa Notícia): não tem fim o que não tem começo: a Bondade de Deus e do Seu Projecto. Por outro lado, o que tem um começo histórico, terá um fim histórico, nem que seja com o próprio fim da história!

No pensamento bíblico mais original, todo o Mal concreto remete para uma causa mundana. Pode ser ainda desconhecida, pode sê-lo sempre, mas não nos libertaremos do Mal enquanto procurarmos uma causa extra-mundana ou transcendente. Por isso, a Esperança é a máxima lucidez a que podemos chegar diante da força do Mal, e o Amor é o instrumento mais eficaz para o enfrentar.

13| É uma pena que tenhamos perdido tantas referências bíblicas para edificar a nossa experiência de Fé… uma das mudanças grandes foi aprendermos a falar de Mal ou de Pecado sempre numa perspectiva individual e religiosa. Só no séc. XX parece que a Igreja, como um todo, começou a despertar verdadeiramente para outra sensibilidade. É o que se chama comummente “Doutrina Social da Igreja”, que rompe as fronteiras do Mal individual e alarga o conceito de Pecado Moral muito para além do religioso, dialogando com a tarefa política, a defesa dos direitos humanos universais e os sistemas de economia, produção e distribuição de bens.

Com efeito, na lógica bíblica o Mal não é um “acto” simplesmente, nem a soma de todos os actos maus dos seres humanos; a Humanidade é vista como um Corpo (a expressão sempre usada no AT para dizer Humanidade é “toda a Carne” ou “uma só Carne”) e o Mal é entendido como uma Doença deste Corpo, um Contágio que enferma a Carne. A Humanidade é um Corpo Malinado…

Como diremos isto hoje? Podemos usar a palavra Solidariedade. Vigora uma Solidariedade no Mal entre os Homens no decurso da história. É um problema que diz respeito a todos e uma Doença da qual nenhum de nós está imune… Mas importa não perder de vista um dos grandes anúncios do Novo Testamento da nossa Fé, sintetizado pelo Apóstolo Paulo: Vigora desde a Ressurreição de Jesus uma Solidariedade na Bondade e na Esperança entre os Homens. Se grande e contagiosa é a Solidariedade com o Velho Adam, muito maior é a Solidariedade com o Novo Adam porque, “onde abundou o Pecado, superabundou a Graça”! (Rom 5)

A primeira Cabeça da Humanidade, o Adão da simbologia bíblica, foi uma Cabeça sem juízo… e o Corpo é que paga! Todo o Corpo está contagiado pela Doença do Mal, pelo egoísmo e pela violência que ele gera, pelo capricho e pela arbitrariedade com que o defendemos, decidindo o que é bem ou mal segundo os nossos próprios interesses. Eis a alegoria de “colher da árvore do bem e do mal” a ser ainda actualizada no mundo…

Mas Deus deu em Jesus Cristo uma Nova Cabeça a este Corpo, um Novo Adão, uma Cabeça com muito Juízo… aliás, ele é que leva a Humanidade inteira – o que nós chamamos “vivos e mortos” – a Juízo, como esperançosamente professamos no Credo. Assim, este Corpo está a receber da Nova Cabeça o Sangue terapêutico que é o Espírito Santo, a abundância da sua Vida derramada em nós. É este Sangue Novo que nos vem do Novo Adão que cura no interior deste Corpo as mazelas e doenças ainda provocadas pelo Sangue Enfermiço do Velho Adão. Ainda há Mal neste Corpo? Sim. Mas a Vitória já está alcançada desde a Hora em que foi trocada a Cabeça… uso uma expressão que ficou famosa na teologia do séc. XX para falar destas coisas: “Já e Ainda Não”… Vivemos no Entretanto de uma Vitória já alcançada por Deus a nosso favor mas que ainda não é plenamente eficaz nem experimentada… até que todo o sangue doente seja purificado, todo o tumor seja removido deste Corpo, até que toda a Carne apodrecida seja renovada pelo toque paciente e misericordioso do Espírito de Deus que está activo no meio de nós. É a Tensão da Fé e a ousadia da Esperança, é o grande desafio ao Amor…

14|A Vida-Missão de Jesus é sempre testemunhada pelos evangelistas como um enfrentamento de Jesus (da parte de Deus) contra o domínio dos demónios e dos chefes do Povo (da parte do Poder deste mundo). O evangelista Marcos, na primeira vez que fala de Jesus (pela boca de João Baptista) chama-lhe “o mais forte”; Mateus fala dele como o mais forte que apareceu para derrotar o forte, para entrar à socapa em sua casa, o amarrar e lhe roubar tudo o que ele tinha em seu poder… É uma parábola fortíssima da luta de Deus contra o Poderio do Mal, uma luta por nós, pela nossa Libertação. Não será sempre isso que está em causa: nós aceitarmos o Dom de sermos Livres?

Na linguagem cultural do tempo dos evangelhos, é disto que falam todas as “expulsões de demónios” ou “espíritos impuros”. Não se conheciam causas naturais para os problemas das pessoas, todos se explicavam por referência a forças sobrenaturais. Mas para além do modo de explicação destas coisas e das diferenças de linguagem e cultura, está algo mais evidente que é exactamente o que eles anunciam: Jesus oferece às pessoas a possibilidade de nascer de novo, de passarem de uma condição de servidão ou sub-humanidade à alegria da Liberdade e da Comunhão com outras pessoas. Abdicando de todas as dúvidas historicistas se sim se não e de todos os matizes de linguagem e interpretação, em relação aos sinais de expulsão de demónios-espíritos impuros e curas de doenças o que importa MESMO ver é aquilo que no meio de tanto palavreado nos passa ao lado: eis a história de alguém cuja vida se conta assim: “Era uma vez eu antes de Jesus… e depois de Jesus!” Todos os relatos de sinais/curas/libertações querem anunciar-nos este acontecimento fundamental que é Encontrar-se com Jesus. Nele é possível nascer de novo, fazer experiências concretas de Libertação, contar a vida com um “antes” e um “depois”… nele e com ele é possível vencer o Mal que, se não for vencido, nos leva a funduras sub-humanas…



Eis o que está em causa no anúncio de cada sinal/cura/libertação no Evangelho: a proclamação de que o Reino de Deus está em marcha e isto é uma caminhada vitoriosa do Vigor de Deus sobre o poderio do Mal que habita os nossos corações e as nossas relações (isto mesmo nos evangelhos: demónios e espíritos impuros) e sobre o poderio do Mal que perverte as nossas estruturas e sistemas sociais (isto mesmo nos evangelhos: os chefes do Povo).

15| Quando gritamos “Porquê???” diante do Mal, não estamos a clamar por uma Explicação, mas por um Sentido… Os autores bíblicos nunca caem na tentação de “explicar” o Mal, mas de muitas maneiras apontam para a possibilidade de encontrar um Sentido, como um rasgão luminoso de Esperança.

Jesus também não nos deu/dá nenhuma explicação do mistério do Mal nem fez nenhum discurso filosófico sobre o “tema”… Então?!

A Fé bíblica aponta-nos
uma Grande Esperança na Bondade da Criação, cheia de Futuro,
indica-nos caminhos para vencermos o Mal histórico que enfrentamos,
critérios para discernirmos diante da insinuação do Mal
que interiormente também encontra em nós recantos de sedução
e dá-nos a garantia de que o Mal já foi vencido no Acontecimento Jesus;
agora, a História da Criação está em processo de Cristificação,
isto é, até que Deus, que já é tudo em Jesus, seja tudo em todos;
ou, por outras palavras:
até que o Acontecimento Jesus seja um Acontecimento Universalmente experimentado,
até que a história do Cristo seja a história de todos!

Mas o combate já está decidido e ganho! Só ainda não totalmente terminado… O “bom combate da Fé” de que fala o Apóstolo Paulo é a vida herdada de Jesus, é esta tensão história da Fé na Esperança; uma Fé que é apostar a Vida na Vitória de Cristo e uma Esperança que é receber dela a força e os critérios para lutar contra o Mal.

16| Discípulos de Jesus,
Crentes na Ressurreição que é a Vitória da Vida sobre o Mal,
Querentes do Reino de Deus,
estamos Convocados para a Esperança
que é uma Liberdade diante do desespero público
e uma Lucidez diante da ilusão de sabedoria que é o pessimismo histórico.

É por isso que um instrumento fundamental na luta contra o Mal é a Oração ao jeito de Jesus,


Oração Filial que nos modele na obediência à Sua Palavra
e Oração Pascal que rasgue em nós nesgas de Esperança
e adestre as nossas vidas para a Tarefa Solidária da Justiça.
Ou haverá ainda quem duvide que a luta contra o Mal coincide com a construção da Irmandade?

18| Não sei se a Irmandade nos livra do Mal, mas tenho, no mínimo, a certeza experimentada de que nos cura dos seus efeitos…





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