Masarykova univerzita V brně Filozofická fakulta



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5.3.Características fonéticas dos topónimos árabes

O português e o árabe, duas línguas que entraram aleatoriamente em contacto após o século VIII, tendo origem em famílias linguísticas distintas, possuem um sistema fonético bastante diferente. Por isso não é de surpreender que durante a transição de uma língua para a outra, os topónimos de origem árabe tenham sofrido várias adaptações fonéticas, causadas pelo seu aportuguesamento posterior.232

Um problema específico, encontrado durante a escrita deste trabalho, foi a transliteração fonética de palavras árabes que apresenta várias dificuldades. A língua árabe, escrita num alfabeto próprio, possui numerosos sons inexistentes no português e na maioria das línguas indo-europeias e consequentemente têm sido desenvolvidos vários sistemas de tranliteração que procuram resolver este problema, reproduzindo os sons árabes com exactidão. A maior difusão e aceitação parece ter o DIN 31635, adoptado pelo Deutsches Institut für Normung (Instituto Alemão para Normatização) em 1982, e utilizado neste trabalho maioritariamente. No entanto, muitos autores não observam esta norma, nem utilizam o Alfabeto fonético internacional (International Phonetic Alphabet, IPA), e frequentemente reproduzem os vocábulos árabes numa forma simplificada e de maneira pouco sistemática, o que dificulta consideravelmente a identifição e reprodução fonética destes vocábulos.233 Na seguinte descrição fonética combinaremos os dois sistemas de transcrição, utilizando o DIN 31635 para a reprodução de vocábulos inteiros e o IPA para os sons individuais entre colchetes.234

Como os nomes locais de origem árabe preservados em Portugal foram transmitidos aos falantes do português por intermédio dos falantes do árabe andaluz, que era a língua espontaneamente utilizada na vida quotidiana, à diferença do árabe padrão (clássico), restringido ao uso administrativo e literário, é natural que apresentem na sua forma características deste árabe dialectal. Atenderemos, portanto, a este facto quando for útil, com base nas informações recolhidas por A.S.M. Zayed.235



5.3.1.Sistema vocálico

Em comparação com o português, o sistema vocálico do árabe clássico é relativamente limitado, consistindo de três vogais curtas [a], [i], [u], três longas [a:], [i:], [u:] e dois ditongos [aj], [aw]. Este sistema foi herdado pelo árabe dialectal, mesmo se fosse com algumas modificações.




  1. [a] (vogal central fechada)

O fenómeno que afectou profundamente o sistema vocálico do árabe andaluz e deixou, portanto, os seus traços também na toponímia foi o imāla, ou seja, a frequente palatalização do longo [a:], que passa a ser pronunciado como [e:] ou menos frequentemente como [i:]. Esta mudança não se realizava num contexto consonântico velar ou faringal e ocasionalmente na vizinhança de [r], [l] e [w]. Na toponímia portuguesa podemos observar os efeitos do imāla em vários nomes locais, por exemplo: Açucenas, Alcanena, Alferes, Almeida, Azemel, Azenha, Loulé, Queluz, provenientes das formas do árabe padrão as-sūsāna, al-kināna, al-fāris, al-ida, az-zammāl, as-sāniya, al-‘ulyā e al-lūz.

No geral, constatamos a conservação do [a] curto, que não sofre mudanças ao passar ao português: Alcalá, Alcaria, Alfama, Azambuja, provenientes de al-qala, al-qarya, al-amma, az-zanbūǧa.

Um facto notável é a preservação do [a] inicial do artigo al-, abundante na toponímia árabe de Portugal, à diferença dos dialectos árabes do noroeste da África, em que é comum a aférese da vogal inicial236: Alferes, Algueirão, Almofala, Almargem, Alvalade, de al-fāris, al-ġeyrān, al-maalla, almarǧ, al-balā, embora também tenhamos registado casos contrários: Lafões, Lezíria, Loulé, de al-awān, al-ǧazīra, al-‘ulyā.




  1. [i] (vogal anterior fechada)

Sabemos que esta vogal podia converter-se em [e] no árabe andaluz.

Nos topónimos recolhidos estão representadas ambas as variantes: Alecrim, Alfurja, Almagede, Almoxarife, Alverca, Arrábida, Arrife, Ceitil, de al-’iklīl, al-furǧa, al-masǧid, al-mušrīf (ou al-mušārif237), al-birka, ar-rābia, ar-rīf, sebtī.

As formas Alvor, Alvorão, Borratém, de al-būr, al-būrān, būr at-tīn, devem-se à existência da palavra būr no árabe dialectal, no lugar da forma clássica bi’r.238




  1. [u] (vogal posterior fechada)

Podia converter-se em [o] no árabe andaluz.

Na toponímia encontrámos exemplos de ambas as realizações fonéticas: Açougues, Albufeira, Almançor, Almotacé, Almoxarife, Almuinha, Alvorge, Arroz, Couço, Cuba, Lobata, de as-sūq, al-buayra, al-Manūr, al-mutasib, al-mušrīf (ou al-mušārif), al-munya, al-burǧ, ar-ruz, qūs, qubba, Luwāta.


  1. Ditongos

O dialecto andaluz conservou, de maneira geral, os ditongos [aw], [aj], embora existissem também casos de monotongação. Durante a transição para o português converte-se o ditongo [aj] frequentemente em [ej]: Albufeira, Azeitão, de al-buayra, az-zaytūn. Em alguns casos é o som [ej] na palavra portuguesa resultado da ditongação da vogal [e] ou [i] do árabe dialectal: Alpeidão, de al-bīān.



5.3.2.Sistema consonântico

À diferença das vogais, o sistema consonântico do árabe é consideravelmente mais complexo do que o português. Por esta razão, podemos observar nos topónimos árabes uma simplificação consonântica no caso dos sons que não existiam na língua portuguesa e portanto foram substituídos pelos sons mais próximos.




  1. [b] (oclusiva bilabial sonora)

Na toponímia registámos vários casos de preservação deste som: Algibebes, Arrabalde, Arrábida, Azambuja, Borratém, de al-ǧabbāb, ar-rabā, ar-rābia, az-zanbūǧa, būr at-tīn. Frequentemente converteu-se o [b] na fricativa labiodental sonora [v], sobretudo depois da aproximante lateral alveolar [l]: Alcáçova, Algarve, Almocavar, Alvaiázere, Alvalade, Alverca, Alvorge, Tavira239, de al-qaba, al-ġarb, al-maqabar, al-bayāz, al-balā, al-birka, al-burǧ, abīra, embora tenhamos encontrado também algumas excepções a esta regra: Albufeira, Albarrã, de al-buayra, al-barrān.




  1. [f] (fricativa labiodental surda)

Como existia este som também no sistema consonântico da língua portuguesa, preservou-se nos topónimos em que se encontrava: Alfurja, Arracife, Arrife, Fátima, Safas, de al-furǧa , ar-raīf, ar-rīf, Fāima, aff.




  1. [m] (bilabial nasal sonora)

Na maioria dos casos não sofreu este som mudanças durante o processo do aportuguesamento: Alfama, Almedina, Almixaris, de al-amma, al-madīna, al-manšar. Uma excepção são os finais de sílaba, em que cai e nasaliza a vogal anterior, em conformidade com a evolução fonética da língua portuguesa: Alcamim, de al-qamīm.





  1. [w] (constritiva bilabial)

Dentro da palavra pode estar substituída pela fricativa labiodental sonora [v]: Almodôvar, Marvão, de al-mudawwar, Marwān, elidida: Azoia, Saloio, de az-zāwiya, arāwī (através da forma dialectal arōī240), converter-se na vogal [o], como no caso de muitos topónimos derivados do árabe wād, em que se monotonga o ditongo crescente [wa]: Odiana, de wādī yāna, e converter-se na oclusiva bilabial sonora [b]: Lobata, de Luwāta.




  1. [t] (oclusiva dental surda)

É um som corrente na língua portuguesa. Por consequente, observamos a sua preservação na maioria dos topónimos árabes: Almotacé, Azeitão, Borratém, Ceitil, de al-mutasib, az-zaytūn, būr at-tīn, sebtī.




  1. [d] (oclusiva dental sonora)

Não sofreu mudanças fonéticas: Alcaide, Alfândega, Almeida, Almedina, Odiana, de al-qā’id, al-funduqa, al-mā’ida, al-madīna, wādī yāna.




  1. [tˤ] (oclusiva dental velarizada surda)

Como uma das consoantes enfáticas241 do árabe, não existe na língua portuguesa. Na toponímia observamos a sua substituição pela oclusiva dental surda [t] ou pela oclusiva dental sonora [d], particularmente em posições intervocálicas: Alcântara, Alvalade, Arrábida, Atafona, Fátima, Tavira, de al-qanara, al-balā, ar-rābia, a-āūna, ima, abīra.





  1. [n] (alveolar nasal sonora)

Pode ter várias realizações fonéticas: manter-se, por exemplo em: Alcântara, Atafona, Almançor, Almedina, Arrifana, de al-qanara, a-āūna, al-Manūr, al-madīna, ar-rīāna, converter-se numa vogal nasal em fim de sílaba: Albarrã, Algueirão, Azeitão, Borratém, Marvão, de al-barrān, al-ġeyrān, az-zaytūn, būr at-tīn, Marwān, cair e desaparecer por completo após a desnazalização da vogal: Faro, de Hārūn (através das formas intermédias: HaronFaromFárãoFaro242), e, por fim, converter-se na palatal nasal [ɲ] na vizinhança do som [j]: Azenha, de as-sāniya.




  1. [r] (alveolar vibrante)

Assim como no português, podia ser pronunciado como vibrante múltipla ou simples na língua árabe. Não observamos, portanto, mudanças significativas nas formas portuguesas: Alcaria, Almargem, Arrabalde, de al-qarya, al-marǧ, ar-rabā.




  1. [θ] (alveolar fricativa surda)

Às vezes convertia-se em [t] no árabe andaluz. Talvez a este facto se deva a sua ausência nos topónimos examinados.




  1. [ð] (fricativa alveolar sonora)

Não tendo equivalente na língua portuguesa, converteu-se, no geral, na oclusiva dental sonora [d], com que se confundia já no árabe dialectal. Como único exemplo de topónimo com este som encontrámos o nome Alcabideche, de al-qibāq. Trata-se, contudo, de um nome de origem pre-árabe.243




  1. [dˤ] (oclusiva dental sonora velarizada)

Um som ausente no sistema fonético do português. Converte-se na oclusiva dental sonora [d]: Aldeia, Alpeidão, Arrabalde, de a-ay’a, al-bīān, ar-rabā. Quando está precedido da vogal [a], insere-se antes da oclusiva dental a consoante epentética [l]: Aldeia, Arrabalde, de a-ay’a, ar-rabā.




  1. [ðˤ] (Fricativa interdental sonora)

Confundía-se com a oclusiva dental [dˤ] no árabe andaluz.

Nos topónimos examinados registámos apenas um caso da ocorrência deste som, em que o [ðˤ] converteu-se na oclusiva dental sonora [d]: Almodafa, de al-Muaffar.


  1. [s] (fricativa predorsal surda)

Na maioria dos topónimos examinados não sofreu mudanças fonéticas: Açougues, Almotacé, Arraçário, Ceitil, de as-sūq, al-mutasib, ar-rās, sebtī. Quando geminada podia converter-se na fricativa alveolar sonora [z]: Azenha, de as-sāniya. É notável que os grafemas c e ç, utilizados no caso dos topónimos árabes para a fricativa predorsal, ainda representavam a africada dental [ts] na grafia do português arcaico.244




  1. [z] (fricativa alveolar sonora)

Manteve-se nos topónimos recolhidos: Aljezur, Arroz, Azemel, Azoia, Azinhaga, Queluz, Zorro, de al-ǧuzur, ar-ruz, az-zammāl, az-zāwiya, az-zinayqa, qā al-lūz, Zuhra. Assim como no caso dos grafemas c e ç, a letra z tinha um valor fonético diferente no português arcaico, representando a africada dental [dz].245



  1. [sˤ] (fricativa predorsal surda velarizada)

De maneira geral, converte-se em [s]: Alcáçova, Almançor, Arracefe, Asno, Saloio, Safas, de al-qaba, al-Manūr, ar-raīf, in, arōī (arāwī), aff. Registámos também um caso, dificilmente explicável246, em que se converteu na africada [tʃ]: Chafariz247, de ahrīǧ.




  1. [ʃ] (fricativa pré-palatal surda)

Não sofreu transformações fonéticas durante o processo do aportuguesamento: Almixaris, Almoxarife, Xadrez, Xarca, de al-manšar, al-mušrīf, šaranǧ, aš-šaqqa.




  1. [] (africada pré-palatal sonora)

Passou à língua portuguesa com o mesmo valor fonético, já que o português arcaico possuía este som, evoluído mais tarde na fricativa palatoalveolar sonora [ʒ]: Alfurja, Algés, Algibebes, Aljezur, Almargem, Alvorge, Azambuja, de al-furǧa, al-ǧiss, al-ǧabbāb, al-ǧuzur, al-marǧ, al-burǧ, az-zanbūǧa.




  1. [l] (lateral alveolar)

Mantém a sua pronúncia: Alcaide, Almancil, Alverca, Lobata, de al-qā’id, al-manzil, al-birka, Luwāta. Em alguns casos converte-se em outra consoante através de dissimilação: Alecrim, Alfinete, de al-’iklīl, al-ilālāt.




  1. [k] (oclusiva palatovelar surda)

Não sofreu transformações fonéticas: Alcainça, Alcains, Alverca, de al-kanīsa, al-kanā’is, al-birka.




  1. [q] (oclusiva uvulovelar surda)

Não existe na língua portuguesa. Na toponímia converteu-se no som mais próximo, que era a oclusiva palatovelar surda [k]: Alcaide, Alcaria, Alcântara, Alcácer, Alcoentre, Couço, Queluz, de al-qā’id, al-qarya, al-qanara, al-qar, al-qunayira, qūs, qā al-lūz, ou eventualmente também na oclusiva sonora [g]: Azinhaga, de az-zinayqa.




  1. [x] (fricativa uvular surda)

À diferença da língua moderna, este som não tinha nenhum equivalente no português arcaico. Logo costuma estar sistematicamente substituído248 pela labiodental fricativa surda [f]: Alfafar, Alfarrobeira, Alferrarede, Alfofa, Lafões, de al-faḫḫār, al-arrūba, al-arrārāt, al-awa, al-awān.




  1. [ɣ] (fricativa uvular sonora)

Este som uvular foi substituído pela oclusiva sonora [g]: Algar, Algarve, Algodor, Algudi, Algueirão, Almogreve, de al-ġār, al-ġarb, al-ġudur, al-ġadīr, al-ġeyrān, al-maġrib.




  1. [ʕ] (fricativa faringal sonora)

Não existe no sistema fonético da língua portuguesa e consequentemente caiu nos topónimos examinados: Alcalá, Aldeia, Almada, de al-qal‘a, a-ay‘a, al-madana (derivado da forma padrão al-madin249).




  1. [ħ] (fricativa faringal surda)

Assim como a fricativa uvular surda [x], este som foi no geral substituído pela fricativa labiodental surda [f]: Albufeira, Alfama, Almofala, Arrifana, Atafona, Mafamudes, de al-buayra, al-amma, al-maalla, ar-āna, a-āūna, Mamūd. Quando estava no início da palavra ou antes de outra consoante podia cair: Almotacé, Isna, Saloio, al-mutasib, in, arōī (arāwī).




  1. [h] (fricativa glotal surda)

Assim como nos casos de [x] e [ħ], é habitual a sua substituição pela fricativa [f] na toponímia de origem árabe: Chafariz, Faro, de ahǧ, Hārūn.



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