Masarykova univerzita V brně Filozofická fakulta



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5.3.3. Fenómenos fonéticos

Além das mudanças regulares descritas acima, podemos também observar outros fenómenos característicos durante o aportuguesamento dos topónimos. São, sobretudo:




  1. Perda da geminação

Com a excepção do som [r], que pode ser articulado como vibrante múltipla, a língua portuguesa desconhece a geminação. Portanto, os topónimos árabes com consoantes geminadas perdem este traço: Alfama, Almofala, Atafona, Azemel, de al-amma, al-maalla, a-āūna, az-zammāl. Pelo contrário, o [r] geminado manteve-se: Alferrarede, Arrabalde, Arrifana, de al-arrārāt, ar-rabā, ar-āna.




  1. Epêntese

Os topónimos árabes frequentemente recebem vogais epentéticas que servem para desfazer alguns encontros consonânticos: Alcácer, Alcáçova, Chafariz, Mafamudes, de al-qar, al-qaba, ahrīǧ, Mamūd.




  1. Paragoge

Analogicamente à epêntese, é muito frequente a paragoge na toponímia árabe de Portugal, particularmente depois de uma consoante dental: Alcaide, Almargio, Alvaiázere, Alvalade, Alvorge, Arrabalde, Isna, de al-qā’id, al-marǧ, al-bayāz, al-balā, al-burǧ, ar-rabā, in.




  1. Metátese

Nos topónimos examinados registámos também a ocorrência da metátese, concretamente nas situações em que a alveolar nasal sonora [n] está numa posição intervocálica: Alcainça, Alcains, Alcoentre, Azinhaga, de al-kanīsa, al-kanā’is, al-qunayira, az-zinayqa.



5.3.4. Fenómenos morfológicos





  1. Preservação do artigo árabe

Uma particularidade interessante dos topónimos de etimologia árabe é a conservação do artigo definido al-, que perde o seu valor gramatical: Alcântara, Alcamim, Alverca, de al-qanara, al-qamīm, al-birka. No caso de palavras que começam com os sons [t], [θ], [d], [ð], [r],[z],[s], [ʃ], [sˤ], [dˤ],[ tˤ], [ðˤ] , [zˤ], [l] e [n]250, o [l] do artigo assimila-se com a consoante inicial da palavra seguinte na língua árabe, o que também se reflecte em vários topónimos: Arrábida, Atafona, Azemel, de ar-rābia, a-āūna, az-zammāl.




  1. Acréscimo de um sufixo português ao nome árabe

Em vários casos encontrámos na toponímia um nome árabe ao qual foi acrescentado um sufixo português (diminutivo, sufixo de plural etc.): Alcantarilha, Algarves, Algueirinho, Almargens, Arraçário, de al-qanara (Alcântara), al-ġarb (Algarve), al-ġeyrān (Algueirão, a terminação –ão, idéntica com um dos sufixos do aumentativo português, foi neste caso jocosamente substituída pelo sufixo do diminutivo -inho251), al-marǧ (Almargem), ar-rās. Na toponímia do país são também frequentes nomes comuns derivados de outros substantivos de etimologia árabe através da sufixação e tornados topónimos, por exemplo: Alfarrobeira, Azambujeiro, Laranjeira, de alfarroba (al-arrūba), azambuja (az-zanbūǧa), laranja (naranǧa).



6.TOPONÍMIA PRE-ÁRABE E MOÇÁRABE


Ao tentarmos avaliar a extensão da influência árabe na toponímia portuguesa, não podemos restringir-nos apenas aos topónimos que têm origem na língua árabe ou referem de alguma forma à presença dos muçulmanos. Como já mencionámos antes, a conquista muçulmana não causou uma ruptura com a época anterior, pois no território do Andaluz continuou a viver uma grande população cristã, falando a sua própria língua de origem românica, o idioma moçárabe.

A mesma continuidade é evidente na toponímia da parte meridional do país, em que encontramos nomes que remontam à época pre-arábe, sejam de origem romana, céltica ou outra. De origem pre-árabe são, por exemplo, os nomes de todas as sedes das kuwar islâmicas e de várias outras povoações importantes : Beja, Évora, Coimbra, Idanha-a-Velha, Lamego, Lisboa, Mértola, Santarém, Setúbal, Silves, Viseu, de Pace252 (de Pax Iulia), Ebora253, Conimbriga254, Olisipone (ou Olisipo)255, Myrtili256 (ou Myrtilis), Sancta Irena257 (ou Sancta Irene), Caetobriga258, Cilpes259. Este facto é coerente com o carácter da conquista árabe, que manteve as unidades administrativas existentes, instalando-se os novos detentores do poder nas antigas cidades romanas.

Não obstante, a presença árabe deixou a sua marca na forma em que os topónimos pre-árabes entraram na língua portuguesa, devido às particularidades fonéticas do árabe, que funcionou como língua transmissora. Como nota o Prof. David Lopes:
Os antigos nomes geográficos, que os Árabes encontraram na nova conquista, sofreram na sua boca algumas modificações de adaptação, que, em regra, não são profundas. (...) A forma que os Árabes deram a esses nomes é o intermediário que explica a forma cristã posterior”.260
As diferenças fonéticas entre os topónimos românicos do território muçulmano e os do Norte cristão não se devem apenas à interferência do árabe, mas também às características da lígua moçárabe, um idioma arcaizante que evoluiu independentemente do galego-português ou do castelhano, relegado ao uso familiar e rural pela dominância do árabe.261 Embora estivesse o uso do moçárabe em declínio durante a última fase do período islâmico, dispomos de evidência que indica o surgimento de nomes locais provenientes desta língua ainda nesses séculos. É, por exemplo, o caso da cidade de Faro, referida no século XI pelo nome Santa Maria. Esta nova denominação seria impensável sem a presença poderosa de uma comunidade cristã, que assim homangeava a sua cidade.262

      1. Características fonéticas da toponímia pre-árabe e moçárabe

Os nomes de etimologia não-árabe, transmitidos através do árabe ou moçárabe, caracterizam-se por vários aspectos fonéticos e morfológicos que os distinguem dos nomes locais das regiões setentrionais do país. Para os fins deste trabalho, vamos focalizar nos fenómenos mais regulares.


6.1.1.Sistema vocálico





  1. Substituição das vogais finais -u,-e, e -i do latim263:

As terminações -u,-e, e -i do nominativo latim foram, no geral, substituídas pela terminação –a, ao passar à língua árabe: Beja, Mértola, Lisboa, de ǧa (Pace), Mārtula (de Myrtili ou Myrtilis), Lušbūna (Olisipone).




  1. Apócope da vogal final -o264:


À diferença do português padrão, nos falares moçárabes foi suprimida a vogal final -o durante a sua evolução fonética. Por exemplo: Aljustrel (do latim vulgar Oleastrellu, “azambujinha”265), Portel, Sousel, em que a terminação –el vem do sufixo –elo (do latim –ellu). Esta tendência foi transmitida ao romance moçárabe do árabe andaluz, o qual apocopava a vogal fina –o das formas românicas, em virtude de os substantivos masculinos árabes terminarem em consoante.266


  1. Palatalização do longo [a:]267:

O processo da palatalização do longo [a:] (imāla), corrente no árabe andaluz, afectou também os nomes não-árabes: Beja, Tejo, de Bēǧa (em árabe padrão ǧa), Tēǧuh (em árabe padrão ǧuh).



6.1.2.Sistema consonântico





  1. Substituição de [g] por [dʒ]268:

O sistema fonético do árabe andaluz não possuía a oclusiva velar sonora [g], portanto era habitualmente substituída pela prepalatal africada sonora [dʒ]: Tejo, de Tēǧuh (Tagus).



David Melo Lopes traz como outro exemplo deste fenómeno também a evolução do nome da cidade de Beja, afirmando que a pronúncia do nome desta cidade (em latim Pace) deve ter sido Pake ou Pague na época da conquista muçulmana, no entanto sabemos que a pronúncia habitual do grafema c antes de i e e no latim tardio era /tʃ/, o que levanta dúvidas sobre esta teoria.269

  1. Substituição de [p] por [b]270:

O árabe não possui o som [p] e substitui-o, portanto, pela bilabial oclusiva sonora [b]. Daí resultam formas como: Beja, Lisboa, de ǧa (Pace), Lušbūna (Olisipone).




  1. Preservação de [l] e [n] intervocálico no moçárabe271:


À diferença do galego-português, o moçárabe preservou as [l] e [n] intervocálicas, o que se também reflecte na toponímia das regiões centro-meridionais: Fontana, Grândola, Madroneira, Mértola (de Myrtilis), Molino.

      1. Características morfológicas da toponímia pre-árabe e moçárabe

A situação de bilinguismo árabo-românico no sul de Portugal levou a criação de vários topónimos híbridos que combinam elementos de ambas as línguas.




  1. Aglutinação do artigo árabe à palavra românica272:


Em muitos casos foi o artigo definido do árabe adicionado al-, aglutinado com uma palavra moçárabe, especialmente quando se tratava de um nome comum273: Alcabideche (do latim caput aquae274), Alfontes (do latim vulgar fontes275), Almoster (do latim monasterii276), Almourol (do latim vulgar moru, “amoreira”277), Alpalhão, Alpan, Alpontel, Alportel (do latim vulgar portēllu-, passagem278), Arruda (do latim ruta279).
  1. Aglutinação do termo wād ao hidrónimo românico280:



Em alguns casos addiciona-se a um hidrónimo românico a palavra wād (“rio, vale”): Odeáxere, Odeleite, Odelouca, Odesseixe, Odivelas.281

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