Masarykova univerzita V brně Filozofická fakulta



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CONCLUSÃO

Vista superficialmente, a contribuição da civilização islâmica na formação da cultura portuguesa pode parecer relativamente minúscula. Por causa dos infortúnios políticos, a evolução da distintiva cultura islâmica no solo português foi terminada violentamente e durante três séculos após o fim da Reconquista extinguiu-se nele por completo o uso da língua árabe. Não obstante, a evidência toponímica comprova, sem qualquer sombra de dúvida, uma ampla difusão deste idioma semita, que tinha, pelo visto, as melhores condições para se tornar a língua nativa de todos os habitantes do Ġarb al-Andalus, tal como aconteceu na maior parte da Áfrice do Norte.

O processo da arabização foi, contudo, muito gradual e é questionável se se já tinha completado pelo menos nas partes mais meridionais do país, que permaneceram nas mãos dos muçulmanos até o século XIII. A toponímia pre-árabe e moçárabe preservada nas regiões centro-meridionais testemunha uma longa e pacífica convivência dos cristãos e muçulmanos e uma continuidade demográfica desde o período romano. Visto que o domínio islâmico isolou os conservadores dialectos românicos no sul da Península dos setentrionais, muitos nomes locais nas partes meridionais de Portugal podem ser na sua forma fonética mais arcaicos do que aqueles no Norte, na área primitiva do galego-português.

Como mencionámos na parte histórica, a invasão muçulmana consistiu principalmente na chegada de contingentes de soldados e administradores, pertencentes a várias tribos árabes e berberes, que se espalharam pela Península, estabelecendo a nova ordem, um facto corroborado pela difusão dos seus nomes tribais através do país. No entanto, analisando a evidência toponímica, podemos plenamente apoiar a conclusão que a contribuição dos muçulmanos foi sobretudo civilizadora e não militar. A maior parte dos nomes locais que examinámos neste trabalho tem evidentemente alguma relação com artesanatos, objectos arquitectónicos e, particularmente, com a agricultura, atestando o grau do desenvolvimento urbano e económico na época islâmica.

A análise geográfica, mesmo que apenas aproximativa, mostra que os topónimos árabes estão difundidos por todo o país, com a maior concentração nas regiões da Estremadura, do Ribatejo, Algarve e do Alentejo, nas partes do país que permaneceram na posse dos muçulmanos até os séculos XII e XIII. A densidade dos topónimos árabes e arabizados que observamos nestas áreas não é considerável só no contexto português, mas é comparável àquela nos centros do Andaluz islâmico no sul e oriente da Espanha.



Na parte linguística procurámos descrever as alterações fonéticas que os nomes árabes sofreram durante a sua adaptação pelos falantes do português, língua com um sistema fonético considerávelmente diferente do árabe, o que explica o aparente abismo entre muitos destes topónimos e a sua forma original no árabe. Se abstrairmos de alguns casos particulares, fica claro que muitas destas alterações são relativamente regulares, o que facilita a reconstrução etimológica dos topónimos árabes.

Embora Portugal tenha nascido principalmente como resultado da Reconquista, o estudo da história do Portugal islâmico mostra que sob outras condições históricas podia ter surgido um Portugal muito diferente, arabofono e estreitamente aparentado com as culturas dos países da África do Norte e do Médio Oriente. A toponímia árabe permanece como o mais evidente vestígio deste processo nunca concluído.

BIBLIOGRAFIA


IMPRENTA


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