Masarykova univerzita V brně Filozofická fakulta



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1.TRAÇADO CRONOLÓGICO DA HISTÓRIA DO PORTUGAL ISLÂMICO

Traçar neste trabalho, que tem por objectivo apenas examinar os efeitos do domínio árabe na toponímia de Portugal, detalhadamente e em integridade a história inicial do califado1 muçulmano seria um tanto supérfluo, já que nem que tudo o que se passou durante o turbulento período da expansão do Islão tem alguma relação com a conquista da Península Ibérica. Por isso descreveremos nos seguintes capítulos apenas a história política do Portugal islâmico, desde a instalação dos muçulmanos no século VIII até o fim da Reconquista portuguesa no século XIII.

Para relatar sinóptica e suficientemente a história do território de Portugal no tempo da dominação árabe, será cabido dividi-la, a exemplo do modelo que utiliza o professor José Mattoso na sua compreensiva História de Portugal2, em quatro períodos, caracterizados por umas condições políticas marcadamente distintas.

1.1. Conquista e o primeiro período do domínio muçulmano (711-828)


A conquista do reino dos Visigodos pelos muçulmanos começou imediatamente após a subjugação do norte da África, terminada no início do século VIII. A sua primeira fase foi levada a cabo principalmente pelos Berberes, que se tinham recentemente convertido ao Islão, tendo-se tornado vassalos dos Árabes. Os invasores, comandados pelo chefe berbere Tariq ibn Ziyad, aproveitaram a relativa fragilidade do estado visigótico, enfraquecido por violentas lutas entre várias fracções da nobreza.3

Após a derrota do exército visigótico pelas tropas berberes na batalha de Guadalete em 711, em que faleceu o rei Rodrigo4, os muçulmanos começaram sem qualquer demora a conquista da Península e tomaram logo a própria capital Toledo que se entregou sem combate, impedindo a eleição de um novo rei.

Os Árabes, comandados por Musa ibn Nusair, governador da África do noroeste, chegaram à Península no ano 712. Até o ano 714, conseguiu este chefe militar conquistar a maior parte da Península, inclusive o actual território de Portugal, cuja conquista foi efectuada pelo filho de Musa ibn Nusair, Abd al-Aziz, o qual tomou Beja e Ossónoba5 em 712 e aceitou a capitulação de Évora, Santarém, Lisboa e Coimbra em 714.6

A única área da Península Ibérica que não se rendeu aos invasores foi o Noroeste montanhoso, onde os cristãos, liderados pelo nobre Godo Pelágio7, triunfaram em 722 na batalha de Covadonga sobre os Árabes, iniciando assim, segundo a tradição posterior, a reconquista da Península.8 No entanto, seria mais lógico interpretar estes acontecimentos mais propriamente como uma manifestação da resistência tradicional dos montaheses asturianos e bascos contra qualquer autoridade externa, fossem os Romanos, Godos ou Árabes9, fortalecida por várias migrações da nobreza e de soldados para o Norte.10 O seu resultado foi o estabelecimento do Reino das Astúrias em 739 pelo genro de Pelágio, Afonso11, o qual conseguiu tomar aos muçulmanos a Galiza e a maior parte das terras a norte do Douro.

Além das lutas com os cristãos no noroeste da Península, tiveram os muçulmanos enfrentar um conflito étnico entre os Berberes, que formavam a maior parte das tropas no exército muçulmano, e os Árabes, que eram a camada dominante. A grande rebelião dos Berberes em 741, deixara desarmado várias cidades e castelos no Noroeste, facilitando assim a tomada da Galiza pelos cristãos.12

O evento que mudou decisivamente o curso da história da Península foi a queda da dinastia reinante dos Omíadas em 750, tendo sido substituída pelo clã dos Abássidas. O único sobrevivente dos Omíadas, Abd ar-Rahman13, conseguiu escapar aos seus perseguidores e refugiar-se no ano 756 na Península Ibérica, onde tomou o título de emir.14 Esta mudança política iniciou em 763 uma série de revoltas locais no sudoeste da Península, ocupado pelas tribos árabes. Além destas rebeliões árabes, esmagadas durante a segunda metade do século VIII, ocorreram na região ocidental da Península ao longo do século IX também vários levantamentos da aristocracia indígena, principalmente na zóna de Mérida.15



1.2. Segundo período. A autonomia do ocidente peninsular (828-929)

As revoltas dos cristãos e muçulmanos no ocidente da Península contra o poder central do emir, instalado em Córdova desde o ano 766, iniciadas nos finais do século VIII, conferiram a esta região um estatuto de ampla autonomia que deveria durar por mais de um século.16 Como início deste período é possível estabelecer o ano 828, quando começou uma grande insurreição dos Berberes e muçulmanos indígenas em Mérida, pacificada em 835 por Abd ar-Rahman II.

Outra revolta local desencadeou-se em 868, tendo sido iniciada por Abd ar-Rahman ibn Marwan al-Jilliqi17, nobre muçulmano de origem indígena. Apesar de a rebeldia ter sido logo suprimida, al-Jilliqi conseguiu fugir da corte de Córdova, aonde fora levado, e após uma estadia temporária no território cristão iniciou outra rebelião em 884, tendo-se instalado em Idanha-a-Velha. O emir Muhammad I decidiu fazer concessões importantes aos rebeldes, sobretudo permitir a al-Jilliqi fundar a cidade de Badajoz, receber impostos das populações locais e exercer autoridade pessoal sobre os habitantes da região.18 Neste período de lutas internas no território islâmico, os cristãos conseguiram penetrar nas terras a sul do Douro e no 878 tomaram aos muçulmanos a cidade de Coimbra, a qual permaneceu na sua posse até os finais do século seguinte.19

Após a morte de al-Jilliqi em 889-890 o poder na área da sua influêcia foi divido entre três chefes militares, Abd ar-Rahman ibn Marwan, instalado em Badajoz e Mérida, Abd al-Malik ibn Abu-l-Jawad ,que se apossara de Beja e Mértola, e Bakr ibn Yahya ibn Bakr, sediado em Ossónoba. A autonomia destes senhores locais foi fortemente enfraquecida depois da breve incursão do rei galego Ordonho II20 no território muçulmano em 913, durante a qual foi arrasada Évora. A expedição de vingança organizada no ano 916, comandada por Abd ar-Rahman III, quebrou o poder militar dos senhores locais, subalternizados ao emir.21

A plena submissão do Ocidente foi completada nos anos 929-930 através de uma campanha militar de Abd ar-Rahman III22, que se tinha recemente proclamado califa. A tomada de Badajoz, centro do poder autónomo no Ocidente, em 930 assegurou a soberania do califado omíado nesta parte da Península nos próximos oitenta anos.

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