Masarykova univerzita V brně Filozofická fakulta



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1.3. Terceiro período. A soberania do califado omíado e o seu desmembramento em reinos de taifas (929-1086)

A época da autonomia do Ocidente sob o governo da família de al-Jilliqi foi seguida por um período de forte centralismo, desempenhado por Córdova, em que os acontecimentos nas zonas marginais, inclusive o território de Portugal, foram de menor relevo.

Uma das consequências da consolidacão do califado e da centralização do seu poder foi o crescimento das competências do hajib, isto é, prefeito do palácio do califa, particularmente na época do consulado de al-Mansur ibn Abi Amir,23 que conseguiu tomar todo o poder, deixando ao califa uma importancia apenas nominal. Al-Mansur procedeu a profundas reformas militares, que consistiram principalmente no recrutamento de um grande número de Berberes norteafricanos e mercenários cristãos e na sua incorporação ao excército do califado. Com estas novas tropas, conduziu uma série de campanhas ao território cristão durante as quais foi reconquistada Coimbra24, destruído o Santuário de Santiago de Compostela25 e a fronteira entre o território cristão e o califado colocada novamente no Douro.26 A vinda dos mercenários estrangeiros, embora tivesse contribuído aos successos militares do califado nas lutas contra os cristãos do Norte, foi também um dos factores que levaram ao seu desmembramento no século seguinte.27

O período de sangrentas lutas e revoltas, que começara após o assassinato do califa Hisham II em 1013, resultou no ano 1031 na desagregação total do poder central do califado omíado, que se dividiu em vários principados chamados de taifas.28 Embora seja habitual designar estes estados como „reinos“, os seus soberanos nunca assumiram o título de califa ou de rei.29

No ocidente da Península, onde os clãs locais mantinham poderes consideráveis desde o século VIII, surgiram entre os anos 1012 e 1094 seis taifas, cuja existência é possível interpretar como uma manifestação do desejo de autonomia das populações locais e uma expressão dos interesses das diferentes tribos árabes.30

A primeira taifa no território de Portugal foi fundada no ano 1012 em Huelva, onde a dinastia Bahri governou durante quarenta anos, dominando uma faixa de costa que incluía também a cidade de Ossónoba, então mais conhecida por Santa Maria. Em 1026 separou-se a parte ocidental da taifa de Huelva que correspondia, grosso modo, à parte oriental do actual Algarve, para formar um principado independente, governado pela família Banu Harun, possivelmente de origem autóctone, o qual perdurou até o ano 1052.31

Outra taifa formou-se no vale do Guadiana sob o governo do Berbere Ibn Tayfur, tendo como a sua capital a cidade de Mértola. Esta taifa manteve-se até o ano 1044, quando sucumbiu às tropas da poderosa taifa de Sevilha, fundada em 1023 e governada pela dinastia dos Abádidas, que já havia tomado Lisboa em 1039 e forçara à submissão as taifas de Huelva e Santa Maria em sucessivas campanhas militares entre 1051 e 1053. No entanto, nem este principado conseguiu manter a sua integridade e no ano 1048 formou-se no seu território outra taifa baseada em Silves, compreendendo aproximadamente a parte ocidental do Algarve moderno. Os seus governadores provinham da família árabe dos Banu Muzayn, chegada à Península no início do século VIII. A vida da taifa de Silves como uma entidade política independente foi, contudo, bastante curta e já no ano 1063 foi forçosamente reintegrada à taifa de Sevilha.32

Após as campanhas expansionistas do reino de Sevilha sob o governo de Muhammad ibn Abbad al-Mu'tamid33 em meados do século XI, existiam no Ocidente apenas duas taifas independentes: a taifa de Sevilha e a poderosa taifa de Badajoz. Este principado foi fundado em 1013 por Sabur al-Amiri, eslavo que nela assumiu poderes autonómicos até à sua morte em 1022. O governo passou subsequentemente para as mãos da familia Banu al-Aftas, de origem berbere embora já plenamente arabizada nesta época.34

A luta contínua com a taifa de Sevilha, que se arrastou ao longo de várias décadas, enfraqueceu bastante Badajoz, favorecendo o avanço cristão, até então estagnado. Os reinos cristãos conseguiram aproveitar a fragmentação política no território muçulmano e iniciar uma série de campanhas militares contra os reinos de taifas, podendo manter um exército permanente e superior ao dos muçulmanos.35

A partir de 1055 obrigaram as campanhas do reino de Leão e Castela os governadores de Badajoz ao pagamento de tributos e permitiram aos cristãos atingir a linha do Mondego, tomando succesivamente Lamego, Viseu, a importante cidade de Coimbra.36 A perda da cidade de Coria em 1079 permitiu aos cristãos o acesso ao vale do Tejo e no ano 1085 reconquistaram os cristão a antiga capital do reino dos Visigodos, Toledo. Incapazes de resistir ao avanço cristão, decidiram os governadores das taifas de Sevilha e Badajoz em 1085 pedir auxílio à dinastia norteafricana dos Almorávidas,37 cujo império se estendia desde o rio Senegal até a costa do Mediterrâneo.38



1.4. Quarto período. A queda do Ocidente islâmico (1086-1250)

A vinda dos Almorávidas em 1086 marca o início do último período na história do Portugal muçulmano, em que o centro da decisão transfere-se definitavemente para o norte da África, cabendo neste contexto aos muçulmanos locais um papel apenas de segundo plano.39

Logo depois da sua chegada, conseguiram os Almorávidas, liderados pelo emir Yusuf ibn Tashufin, defrontar e derrotar as tropas do reino de Leão e Castela na batalha de Zalaca e recuperar o domínio muçulmano a sul do Mondego. No entanto, como os Almorávidos haviam decidido ficar na Península e reunificá-la sob o seu jugo, os soberanos peninsulares fizeram uma aliança com o rei Afonso VI.40 As suas tropas foram, contudo, derrotadas e o governador do reino de Sevilha al-Mu'tamid foi no ano 1092, junto com a sua família, deportado para a África. O mesmo destino teve a taifa de Badajoz, ocupada pelos Almorávidas em 1094.

Após a morte de Yusuf ibn Tashufin, sucede-lhe o filho Ali ibn Yusuf, cujo reinado seria assinalado pelo gradual enfraquecimento do poder almorávida na Península, devido à crescente insatisfação dos muçulmanos peninsulares com a intolerância religiosa dos Almorávidas, ao apertado controle fiscal e ao mesmo tempo à estabilização progressiva dos reinos cristãos, o que levou a fronteira comum para o rio Tejo.41

A dissolução do poder da nova dinastia resultou, a partir do ano 1144, no aparecimentodas segundas taifas, embora de carácter somente episódico. Este processo desenrolou-se simultaneamente com a grande investida das tropas do recém-criado reino de Portugal para o Sul muçulmano (1139-1147).42

O líder da primeira revolta local no Ocidente foi o sufista43 Abu-l-Qasim al-Husayn ibn Qasi, que se apoderou em 1144 de Mértola, onde era governador. Este acontecimento provocou outras duas revoltas na região, uma em Beja, onde governava Abu Muhammad Sidray ibn Wazir, e outra na cidade de Silves, a qual foi capturada, junto com a Ossónoba, por Abu Walid Muhammad ibn al-Mundir. Estes governadores submeteram-se inicialmente a Ibn Qasi, porém Ibn Wazir revoltou-se logo contra o seu soberano, o que levou Ibn Qasi a recorrer à ajuda dos Almóadas,44 um novo movimento religioso e militar que havia surgido no norte da África.

Os Almóadas conseguiram derrotar definitivamente os Almorávidas e impor-se na Península, intervindo a favor de Ibn Qasi, ao qual entregaram em 1147 o poder de Silves, no mesmo ano em que os cristãos conquistaram Santarém e Lisboa. A soberania de Ibn Qasi durou, porém, somente até o ano 1151, quando foi assassinado pela população de Silves.

A morte de Ibn Qasi não marca apenas o fim do período das segundas taifas no ocidente da Península, mas também o início da fase final da época islâmica na história de Portugal, o período do irreversível avanço cristão para o Sul. Ao longo do século XI, este processo ganhou o carácter de guerra santa da reconquista dos territórios outrora cristãos, radicalizada pela presença de cavaleiros francos e ordens religiosas.45

No ocidente da Península, os Almóadas levaram a cabo, entre 1161 e 1195, oito campanhas militares que não tiveram, porém, nenhum resultado práctico.46 Em 1212 foram derrotados os muçulmanos na batalha de Navas de Tolosa por um exército coligado de Castelhanos, Portugueses, Aragoneses e Navarros. Esta victória permitiu aos cristãos prosseguir a Reconquista e apoderar-se durante os próximos quarenta anos dos últimos territórios no Ocidente que ainda estavam nas mãos dos muçulmanos. No ano 1229 foi capturado Badajoz pelos Leoneses, em 1234 seguiu-se a tomada de Beja e Aljustrel pelos Portugeses e em 1238 conquistaram estes Mértola. Este processo foi levado ao cabo pelo rei Afonso III de Portugal, que se apoderou em 1249 de Silves e Faro, o último enclave muçulmano no Ocidente. Este acontecimento marca o fim do período islâmico na história de Portugal.


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