Masarykova univerzita V brně Filozofická fakulta



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2.COMPOSIÇÃO ÉTNICA E RELIGIOSA

A presença de vestígios topónimicos de origem árabe em Portugal teria sido dificilmente imaginável sem uma ampla disseminação do árabe no território deste. Para entender melhor o processo da arabização, que se foi desenvolvendo ao longo dos mais de cinco séculos do domínio muçulmano no ocidente da Península Ibérica, convirá descrever primeiramente a configuração étnica e religiosa da sociedade peninsular, resultante da conquista em 711.



2.1. Árabes

O grupo dominante na nova sociedade eram os Árabes, os primeiros seguidores e propagadores do Islão. A sua imigração é característica sobretudo para o período inicial da estabilização do governo muçulmano, até do ano 756.47 No Ocidente é atestada primeiro a chegada e o estabelecimento dos Árabes iemenitas, vindos com o exército de Musa ibn Nusayr após 712, instalados nomeadamente na região de Silves48, e depois de novas tribos, de proveniência síria, vindas para esmagar a revolta berbere em 741. O influxo dos Sírios provocou conflictos com os Árabes que tinham chegado antes e sentiam-se incomodados pela presença dos Sírios. Os recém-chegados foram subsequentemente instalados em várias localidades no sul da Península, para que estivessem longe da capital no caso de revolução ou intento de sedição.49 No Ocidente, estabeleceram-se os Sírios na região de Beja e no Algarve.50

Segundo uma estimativa, à chegada de Abd ar-Rahman em 756 a população árabe contava aproximadamente entre 50 e 60 mil de pessoas e a população indígena entre 5 e 6 milhões de pessoas.51 Apesar de serem minoritários na sociedade peninsular, os Árabes constituíam o grosso da aristocracia e burguesia muçulmana, dedicando-se ao artesanato e ao comércio internacional52 e possuindo vastas latifundias no campo.53

2.2. Berberes

O numericamente mais significativo componente do exército invasor muçulmano foram os Berberes, cuja imigração à Península continuou, à diferença dos Árabes, até o século XII.54 Sendo vassalos dos Árabes, eram instalados nas áreas áridas e montanhosas do interior da Península, de pouca densidade de povoamento, à diferença das tribos árabes que se apoderaram das terras mais férteis ao longo do Mar Mediterrâneo e nos vales fluviais.55 A colocação geográfica das tropas berberes era reforçada pela preocupação em manter estes soldados temíveis, unidos por fortes laços familiares, afastados da capital e dos outros centros de poder.56

Embora exista incerteza a respeito deste assentamento berbere, considerando-o alguns ter sido mais de carácter agricultural do que militar, é possível aceitar a tese oposta, defendida pelo J. Mattoso, segundo a qual:
“As comunidades camponesas dificilmente aceitariam agregar a si e muito menos integrar um grupo de mercenários estrangeiros. Desmobilizados, a sua diluição ou fixação como grupo homogéneo só era, portanto, concebível no cosmopolita meio urbano.”57
Desta maneira é também possível explicar a rápida arabização dos Berberes nas cidades, em comparação com aqueles se haviam instalado no campo, conservando até o século XII as suas tradições e o idioma.58 Nas cidades impuseram os Berberes massivamente a sua presença durante a época dos Almorávidas e dos Almóadas.59

Como um dos mais elucidativos exemplos da importância dos Berberes para o estabelecimento do domínio muçulmano na Península e um dos vestígios mais duradouros da sua presença é possível mencionar a palavra Mouro60, termo utilizado pelos Hispano-Romanos para designar os habitantes berberes da África do Noroeste, mais tarde extendido para todos os muçulmanos.61



2.3. Hispano-Romanos

O elemento étnico percentualmente mais numeroso foi, contudo, a população hispano-romana. Embora existisse nos primeiros anos da administração muçulmana entre ela e os conquistadores árabes e berberes uma barreira religiosa, esta foi desaparecendo à medida que um número crescente dos cristãos se foi convertendo ao Islão, sobretudo a partir do século X. Como nota J. Mattoso:


“Até há pouco, considerava-se que a ocupação massiva da Península Ibérica pelos exércitos de árabes, iemenitas, sírios e berberes tinha imposto rapidamente a lei de Maomé62, massacrando ou empurrando para norte os cristãos humilados e vencidos. Ao admitir-se hoje, pelo contrário, a pouco significativa contribuição das forças militares na islamização do Andaluz63 e o papel decisivo desempenhado pelos caminhos e rotas do comércio oriental, sabemos que a penetração da religião muçulmana foi um fenómeno lento e gradual.”64
Supõe-se, segundo alguns estudos, que por volta do ano 1100, os muçulmanos de origem indígena, conhecidos como muladís65, constituíssem, junto com os Árabes e os Berberes, 80 por cento dos habitantes do território que estava na posse dos muçulmanos.66 A adopção do Islão pelos cristãos era motivada por vários factores sociais, culturais e económicos, entre outras coisas pela possibilidade de serem, desta maneira, isentos do pagamento da djizya, isto é, dos impostos de capitação, aos quais eram sujeitos os cristãos e judeus dentro do estado islâmico, em que pertenciam às minorias protegidas, sob a condição de respeitarem a dominação política do Islão.67

Após a sua conversão, os muladís eram integrados na estructura tribal da sociedade árabe, tornando-se vassalos de alguma tribo, cujo nome também levavam.68 Apesar deste processo de assimilação, os agricultores muladís ainda tinham de pagar ao estado um tributo elevado, chamado kharadj, ou seja, imposto predial, o que acarretou perturbações sociais e por algum tempo contribuíu à persistência da divisão entre os muladís e os muçulmanos de origem árabe.69 Neste contexto, é de interesse mencionar que na língua portuguesa a palavra muwallad deu origem70 ao termo malado, denominação do habitante de maladia, terra habitada por vassalos solarengos, sujeitos a encargos feudais.71

Os Hispano-Romanos que mantinham a fé cristã eram conhecidos como moçárabes.72 Embora resistissem à possibilidade de adoptar a religião privilegiada do estado e melhorar deste modo o seu estatuto social, como testemunha a sua denominação, incorporaram à sua cultura vários elementos árabes. Apesar da gradual arabização, mantiveram os moçárabes na sua cultura também muitos costumes hispano-visigóticos, inclusive o rito litúrgico, que foi oficialmente abolido pelos cristãos do Norte em 1080.73 No Ocidente é atestada uma forte presença dos moçárabes nos meios urbanos de Coimbra, Lisboa e do Algarve.74

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