Masarykova univerzita V brně Filozofická fakulta



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2.4. Judeus e os Eslavos

Além dos cristãos e muçulmanos, outro grupo importante na sociedade peninsular eram os judeus, implantados na Península desde a época romana.75 Como o único grupo religioso não-católico, foram os judeus duramente discriminados pelo estado visigótico, após a conversão do rei Recaredo76 ao catolicismo em 589, e por isso não é de estranhar que tenham recebido positivamente os invasores e que até tenham contribuído a facilitar-lhes a tomada de algumas cidades importantes.77 No âmbito do novo sistema político e social gozavam os judeus, assim como os cristãos, do estatuto de protegidos da sociedade muçulmana, vivendo em comunidades prósperas e abastadas. Embora sujeitos ao pagamento da djizya, os judeus dispunham, assim como os cristãos, de uma autonomia bastante ampla, elegendo as suas autoridades privadas, e muitos desempenhavam cargos de responsibilidade e de confiança da corte. Sem embargo, as funções militares e o exercício do poder eram proíbidas aos não-muçulmanos.78

Na área controlada pelos muçulmanos existiam importantes comunas dos judeus sobretudo no solo da Espanha actual, nas cidades de Córdova, Granada, Tarragona, Saragoça, Sevilha e outras79, enquanto que no território de Portugal havia significativas comunas judaicas nas pricipais cidades portuárias, nomeadamente em Lisboa e Faro.80

Outro elemento étnico na sociedade eram os escravos, provenientes da África Subsariana e da Europa oriental. Os escravos brancos, nos séculos IX e X maioritariamente de origem eslava e chamados, portanto, a-aqāliba81, eram importados para servirem nos haréns, no exército e na guarda pessoal do califa, mantendo assim equilíbrio entre os Árabes e Berberes. Estes escravos-mercenários ganhavam logo liberdade, o que lhes abria portas para a ascensão social, e após o desmembramento do califado omíada no século XI governaram em algumas taifas no oriente da Península.82



3.SITUAÇÃO LINGUÍSTICA


Do ponto de vista linguístico, caracteriza-se a época do domínio muçulmano no território de Portugal pela convivência e competição de dois idiomas maioritários, os quais eram a língua moçárabe e o árabe. Por isso, serão nos seguintes sub-capítulos apresentadas algumas informações básicas apenas sobre estas duas línguas. Todavia, é preciso mencionar que o quadro línguístico neste período completava também a presença da língua berbere, remotamente aparentada com o árabe83, e dos falares românicos do noroeste da Península, nomeadamente do português. No entanto, como o berbere de facto não deixou quase nenhuns vestígios linguísticos84 e o português só se instalou na região após a Reconquista, não serão objecto do nosso interesse.

3.1. Língua moçárabe

Quando os muçulmanos entraram na Península Ibérica, estavam já extintas, com a excepção do basco, todas as línguas faladas nela no período pré-romano, pois o paulatino processo da romanização levou à sua substituição pelo latim, que se foi introduzindo nesta área a partir do século II a.C.85 O tipo do latim falado pelos soldados e comerciantes romanos diferia, porém, consideravelmente da sua variante literária e por isso costuma denominar-se como “latim vulgar”, definido como “a língua falada pelas camadas pouco influenciadas ou não influenciadas pelo ensino escolar e pelos modelos literários”.86 Supõe-se que o processo do afastamento destas duas modalidades da mesma língua tenha acelerado a partir do século V, coincidindo com as invasões bárbaras e a quebra do sistema educativo romano.87

O latim peninsular não era um idioma homogéneo, pois as características do latim falado nas várias partes do Império Romano correspondiam ao estágio em que a língua estava na época da sua subjugação de cada região pelos Romanos. O latim falado nas partes meridionais da Península Ibérica era, portanto, mais arcaico do que aquele no Noroeste, cuja conquista foi terminada só nos finais do século I a.C.88 Estas diferenças foram acentuando-se na época depois da chegada dos muçulmanos e do estabelecimento do seu poder no sul da Península, que causou a isolação do falares utilizados neste território daqueles que existian na região sob a controle dos cristãos.

À medida que um número crescente dos cristãos se convertia ao Islão e abandonava o idioma românico, adoptando o árabe, o uso deste idioma foi-se restringindo aos moçárabes e portanto é habitual denominá-lo como “romance moçárabe”.89 Em comparação com os falares do Noroeste, como o português e o castelhano, o moçárabe apresentava várias características distintas, devido, sobretudo, ao seu carácter conservador e à influência do árabe. No plano fonético é particularmente90:




  1. a preservação dos grupos iniciais PL-, FL-, PL- latinos.

  2. a preservação do –E final depois de consoante líquida.

  3. a não sonorização de surdas intervocálicas.

  4. a preservação dos –L- e –N- intervocálicos.

A documentação escrita do romance moçárabe é relativamente escassa e consiste sobretudo das assim chamadas hardjas91, isto é, pequenas estrofes românicas incorporadas em muwashshah92, longos poemas narrativos. No entanto, a interpretação destes artefactos literários, escritos no alfabeto árabe, que habitualmente não marca vogais curtas, apresenta várias dificuldades e por isso é de elevada importância o estudo dos topónimos de origem moçárabe, preservados especialmente nas áreas a sul do Mondego.93

Embora se suponha a existência de diferenças entre o moçárabe falado no Ocidente e os dialectos das restantes partes da Península, sabe-se pouco das suas características.94


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