Masarykova univerzita V brně Filozofická fakulta



Baixar 0.78 Mb.
Página6/18
Encontro19.07.2016
Tamanho0.78 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   18

3.2. Árabe

O idioma que se impôs gradualmente como língua maioritária ou, sem dúvida, a mais prestigiosa, foi o árabe, a língua nativa da classe dominante, constituída pelas tribos árabes.95 O processo da arabização, tanto cultural como linguística, acompanhou o paralelo processo da islamização dos Hispano-Romanos, que tomavam os costumes, trajos, nomes e a língua dos Árabes.96



3.2.1.Expansão do árabe

Além dos Árabes que chegaram à Península nos primeiros anos após a conquista, continuavam a reforçar o elemento árabe numerosos mercadores, artistas, literatos e artesões que vinham do Médio Oriente, atraídos pelo esplendor do emirado omíada, fundado em 756.97 Na disseminação da língua árabe na Península participaram também os judeus, implantados nas cidades. O professor J. Mattoso comenta da seguinte maneira a importância dos judeus e dos mercadores orientais na introdução do árabe:


“Se admitirmos que os exércitos e forças militares invasores não são os melhores veiculadores de línguas e cultural e se aceitarmos que os mecanismos de difusão civilizacional passam sobretudo pelos intercâmbios pacíficos do comércio, não será descabido atribuir a grupos de orientais de há muito radicados no Ocidente e às próprias comunas de mercadores judeus os primeiros passos na introdução da língua árabe nos portos hispânicos. (...) Os falares arábicos vão acompanhando o percurso e a fixação destes mercadores nos principais portos marítimos e fluviais e depois nos outros centros urbanos.”98
A expansão do árabe em detrimento da língua moçárabe acelerou notavelmente no século XI, na época em que o árabe se afirma como língua culta dos meios urbanos. Este processo parece ter levado à marginalização social e cultural do moçárabe em finais do século XI e à sua restrição ao mundo rural e, por fim, no século XII o árabe torna-se exclusivo nos circuitos urbanos. Este fenómeno foi agravado pela intransigência religiosa das dinastias berberes dos Almorávidas e Almóadas que perseguiram os não-muçulmanos.99 Nos séculos XI e XII estavam os dialectos moçárabes incontestavelmente em declínio e não é seguro que a Reconquista os tenha ainda encontrado com alguma vitalidade.100 Não obstante, alguns traços comuns aos dialectos centro-meridionais da língua portuguesa parecem resultar de uma influência moçárabe, o que favorece a hipótese da persistência do moçárabe até a chegada dos Portugueses nos séculos XII e XIII.101

Após a terminação da Reconquista, o árabe continuou a ser falado pelos mudéjaros, muçulmanos que se mantiveram nos reinos cristãos102, e foi definhando durante quase três séculos, até desaparecer por completo.103 Além dos vestígios toponímicos, a herança linguística do árabe na língua portuguesa é constituída por mais de 600 empréstimos de origem árabe como açúcar, adufe, alfaiate, almofada, azulejo etc.104 Duas destas palavras emprestadas, os termos algaravia e aravia (derivados do árabe al-‘arabīya, “língua árabe”), testemunham bem o gradual desaparecimento da língua árabe, cuje nome se tornou sinónimo de uma linguagem incompreensível ou difícil de entender.105

Como o último estado muçulmano na Península, emirato de Granada106, conseguiu manter-se até os finais do século XIV, não surpreende que a língua árabe tenha sobrevivido na Espanha por muito mais tempo do que em Portugal e que tenha desaparecido definitivamente só no século XVII com a expulsão dos últimos muçulmanos clandestinos.107

3.2.2.Dialecto andaluz

Assim como no caso do latim, onde coexistia a língua literária com a variante coloquial, a qual com o passar dos séculos evoluiu numa língua independente, encontrava-se também o árabe numa situação de diglossia, em que a língua literária coexistia com a língua coloquial, situação característica para o mundo árabe até aos nossos dias.108 O padrão desta língua oficial foi derivado dos dialectos conservadores e cofidicado pelos gramáticos à base do Alcorão e a poesia árabe da época pré-islâmica nos primeiros séculos do califado.109 Com a expansão do Islão espalhou-se o uso do árabe literário em todos os países muçulmanos, uma vez que as orações, obrigatórias para todos os muçulmanos, consistem na recitação dos versos do Alcorão e por isso devem ser efectuadas em árabe.110

A evolução do árabe coloquial e dos seus dialectos é o problema que mais ocupa os linguístas que estudam a história da língua arábe e, portanto, têm sido propostas várias hipóteses que o procuram explicar. Os linguístas alemães Wolfdietrich Fischer e Otto Jastrow tentaram exprimir o consenso geral com as seguintes palavras:
“One will hardly go wrong if one imagines that the development of New [colloquial] Arabic was connected with dialect mixing in the camps of the conquerors, the influence of the languages and dialects of the conquered, and the formation of regional vernaculars. Later population displacements and constant leveling tendencies through cross-regional contacts between the cities, likewise tendencies toward peculiar developments among the most isolated rural populations, may have been equally important developmental factors.”111
Na época das conquistas muçulmanas os dialectos falados na Península Arábica, dividos provavelmente no grupo ocidental e oriental112, expandiram para além das fronteiras da Península, misturando-se e entrando em contacto com as línguas que existiam nos países recém-dominados. Esta primeira onda migratória deu origem ao surgimento de novos grupos dialectais, falados principalmente nas áreas urbanas. Mais tarde, particularmente a partir do século XI, foram os países do Norte de África afectados pelo influxo de nómadas árabes que se instalaram nas áreas rurais, o que criou nestas regiões a distinção primária entre os dialectos urbanos e os dialectos rurais, trazidos pelos nómadas.113

A dicotomia entre o árabe literário e o dialecto, regista-se também na Península Ibérica, onde o uso do árabe literário alastrava até entre os moçárabes, causando o abandono do latim como língua culta, o que ocasionalmente provocou lamentos por parte dos oponentes deste processo.114 Os dialectos dos conquistadores sírios, iemenitas e egípcios, trazidos na primeira metade do século VII, evoluíram por volta do século IX num falar hispano-árabe de características próprias, conhecido como “árabe andaluz”115. Este dialecto recebeu influência do romance nos seus aspectos gramaticais e no léxico116, embora fosse aparentado estreitamente com os dialectos do noroeste da África, com que formava o grupo dialectico ocidental.117 Apesar de não sabermos a extensão exacta da contribuição lexical românica no dialecto andaluz, as estimativas oscilam entre os 5 e 10 do léxico total.118 Este facto resultou de um bilinguismo árabo-românico, existente nos circuitos urbanos até os finais do século XI.119 Como exemplo deste fenómeno podem servir os zéjeles120, escritos no dialecto andaluz pelo poeta cordovês Ibn Quzman121, que contêm numerosas palavras moçárabes.122

A adopção do árabe pelas amplas camadas da população peninsular foi acompanhada também pela sua diferenciação dialectal, atestada pelos autores árabes, acelerada pelo contacto com os falares românicos e às variações entre os vários dialectos dos conquistadores originais. Por exemplo no século XI o escritor cordovês Ibn Hazm123 notou a marcada diferença entre a fala de Córdova e o dialecto que utilizavam os habitantes da próxima região Fahas al-Ballut124 e as profundas alterações que sofriam palavras árabes na boca do “vulgo” andaluz.125 Pelo contrário, no século XII ressaltou o geógrafo al-Idrisi126 a eloquência dos habitantes da cidade de Silves e dos seus arredores, povoados pelos Iemenitas e outros Árabes após a conquista, e a “pureza” notável do seu dialecto.127

Uma diferença importante entre os dialectos da África e o dialecto andaluz é que o dialecto falado na Península não recebeu nenhuma influência dos falares das tribos árabes chegadas à Africa a partir do século XI e no árabe andaluz nunca existiu, portanto, o mesmo contraste entre os dialectos urbanos e os rurais, de origem nómada, que se regista no noroeste da África.128



1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   18


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal