Masarykova univerzita V brně Filozofická fakulta



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4.2. Povoamento

Embora possa a intensa arabização e (em menor grau) islamização do Ocidente durante o período do domínio muçulmano possa dar a impressão de que a conquista muçulmana foi acompanhada por um influxo maciço de imigrantes árabes que absorveram o restante da população indígena, uma examinação mais detalhada comprova, pelo contrário, uma relativa estabilidade demográfica desde a época pré-romana, facto compreensível, uma vez que as correntes migrátorias faziam-se sentir particularmente nas zonas de mais intensa urbanização.149

Dito isto, não deveríamos esquecer o facto de que eram justamente as zonas urbanas que tinham a maior densidade populacional a sul do Tejo. Nesta região, mais intensamente afectada pela presença dos muçulmanos, os principais núcleos de povoamento eram Lisboa, Santarém, Sintra, Almada, Alcácer do Sal, Elvas, Évora, Juromenha, Moura, Beja, Serpa, Mértola, Silves, Loulé, Santa Maria de Faro, Tavira e Cacela.150 Entre os territórios no vale do Tejo e o Algarve, áreas bem cultivadas, estendiam-se vastas áreas quase despovoadas do Alentejo e do Ribatejo, alternadas pelas áreas de maior densidade populacional ao longo do Guadiana e na Península de Setúbal.151

É difícil fazer uma estimativa sobre o número exacto dos habitantes do Ocidente. No entanto, é possível admitir que fosse entre 300 e 500 mil de pessoas, dos quais mais de metade terá vivido em cidades ou na sua dependência directa.152 Quanto ao número dos habitantes das cidades ocidentais, deduz-se que a população de Lisboa não terá ultrapassado 5 mil de pessoas, mesmo assim superando as demais comunidades urbanas no Ocidente. 153

Fora das cidades e dos seus arredores, centros do comércio, artesanato e da agricultura intensiva, estendiam-se grandes territórios interurbanos, onde se conservavam pequenos grupos agro-pastoris de velho assentamento histórico.154

5.VESTÍGIOS TOPONÍMICOS DA PRESENÇA MUÇULMANA

Após a terminação da Reconquista portuguesa no século XIII, começou o processo do repovoamento das terras recém-conquistadas. Os colonos, vindos do Norte, traziam consigo não apenas a religião, a cultura e o sistema feudal, mas também a sua língua, um idioma românico que tinha evoluído a partir do latim vulgar, falado nos territórios da antiga Gallaecia. Esta língua, conhecida mais comumente como português arcaico ou galego-português155 gradualmente suplantou ambos idiomas antes utilizados no extremo ocidente da Península, o árabe, dominante nas áreas urbanas, e o moçárabe, a continuição natural do latim falado na Lusitânia. Este processo não significou, porém, uma liquidação dos vestígios linguísticos da presença árabe, já que no território do antigo al-Ġarb permaneceu por algum tempo uma grande comunidade de muçulmanos e moçárabes que naturalmente interagiram com os novos povoadores.156

Já mencionámos o grande número de empréstimos árabes que sobrevivem na língua portuguesa e que, segundo algumas estimativas, formariam em torno de 25 por cento do vocabulário da língua portuguesa antes da sua relatinização durante o período da Renascença.157 No entanto, a vitalidade desta contribuição lexical na língua contemporânea é muito variável, pois muitos vocábulos de origem árabe já se tornaram obsoletos (por exemplo acedrenchado, aljuba, alpergata etc.158). Portanto, é a contribuição toponímica do árabe, que podemos considerar como muito mais duradoura e não-limitada pelas mudanças na realidade social ou cultural.

A história da investigação sistemática da toponímia árabe em Portugal remonta aos finais do século XVIII, quando foi publicada a primeira obra dedicada a esta matéria foi o livro Vestigios da lingoa arabica em Portugal, escrito por João de Souza159 e publicado novamente em 1830.160 Deixa, contudo, muito a desejar, particularmente na área da etimologia. Outro maior trabalho dedicado aos nomes árabes, Toponímia árabe de Portugal, foi publicado só no ano 1902 na Revue Hispanique pelo professor David de Melo Lopes,161 o primeiro autor que estudou a toponímia árabe peninsular em bases rigorosamente científicas.162 Este e alguns outros estudos deste autor sobre a toponímia árabe e moçárabe foram em 1968 organizados por José Pedro Machado163 numa colectânea, sob o título Nomes árabes de terras portuguesas. Esta publicação, que inclui algumas obras de importância primordial para o estudo da toponímia árabe em Portugal, serviu também como fonte primária deste trabalho. Das demais publicações que serviram de base para o nosso trabalho, cabe mencionar o texto Arabismos na toponímia lisboeta164 de José Pedro Machado.



5.1. Classificação etimológica dos topónimos árabes

Um facto que infelizmente dificulta a reconstrução dos topónimos árabes na sua forma original é a escassez de fontes árabes para o território do Ocidente, à diferença das regiões centrais da Península. Como menciona o professor Melo Lopes: “Evidentemente nunca poderemos haver (sic) tantos textos árabes quantos seriam precisos para estabelecer as origens da nossa toponímia”.165

Entre os textos árabes relativos à geografia do Portugal muçulmano, os da maior importância são sobretudo as obras de al-Idrisi, Ibn Ghalib166, al-Himyari167 e al-Razi.168 Dos demais autores merecem aqui registo dois autores do século XIII, Yaqut al-Hamawi e Ibn Sa’id al-Maghribi, cujos relatos sobre o ocidente peninsular foram só recentemente traduzidos em integridade para o português.169

A escassez de textos árabes que possam ajudar na interpretação etimológica dos topónimos é ainda mais evidente no caso de localidades rurais e, por consequência, de menor importância histórica, o que confirmam com as seguintes palavras os autores de um estudo recente, no contexto da toponíma algarvia:


“A atestação destes topónimos em fontes islâmicas ou portuguesas medievais é rara. Não são, na sua maior parte, lugares com estatuto político-administrativo ou relevância geográfica que justifiquem a sua menção documental. Trata-se de topónimos viários, relativos à denominação dos caminhos, ou de topónimos de vizinhança, isto é, de lugares indicadores de percurso cuja designação, dispondo-se da chave interpretativa, revela a respectiva função: defensiva, religiosa, de aguada, aprovisionamento ou apoio ao viajante e assentamento rural.”170
Dado que as fontes históricas não constituem um recurso suficiente para podermos estabelecer as etimologias de muitos topónimos e que a sua forma árabe pode estar opaca também por causa da evolução fonética posterior, torna-se indispensável o conhecimento dos factores extra-linguísticos que motivaram as criações toponímicas, sobretudo das características físicas do território e das suas formas de ocupação.171

No âmbito do nosso trabalho, procurámos concentrar-nos, em benefício da brevidade, apenas nos topónimos de etimologia clara (por exemplo: Almançor, Almedina, Alverca, Fátima) ou generalizadamente aceite (por exemplo: Algueirão, Arrifana, Azoia, Marvão), excluindo aqueles cuja origem permanece sujeita a conjecturas.

Para classificar os nomes locais de origem árabe do ponto de vista etimológico, podemos adoptar o método do Prof. Melo Lopes, que estabelece entre eles três classes gerais172:


  1. Os nomes comuns, tornados nomes próprios de povoações.

  2. Os nomes de pessoas, convertidos em nomes geográficos.

  3. Os nomes geográficos de localidades de países islâmicos, transplantados para o território de Portugal.

A estas categorias ainda acrescentaremos a quarta, que inclui os topónimos que não têm etimologia árabe, mas aludem à presença histórica dos muçulmanos numa dada localidade.



5.1.1.Nomes comuns

Os topónimos formados a partir de nomes comuns são incontestavelmente a categoria mais numerosa na toponímia árabe de Portugal. Podem resultar sobretudo das condições do terreno, flora, da presença de templos, pontes e outros tipos de estructuras, unidades administrativas etc.



Os topónimos que pertencem a esta categoria subdividimos, segundo a sua etimologia, nas seguintes subcategorias básicas173:


1) Condições do terreno e formações naturais

Alcárcova (“fosso, vala”), Alcúdia (“colina, cabeço, montículo”), Alferrarede (“cascatas”), Alfurja (“buraco, fenda”), Algar (“cova, gruta”), Algés (“gesso”), Aljezur (“ilhas, penínsulas"), Almargem (“pastagem, prado”), Almegue (“vau de um rio”), Almeida (“planura, outeiro”), Almeijoafas (“côncava”), Alqueidão (“tufo calcário”), Arraçário (“cabeça, elevação de terreno entre dois vales”), Arrife (“parte da terra que está à beira da água, onde existem verdura, água e cultura, flanco da montanha”), Loulé174 (“a alta, a altura”), Xarca (“fenda, terreno despenhado e apertado”)




2) Cursos de água e sítios de aguada

Albufeira (“lago”), Algodor (“ribeiros, riachos”), Algudi (“ribeiro, riacho ou lago de águas estagnadas”), Alverca (“lagoa”), Assacaias (“regueiro”), Odesseixe (do étimo wād, „rio“)




3) Fauna

Alcolena (“coelhos”), Zêzere (“cigarra”)




4) Flora

Adiça (“espécie de junco”), Alcamim (“hortaliça”), Alcolura (“esgalho de cacho”), Alecrim, Alfarrobeira, Alfeizirão (“cana, canavial”), Almaraz (“parreira”), Almeirão (“planta, espécie de chicória”), Árgea (“cedral”), Arroz (“arroz”), Assumar (“junco, junqueira”), Azeitão (“azeitona, olival”), Arrifana (“murta”), Azambuja (“oliveira brava”), Laranjeira, Queluz (“vale da amendoeira”)




5) Estructuras humanas

Açouge (“mercado”), Açude (“barreira, tudo o que forma obstáculo entre duas coisas”), Alcaçarias (“bazar, casa grande rodeada de pórticos”), Alcácer (“castelo, casa que atinge grande altura“), Alcáçova (“citadela”), Alcainça (“igreja”), Alcântara (“ponte, parte elevada de um edifício”), Alcalá (“castelo”), Alcoentre (“ponte pequena”), Alfama (“termas, fonte de água quente”), Alfândega (“estalagem, hospedaria”), Alfofa (“porta do postigo”), Almada (“mina, mineral”), Almagede (“mesquita“), Almancil (“estalagem”), Almares (“ancoradouros”), Almazém (“lugar onde se conservam, depositam objectos”), Almixaris (“secadouro”), Almocavar (“cemitério”), Almodôvar (“edifício ou casa redonda”), Almuinha (“casal, herdade”), Alvalade (“estrada, caminho empedrado”), Alvor (“poço”), Alvorge (“pequeno forte, torre”), Arrábida (“convento fortificado”), Arracefe (“calçada, caminho pavimentado”), Asno (“castelo”), Atafona (“moinho”), Atalaia (“sentinela, vigia”), Azinhaga (“rua estreita”), Azoia (“ermida”), Borratém (“poço da figueira”), Chafariz (“cisterna, bebedouro”), Couço (“arco”), Cuba (“pequena torre, cúpula”), Safas (“valado, sebe”)




6) Povoações

Alcaria (“aldeia, povoado rural de tipo disperso”), Aldeia (“propriedade fundiária, povoação rústica”), Almedina (“cidade, zona nuclear de aglomerado habitacional”), Almofala (“arraial, aldeia”), Arrabalde (“subúrbios”)




7) Nomes de profissões

Adelas (“corrector, leiloeiro”), Alcaide (“conductor”), Alfafar (“oleiro”), Alfaiates, Alferes (“cavaleiro”), Algibebes (“vendedor de aljubas”), Almotacé (“funcionário encarregado da inspecção dos pesos, preços e medidas”), Almoxarife (“inspector, supervisor”), Alvaiázere (“falcoeiro”), Arrais (“patrão de barco”), Azemel (“almocreve”)




8) Objectos do cotidiano

Açucenas (nome de unidade de sūsān - lírio), Alcochete (“forno”), Alfinete (“instrumentos para furar, palitos”), Azenha (“roda de irrigação”), Fangas (“medida de cereais, carvão e sal”), Nora , Xadrez





8) Nomes metafóricos

Alpeidão (“as brancas”, nome de um escolho), Lafões (“dois irmãos”, nome de dois castelos fronteiros)





8) Nomes que apontam a localização geográfica

Albarrã (“de fora, exterior, camponês”, nome de uma torre), Algarve (“Ocidente”), Almogreve (“Ocidente”)





A análise desta seleçcão de nomes testemunha claramente a significativa contribuição dos Árabes ao desenvolvimento urbano e económico durante a sua presença na Península, agudamente contrastante com a decadência geral na época precedente.175 À diferença dos Visigodos, que não tinham como um povo pastoril as experiências necessárias para manter a produção agricultural e a ordem administrativa ao nível que tinham alcançado no período romano, os Árabes reconstruíram as decaídas cidades (Almedina), cercadas de novos subúrbios (Arrabalde). No centro das cidade edificaram fortalezas (Alcáçova), onde residia o governador militar (Alcaide), e que serviam como lugar central da defesa do aglomerado urbano.176 Para as cidades muçulmanas era típica a posição central da mesquita (Almagede) e do mercado (Açouge). Além da considerável beneficiação arquitectónica (Alcaçarias, Alfama, Almodôvar, Arracefe, Azinhaga, Cuba), a época islâmica é um tempo em que floresceram intensamente os artesanatos, por exemplo a olaria (Alfafar) ou a alfaiataria (Alfaiates), assim como o comércio e a administração (Algibebes, Almazém, Almotacé, Almoxarife, Arrais, Fangas).177

Apesar do peso demográfico da população urbana no ocidente do Andaluz, a vida económica baseava-se sobretudo na agricultura.178 Para melhorar as tecnicas agrícolas introduziram os muçulmanos novos engenhos relevantes (Nora, Zenha) e introduziram ou espalharam o uso de diversas plantas (Alcamim, Alfarrobeira, Alfeizirão, Arroz, Azeitão, Laranjeira). Como bem nota M.S.A. Conde: “A toponímia arábica sub-regional espraia-se pela terminologia relativa à paisagem, ao povoamento e às actividades económicas, primárias e secundárias.”179

Da seguinte maneira relata o Prof. Oliveira Marques o aspecto da paisagem rural no Portugal muçulmano:


“Todo o país estava coberto de olivais, frequentes vezes à mistura com o trigo. O actual Algarve era então já um dos grandes produtores de figo e amêndoas, objecto de largas exportações. Em redor de cada cidade pomares, acompanhados de fertéis e verdes hortas alimentavam a população local, permitindo algumas exportações também.”180

A paisagem ainda completavam outros resultados da actividade humana como pontes (Alcântara, Alcoentre), caminhos empedrados (Alvalade181), conventos e ermidas (Arrábida, Azoia182), estalagens (Almancil) ou minas (Almada) e canteiras donde se extraía o gesso (Algés), tufo calcário (Alqueidão) e outros minerais.183

Os dispersos povoamentos rurais (Alcaria, Aldeia, Almofala), pegados às terras de cultivo, eram administrados pelos alcaides, representantes do poder central que residiam nas fortificações mais importantes (Alcácer, Alcalá, Alvorge, Asno).184

Além dos nomes de objectos e instituções, em muitos casos desconhecidos ou pouco habituais até a chegada dos muçulmanos, os Árabes também deixaram vários vestígios toponímicos relativos a objectos da natureza e detalhes topográficos (Alcúdia, Alfurja, Algueirão etc.). Interessantes são particularmente os nomes que se iniciam com o prefixo Ode- ou Odi-, formados a partir da palavra wād, que designava rio ou vale e que podia indicar a sua navegabilidade. O étimo wād era anteposto ao nome de um pequeno porto em que a navegabilidade acabava e que se aplicava também ao rio. Após o período islâmico este étimo chegou a fazer parte dos nomes das localidades.185 Alguns nomes deste tipo, comum particularmente no Algarve, são Odeáxere, Odeleite, Odelouca, Odesseixe, Odivelas etc.

Ao examinarmos os topónimos de etimologia árabe, deveríamos tomar uma atitude cautelosa no que toca à sua datação histórica, porque nem todos estes nomes remontam ao período islâmico. É sobretudo o caso dos vocábulos que permanecem no português corrente186. Um bom exemplo é a palavra „aldeia“, de difusão amplíssima no território do país187. Outros topónimos baseados em nomes comuns que entraram no léxico português são, por exemplo, Açude, Almoxarife, Alverca, Arrabalde, Atalaia, Azambuja ou Xadrez. Tratando-se provavelmente em muitos casos de criações toponímicas posteriores ao período islâmico, testemunham estes nomes a prolongada contribuição da língua árabe na formação da toponímia de Portugal, embora já por intermédio da língua portuguesa. Os nomes gerais que permanecem na língua portuguesa, tendo sido frequentemente tornados topónimos, atestam a profunda penetração do árabe dialectal nas várias camadas da sociedade andaluz, inclusive no ambiente rural, em que competiu nos últimos séculos do período islâmico com a língua moçárabe, totalmente ou quase extinta no meio urbano.188
Um caso interessante é o nome Alcaria, proveniente do árabe al-qarya, que era um povoado rural de tipo disperso. Durante a transição para o português, este vocábulo mudou de significado, passando a denominar um habitat rural isolado189, o que explica a existência de povoações que levam o nome Alcarias, com o sufixo plural românico.190 Embora de uso muito reduzido no português contemporâneo, encontra-se o nome Alcaria e as suas derivações (Alcarial, Alcarias, Alcariota) com muitíssima frequência na toponímia.191

Por fim, como um dos melhor conhecidos topónimos árabes em Portugal é preciso mencionar o nome da província mais meridional do país. O topónimo Algarve provém da palavra al-ġarb, que significa “o Ocidente”. Como vimos atrás192, este termo geográfico incluía originalmente o inteiro Ġarb al-Andalus, ou seja, o Ocidente da Península Ibérica, que compreendía na concepção dos Árabes a maior parte da antiga Lusitânia. Com o avanço da Reconquista, o território do al-Ġarb foi diminuindo até se tornar reduzido à actual região do Algarve, o último reduto dos muçulmanos no Ocidente.193 É interessante que com este topónimo passou à língua portuguesa também o adjectivo algarvio, proveniente do árabe al-ġarbī (“ocidental, relativo ao ocidente”), um dos raros adjectivos árabes existentes nesta língua românica.194



5.1.2.Nomes antroponímicos

Como exemplos desta categoria de topónimos árabes traz o professor Melo Lopes os nomes195:





Faro

de Hārūn




Fátima

de Fāima

Mafamudes

de Mamūd

Mamede

de Muammad

Marvão

de Marwān

Murça

de Mūsā

Soeima

de Sulaymān

A esta sequência podemos ainda acrescentar como exemplos os seguintes topónimos das regiões setentrionais do país196:




Aboadela

de Abū ‘Abdallāh

Almançor, Mansores

de al-Manūr




Almodafa

de al-Muaffar

Beiúves

de Ibn Ayyūb

Maçode

de Masūd

Marame

de Maryam

Marou

de Umar

Meimão

de Maymūn

Moção

de Mūsā

Nazes

de Nāṣir

Saímes

de Sālim

Identificar os muçulmanos cujo nome permaneceu na toponímia portuguesa, pode ser uma tarefa difícil por causa da já mencionada escassez de textos árabes relativos ao território do ocidente da Península Ibérica. Não obstante, duas excepções importantes são os nomes das cidades de Faro e de Marvão. No caso de Faro, julga-se que este topónimo provenha do nome de ibn Harun197, o primeiro governador da taifa de Santa Maria no século XI, membro da família Banu Harun198. Quanto ao segundo topónimo, relaciona-se com a figura de Abd ar-Rahman ibn Marwan al-Jilliqi199, governador do al-Ġarb autónomo no século IX. Além destes dois exemplos, parece razoável estabelecer também uma relação entre os topónimos Almançor e Mansores e al-Mansur ibn Abi Amir200, célebre político na época do califado omíada no século X.

Alguns nomes antroponímicos têm origem no patronímico árabe, formado a partir da palavra ibn ou bin („filho“), acrescentada ao nome do pai. Esta categoria representam, por exemplo, os topónimos Bencatel e Bensafrim. Da mesma forma são formados vários nomes tribais, compostos da palavra benī ou banū (“filhos”), e do progenitor da tribo ao que está acrescentada.201 Como exemplo deste tipo de nomes, abundantes na geografia portuguesa, podemos citar os seguintes nomes: Bem Amor, Benafim, Benagaia, Benagil, Benalfange, Benfarras, Bengado.

À categoria dos nomes tribais pertencem também alguns topónimos que não são formados a partir do patronímico. São, por exemplo, estes do vale do Tejo202:





Alcanena

de al-Kināna (tribo de Árabes do norte)

Cains

de Qayn (tribo de Árabes iemenitas)




Lobata

de Luwāta (tribo de Berberes)

Mistasa

de Misāsa (tribo de Berberes)

Zorro

de Zuhra (tribo de Árabes do norte).

O estudo destes vestígios da presença de grupos tribais é particularmente importante para o conhecimento da composição étnica do Portugal muçulmano, já que nos podem servir como indicador da intensidade do povoamento árabe e berbere em várias regiões do país e complementar assim os relatos de historiadores muçulmanos. O professor Oliveira Marques oferece as seguintes informações sobre a sua difusão no território de Portugal:


“Tribos berberes e árabes difundiram-se um pouco por toda a parte. A análise dos topónimos começados por Ben- ou Bem- (muitos deles posteriormente latinizados e aportuguesados) revela a abundância desses grupos etno-sociais. Examinando 75 dos mais evidentes, verifica-se que quase uma terça parte se localiza no Algarve, seguido pelos distritos de Beja (15%), Setúbal (12%) e Évora (9,5%). Só menos de 10% se situa a norte dos distritos de Lisboa-Santarém-Castelo Branco.”203
Desta maneira, a evidência toponímica testemunha o historicamente atestado povoamento árabe, concentrado sobretudo no Algarve e no Alentejo.204

No contexto português é notável o topónimo Algoz (do árabe “al-Ġuz”), no concelho de Silves (distrito de Faro), derivado do nome da confederação tribal turca Oghuz.205 No território de Portugal é atestada a presença de membros desta etnia em 1191, quando um grupo participou na reconquista de Silves aos cristãos e possivelmente tenha-se estabelecido como milícia defensiva nos arredores desta cidade algarvia, ocupando o espaço que, eventualmente, ficaria com o seu nome sob a forma Algoz.206


5.1.3.Nomes de localidades islâmicas

É a categoria mais rara entre os topónimos recolhidos. O professor Melo Lopes explica a sua origem como resultado provável da presença de indivíduos provenientes dos países islâmicos, trazendo os seguintes exemplos207:




Alquerubim

de al-Qayruwān (Cairuão, cidade na Tunísia)




Marrocos

de Marrākuš (Marrocos ou a cidade de Marraquexe)

Meca

de Makka (Meca, cidade na Arábia Saudita)

Ourém

de Wahrān (Oran, cidade na Argélia)

Tunes

de Tūnis (Tunes, cidade na Tunísia)

Um caso interessante é o nome Almograve, pertencente a uma localidade no distrito de Beja. Em árabe o termo al-maġrib significa “o Ocidente” e na sua aplicação particular denomina habitualmente Marrocos, no entanto, no caso do topónimo português conserva ainda o seu sentido genêrico.208 É questionável se o topónimo Marrocos se refira ao país homónimo ou à cidade de Marraquexe, que lhe deu nome.209

O nome Ceitil, encontrado na toponímia de Lisboa, provém do adjectivo árabe sebtī, nome relativo do topónimo Sebta (Ceuta, cidade na África do Norte). Era, inicialmente, nome comum, designativo da moeda cunhada em memória da conquista de Ceuta pelos Portugueses, em 1415. O topónimo refere-se, talvez, a algum morador ou proprietário desse lugar, conhecido por este nome.210


5.1.4.Nomes não-árabes que testemunham a presença histórica de muçulmanos

Além dos topónimos derivados da língua árabe, deixaram os muçulmanos também um outro tipo de vestígios toponímicos que aludem à sua presença no território de Portugal. Nos séculos que se seguiram após a terminação da Reconquista, os muçulmanos foram reduzindo-se a um grupo pequeno, devido à emigração e à absorção na comunidade cristã.211 A lembrança da sua presença permaneceu, contudo, na memória da população, o que reflectem vários topónimos derivados da palavra Mouro, designação de muçulmanos nos idiomas românicos peninsulares.212 No meio urbano pertencem a este grupo particularmente as assim chamadas mourarias, ou seja, bairros destinados à moradia de muçulmanos após a tomada das cidades do al-Ġarb pelos cristãos213, sendo o representante mais conhecido a Mouraria de Lisboa. Outras localidades com este nome registámos também nos concelhos de Albufeira, Beja, Caldas da Rainha, Évora, Moura e Tavira. A sua distribuição geográfica coincide plenamente com a historicamente atestada presença de numerosas comunidades de muçulmanos sob o domínio cristão nos arredores de Lisboa, no Alentejo e especialmente no Algarve.214

Outros topónimos derivados do termo Mouro são, por exemplo, Poço dos Mouros, Rua dos Mouros e a Quinta da Mourisca em Lisboa, Castelo dos Mouros e o Rio de Mouro no concelho de Sintra, Algar dos Mouros no concelho de Loulé, São Martinho de Mouros no concelho de Resende, Vilar de Mouros no concelho de Caminha, e inúmeros outros nomes locais através do país. Muitos sítios relacionados com “Mouros”, frequentemente construções antigas, anteriores ao período islâmico ou até pre-históricas como dólmenes ou mamoas com antas, estão ligados com lendas e contos populares em que os “Mouros” e as “Mouras” têm carácter de seres sobrenaturais ou míticos, o que faz suspeitar que se trata de algumas divindades pré-cristãs, só posteriormente associadas com os invasores muçulmanos.215

À categoria de nomes que aludem à presença histórica dos muçulmanos pertence ainda o topónimo Mesquita, designativo de edifício em que os muçulmanos practicam as suas cerimónias religiosas. Supõe-se que em muitos casos este nome, frequente, sobretudo, para sul do Tejo, se deva à existência ou à tradição da existência de mesquitas nas localidades em que se encontra.216 Embora a palavra “mesquita” seja de origem árabe (de “masǧid”), não passou ao português directamente desta língua, como se deduz pela presença da oclusiva palatovelar surda [k], no lugar da africada pré-palatal sonora [d͡ʒ].217 Existem diferentes interpretações acerca da língua transmissora, sugerindo alguns autores a mediatização do nome através do grego bizantino, arménio ou talvez berbere.218 Na toponímia registámos, por exemplo, o nome Ponte da Mesquita no concelho de São Brás de Alportel ou a Rua da Mesquita em Évora. A palavra masǧid, com aglutinação do artigo árabe al-, será a origem imediata do topónimo Almagede219 no concelho de Santiago do Cacém e, talvez, do nome Almoçageme no concelho de Sintra.220



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