Masarykova univerzita V brně Filozofická fakulta



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5.2. Difusão geográfica dos topónimos árabes

Embora não seja possível no âmbito deste trabalho avaliar com precisão a difusão geográfica dos topónimos árabes em Portugal ou até fazer uma estimativa relativamente ao seu número total, atreveremo-nos a chegar a algumas concluões com a evidência parcial que temos à disposição.



Se analisarmos em soma 151 topónimos recolhidos do ponto de vista geográfico, deixando ao lado os de ocorrência muito frequente, dispersos pelo país, como Alcaria, Aldeia, Arrabalde, Azenha e Laranjeira, ou os nomes derivados de outros topónimos como Alcantarilha ou Algueirinho, podemos constatar os seguintes números para cada distrito:


1) Distrito de Lisboa

43 topónimos:
Açucenas, Adelas, Adiça, Albarrã, Alcaçarias, Alcainça, Alcântara, Alcoentre, Alcolena, Alcúdia, Alecrim, Alfaiates, Alfama, Alfândega, Alfarrobeira, Alferes, Alfinete, Alfofa, Alfurja, Algés, Algibebes, Algueirão, Almazém, Almargem, Almoçageme, Almocavar, Almotacé, Alverca, Arraçário, Arrais, Azambuja, Borratém, Ceitil, Chafariz, Fangas, Meca, Nora, Odiana, Queluz, Odivelas, Saloio, Xadrez, Xarca



2) Distrito de Santarém


32 topónimos:
Açougues, Açude, Alcaide, Alcanena, Alcolura, Alferrarede, Algudi, Almares, Almargio, Almegue, Almeirão, Almixaris, Almoxarife, Almuinha, Alvorão, Arrife, Arroz, Asno,Assacaias, Azemel, Azinhaga, Bem Amor, Árgea, Arracefe, Cains, Couço, Fátima, Lobata, Mistasa, Ourém, Safas, Zorro


3) Distrito de Faro


23 topónimos:
Albufeira, Alfeição, Algarve, Algoz, Aljezur, Almancil, Almeijoafas, Alvor, Arrifana, Benafim, Benagaia, Benagil, Benfarras, Bengado, Bensafrim, Loulé, Faro, Mesquita, Odeáxere, Odeleite, Odelouca, Odesseixe, Tunes


4) Distrito de Viseu


13 topónimos:
Aboadela, Almodafa, Almofala, Beiúves, Lafões, Maçode, Moção, Mafamudes, Marame, Marou, Marvão, Nazes, Saímes


5) Distrito de Setúbal

9 topónimos:
Alcácer do Sal, Alcochete, Almada, Almagede, Almaraz, Alpeidão, Alvalade, Arrábida, Azeitão




6) Distrito de Beja

6 topónimos:
Algodor, Almodôvar, Almograve, Atafona, Cuba, Marrocos





7)Distrito de Castelo Branco



5 topónimos:
Alcains, Alcamim, Algar, Isna, Meimão


8) Distrito de Leiria


5 topónimos:
Alfeizerão, Alqueidão, Alvaiázere, Alvorge, Azoia





9) Distrito de Évora



5 topónimos:
Alcalá, Alcárcova, Alcáçovas, Benalfange, Bencatel





11) Distrito de Aveiro



3 topónimos:
Almançor, Alquerubim, Mansores


12) Distrito de Portalegre



2 topónimos:
Assumar, Mamede




13) Distrito de Guarda



2 topónimos:
Almeida, Murça





14) Distrito de Coimbra



2 topónimos:
Alfafar, Almedina





15) Distrito de Bragança


1 topónimo:
Soeima



Visto que os dados toponímicos que foram utilizados para este trabalho foram suficientemente extensos somente no caso dos distritos de Lisboa e Santarém, em detrimento das demais regiões, seria imprudente fazer uma estimativa acerca da divulgação dos nomes árabes apenas em base destes números. Sem embargo, felizmente dispomos de outra evidência que os até certo grau completa. Segundo o mapa incluído no livro The Individuality of Portugal do professor D. Stanislavski221, o número de topónimos árabes e arabizados por 1000 km² em vários distritos de Portugal é222:


  1. Distritos de Faro, Lisboa e Beja:

10.1-20.0 nomes por 1000 km²


  1. Distritos de Évora, Setúbal, Santarém, Leiria, Coimbra e Aveiro:

5.1-10.0 nomes por 1000 km²


  1. Distritos de Viseu e Guarda:

3.9-5.0 nomes por 1000 km²


  1. Distritos de Portalegre e Castelo Branco:

2.9-3.8 nomes por 1000 km²


  1. Distritos de Porto, Braga e Viana do Castelo:

1.9-2.8 nomes por 1000 km²


  1. Distritos de Vila Real e Bragança:

1.1-1.8 nomes por 1000 km²
Como podemos observar, estes dados correspondem num grau considerável não só com a anteriormente reproduzida lista dos nomes recolhidos, mas também com o nosso conhecimento da situação demográfica no Portugal muçulmano em que a maior parte da população se concentrava no Algarve, no vale do Tejo, na região de Lisboa e Setúbal e em alguns sítios do Alentejo, de maneira que estas áreas também indicam a maior concentração de topónimos árabes. Do mesmo modo, estes dados não contradizem às já mencionadas informações sobre os vestígios toponímicos de tribos árabes e berberes, que sugerem uma maior difusão destes elementos étnicos no Algarve e nos distritos de Beja, Setúbal e Évora.

Quanto à relativa escassez de nomes árabes nos distritos alentejanos de Beja, Évora e Portalegre, em comparação com os distritos vizinhos, parece ser surpreendente numa região que foi definitavamente reconquistada pelos cristãos só no século XIII, e pode levantar dúvidas acerca do valor informativo dos dados recolhidos para a região do Alentejo. No entanto, J.M.Piel223 confirma este facto, oferecendo também algumas explicações possíveis:
„Evidentemente que não podem faltar nomes árabes, mas estes não desempenham, principalmente no Alentejo, o papel que seria de esperar numa região submetida ao domínio muçulmano durante quatro séculos e meio, e mais sendo menos numerosos, p. ex. que no Ribatejo. É verdade que o Ribatejo e a região ao norte de Lisboa deveriam oferecer desde sempre um povoamento mais denso e consequentemente maior cópia de nomes de lugar, mas não é menos certo que a proporção dos arabismos do léxico comum regional alentejano e algarvio se revela sensivelmente superior à dos arabismos toponímicos. Será, pois, legítimo concluir que deveria ter havido em muitos casos uma substituição, espontânea ou intencional, de denominações primitivamente árabes por novas denominações portuguesas.“224
O que pode captar a nossa atenção é a numerosa ocorrência de topónimos árabes nas regiões setentrionais, sobretudo nos distritos de Viseu e Guarda. Embora estas áreas tenham estado na posse dos muçulmanos por menos tempo do que as regiões a sul do Tejo225, para o centro e o norte do país vinham vagas successivas de moçárabes que traziam consigo também alguns elementos da cultura árabe que haviam assimilado. Estas migrações foram particularmente intesas nas décadas centrais do século IX.226 Além dos moçárabes vinham para o Norte vários muçulmanos renegados ou captivos, reduzidos à condição servil.227 Como vestígios da sua presença deixaram topónimos derivados dos nomes das localidades do Sul donde tinham vindo, por exemplo Coimbrões, Cordoveses, ou os que apontam para a sua origem étnica (melhor dito religiosa), como Vilar de Mouros ou Sarracenos, e sobretudo vários nomes antroponímicos de origem árabe, por exemplo Beiúves, Meimão Moção etc.228 Segundo os dados de O.Ribeiro, registam-se no noroeste do país, particularmente nos distritos de Porto, Braga, Aveiro, Viseu e Vila Real, ao todo, 267 topónimos relativos à presença dos muçulmanos e moçárabes.229 Com as seguintes palavras comenta O. Ribeiro a contribuição toponímica destes grupos religiosos nas regiões setentrionais do país:
Esta densidade, à primeira vista, poderia parecer significativa de um repovoamento mais intenso; mas como ocorre, por um lado, na região mais povoada do país, por outro lado na de maior disseminação e, portanto, de maior número de lugares, todos os grupos de topónimos que apareçam com certa frequência têm aí sempre larga (ou a mais larga) representação. (…) A toponímia arábica do Noroeste indica um afluxo modesto de povoadores numa região onde só se falavam os dialectos romances; por isso ela está apenas representada pelos nomes próprios que eles trouxeram. A toponímia arábica do Sul tem outra fisionomia: além de mais densa, compreende, como o vocabulário comum da mesma origem, grande variedade de sentidos.“230

Os dados do professor Stanislawski mostram que densidade da toponímia árabe e arabizada em Portugal é notável até no contexto peninsular, sendo a densidade de nomes árabes no Algarve, Alentejo e Estremadura igual àquela nas regiões espanholas mais marcadas pela presença dos Árabes como o sudeste da Andaluzia, Comunidade Valenciana ou as Ilhas Baleares, superando as demais áreas da Península.231

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