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O Processo Histórico 2.1 O Desenvolvimento até 1890



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2. O Processo Histórico

2.1 O Desenvolvimento até 1890


Para percebermos a situação em 1890, o ano em que começa o romance Yaka, é preciso esboçar o desenvolvimento desde os primeiros contactos entre Portugal e Angola e as primeiras fases do colonialismo português.

Angola era povoada pelo menos desde oséculo V a.C., mas existem achados arqueológicos de ocupações muito anteriores. Os portugueses, sob o comando de Diogo Cão, no reinado de D. João II., chegaram ao Zaire em 1482-1484. Poucos anos mais tarde os portugueses voltaram e trouxeram um grupo de missionários e artesões. A seguir iniciou-se a conquista desta região de África, incluindo Angola, e uma nova época para o reino de Kongo que dominava a região. A política portuguesa em relação ao manikongo7 passou por várias fases. No início os portugueses tratavam-no como igual, limitavam-se a mandar para África os missionários e artesões e com a ajuda do manikongo exploravam o interior para reservarem um monopólio comercial e para difundirem o cristianismo. Esta fase acabou em 1570 ao o manikongo se tornar vassalo do rei português e os portugueses começarem a meter-se nos assuntos internos com o objectivo de captar os mais escravos possíveis. Angola transformou-se rapidamente no principal mercado abastecedor de escravos das plantações da cana-de-açúcar do Brasil e de São Tomé e Prícipe e funcionou assim até finais do século XVIII. O reino desintegrou-se nos países pequenos, cujos sobas dependiam dos governadores portugueses.

Durante a ocupação filipina de Portugal (1580-1640), os holandeses tentaram afastar os portugueses desta região, ocupando grande parte do litoral (Benguela, Santo António do Zaire, as barras do Bengo e do Cuanza), mas em 1648 foram expulsos.

Depois da proclamação de independência do Brasil em 1822, o tráfico de escravos foi oficialmente abolido em 1836, mas não era nada difícil subornar os funcionários. Em Dezembro de 1854, apareceu o primeiro decreto governal abolindo a escravidão. Segundo outro decreto, de Abril de 1858, estimava-se o desaparecimento da escravidão dentro de vinte anos. Não obstante, nem o decreto governal de Fevereiro de 1869 acabou com a escravidão: os escravos tornaram-se "libertos", mas tinham que servir aos seus donos até 1878. Depois entrou em vigor a lei sobre o trabalho contratual. Pessoas contratadas chamavam-se "serviciais"; qualquer pessoa sem contrato foi designada como "vagabundo", o que a levou ao trabalho forçado. De qualquer maneira, a caça aos escravos continuou, num país de tanta extensidade como Angola era impensável controlá-la; todavia pela primeira vez era considerada ilegal. As consequências eram catastróficas: o número de escravos deportados de Angola e Congo estima-se entre 6 000 000 e 13 000 0008, muitos morreram ainda durante o transporte.



É natural que os lugares façam lembrar do passado como acontece no caso de Benguela, um porto importante para o tráfico de escravos, onde decorre a grande parte da narrativa: "Benguela dos quintalões. Quintalões onde escravos dos Ganguelas, do Bié, da Lunda9, dos Lozi e de mais ainda, da costa Oriental de África, vinham parar. Engordavam aí para resistir à viagem de barco até S. Tomé, Antilhas ou Brasil. " (Pepetela: Yaka, p.25)

Angola, sempre referida pelos cronistas portugueses como uma terra bem povoada, tornou-se num dos países menos povoados da África tropical. A escravidão não corrompeu só o pensamento das pessoas (a degradação do ser humano considerado uma coisa ou animal, chamado peça; durante a época de escravidão nasceram os mitos europeus sobre a inferioridade da raça preta), mas também a economia. Excepto o comércio de escravos (sobretudo nos portos como Luanda e Benguela), não havia outros negócios. Nem o comércio podia contribuir para o desenvolvimento económico, pois os artigos recebidos em troca de escravos eram sobretudo tecidos, armas, álcool e bugigangas. O antigo mercado entre tribos, tão desenvolvido na África central, quase desapareceu, pois os contactos reduziram-se em assaltos e guerras de pirataria. "O comércio tinha caído muito, porque Benguela e Catumbela viviam do embarque de escravos." (p.27) Os países grandes iam-se desintegrando e os sobas concentravam nas suas mãos todo o poder, tentando tirar o mais possível do comércio. Os portugueses suportavam estas tendências; era mais fácil ditar os preços aos comerciantes pequenos.

A colonização do interior renovou-se entre anos setenta e noventa do século XIX, pois os africanos ainda controlavam o comércio nos planaltos do interior. Tratou-se também duma resposta às pretensões de outras potências europeias, como a Inglaterra, a Alemanha e a França, que reclamavam na altura o seu quinhão em África. Em 1884-5, durante a Conferência de Berlim, foram estabelecidos os limites das pretensões portuguesas e nos anos seguintes foram firmados diversos tratados estabelecendo os territórios que a cada um cabem.


2.2 A Boca: 1890/190410


No centro do romance Yaka é a família Semedo, oriunda, bem como a de Pepetela, de Portugal. O primeiro dos Semedos, Óscar, chega a Moçâmedes em 1880, exilado de Portugal por ter morto a sua mulher. Nunca admite este fato e proclama que foi por causa das suas opiniões republicanas. Sendo da origem nobre, mais tarde não lhe apetece muito falar sobre os primeiros anos em Angola em que se dedicava aos trabalhos agrícolas. Muda para Capangombe onde há uma centena de famílias brancas, a maior parte degregados11, militares e «brasileiros». E também mulatos, "era coisa que crescia como capim" (p.20). Encontra ali a sua segunda mulher, Esmeralda, "a primeira branca a nascer em Capangombe"12.

No fim do século XIX, os africanos constituiam mais que 99 % da população angolana. Em Angola havia menos que 10 000 brancos13, concentrados sobretudo nas cidades litorais, em Luanda e em Benguela. Da maior parte tratava-se dos degregados ou pessoas que não tinham sucedido em Portugal ou no Brasil. Os degregados eram envolvidos no tráfico de escravos e difundiam desordem e corrupção no país. Por causa do seu comportamento sem escrúpulos, a maioria de africanos angolanos começaram a desconfiar dos colonos portugueses. Além do tráfico de escravos, os portugueses (sobretudo os que vieram no fim do século XIX e depois no início do século XX) dedicavam-se à agricultura e pesca, bem como às actividades comercias nas cidades e ao mercado no sertão. Na parte do sul, as colónias de fazendeiros que tinham vindo residir no início do século XIX iam desaparecendo com os colonos, voltando para Luanda.



Os colonos faziam cana-de-açúcar, algodão e criação de gado, mas uma coisa corrente eram os ataques dos mucubais14 roubando o gado e em seguida as vinganças dos brancos e roubos multiplicados. O gado de Óscar Semedo foi o único que não sofreu nada da peste bovina e trouxe-lhe lucro, bem como especulações com o gado nos anos depois da seca em 1887. Após o casamento com Esmeralda decide-se não permanecer mais naquela região atrasada e mete-se ao caminho para Benguela. Levam também a velha Ntumba, escrava que tinha criado a Esmeralda e naquela altura lhe pertencia. No caminho, em 1890, nasce o primeiro filho, Alexandre Semedo. Mais tarde a família chega a Benguela.

Como já dissemos no capítulo 2.1, embora a escravidão já tivesse sido oficialmente abolida em 1858, respectivamente em 1869, as relações entre donos e escravos não foram rompidas logo e demoraram ainda muitos anos. A época referida, a viragem dos séculos XIX e XX, é caracterizada pela luta incipiente contra os colonos. Não é de estranhar que Óscar Semedo decide fugir da "região insegura com constantes levantamentos de libertos, mucubais e mundombes15" (p.21).

O comércio prosperava, mais e mais portugueses chegavam a Angola, "cada barco trazia mais colonos para o Bié, o Huambo, Benguela." (p.37). Pela primeira vez, os emigrantes portugueses foram voluntariamente para Angola. A imagem de colónia de degregados desvanecia-se. Com tempo os escravos foram substituídos por borracha, cera, marfim e couros. Mas a prosperidade não demorou muito tempo por causa da concorrência da borracha asiática mais barata. "A culpa é dos ingleses e holandeses. Eles é que se lembraram de ir buscar ao Extremo Oriente, só para nos tramar." (p.40) "Essa crise da borracha ia provocar muita maka. Até guerra." (p.42) No interior mandavam os capitães-mores, mas "em vez de dominarem os cafres, só fazem comércio" (p. 48).

Os levantamentos eram cada vez mais frequentes. Depois da derrota em 1904 cerca do vau de Pembe Portugal reforçou as suas forças armadas e já em 1907 José Augusto Alves Roçadas venceu e dominou esta região de sul.



Alexandro acaba a quarta classe e graças à herança da loja do Sô Queirós na qual Óscar trabalha torna-se dono do seu próprio pai. No mesmo tempo ouvem a novidade que tinha se chegado ao acordo com os ingleses para um caminho de ferro que partia da costa e atravessava todo o centro até à fronteira oriental. Em 1901 começou a construção do caminho de ferro de Moçâmedes a Lubango. Em 1902 o governador atribuiu a licença aos ingleses para construirem e por 99 anos utilizarem o caminho de ferro juntando o porto Lobito com os planaltos em cima de Benguela e chegando até a fronteira dos territórios ingleses. Isso implicou o fim das caravanas carregando artigos do interior, pois no comboio poderiam-se transportar quantidades que as caravanas levavam meses, tudo ir-se-ia vender mais barato, deixaria de haver necessidade de intermediários e os quimbares iriam perder a influência política sobre os reinos do interior. Os africanos também percebiam a obra como a ameaça dos trabalhos forçados e a inquietação estendia-se.

"Os brancos de calções compridos escreviam e gritavam. Os capatazes vinham e regritavam as ordens. Os cipaios16 vimbali faziam cumprir com a palmatória e o chicote, quando o cansaço já curvava as costas dos homens ao peso da picareta. Os que morriam eram sepultados ao longo do caminho de ferro. Recrutavam mais para tomar lugar dos defuntos. Não era para isso que havia regedores e administradores e capitães? Para que refilar comida era pouca? Tinha pirão todos dias, às vezes com peixe seco pescado em Benguela. Precisava mais? Trabalha, trabalha, cantava o chicote. " (p.95)

O comércio com o interior foi rompido com a revolta dos bailundos. Começaram a queimar as lojas dos comerciantes no Bailundo, havia centenas de brancos mortos, os primeiros refugiados chegavam a Benguela. "Falavam no chefe, o terrível Quebera e seu amigo Samacaca. Como começara? Ninquém que sabia contar. Só que esse Quebera era um monstro, trazia uma pele de onça nas costas, dentes enormes que lhe saíam da boca a escorrer sangue. " (p.52)

Mutu-ya-Kevela17, pelos comerciantes chamado Quebera, em 1902 dominou toda a zona que era impensável uma caravana passar. Começou a guerra contra os portugueses. Os habitantes nas suas petições inumeráveis pediam que o Governador tomasse medidas, mas a tropa parou numa distância segura. Os habitantes de Benguela escrevem uma petição ao Governador-Geral exigindo novo Governador em Benguela e mais tropa para pôr o interior em ordem. Mutu-ya-Kevela veio buscar o soba do Huambo para se unirem na luta contra os colonos, a escravatura, a posição inferior de serem só intermediários do comércio e contra o álcool que enfraquecia os homens. "Mesmo os sobas independentes são escravos, escravos da borracha. (...) É preciso fazer muito milho, (...) não ser intermediário do comércio da borracha." (p.54) Esta guerra foi pacificada só pelas tropas metropolitanas mandadas pelo governador-geral Pais Brandão, em Julho, matando Mutu-ya-Kevela bem como, em Outubro, o soba do Huambo.

A guerra foi terminada mas as caravanas do interior não chegavam e os negócios estavam no zero. Os responsáveis perceberam que era necessário que os indígenas participassem na administração. "A tropa começou nomear novos sobas, fiéis a Portugal. Lhes chamavam regedores indígenas." (p.69) A sua primeira tarefa foi reactivar o comércio com Benguela.



Com tempo, as caravanas reapareceram e o preço da borracha voltou a subir ligeiramente. O pai manda Alexandre para a loja ajudá-lo. Passando dias na loja à espera dos clientes, Óscar revela ao filho a sua paixão pelos gregos. Falando-lhe sobre a História, a literatura, as lendas, dando-lhe livros para ler. Os preços da borracha cairam pela segunda vez, agora por causa da concorrência da do Extremo Oriente, mais barata e da melhor qualidade. Óscar Semedo o tinha previsto e orientou-se para outros artigos. Comerciantes amarrados só à borracha perdem tudo, até alguns se suicidam. A história se repete. Outra vez aparece o medo dos bailundos e os ingleses dizem que não continuarão as obras do caminho de ferro se o interior não estiver pacificado.

O ano de 1890 é também o ano do Ultimato Inglês. Em 1886, Portugal fez um gesto que outras potências achavam ser uma piada: no assim chamado mapa de cor-de-rosa apresentou ao mundo a sua ideia sobre a divisão da África. A Portugal devia caber todo o espaço entre Luanda e Moçambique (no mapa pintado de cor-de-rosa). Naturalmente, por este território interessavam-se os ingleses, tendo como objectivo criar um império de Cairo até Cidade do Cabo. As pretensões portuguesas foram travadas pelo ultimato, o primeiro passo que levou o empenhamento britânico em África em direcção à guerra. "Um suave ultimato" enviado a Lisboa a 10 de Janeiro de 1890 ameaçando com a guerra intimidou Portugal e levou à Convenção Anglo-Portuguesa, limitando as esferas da influência de uma forma muito desvantajosa para Portugal.



A atmosfera antibritânica é bem captada no romance: os portugueses estavam mesmo convencidos que os territórios da África Central lhes pertenciam e que os ingleses, pejorativamente chamados de bifes, tinham procedido injustamente. Óscar Semedo sempre se interessava pela política e não conseguiu aceitar o ultimato inglês, "cada vez que falava disso, espumava de raiva: -Tiraram-nos o que era nosso. Todo o território do Atlântico ao Índico, o território cor-de-rosa, era nosso por direito natural. De descoberta. Mas os ingleses queriam o meio. E disseram: ou nos dão isso, ou é a guerra. E esse rei incapaz e covarde dobrou-se. "(p.26)

Os ingleses também inspeccionavam se o comércio de escravos realmente acabou e não deixavam os barcos atravessar o Atlântico. "Os navios ingleses andavam à caça dos barcos negreiros e Portugal tinha assinado o tratado para pôr fim ao «tráfico de cabeças-de-alcatrão». Se foi fazendo, mas em menor quantidade. Na altura, já só os enviavam em pequenas ambarcações para S. Tomé." (p.8)

Naquela altura também era preciso travar as expansões alemãs, pois haviam tentações de anectar a parte do sul.

Em 1898, os alemães receberam uma permissão da Inglaterra para tomarem o sul de Angola; só um ano mais tarde a guerra anglo-boer garantiu a inviolabilidade das fronteiras portuguesas. Não obstante, as negociações sobre divisão das colónias portuguesas entre a Inglaterra e a Alemanha continuavam até mês de Julho de 1914. A Inglaterra atribuiu Angola à Alemanha, mas um mês depois rebentou a Guerra Mundial e a convenção tornou-se inútil.






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