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O Desenvolvimento entre 1904 e 1917



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2.3 O Desenvolvimento entre 1904 e 1917


Caracterizemos agora brevemente o desenvolvimento entre anos 1904 e 1917. A imigração intensiva trouxe, entre outros, novas tecnologias e instalações. Foram construídas centrais eléctricas, ligaram-se as primeiras lâmpadas (no romançe mencionado como uma lembrança dos vândalos que as sempre partiam). A ligação entre Portugal e Angola intensificou-se. Angola estava completamente sob a influência portuguesa, considerada sua posse e sem perspectiva de libertação futura. Por outro lado, possuir ainda não significava controlar. Nem em 1917 Portugal controlava todas as regiões angolanas; isso só conseguiu no início da terceira década do século XX. Não sendo capaz de dominar o espaço militarmente, Portugal tentou controlar pelo menos a economia. Uma lei de 1906 carregou de impostos os indígenas. Um ano mais tarde foi implantada a cultura obrigatória do algodão, tendo como consequência ainda mais fome, pois os africanos não conseguiram sincronizar a cultura do algodão com a cultura dos produtos de alimentação.

Em 1910 implantou-se em Portugal o regime republicano mas as ideias republicanas não chegavam muito a Angola. Em 1912 veio José Mendes Ribeiro Norton de Matos (governador-geral no período de 1912 a 1915 e alto-comissário em 1921-24) para realizar suas reformas: tentou solidar as finanças públicas para motivar o trabalho dos africanos, suportava a colonização e garantiu a liberdade a todos os missionários desde que utilizassem português. Entendeu também que a melhor forma de oposição às pretensões alemãs seria o efectivo desenvolvimento económico da colónia e a rápida resolução dos conflitos e revoltas. O seu programa pode ser resumido em sete componentes básicas:

I - Passagem da organização administrativa militar para a organização administrativa civil. A posse civil do território.

II - O novo indígena: - da condição de trabalhador recrutado para a de proprietário e cultivador rural. Os géneros pobres. O aumento da produção.

III - As estradas.

IV - A proibição do comércio da ´pólvora e armas´, e do fabrico e venda de bebidas alcoólicas.

V - A assistência médica aos indígenas. O congresso da medicina tropical.

VI - A educação e a instrução.

VII - A vida de família e o conforto dos europeus. Habitações, transportes, comunicações, segurança e ordem públicas.18

Nos anos seguintes mostra-se a previdência de Norton Matos. "O Governo tinha razão. Por um lado combatiam-se as rebeliões e por outro davam-se as armas para as rebeliões. Foi o Norton Matos que proibiu, o único Governador inteligente que Angola teve." (p.212)

2.4. Os Olhos: 1917


A atmosfera do ano 1917 está brevemente descrita no início do capítulo, resumindo ao mesmo tempo os acontecimentos dos últimos anos referidos nos capítulos 2.2 e 2.3: revoltas dos bailundos, interrupção do comércio com o interior que implicou mudanças do estatuto social dos “vimbali“19, o avanço do comboio, implantação de impostos, trabalhos forçados e perda de sonhos dos indígenas por causa da solidificação da dominação portuguesa.

"Comboio chegou no Huambo, os mortos ao longo da linha não resuscitou. (...) O Bailundo parou as guerras, nunca mais, foi só buscar moleques no Moxico para mandar em S. Tomé. O Bailundo parou as guerras, à espera do comboio, não ameaçou mais Benguela nem Quilengues. Para quê, se o comboio matou as caravanas? Os vimbali perderam a voz grossa, não arreganham, viraram capataz de chitaca20 e pescaria. Aiué, antigos sonhos! Os capatazes, se não usam bem o chicote, as mãos deles é que ficam inchadas com as palmatoadas. (...) Assim ficam os senhores do caminho do mato, fracos pelo que-tem-tem do comboio. Pagam imposto, isso mesmo, também os vimbali agora pagam imposto indígena. (...) Mutu-ya-Kevela? Está onde? Os miúdos até desaprenderam o nome dele. Não há nome que fica quando comboio inglês avança. (p.99)

Alexandre Semedo já tem três filhos, Aquiles, Sócrates e Orestes, e também uma filha mulata com a negra criada Joana. Óscar Semedo já está morto - tanto festejou a queda da Monarquia, bebeu e dançou pela República triunfante que veio a biliose e morreu. O que preocupa todos e vai através todo o capítulo Os Olhos são as revoltas contra a plantação de café.

Angola experimentou muitas coisas que podiam dar lucro (o açúcar, a aguardente de cana, o tabaco, a vinha, a extracção de carvão, a caça à baleia, a prospecção de cobre, o cultivo de trigo), mas nada funcionou bem excepto a produção de café. No século XX, pela primeira vez, os imigrantes portugueses foram voluntariamente para Angola. A imagem de colónia de degregados desvaneceu-se. Gerações de traficantes de escravos e comerciantes de mato converteram-se em fazendeiros de café e gerentes de plantações. (Há uma pequena referência a este facto, na personagem de Sô Agripinho, "dono de caravanas e quimbares da sua meninice, que ia sendo condenado por tráfico de escravos, agora roceiro grande de café, a treinar discurso para deputado" (p.109).) Roubos de terras e o recrutamento forçado de mão-de-obra levaram aos constantes levantamentos de indígenas (que deram lugar à guerra pela libertação em 1961). Um dos mais intensivos levantamentos ocorreu em 1917 no Amboim, uma zona com terras óptimas para a plantação de café.



"Os cafres já estavam a fermentar há muito, recusavam-se a trabalhar nas roças, um ou outro soba resistia a abandonar as terras boas para café..." (p.106)

As notícias espalham-se rapidamente: "- Os cabeças-de-alcatrão atacaram primeiro os comerciantes, mataram gente, queimaram as lojas. Depois foram-se levantando também nas roças. Os cozinheiros envenenam os patrões, depois incendeiam-se as casas. Só as roças maiores resistiram, todos os colonos se refugiam nelas. Ninguém pode andar nas estradas, para chegar a Novo Redondo é uma aventura. " (p.106)

"As notícias vindas do Amboim eram terríficas: continuavam os massacres de brancos e os incêndios de fazendas. Já não devia ter sido muitos brancos vivos, a julgar pelos números. (...) Mas ninguém ria, porque se dizia ter sido descoberto um plano para matar todos os europeus de Luanda e Benguela." (p.142)

Outros países, e sobretudo a Alemanha, perceberam logo que apareceu uma ocasião para ganhar mais influência em Angola e começaram a suportar as tentativas de indígenas.



"-Se não limpamos a casa, estamos lixados, os alemães vêm aproveitar.

-Os alemães? - se espantou Alexandre, interrompendo o outro.

- Claro, os alemães. Andam no meio dos negros, a comandar as operações. (...) E também os calcinhas21 de Luanda, lá no meio a darem palmadinhas nas costas de alemães. Esses que aprenderam a ler nas missões protestantes.“ (p.108)

Os revoltados continuaram a incendiar as fazendas e a situação saiu do controlo das autoridades locais. O governador Massano de Amorim, de quem os jornais exigiam a demissão por não apoiar os brancos no Amboim, finalmente tomou a iniciativa e pediu ajuda às outras regiões, sobretudo de Benguela ("Na chata a seguir embarcaram os soldados que iam reforçar as tropas do Amboim, acuadas pelos sumbes22 e seles23 em revolta." (p.113)) e de Bailundo ("-Estão a preparar uma guerra preta24. Andaram a recrutar gente no Bailundo para irem para o Amboim. " (p.143)), foram mobilizados também homens sem treino militar. A situação era mais complicada por famas e superstições em que as pessoas acreditavam. "-Mas tenho muito medo, são muito selvagens lá no Amboim, até comem gente. É o que se diz em Huambo. " (p.144)

A revolta foi reprimida e a situação virou, os brancos vinham para se vingarem. Aldeias inteiras foram liquidadas. "-Chegávamos a uma libata, que é kimbo de lá. Juntávamos toda a gente. E matava-se tudo, mulheres e crianças também. " (p.156)

Levantamentos frequentes significavam que havia a vontade de mudar a situação em Angola. Inicialmente, as exigências diziam respeito sobretudo ao rompimento do sistema de trabalho forçado. Com o tempo, as opiniões se radicalizaram e apareceram primeiras exigências da verdadeira liberdade. (Angola tinha autonomia administrativa e financeira teoricamente a partir de 1914 mas realmente nada mudou.) Foi estabelecida a Liga Angolana, a primeira organização política, tendo como seu objectivo atingir a democracia. Não obstante, ainda havia longo caminho para andar - por tanto tempo a independência tinha sido tão impensável que levou muito tempo para as ideias de Angola independente se instalarem no pensamento de seus habitantes, bem brancos como pretos. Naturalmente, entre os indígenas , as tendências separatistas espalhavam-se mais rápido, por sentirem a injustiça e por sofrerem de trabalho forçado, mas também os comerciantes portugueses descobriram que a independência de Portugal, então um comércio sem intermediário, podia trazer mais lucro. As tendências separatistas estavam mais fortes em Benguela, um porto e centro comercial importante.



Todos esses argumentos aparecem também no romance, expressos nos diálogos entre portugueses. Benguela tinha boas condições, era o melhor porto da África, tinha um caminho de ferro, um planalto rico em comida. Os habitantes poderiam negociar directamente com o estrangeiro vendendo o café, a cera e o marfim sem passar por Luanda ou Lisboa onde ficava a maioria do dinheiro. Muitas pessoas protestavam contra Luanda e Lisboa. A vitória da República acalmou um pouco as irritações e aqueceu certas esperanças. Mas as lutas de partidos e grupos em Portugal tiraram as ilusões: estava visto que os portugueses eram incapazes de desenvolver a terra. Era preciso tomas decisões rápidas, modificar o sistema de trabalho forçado, atrair capital estrangeiro. (pp. 148-150)

Apareceu também um fenómeno novo na sociedade: alguns colonos começaram a sentir a sua pertença a Angola.

-Sabe o que lhe digo? Perdemos a grande oportunidade no século passado. Independência de Benguela com o Brasil. Já não tínhamos estes problemas. Lisboa e Luanda é que fazem as burrices todas e depois nós pagamos. (...)

O meu pai (Óscar Semedo) achava uma cretinice a independência de Benguela, mesmo a de Angola inteira. Que não haveria força para nos defendermos. (...)

- Mas era português. Sentimentalmente ele não podia aceitar a separação. Isso influenciava o seu raciocínio político. Mas nós não somos portugueses. Você e eu. Por isso nos entendemos de outra maneira.

-Não somos portugueses?

-Nada temos a ver com aquilo. Somos benguelenses, o que é muito diferente.

Era a primeira vez lhe diziam aquilo. Alexandre ficou assustado, pela coisa nova e inesperada. Soava como sacrilégio. Não eram portugueses? Se havia alguma coisa que nunca tinha posto em dúvida era isso.“ (p.147)




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