Masarykova univerzita


O Desenvolvimento entre 1961 e 1975



Baixar 166.28 Kb.
Página6/7
Encontro29.07.2016
Tamanho166.28 Kb.
1   2   3   4   5   6   7

2.8 O Desenvolvimento entre 1961 e 1975


Em 1962 teve lugar a primeira derrota de Potugal: perdeu a Goia. Este facto quebrou a moral de luta dos militantes em Angola.

Em fevereiro de 1962 Salazar abriu a discussão sobre a concepção do império. Marcello Caetano sugeriu fazer uma transformação radical e criar uma união livre, uma espécie dos Estados Unidos Portugueses. Salazar não aceitou tal radicalismo e cortou a troca de opiniões, tão desejada, logo no início.

Em março de 1962 a UPA foi relegada para o Congo. No entanto, as potências não deixaram a guerra em Angola parar. Com a ajuda da URSS, da Checoslováquia e da Cuba, o MPLA conseguiu formar uma concorrência dos grupos bacongos. Recebeu dinheiro, especialistas e equipamento suficiente para formar um grupo em condições de combater, treinado em Argélia. A UPA andou a ser suportada pelos EUA. A declaração do MPLA de março de 1962 conteve mais ódio para a UPA do que para Portugal. A UPA juntou-se com PDA, Partido Democrático de Angola, formando a FNLA - Frente Nacional de Libertação de Angola.

Em 1963 o MPLA abriu uma frente em Cabinda. Apesar das tentações da OAJ de unificar o combate, os conflitos entre o MPLA e a FNLA cresciam. A diplomacia então reconheceu GRAE, o governo exilado em Léopolville, como o representante oficial do "povo angolano combatente". Todos estes conflitos internos e tendências discordantes só atiraram Angola no caos. Os movimentos nacionalistas, pelo mundo concebidos como heróis, na realidade actuaram incompetentemente. A destruição de todo o "antigo", por isso mau, era apreciada como heroismo.

No decorrer dos anos sessenta, o MPLA tornou-se o mais poderoso e ganhou um apoio geral como representante da luta pela libertação.

O desenvolvimento em Angola deu razão a Salazar: era evidente que a democracia, de tanto ser proclamada como o resultado desejado da descolonização, nunca ia funcionar segundo as visões europeias ou americanas. Era impossível superar o regionalismo e tribalismo. Algumas potências já renunciaram a suportar os nacionalistas.

Em 1966 apareceu outro movimento: UNITA, União Nacional para a Independência Total de Angola, juntando sobretudo a nacionalidade ovimbundu do Sul de Angola.

Apesar da guerra, Angola desenvolvia-se: cresceram os números das escolas e hospitais, funcionavam bibliotecas, museus, cinemas, teatros, arquivos e clubes desportivos. Foram descobertas mais jazidas do petróleo e a produção ia aumentando.

Nem o afastamento da cena política de Salazar, em 1968, alterou o panorama político. Só com as eleições legislativas de 1969 se viria a verificar uma radicalização da atitude política, nomeadamente entre as camadas mais jovens, que mais se sentiam vitimizadas pela continuação da guerra. As universidades desempenharam um papel fundamental na difusão deste posicionamento. É neste ambiente que a Acção Revolucionária Armana (ARA) e as Brigadas Revolucionárias (BR) se revelam como uma importante forma de resistência contra o sistema colonial português, dirigindo os seus ataques, principalmente, contra o Exército.

Portugal ganhou, em 1971, mais um apoio: "As Flechas", os grupos de indígenas seles.

Em 1971, com a revisão da constituição, Angola e Moçambique obtiveram o estatuto de país.

Em 1972, o MPLA e a FNLA trataram da fusão e combinaram o procedimento comum. No entanto, quanto mais se delineava a perspectiva de tomar o controle, tanto mais os movimentos de resistência tentavam enganar o seu concorrente e a opinião pública mundial e apoderar-se da governação no país. Nunca existiu uma frente unida, o combate nunca conseguiu superar a sua fragmentação e além da destruição e repetição de lemas ideológicos não trouxe muito de positivo.

O governo português, a 25 de Abril de 1974, foi derrubado num golpe do Estado militar e este colapso, obviamente, foi sentido em Angola. Durante os 17 meses seguintes, os partidos políticos começaram a mobilizar os seus apoiantes e o exército colonial gradualmente retirou as suas tropas.

2.9 As Pernas: 1975


No início do ano decorreu um encontro da delegação do governo português com os representantes de três movimentos de libertação reconhecidos: FNLA, MPLA e UNITA. Foi estabelecido um governo de transição que deveria levar o país à independência em novembro 1975. Os três movimentos também iam participar em forças armadas e polícia. Apesar de tudo isso, os planos não se cumpriram.

O pessimismo do governo de transição é expresso também pelas personagens do romance:

"-Até recusei sempre ir para os sítios do café e diamantes (...), sabia que havia muita malandrice e nunca me quis meter. Falam agora do que se passou no Bocoio. Que vão fazer inquérito. (...)

-O Governo de transição é que vai fazer inquéritos sobre 61? Um governo formado pelos três movimentos de libertação e mais os portugueses fazer alguma coisa? É um governo burguês, que está amarrado pelas suas contradições e não funciona." (p.331)
Em março rebentou uma guerra entre a FNLA e o MPLA. A incapacidade de colaborar colocou em risco as preparações da independência. Embora os três movimentos tivessem negociado outra vez, em junho, e combinado passos que levariam à estabilização, na guerra civil, os tratados deste tipo não valiam nada. O MPLA expulsou todos os seus concorrentes de Luanda e as lutas alastraram-se por todo o país. A FNLA dominou o norte, liquidando tropas do MPLA e expulsando os portugueses para o Zaire. No fim de julho tomou Caxito, um ponto estratégico perto de Luanda. UNITA tomou conta do Bié e Huambo e em 1 de Agosto declarou oficialmente a guerra ao MPLA . O governo em transição caiu.

"Em Luanda o MPLA expulsa os outros dois, vai terminar o Governo de transição. A FNLA tomou conta do Norte. A Unita do Bié. No Lobito já houve tiros." (p.339)
A guerra civil transformou-se num conflito internacional: UNITA era apoiada pela África do Sul que já desde anos sessenta tentava ganhar mais influência em Angola; os países comunístas apoiavam o MPLA; Zaire e forças ocidentais anti-comunístas suportavam a FNLA. Seguiram invasões da África do Sul (que ocupou um complexo hidroeléctrico Ruacaná de que dependia a maior parte do sudoeste) e da Cuba.

Vem a notícia sobre a invasão dos sulo-africães apoiada pelos portugueses reaccionários para impedir a independência. Os sulo-africães vencem, os Faplas33 retiram para Benguela com baixas pesadíssimas.



O objectivo de todas as partes inimigas foi dominar a capital no dia da proclamação de independência. Nesta competição, o MPLA é que ganhou. Contudo, o almirante Leonel Cardoso rejeitou entregar a bandeira ao MPLA e fez um gesto teatral: entregou Angola ao "povo angolano". O novo país africano oficialmente nasceu a 11 de novembro 1975, proclamado pelas frases comunístas suponhando a liderança do MPLA.
Os brancos fugiam em massa, para Portugal ou para os países africanos vizinhos. O ambiente social mudou: os colonos, por tanto tempo indesejados, estavam a ser constantemente atacados, começou a indolação da população negra, o "único verdadeiro possuidor da terra angolana".

Vemos também no romance como se muda o estatuto do colono, bem como aconteceu nos países europeus sob a ditadura e ideologia socialista. "Dizer que ele é burguês ou capitalista agora já é feio? Há pouco tempo era honra."

"Esse sangue negro sempre foi uma mancha na família, excepto para o avô. Sofri por causa disso. Agora é uma medalha?" (p.333)

Mais uma coisa mudou na sociedade angolana: a política entrou no quotidiano dos habitantes e o povo entrou na política. "Olívia passou a ler Lenine, espetou o retrato do revolucionário russo e outro de Che Guevara no quarto onde antes estava o de Jesus. " (p.335)

"Estamos a fazer o mesmo para outros bairros, com a juventude, os Comités de Acção, mulheres, todo o povo."(p.350)

Entre os membros da família Semedo há muitas discussões sobre a política, cada um simpatiza com partido diferente.
A família Semedo percebe que a guerra civil começou. "As Fapla dividem as forças da Unita e da FNLA no Lobito, conseguem meter uma cunha considerada impossível e agora têm practicamente ganho."(p.363)

A Fapla realmente toma o Lobito, a Unita e a FNLA rendem-se. Ao ouvir as notícias do Lobito, e devido ao facto que já há primeiros tiros em Benguela (luta do MPLA contra FNLA), a família Semedo começa a arrumar as coisas e preparar a fuga para a África do Sul. Não sós - os brancos compreenderam a gravidade da situação; muitos fogem também para Portugal. Único Alexandre e Joel, seu bisneto, ficam. Joel quer participar na criação do futuro angolano. Alexandre morre satisfeito que pelo menos alguém dos seus descendentes considera Angola ser a sua pátria.
O grande mito grande caiu, o império português decompôs-se como último. Depois de muitos séculos da adoração duma quimera, Portugal teve que aceitar que não existe direito à subjugação e expoliação doutros povos. "E a Pátria, e Camões?"(p.150)

Alexandre, ao reconciliar-se no fim da sua vida com a visão de Angola como um país independente, apercebe-se da absurdidade das ideias portuguesas: "Sempre fomos homens cegos e fracos a querer travar as tempestades com as mãos. Acreditando ser heróis. Heróis do mar, Nação valente e imortal... Não é isso que diz o Hino? Sempre fomos uns palhaços batidos pelas ondas e puxados pelas correntes. Que somos nós para enfrentar o mar?" (p.226)
Um período da história angolana acabou. O colonialismo português foi derrubado, mas "as desilusões nascem porque antes se criaram ilusões". (p.334) A independência não resolveu os problemas como se tinha suposto; ao contrário, a situação era caracterizada pelo lema do MPLA: "A Luta continua." Angola saiu da guerra colonial e logo entrou na guerra civil, sendo - como um país recém-formado, cheio de controvérsias e lutas interiores - uma boneca nas mãos de potências mundiais. Teve ainda um longo caminho para andar, para atingir a paz em 2002.





Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal