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MASTER UNED NNTTIC

Módulo Comunicação Educacional

Professores-Tutores: Roberto Aparici e Francisco Sierra Caballero

Aluno: Estevam de Toledo


Atividade 3.0

Leia em nossa página web os artigos de Len Masterman (capítulo “Artículos selecionados por los docentes”, do módulo Comunicação Educacional) e escreva um artigo sobre a importância da Educação para os Meios. Pode complementar com outras leituras selecionadas por Você.




A importância e atualidade da Educação para os Meios


Estevam de Toledo

Introdução

Se eu não estiver enganado, foi durante os anos ‘60 que a utilização de recursos audiovisuais experimentou um avanço significativo no âmbito das organizações que lidam com educação no Brasil. Lembro-me de que, naquela ocasião, em 1968, realizou-se o I Congresso Brasileiro de Recursos Audiovisuais” e fundou-se a Associação Brasileira de Recursos Audiovisuais, com sede em São Paulo.


Ao tentar relembrar o tratamento que se dava à questão naquela época, percebo que se tratava de enfoques meramente laudatórios, que traziam como pano de fundo, o famoso “Cone de Dale” – uma classificação proposta pelo americano Edgar Dale e que conseguia colocar dentro da figura de um cone, todas a modalidades de RAV (recursos audiovisuais) existentes na ocasião. Dentre estes, destaque especial era dado ao uso de filmes educativos, os slides – que preferíamos chamar de diapositivos, o epidiascópio –raramente usado -, e os inevitáveis retroprojetores acompanhados das famosas lâminas ou transparências. No mais, a abordagem limitava-se aos cuidados e procedimentos a serem adotados. Lembro-me, por exemplo, de uma das receitas americanas, que recomendava que em matéria de transparências, nunca deveríamos ultrapassar o uso de 6 (seis), e que quando produzidas em número excessivo, poderiam conduzir a intoxicação.... mental. Claro está que não podemos nos esquecer de mencionar ações do porte de um Projeto Minerva – educação pelo rádio, organizado pela Fundação Roquete Pinto, ou de iniciativas tais como a do Projeto Saci (este ao que parece, não vingou), e do trabalho desenvolvido pela Fundação Anchieta, que só na cidade de São Paulo, conseguiu organizar mais de 200 telepostos como parte de projeto dedicado a faixa do denominado Ensino Supletivo.
Este era o cenário da ocasião. Do ponto de vista comportamental, havia dois aspectos que chamavam a atenção: o primeiro, como sempre, pertinente a resistência e inércia dos professores em romper com sua prática tradicional, o velho apego à aula expositiva enquanto recurso pedagógico e quando muito, o culto aos trabalhos em grupo. Acrescente-se a isto, o famoso quadro-negro, que depois se tornou verde, e a febre do uso de apostilas, sobretudo no âmbito do ensino secundário e universitário.
O segundo aspecto, na área comportamental, referia-se à chegada dos empresários ao ambiente educacional, empenhados em descobrir e aplicar estratégias de marketing, visando assegurar a realização de vendas em escala aos assustados professores e diretores de organizações escolares. Acrescente-se a estes, a iniciativa de organizações empresariais, sobretudo as multinacionais que aproveitavam-se da ocasião para disponibilizar, por empréstimo, e de forma gratuita, filmes didáticos, inevitavelmente carregados de conotações ideológicas ou mercantilistas pertinentes à área de atuação da empresa. O caso da Shell foi exemplo claro disto. A propaganda era parte integrante deste gesto de generosidade, e aparecia de forma subliminar ou mesmo explícita.
Hoje, decorridos cerca de 30-40 anos, o mundo mudou e temos que reconhecer que vivemos uma nova forma de paradigma, concentrada no uso da informação, daí o se falar em “era da informação, “revolução da informação”, ou era da “economia em rede”. Tal como o fizeram no século XX, a máquina a vapor, em seguida a eletricidade e o automóvel, da mesma forma, a rede mundial Internet e os computadores provocam agora toda uma reformulação na maneira de os homens se comunicarem e nas formas de funcionamento das organizações, sobretudo aquelas de fundo lucrativo. Creio poder afirmar, então, que o arsenal de RAV – recursos audiovisuais produzidos pela tecnologia de informações se amplia cada vez mais.
E o lado comportamental, como ficou? Não se pode dizer que houve grandes avanços. O professor – certa vez descrito como mais resistente às mudanças do que o próprio agricultor -, abriu um pouco a sua guarda e acabou aderindo um pouco mais. Mas ainda temos um longo caminho a percorrer nesta área. Da parte dos empresários, as técnicas de marketing hoje são mais apuradas, mas é possível que eles estejam caindo naquela velha armadilha: enaltecem as características de seus produtos e falham na medida em que não mostram a seus clientes (professores e dirigentes escolares) os benefícios que estes últimos poderiam obter na aplicação destes novos recursos.
Mas o espaço reservado à Educação para os Meios não é tanto em relação a análise de características e benefícios apresentados pelos novos recursos ou até mesmo na definição de escolha da mídia a ser adotada como suporte à abordagem de ensino-aprendizagem. Prende-se, isto sim, à preparação de professores na análise da natureza das mensagens que os aparelhos possam estar veiculando. E mais, cabe a Educação para os Meios, mostrar aos educadores que o referido arsenal situa-se não apenas dentro da sala-de-aula, mas encontra-se partout. De fato, cabe muito mais a Educação para os meios. Poderemos dizer, grosso modo, que visualizamos pelo menos duas diferentes áreas para a missão a ser cumprida pela Educação para os Meios: uma relacionada ao preparo a ser conseguido por professores e alunos enquanto consumidores ou alvos de informação, e a outro enquanto capazes de gerar informação fazendo uso das novas tecnologias aplicáveis à educação e a comunicação.

Professores e alunos enquanto consumidores ou alvo de informações

Ao considerarmos que professores e alunos são ambos consumidores ou alvo de informações devemos ter em mente, é claro, de que antes de mais nada professores e alunos são cidadãos, e, como tais, estão expostos não apenas a mensagens que circulam no ambiente escolar, mas também àquelas que circulam no mundo. E todas estas mensagens integram o conjunto de ingredientes que compõem o processo educacional. Aliás, Montaigne, já dizia que existem três tipos de educação: a do lar, a da escola, e a do mundo. No mundo moderno, a precariedade dos conceitos, por outro lado, parece ser a tônica. No campo da Pedagogia, por exemplo, a idéia de educação permanente, que até bem pouco tempo traduzia a tendência de necessidade de atualização contínua após a passagem pelo sistema educacional formal, parece agora começar a dar lugar à de educação ao longo da vida. Esta última presta-se de forma muito mais adequada enquanto referencial para examinarmos a importância e atualidade da Educação para os Meios.



Serve-nos, sobremaneira, por exemplo, para nos compenetrarmos de que, de fato,”antes de chegar à escola, a criança já passou por processos de educação importantes: o familiar e o da mídia eletrônica. ...No ambiente familiar, ela vai desenvolvendo suas conexões cerebrais, seus roteiros mentais e emocionais e suas linguagens. A criança é educada também pela mídia, principalmente pela televisão. ...A mídia continua “educando” como contraponto à educação convencional. “Educa” enquanto nos entretém Neste sentido, a Educação para os Meios começa com a sua incorporação na fase de alfabetização. Alfabetizar-se não consiste só em conscientizar os códigos de língua falada e escrita, mas dos códigos de todas as linguagens do homem atual e da sua interação. Daí a se concluir que “as crianças precisam desenvolver mais conscientemente o conhecimento e a prática da imagem fixa, da imagem em movimento, da imagem sonora e fazer isso como parte do aprendizado central e não marginal. Aprender a ver mais completamente o que já estão acostumadas a ver, mas que não estão acostumadas a perceber com maior profundidade (como os programas de televisão). (1)
As considerações acima, mostram-nos o quão importante é a Educação para os Meios. Podemos imaginar que, respeitadas algumas considerações pertinentes a estágios de desenvolvimento em que possam se encontrar, adolescentes e adultos também poderão necessitar de orientação e preparo para as situações de interatividade com os meios de informação e comunicação. Para estes, por exemplo, as reflexões feitas por Len Masterman (2) são plenamente pertinentes. O referido autor chama-nos a atenção para vários pontos que são de alta criticidade e aplicáveis tanto às situações de âmbito escolar, quanto a situações típicas do quotidiano e que hoje se constituem em referencial de consenso por parte dos estudiosos e praticantes da Educação Para os Meios, em âmbito mundial:


  • crenças referentes a importância de promover, apoiar e manter estruturas e valores democráticos em qualquer lugar que existam. Na década passada, a propósito, assistimos a algumas tendências antidemocráticas preocupantes em relação aos meios de comunicação;




  • ataque aos sistemas públicos de rádio e tv e sua consequente erosão;




  • a convergência de política e publicidade, o que leva certos governos a possuírem hoje contas de publicidade, maiores do que as das principais multinacionais;




  • a convergência do poder político e meios de informação, principalmente na Itália. O caso de “Forza Itália”, mostrou-se como o meio mais representativo do fato de que a política é hoje em dia atividade centrada nos meios de comunicação. (Neste sentido,diríamos que episódios relativamente recentes, como a queda de Czeaucesco, na Romênia, ou, de Mihailovich, na Iugoslávia, são também evidências plenamente confirmadoras desta tendência.)




  • a influência de filosofia mercantilizante dentro dos sistemas educativos e concentração crescente dentro dos sistemas educativos e concentração crescente de poder e de influência em relação à propriedade das emissoras de rádio e tv e as novas tecnologias.

Por outro lado, constatações mais recentes, tais como a do Professor Moacir Gadotti, ao afirmar que “as novas tecnologias criaram novos espaços do conhecimento. Agora, além da escola, também a empresa, o espaço domiciliar e o espaço social tornaram-se educativos”, não deixam margem de dúvida sobre a importância do papel a ser exercido pela Educação para os Meios, e, sobretudo para a preparação de professores e alunos enquanto consumidores ou alvo de informações.


Torna-se interessante, também, registrar aqui algumas indagações contidas no Relatório “Les Clés du XXI siècle”, documento produzido pela Unesco (3).O referido documento reúne reflexões feitas por eminentes intelectuais do mundo contemporâneo, concernentes às tendências que se pode prever para este período enfrentado pela humanidade e cuja característica básica é a incerteza. Examinemos algumas dentre elas, altamente pertinentes ao tema da Educação para os Meios:


  • Que poderemos esperar da educação a distância? Como concretizar o ideal de uma educação para todos ao longo de toda a vida, e que poderíamos descrever como sendo o grande canteiro do século XXI? Como pensar os futuros possíveis da sociedade da informação, do ciberespaço, das mídias, do virtual?


Professores e alunos enquanto produtores de informação

Tal como já constatado, os denominados países desenvolvidos detêm presentemente a hegemonia dos principais canais geradores de informações e a batalha está praticamente ganha. Aos denominados países emergentes, cabe apenas um papel marginal ou de mera receptividade das mensagens e produções estocadas, por exemplo, na Internet. Neste sentido, o papel a ser exercido pela Educação Para os Meios consiste em exatamente preparar professores e alunos para que também possam estar familiarizados com a produção de materiais que lhes permitam afirmar sua cultura e exercitar sua cidadania.


A este raciocínio pode-se acrescentar as reflexões feitas por Eduardo Galeano (4), in “Manière de Voir”, ao afirmar que “jamais a tecnologia das comunicações alcançou estágio tão aperfeiçoado e, contudo, nosso mundo assemelha-se cada vez mais a um reino de mudos”. Isto porque a propriedade das mídias encontra-se cada vez mais concentrada em algumas poucas mãos... Jamais um tão grande número de homens foram mantidos na incommunication por um grupo tão pequeno. O número dos que tem o direito de escutar e de olhar não cessa de crescer, enquanto que reduz-se vertiginosamente o número daqueles que tem o privilégio de informar, de se exprimir, de criar. A ditadura da palavra única e da imagem única, muito mais devastadora que aquela do partido único, consegue impor por toda a parte um mesmo modo de vida, e confere o título de cidadão exemplar àquele que é consumidor dócil, expectador passivo, fabricado em série, em escala planetária...”
Estas reflexões feitas por Eduardo Galeano certamente procedem. Basta, a título de exemplo, considerarmos dados recentemente produzidos por pesquisa realizada pelo IBOPE. Os dados foram apresentados no site do JB online, de l3/10/2000, e revelam que “embora aparentemente revolucionária, democrática e acessível a Internet ainda é artigo de luxo para a maioria da população brasileira. ...Constatou-se que apenas 7,2 milhões de pessoas acessam a Rede no país, o que representa 4,3% da população. A maior parte dos internatutas (72%) está concentrada nas classes A e B, deixando visível o fosso entre ricos e pobres, que cada vez menos compreendem as evoluções tecnológicas que os cercam.” Um verdadeiro “apartheid digital”. E mais, “durante encontro realizado no Japão, em julho passado, o Conselho Econômico e Social da Organização das Nações Unidas, discutiu o abismo digital entre desenvolvidos e sub-desenvolvidos, numa tentativa de estabelecer diretrizes para evitar que a tecnologia se transforme em mais uma ferramenta da divisão mundial.(5)

E, para finalizarmos, talvez fôsse interessante, juntamente com Juan Carlos Tedesco que, ao citar o sociólogo francês Dominique Wolton, se pergunta: “quando se reconhecerá que quanto mais se disponha de telefones, computadores, televisores, multimidias interativos, redes... mais se deseja saber que farão as sociedades com estas técnicas e não, tal como se ouve com frequência, de saber que tipo de sociedade será criada por estas técnicas? Em uma palavra, quando é que se reconhecerá que o problema consiste em socializar as técnicas e não em tecnificar a sociedade?” (6)



Conclusão

As novas tecnologias da informação e da comunicação permeiam de forma cada vez mais envolvente os diferentes ambientes em que se processa a educação. Se estivermos de acordo de que o poder de interação não está fundamentalmente nas tecnologias, mas nas nossas mentes, poderemos reconhecer quão importante se torna preparar professores e alunos não apenas para tornarem-se aptos ao exame mais aprofundado das mensagens que lhes são dirigidas, mas também a serem capazes de produzir artefatos de forma ousada, relevante e criativa.




Bibliografia





  1. “Tv na Escola e os desafios de hoje”. Módulo 1, do Curso de Educação a Distância. MEC/SEED/TVESCOLA/UNIREDE. Brasília, 2000.




  1. Masterman, Len. “La educación para los medios: objetivos, valores y autopistas”. Texto integrante da Homepage do Curso Nuevas Tecnologias de la Información y de la Comunicación/Uned/Madrid, 2000.

3.0 “Les Clés du XXI siècle”. Unesco/SEUIL. Ouvrage dirigé par Jérôme

Bindé. Paris, Avril. 2000.
4.0 Galeano, Eduardo. “Vers une société de l’incommunication?”, in

MANIÈRE DE VOIR, n. 52, “Penser le XXI Siècle”. Le Monde Diplomatique. Juillet-Août (p.32). Paris, 2000.




  1. “Geração de ‘analfabytes’. Jornal do Brasil online.13/10/2000.

http://www.jb.com.br



  1. Tedesco, Juan Carlos. “La educación y las nuevas tecnologias de la información”, in http://www.edudistan.com







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