"Mãe a kc está a dormir no sofá da sala " disse a menina, ensonada. Era uma afirmação, e ao mesmo tempo uma pergunta



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Encontro02.08.2016
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A meio da noite, Rita acorda de um sono profundo, sem sonhos ou sequer pesadelos, para dentro do qual o cansaço físico e psíquico a tinham atirado. Está alguém a mexer-lhe, devagar mas insistentemente no ombro. Voltando-se, Rita tem tempo para ver que a porta do quarto está aberto e que, algures no corredor, outro quarto deixa sair uma luz fraca para o exterior.
É Lily quem está a seu lado, agarrando contra o peito a almofada esguia que usa para dormir desde há alguns anos. Está tão habituada que se queixa sempre que tem de usar uma almofada "normal", mais grossa e fofa, do mesmo tipo que toda a gente no universo parece preferir.
"Mãe... A KC está a dormir no sofá da sala..." disse a menina, ensonada. Era uma afirmação, e ao mesmo tempo uma pergunta.
Rita esfregou os olhos suspirou e soergueu-se na cama. Na obscuridade era difícil distinguir-lhe qualquer expressão facial. "Pois está..." confirmou num sussurro. Como explicar o imbróglio à filha sem destruir a imagem inocente que ela tinha da madrasta? Esquivou-se ao assunto. "E tu que fazes a pé a estas horas? Não devias estar a dormir, minha flor?"
"Acordei com sede, mamã, e fui à cozinha," respondeu Lily vagarosamente. " Posso dormir aqui então?" Esfregou um olho com uma mão enquanto a outra segurava a almofada.
Rita esticou uma mão para fazer uma festa no cabelo macio da sua filha. "Um dia não são dias, suponho. Enroscamo-nos as duas, sim?" E com isso afastou os lençóis para acolher a filha.
Lily fez um sorriso cansado mas ainda assim alegre, e meteu-se na cama, colocando a sua almofada com todo o cuidado e atenção ao lado da de Rita, antes de se deitar e puxar os cobertores para cima de si.
"Está tudo bem, mamã?" perguntou ela no escuro. Pausa. "O Francis disse que... que ouviu a tia Liz a perguntar ao tio Daniel se tu vinhas viver para cá, e se ele queria que ela fosse viver comigo e com a KC para o porão de um cargueiro. Mas depois o Francis disse que não conseguiu ouvir a resposta. Porque é que a KC não está a dormir contigo, mamã? Vais ficar cá sem nós as duas?"
O coração de Rita ficou muito apertadinho com as palavras da filha, e rolou-lhe uma lágrima pelo canto do olho. Abraçou a filha e murmurou-lhe ao ouvido: "Nunca sem ti, minha flor, nunca." Já a KC... Deuses, não queria viver sem a KC! "A KC..." hesitou, com falta de argumentos.
Puxou pela cabeça por uns momentos. "A KC fez uma coisa que não devia e eu estou zangada, Lily. É só isso. Haveremos de resolver tudo..." Como desejava que fosse possível, mas como tirar da cabeça a imagem da KC a fazer amor com a Liz na cozinha?
Lily suspirou, muito ao de leve, de alívio. "Está bem, mamã..." Depois aninhou-se nos braços de Rita e, no segundo seguinte, estava literalmente a dormir.
Rita não conseguiu voltar a dormir. Deixou-se ficar ali a aconchegar a Lily, fazendo-lhe festas no cabelo, murmurando alguma canção de embalar.
* * *
Bem antes do nascer do sol, Rita levantou-se. Lily dormia ferrada no sono dos inocentes e não tugiu nem mugiu quando Rita se esgueirou para fora do quarto.
Com um roupão da Liz que Daniel lhe emprestara caminhou descalça pelo corredor até à cozinha. As portas da cozinha e da sala ficavam mesmo em frente uma da outra e Rita hesitou. Momentos depois, abriu uma nesga da porta da sala.
O vulto enrodilhado num lençol em cima do sofá não se mexeu. Provavelmente nem se tinha apercebido da intrusão, mas ao fim de dez anos Rita conhecia-lhe todos os ritmos da respiração e soube que KC estava acordada.
Rita nem sabia o que sentia, a confusão dentro de si era tal. Acabou por perguntar apenas num murmúrio: "Café?"
Apanhada de surpresa, KC girou a cabeça ao ouvir a voz. "Rita." KC sentou-se, embrulhou o lençol em torno de si, mostrando por um segundo a T-shirt e os boxers de algodão em que dormira, e veio ter com Rita à porta da cozinha. "Bom dia," disse ela, tentando não parecer muito alegre pois sabia como o assunto era sério, especialmente para Rita.
Rita não lhe respondeu. Virou costas e dirigiu-se para a cozinha. Foi evidente a maneira como ela hesitou uma fracção de segundo antes de colocar um pé na cozinha. Dirigiu-se de imediato à máquina do café e programou-a para servir dois. Só então se virou de novo para a companheira.
À luz fraca da cozinha, Rita estava pálida, com grandes olheiras e um ar cansado. Mas os olhos, esses brilhavam como duas safiras: duros e límpidos, deixando ver a fúria lá no fundo.
Quando inspirou, cruzou os braços, isolando-se mais um pouco ainda da KC. "Suponho que tens algo para me contar..."
KC engoliu em seco, e baixou os olhos. Sentou-se à mesa, de frente para Rita, ainda de pé ao lado da máquina do café.
"Eu... e a Liz... bom... eu e ela, encontrámo-nos aqui, na cozinha, por acaso, a meio da noite." Pausa. "Estivémos à conversa; foi muito agradável, na verdade. Ela não parecia de todo o monstro de nove cabeças que descreves sempre; só uma rapariga, insegura, vulnerável."
Se possível, o olhar de Rita endureceu ainda mais, mas não interrompeu o relato.
"Ela..." KC hesitou bastante antes de continuar. "Ela lembrava-me de ti, de como costumavas ser quando nos conhecemos. A mesma sensibilidade, a mesma insegurança, até nalguns gestos e expressões. Nem preciso de falar no aspecto físico." Pausa. "Estivémos a falar, como disse, e a dada altura ela ficou perturbada, a contar-me todos os problemas da sua vida pessoal. Tinhas de a ver... parecia uma criança perdida, sozinha. Precisava de consolo, e eu abracei-a."
"Era tudo perfeitamente inocente, percebes? Mas depois, bom... as coisas vieram por aí abaixo. Ela já me tinha feito uma ou duas perguntas sobre, hum, o nosso estilo de vida, e... bom, não sei, não sei explicar. Beijámo-nos. Nenhuma de nós podia estar boa da cabeça, Eu sabia que não devia estar a fazer aquilo, que não podia estar a fazer aquilo, mas a verdade é que não parei de o fazer. Quis protegê-la, como te quero proteger a ti. Rita, ela era tão parecida contigo! Cada uma de vocês tem a sua personalidade muito própria, mas partilham tanta coisa... " Uma lágrima de arrependimento escorregou de um dos olhos de KC. "Deus. Mas não posso usar isso como desculpa. Sabia exactamente o que estava a fazer, mesmo que não o quisesse admitir na altura."
"Se mais alguém diz que somos parecidas juro que rebento," rosnou. "Deuses, KC, serás completamente cega? Essa tipa é uma cabra manipuladora como nunca vi nenhuma!"
"Ela...." Começou KC a protestar, mas calou-se antes que irritasse Rita ainda mais,
Rita pegou no café que entretanto ficara pronto e poisou a chávena de KC à sua frente com impacto suficiente para entornar umas gotas. Fuzilando KC com o olhar, contou: "Ela teve a lata de me atirar tudo à cara quando estava a tirá-la de perigo, entendes?" Exasperada, Rita poisou a sua própria chávena na mesa e passou ambas as mãos pelo cabelo.
"Ela... fez isso?" KC baixou o olhar para a mesa. Será que tinha mesmo sido usada e manipulada?
Depois de uns momentos a controlar as emoções para não acordar niguém aos berros, Rita enfrentou KC, debruçando-se sobre a mesa, apoiada nos braços. "As palavras dela, se bem me lembro, foram «a melhor parte era estar ali embrulhada com ela e pensar como te sentirias quando descobrisses», só para teres ideia!"
KC ficou de boca aberta perante a crueza das palavras de Elizabeth. "Deus, Rita... eu..." KC escondeu o rosto entre as mãos por um segundo. Depois usou-as para limpar umas tantas lágrimas. "Ela parecia tão... Deus... Desta vez fi-la bonita, Rita. Mas porque fez ela isto?"
Rita abriu os braços num gesto de irritação. "Porra, e eu é que sei? Porque me odeia, imagino. Porque quer tudo o que eu alguma vez tive, tenho, ou virei a ter." Rita começou a andar de um lado para o outro. "Porque não regula bem dos pirolitos, sei lá. Um momento estamos a divertir-nos a voar, no outro atira-me tudo à cara quando só estou a tentar pôr-lhe um penso!"
Furibunda, virou-se para KC. "Ela que nem podia andar! Fui eu que a carreguei o caminho todo até encontrarmos um rádio, sabes? Filha da mãe. Há-de pagá-las. Ainda não sei como mas há-de pagá-las."
"Ela parecia tão... tão... Juro que não entendo, Rita. Desculpa-me por tudo o que te fiz passar. É tudo culpa minha. Tu sempre... é tão estúpido, nem sequer tenho uma única razão de queixa. Até sei, ao contrário da Liz -" KC apressou-se a corrigir, "Elizabeth - que não queres o Daniel de volta." Pausa. "Mas afinal que raio se passou lá?"
Rita olhou KC por longos momentos. Estava tão cansada! O que lhe apetecia mesmo era enroscar-se ao colo da KC, mas estava zangada demais para isso. Optou antes por se sentar à mesa em frente à sua caneca de café. Bebeu dois goles, inspirou fundo e começou a contar o dia desde o momento em que tinha entrado na base.
Bastava a voz cansada, quase monocórdica para perceber o desgosto que lhe ia por dentro.
Estava a chegar ao fim quando engoliu o último gole de café, já frio. "E pronto, aí já não a consegui manter acordada. Não sei quanto tempo estive a dormir, mas acordei com a chegada do Daniel e dos Fuzileiros. Liz não voltou a dar sinal de consciência, eu passei horas em debriefings e depois vim para aqui."
O esforço de reviver o dia estenuante parecia ter abatido a fúria da Rita, porque por longos momentos ela se limitou a fitar a sua caneca de café, obviamente sem a ver.
KC foi acabando de secar as lágrimas enquanto Rita contava a sua história. Ouviu tudo em silêncio, mas fez as reacções de choque, carinho, surpresa, medo, nos sítios apropriados. Depois de Rita chegar à parte em que Elizabeth se passou dos carretos, KC ficou pensativa e distante durante o resto da história.
Ao fim de uns segundos, KC quebrou o silêncio que se instalou após o relato acabar. "Rita... Espero que não te chateies mais comigo, mas não me sentiria bem se não dissesse isto. Acho que uma razão muito simples, e muito boa, para a Liz - " Raios, KC, raios! Concentra-te! "Elizabeth - ter explodido daquela maneira. Acho que ela sabia bem o que estava a fazer, e que não te queria mal."
A fúria voltou imediatamente ao azul límpido dos olhos de Rita, como se nunca de lá tivesse saído. "A porra é que ela não me queria mal!" rosnou logo.
"Se ela não me queria mal," adiantou Rita, "ficava mas era caladinha e fazia o que eu lhe mandava."
"Eu sei que é difícil de entender, especialmente nestas circunstâncias, mas eles ensinam-nos isto na Escola de Sargentos e na Escola de Oficiais. Se tivesses continuado a carreira saberias de certeza." KC fez uma pausa antes de continuar. Estava a atravessar terreno minado, e sabia disso. Se tivesse sorte, era capaz de não piorar a situação com Rita. Se tivesse azar... nem queria pensar nisso. "Não seguiste as ordens dela. E ela fez exactamente aquilo que a treinaram a fazer face a insubordinação... Gritou contigo, insultou-te, chocou-te, humilhou-te, à espera que quebrasses e aceitasses a sua autoridade inquestionavelmente. É como a recruta; não vês, Rita? Ela deve ter estado mesmo desesperada para te ter dito tudo aquilo..."
"No fundo, acho que ela te estava a tentar salvar a vida. Queria que saísses dali o quanto antes, e que o fizesses sem olhar para trás e sem remorsos de qualquer espécie. Não queria que a levasses com ela porque sabia que isso era muito má jogada; se eles vos têm perseguido, estavam as duas mortas agora." Pausa. "Mas saiu-lhe o tiro pela culatra, não foi? Devia estar à espera de tudo menos que lhe explodisses de volta com tanta força assim."
"Alguns dos pormenores sórdidos que ela usou para te chocar são falsos. Deve tê-los inventado ali para causar mais efeito... e pelos vistos fez um óptimo trabalho, Rita. Nós..." KC engoliu em seco, e virou os olhos. "fizémos, hum, relativamente pouco na cozinha. Não demorámos a ir para o quarto de hóspedes para estarmos mais à vontade. Não houve nenhuma concha da sopa mordida, podes verificar; tanto eu como ela nos agarrámos às almofadas do quarto quando era preciso. Desculpa estar a contar-te tudo isto, assim, mas acho que tens saber que parte do que ela disse era mentira."
"E eu sei que isto não abona nada em meu favor, mas tenho de o dizer... ela podia estar a mentir também quando disse que fez tudo de propósito. Não foi a ideia com que eu fiquei; as coisas simplesmente... aconteceram. Ela teve um papel importante, mas não mais que o meu. Não me sentiria bem se não to dissesse. Desculpa Rita." Uma pausa, e mais lágrimas. "Estou arrependida. Perdoa-me, se conseguires."
Rita carregou o sobrolho mas ouviu a ideia de KC de uma ponta à outra, sem a interromper, e depois ainda ficou uns bons segundos em silêncio, digerindo tudo.
"Raios te partam, KC, como é que consegues estar do lado dela mesmo depois dela trair a tua confiança?" perguntou, mas desta vez a sua voz soava apenas cansada, e finalmente caíu-lhe uma lágrima de um olho. "O que é que eu faço se ela te rouba?"
"Se ela me traiu a confiança, foi pela melhor das causas: tentar salvar-te. E foi melhor assim também... quero continuar a viver contigo, mas guardar um segredo destes cá dentro seria horrível." Já basta o outro... maldito Jenkins, como é que ele algum dia a tinha convencido a ir para a cama com ele. Na próxima oportunidade, tinha mesmo de ter uma palavrinha com ele. Se, depois desta confusão toda com Liz, Rita descobria que ainda havia um pormenor deveras importante que ela não lhe contara sobre a relação dela com Jenkins, o mais certo era tudo ir mesmo pelos ares. E isso era a última coisa que ela queria. Era única coisa na sua vida da qual tinha a certeza.
KC levantou-se para ir ter com Rita. "Ela não me vai roubar. Foi tudo um grande erro, Rita. Ela é feliz, à sua maneira, acho eu; apenas se sente insegura e abandonada, às vezes. É muito frágil, tal como..." KC calou-se antes de cair na asneira de voltar a comparar a velha Rita com Liz. "...como uma flor. Foi isso que me fez ser fraca; foi querer dar-lhe alguma protecção e carinho. No entanto sou incrivelmente feliz, Rita, mas só ao teu lado e ao da Lily. Amo-te."
Pela primeira vez nas últimas doze horas, Rita sorriu - um sorriso fraco, verdade, mas um sorriso na mesma. Ainda sentada na sua cadeira abraçou-se à cintura de KC e encostou a cabeça ao ventre dela. "És uma desgraça, tu e o teu coração de manteiga," murmurou depois de um enorme suspiro de alívio. As coisas haveriam de voltar ao normal. KC ainda a amava e queria ficar com ela.
Era como se um enorme peso tivesse saído de cima dos ombros da Rita, e ela deixou-se ficar ali um bom bocado, agarrada à KC, absorvendo algum mimo.
Mas havia ainda algo que achava não fazer sentido. Ao fim de algum tempo levantou o olhar para a KC. "Continuo a achar que não faz sentido, sabes? Eu disse-lhe que era civil e já não levava ordens de ninguém... Ela estava à espera do quê?" Uma pausa. "Além disso se eu a deixava lá com uma pistolita e eles apareciam ela não tinha hipótese."
Mais uma pausa, e Rita abanou a cabeça. "E mais, se eu por qualquer razão me perdia no deserto, sozinha não teria tido hipótese contra o frio. Não, a opção certa era ficarmos juntas, custasse o que custasse. Portanto não percebo que raio lhe passou pela cabeça!"
"Ai..." suspirou KC. "Tu e o teu pai são teimosos até dizer basta. Se ela ficasse lá sozinha não tinha hipótese, sim; mas tinhas tu. Da maneira que aconteceu, foi um milagre saires de lá viva com ela se realmente alguém se deu ao trabalho de vos perseguir. Naquele terreno que parece papel que alguém amassou e voltou a desdobrar não ias longe com alguém a perseguir-te; já foi uma sorte não teres caído e partido um tornozelo ou pior. Mas pronto... teimosa ou não, é assim que eu gosto de ti." KC abraçou Rita com força.
Liz era boa pessoa. Porque que outra razão insistiria ela tanto em dizer a Rita que tinha manipulado toda a situação e tentado, directamente, ilibar KC da maioria das culpas? Apesar de todo o imbróglio causado, de certa forma KC estava contente por ter feito Liz sentir-se feliz e amada por um bocadinho durante aquela noite... embora se pudesse voltar atrás, não a faria sentir-se tão literalmente amada, claro. No entanto a rapariga tinha estado mesmo a precisar do ombro de uma amiga. Porque é que ela não tinha amigas lá na base? Não parecia ser tímida. Engraçado, pensou ela, Liz e Rita até poderiam ser boas amigas, se não fossem ambas - lá estava a comparação outra vez - teimosas como uma mula.
Rita suspirou mais uma vez e levantou-se para dar um beijo de bons dias à KC, demorado e quente. Sorriu-lhe, mas depois voltou a carregar ligeiramente o sobrolho. "Seja lá como for, a Elizabeth brincou com coisas que não devia, nomeadamente a minha vida. Tenho de a fazer perceber que comigo não se brinca, KC..."
"Senão," continuou, "da próxima vez sabe-se lá quem ela envolverá na sua teia."
* * *
Munida de passes militares cedidos pelo Daniel, Rita Jamieson dirigiu-se ao hospital militar na manhã seguinte ao acidente e navegou os corredores até lhe ser dado acesso ao quarto de Elizabeth Fishburne. Inteirou-se do estado dela num dos balcões e por fim encontrou o quarto.
Inspirou fundo antes de entrar e fechar a porta atrás de si. Encontrava-se num quarto normalíssimo de hospital, com paredes brancas, cheiro a anti-séptico, e uma janelinha para o dia solarengo lá fora. Rita espreitou para a cama e depois para os aparelhos que monitorizavam o estado de saúde de Liz.
Elizabeth parecia mais pequenina ali perdida naquela cama de hospital, e aliás, era difícil reconhecê-la debaixo da camada de penso que lhe tapava metade do rosto. A perna esquerda estava imobilizada numa geringonça insuflável.
Ao vê-la daquela maneira, Rita quase desistiu do seu plano, mas depois veio-lhe à memória a dor que Liz lhe tinha inflingido de propósito no dia anterior e manteve a sua resolução. Sentou-se numa cadeira ao lado da cama, pegou numa revista e pôs-se à espera que Liz acordasse. Ao fim de uns minutos, não querendo perder os primeiros sinais de consciência dela, entrelaçou os seus dedos com os dela.
Os dedos de Elizabeth reagiram ao toque de Rita com um pequeno estremecer, e depois um aperto. Elizabeth suspirou, e o seu tronco ajeitou ligeiramente a sua posição. Os olhos dela abriram-se, piscaram um número incrível de vezes, e depois começaram a tentar focar-se em Rita.
Rita largou a revista e debruçou-se sobre a cama, invocando desde logo o seu olhar implacável. Contudo havia uma diferença em relação ao dia anterior: o azul dos seus olhos parecia menos revoltado, estava mais calmo e controlado. Mas não deixava de ser frio. "Ainda entre os vivos?" perguntou num tom baixo.
Ao som da voz os olhos de Elizabeth ganharam o brilho do reconhecimento e a cabeça dela pareceu recuar um centímetro ou dois contra a almofada. "Onde está o Daniel?" perguntou ela, com uma voz quase inaudível.
"A trabalhar," respondeu Rita. "Passou por cá de madrugada, ao que parece, mas estavas KO." Só então largou a mão da piloto para se dirigir à mesa-de-cabeceira e ao jarro que lá se encontrava. "Água?" Sem esperar pela resposta verteu alguma num copo e pegou numa palhinha que ali fora deixada.
Elizabeth fixou Rita, desconfiada.
Rita topou a expressão quando já levava o copo a meio caminho. "O quê?" Olhou de Liz para o copo e de volta. Fez um sorriso cruel, não muito diferente dos que Liz normalmente guardava para si. "O veneno não é a minha arma, minha cara."
"O que é que queres, afinal?" perguntou a outra.
Rita encolheu os ombros e sugou ela própria um gole de água, poisando de seguido o copo na mesinha. "Bom," disse, "para já agrada-me ser a primeira cara conhecida que vês hoje." Lá estava o sorriso cruel outra vez. "Gosto de lembrar aos meus alvos que tenho boa memória."
"Até agora," continuou, "eu ia ignorando as partidas todas que me pregavas, mas ontem passaste das marcas. Lembras-te de tudo o que aconteceu ou a pancada mexeu-te com a memória?"
"Eu lembro-me... o que tem?" desafiou-a Liz.
A temperatura em redor de Rita parecia ter descido vários graus. "O teu maior erro nem foi ter posto as patas em cima da KC, foi teres-me atirado isso à cara com aquele desplante," disse Rita, numa voz enganadoramente calma. "Com a minha vida não brincas tu, entendeste?"
Rita debruçou-se um pouco mais sobre a cama, aproveitando a sua situação de vantagem sobre a doente. "Quem tem mais a perder és tu, com a tua carreira certinha e casamento perfeito. Imaginas o que aconteceria se eu contava tudo ao Daniel... ao Francis?"
Era cruel, um golpe muito cruel, mas Rita tinha de a fazer entender que não ia ser um joguete nas mãos dela!
À menção do nome do filho, a reacção foi imediata. "Sua cabra!" A voz de Elizabeth já parecia completamente recomposta, a julgar pelo tom. "É preciso teres lata, sua destruidora de lares. Já te podias meter longe do meu Daniel; não quiseste antes e agora é tarde: ele é casado comigo." Uma lágrima caiu-lhe um olho.
"E é assim que queres manter a tua família intacta? Ameaçando as pessoas que podem fazer a tua companheira pensar duas vezes em continuar contigo? Boa sorte, vê lá se isso te leva a algum lado." Mais lágrimas. "Eu estava a pensar em salvar-te a vida, se queres saber; tive pena de precisar de magoar a KC, mas ela ficaria mais magoada se tivesses morrido ali a tentar arrastar um corpo inerte ao longo de dez quilómetros de deserto com inimigos no teu encalce. E tu? Se calhar viraste o avião ao contrário de propósito, sabendo que eu ficava muito pior em cima. Não vou voar durante pelo menos seis meses, por tua culpa." Lágrimas e soluços. "E a minha cara..."
Rita estalou a língua. Bolas, não era bem esta a reacção que tinha esperado. Medo, talvez arrependimento, mas não aquele desespero. "Merda," praguejou. Com um suspiro, finalmente deixou cair a frieza do olhar.
"Raio de maneira de me salvares a vida, ao custo da tua, e arriscando ainda a minha relação com a KC," disse, abanando a cabeça. Sentou-se na borda da cama. Estendeu a mão para fazer uma carícia na face intacta de Liz. "Não virei a nave de propósito e tu sabe-lo bem. Estavas lá, viste o inferno que foi controlar o bicho."
Elizabeth virou a face, ainda em lágrimas, mas não tentou impedir Rita de a tocar. "O Daniel vai ter nojo de mim, quando tirar o penso. Vou assustar o Francis... Ninguém vai querer estar comigo!"
Rita fez um suspiro exasperado. "Disparate, Liz. Não nego que devem vir aí alguns dias difíceis - eu sei o que é recuperar de um acidente destes - mas a tua família adora-te; ninguém vai ter nojo." Rita ia-lhe fazendo festas suaves com a mão quente. "E com os milagres da medicina moderna, aposto que mal se vai notar."
Pegou num lenço para secar as lágrimas à piloto. "A KC e eu tivémos uma conversa séria hoje de madrugada. Obviamente nenhuma de nós quer contar o que se passou ao Daniel."
"Ela está bem, a KC?" perguntou Liz, mais calma.
Finalmente um sorriso, embora contrafeito, da parte da Rita. "Sim, está bem. Fizémos as pazes. Ela contou-me o que se passou. Aparentemente nem houve conchas da sopa envolvidas na acção," acrescentou com um olhar acusador.
Fez uma pausa para humedecer os lábios. Quando falou, a sua voz tinha um toque magoado. "Porque diabos haverias de inventar uma coisa dessas, Liz? E engolir o cano da pistola! Que raio, achaste mesmo que eu te ia deixar ali para morrer? Que raio de monstro pensas que eu sou?"
"Segundo as tuas próprias palavras, ias levar-me um destino pior que a morte, ou algo assim," troçou Elizabeth, magoada. "Diz-me tu, que tipo de monstro és. E diz-me o que é que vieste aqui fazer, sozinha, a esta hora? Não foi para me desejar as melhoras. Até aí eu percebi."
Rita encolheu os ombros, mudou de posição e começou a fazer festas na mecha de cabelo loiro que escapara ao abraço da gaze. "Ah, isso. Puseste-me fora de mim, Liz. De facto apeteceu-me sei lá o quê, mas era mais da boca para fora que outra coisa." Olhou para o tecto por um momento. "Não, não vinha dar as melhoras. Vinha-te avisar para manteres as mãozinhas longe da KC e da minha vida."
Uma pausa. "Ok, vinha-te dizer o que disse: que comigo não se brinca. Acho que tiveste uma boa amostra disso ontem." Depois com um ar triste. "Não sou nenhum monstro, Liz, embora insistas em pintar-me como um."
"Caramba!" disse, mudando para um tom mais enérgico. "Ontem estava a divertir-me à brava e depois apanho o susto de te encontrar naquele estado e a dor, a dor excruciante - não imaginas, Liz - das tuas palavras. É claro que me passei um bocadinho..."
"Era suposto passares-te, raios te partam!" exasperou-se a outra. "Era suposto pegares na merda da arma e correres a 100 à hora dali para fora a chorar, fugires de todos e de tudo; ou, ainda melhor, dares-me um tiro - estava com umas dores que não te digo nada - e aproveitares a raiva para te manter viva e saíres daquele buraco intacta... mas não, tiveste pegar em mim e andar comigo aos ombros durante dez quilómetros, e eu com costelas partidas. Se eles têm vindo atrás de ti, nenhuma de nós tinha sobrevivido, espero que saibas disso."
"Pronto," terminou Liz. "Já me disseste para «manter as mãozinhas longe da tua vida». Já te podes ir embora. Deixa-me aqui para lidar com isto, e vai lá para a tua nave, com a tua filha e a tua KC, gozar a vida descomplicada que gostas de levar." Liz virou a cara para longe de Rita, esperando que esta saísse e a deixasse em paz.
"E as pessoas ainda dizem que eu é que sou teimosa," resmungou Rita entredentes. Liz já começava a irritá-la outra vez com as bocas dos freelancers, só que se a táctica não tinha funcionado ontem com argumentos bem mais fortes, também não era agora que ia funcionar.
Rita ignorou o gesto de Elizabeth e continuou a fazer-lhe festas ora no cabelo, ora na face. "Bolas, eu bem te perguntei na altura como te sentias. Não disseste nada e eu não sou adivinha. E já disse: não deixo companheiros para trás. Nunca! Entendes?" Gesticulou com a mão livre. "Rai's partam, foi para isso que te dei a pistola: eu levava-te e tu disparavas, se viesse alguém!"
"Trabalho de equipa, é o que lhe chamam," disse com uma pontinha de sarcasmo. "Como..." Procurou uma comparação. "Como o piloto e o asa, suponho."
Rita fez uma pausa. "Bom, parece-me que ambas fizémos um erro de cálculo. Eu não fujo da dor, tu apontas pistolas a ti própria quando te desobedecem." A conclusão tinha o seu quê de provocatório, e os cantos da boca da Rita curvaram-se um pouco num sorriso reprimido.
Com uma força surpreendente, Elizabeth agarrou o pulso da mão de Rita que lhe estava a fazer carícias e afastou-o lenta mas seguramente. Depois a frase saiu gélida, e quase cavernosa, da boca de Elizabeth. Eram só duas palavras, mas pareceram ficar no ar durante muito mais que o tempo necessário para as pronunciar. "Odeio-te." O sentimento era puro, palpável e frio como o vácuo. "Fizeste-me... pensei..." Elizabeth abanou a cabeça, e aquele pequeno instante de vulnerabilidade e insegurança desapareceu de imediato. "Ficar sem voar, perder o meu próprio rosto... tudo isso não se compara sequer. Agora sai-me daqui!"
Rita esfregou o punho, tendo perdido por completo o sorriso e ostentando uma expressão arrependida que Elizabeth nunca lhe vira. "Eu sei que me odeias... E no entanto não era minha intenção magoar ainda mais. Freelancing fez coisas terríveis pelo meu sentido de humor. Peço as mais sinceras desculpas por ter sido uma cabra insensível, Elizabeth."
Pelo menos a julgar pelo olhar, Rita parecia estar a ser sincera. "Parece que faço sempre asneira perto de ti."
"Bom, olha, tenta noutro dia então," disse Liz, já sem aquela agressividade toda. "Diz à KC que peço desculpa por a ter metido ao barulho. Quanto a ti, bom, tentei magoar-te deliberadamente, mas foi por uma boa razão; estava a pensar só no teu bem... noutras circunstâncias admito que tivesse tido prazer em ver-te na mó de baixo, mas não assim, raios, a ver-te em dor por teres o resto da tua vida arruinada."
"E o que aconteceu entre mim e a KC, não teve a ver contigo;" continuou ela, "não queria trair a tua confiança, não fiz de propósito para trair. Aconteceu, pronto. Eu precisava de alguém - não no sentido físico, se é que me acreditas - naquela altura, naquele sítio, e a KC aceitou estar lá para mim. Se tivéssemos juízo, não precisariamos de trair os nossos companheiros, e podíamos ter partilhado o que queriamos partilhar sem nos metermos em cima uma da outra, mas pronto... Não tenho uma desculpa boa ou sequer aceitável, que posso fazer?"
Rita levantou-se e assentiu com a cabeça. "Eu transmito a mensagem, claro." Depois encolheu os ombros. "Todas temos os nossos momentos de... insensatez, diria." Agora a sua voz musical definitivamente estava carregada de tristeza.
Suspirou. "Eu vou... Vou-te deixar descansar, mas antes..." E aí voltou a debruçar-se sobre Elizabeth, apoiada com um braço de cada lado da piloto. "Olha-me bem nos olhos e mede tu a verdade do que te digo." E assim sem mais nem menos os seus olhos antes tão agressivos e depois arrependidos abriram de par em par as janelas para a alma de Rita Jamieson.
Elizabeth pôde ver o que normalmente só KC via: a sensibilidade (que faltara lamentavelmente há pouco), a força interior, até o toquezinho de vulnerabilidade. E numa voz expressiva Rita disse-lhe: "Eu não te odeio. Nem sequer me dá qualquer prazer ver-te neste estado. E muito menos te quero ver morta, entendes?" Uma pausa para deixar Liz absorver a informação. "Desejo-te melhoras rápidas."
Com isso baixou-se para lhe deixar um beijo na face. Quando voltou a erguer-se, já os seus olhos estavam escudados como de costume. Deixou o copo e a palhinha onde Liz conseguisse alcançá-los e começou a preparar-se para sair.
"Vou voltar a dormir," disse Elizabeth fechando os olhos e relaxando o corpo. Depois, mais baixinho, disse em jeito de despedida: "Obrigada." Soava realmente sincero.
Rita parou junto à porta já com uma mão no ar para a abrir e hesitou. "Queres companhia até adormeceres ou ficas mais descansada se eu for já?" perguntou.
Muito baixinho. "Podes ficar, obrigada. Certifica-te que o Daniel não espreita debaixo do penso. Acho que não estou pronta para isso... " Pausa. "Nunca vou estar." Um suspiro longo. Depois o som da sua respiração assumiu de imediato a lentidão e regularidade que normalmente se associa ao sono. Elizabeth já estava a dormir.
Rita voltou a sentar-se na cadeira que antes ocupara e entrelaçou de novo os dedos com os de Elizabeth. Ficou ali uma boa meia hora a vê-la dormir e a pensar no que se tinha passado entre ambas. Por fim, chegada a hora, ajeitou as almofadas à Liz, fez-lhe uma carícia à mecha de cabelo e saiu silenciosamente do quarto.







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