Medicina tropical e ciência nacional: Carlos Chagas e a descoberta da doença do Brasil (1909-1923)



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Medicina tropical e ciência nacional: Carlos Chagas e a descoberta da doença do Brasil (1909-1923).

Simone Petraglia Kropf - Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz.

Email: simonek@coc.fiocruz.br
Introdução
Aos 22 de abril de 1909, Oswaldo Cruz anunciou na Academia Nacional de Medicina (ANM) que um pesquisador do instituto que levava seu nome (Instituto Oswaldo Cruz, IOC) havia descoberto, no interior do país, uma nova doença humana, além de ter identificado o protozoário que a causava e o inseto que a transmitia. Um ano e meio depois, Carlos Chagas (1878-1934) tornou-se membro titular desta prestigiosa associação, em concorrida solenidade. das investigações sobre o novo tripanossoma tipo de protozoário cujo estudo despertava grande interesse no campo da medicina tropical européia pelo impacto provocado pela tripanossomíase africana nas colônias naquele continente (Sá, 2005) –, Chagas apresentou, nesta ocasião, a primeira caracterização clínica da enfermidade que levaria seu nome. Segundo ele, a nova tripanossomíase produzia danos permanentes no desenvolvimento físico e mental, sobretudo de crianças e jovens, prejudicando seriamente a vitalidade e a produtividade das populações rurais do país e produzindo “verdadeiras gerações de monstros” (Chagas, 1910 b).

O objetivo deste texto é analisar os significados que a descoberta da doença de Chagas assumiu no processo de afirmação e legitimação social da ciência brasileira nas primeiras décadas do século XX e na produção da concepção – que anos mais tarde seria amplificada no chamado movimento sanitarista – de que os problemas do país residiam nas más condições de saúde e vida de seu interior. Tendo sido viabilizada e “emoldurada” a partir de determinados recursos cognitivos, sociais e institucionais, a descoberta da doença de Chagas constituiu não apenas o marco cronológico do início deste processo. Foi um marco fundamental de sentido para o próprio desenho da nova entidade nosológica, que, por sua vez, constituiria uma ‘moldura’ para um novo olhar sobre a nação, seus problemas e sobre o papel social da ciência.1.

Ocorrida num momento de difusão internacional e institucionalização da medicina tropical mansoniana (Arnold, 1996; Woboys, 1997) e num período em que se criavam, no Brasil, espaços institucionais referidos a este campo (Stepan, 1976; Benchimol & Teixeira, 1993), o episódio foi representado, de imediato, como tendo uma dimensão bem mais ampla do que a realização científica de um indivíduo. A descoberta constituiu-se um evento simbolicamente expressivo e legitimador do projeto de ciência materializado no IOC.2 Além de ser uma contribuição original aos novos conhecimentos produzidos na época sobre a relação entre vetores, parasitos e doenças humanas, o episódio tornou-se desde logo o símbolo da capacidade da ciência nacional em associar a excelência acadêmica e o compromisso social em identificar e solucionar os problemas sanitários do país, ditando os caminhos da modernização brasileira.

Imprimindo aos esquemas teóricos da medicina tropical sentidos particulares referidos ao contexto nacional, a descoberta da nova tripanossomíase significou a descoberta da ‘doença do Brasil’ (Kropf, 2006), em vários sentidos, além do geográfico: o encontro de um país doente, cuja ‘civilização’ inviabilizava-se por conta das endemias que prejudicavam a produtividade de seus trabalhadores rurais, e, ao mesmo tempo, o emblema da ciência que revelava este Brasil desconhecido e apontava os meios para sua incorporação à marcha do progresso nacional. Nesse sentido, trata-se de um objeto fértil para se pensar as especificidades da medicina tropical no Brasil, em referência a um extenso debate que vem marcando a historiografia internacional sobre os processos de circulação e trocas entre distintos espaços da ciência e sobre a dimensão local desta atividade.


Carlos Chagas e ‘um bando de idéias novas’: o primado do laboratório e a ida ao campo
Carlos Ribeiro Justiniano Chagas nasceu numa fazenda próxima à cidade de Oliveira, no estado de Minas Gerais, numa família de origem portuguesa, que vivia do cultivo de café. Ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1897. A virada do século intensificava a crença de que se ingressava num novo tempo. O Brasil, guiado pela ciência e pela técnica, se tornaria, enfim, uma nação “civilizada”. A reforma e o saneamento urbano eram planejados de modo a tornar o Rio a capital da “belle époque”. A modernização impunha-se também na Faculdade de Medicina, que buscava renovar-se em conformidade com as novas teorias de Pasteur e Koch. Desde a década anterior, vários professores defendiam que o ensino incorporasse os preceitos e práticas da medicina experimental. Este foi o ambiente em que Chagas realizou seu curso médico, concluído em 1903.3

Com o objetivo de elaborar sua tese de doutoramento, dirigiu-se em 1902 ao Instituto de Manguinhos, para buscar a orientação de Oswaldo Cruz. Em 1903, defendeu sua tese, intitulada Estudos hematológicos no impaludismo, em que analisou a importância do conhecimento do ciclo evolutivo do plasmódio para o diagnóstico e o tratamento das várias formas clínicas da malária. Nela, Chagas preconizava os preceitos e valores da chamada medicina experimental, salientando sua importância no estudo das doenças que afligiam o Brasil: “[...] o laboratório representa em nossa terra uma esperança. Dele esperamos esclarecidos os inúmeros problemas de patologia tropical, que por aí prevalecem obscuros, zombando da sagacidade dos observadores e cujas incógnitas estão repletas das ilações as mais benéficas ao nosso bem estar” (Chagas, 1903: 14).

O Instituto Soroterápico Federal (a partir de 1908, IOC) foi criado para atender ao objetivo específico de produzir soro e vacina para a peste bubônica, que assolava o porto de Santos. No entanto, Oswaldo Cruz, desde o início, buscou a ampliação das fronteiras e atividades de Manguinhos, tendo em vista o estabelecimento de um centro de pesquisa e ensino em medicina experimental, mais especificamente no estudo das doenças parasitárias tropicais (Stepan, 1976; Benchimol & Teixeira, 1993).

A medicina tropical, apesar das filiações que mantinha com a teoria dos germes, pretendeu assumir-se como especialidade justamente a partir das problemáticas particulares que trazia, como os mecanismos de transmissão das doenças pelos artrópodes, os ciclos evolutivos dos parasitos e sua interação com os hospedeiros e com o ambiente. O estudo de tais questões exigia conhecimentos específicos, como as regras de classificação das diferentes espécies de protozoários e insetos, os hábitos e distribuição geográfica dos transmissores e as características do ambiente específico em que viviam. Para isso, eram mobilizadas disciplinas como a entomologia, a parasitologia (especialmente a protozoologia), a história natural, a botânica e a ecologia (Benchimol & Sá, 2005, 2006).

Uma área que mereceu particular investimento em Manguinhos foi a entomologia médica. Tal processo esteve relacionado a uma importante frente de ampliação das fronteiras geográficas, sociais e cognitivas da instituição, acionada por Oswaldo Cruz: as expedições científicas realizadas a diversos pontos do território nacional. Tais missões serviam tanto para estudar as condições sanitárias das distintas regiões, como também para debelar crises epidêmicas que prejudicavam as obras de companhias públicas ou privadas associadas à modernização econômica do país (Casa de Oswaldo Cruz, 1991; Lima, 1998). A realização destas obras, sobretudo quando adentravam matas e regiões inóspitas, era freqüentemente acompanhada de surtos epidêmicos, especialmente de malária.

Tais expedições funcionavam também como ocasiões impulsionadoras da pesquisa em torno das novas questões da medicina tropical. Nestes canteiros de obras, os pesquisadores realizavam a observação e coleta de materiais (como novas espécies de mosquitos), experiências e estudos sobre temas variados da patologia tropical brasileira, relacionados tanto aos aspectos médico-sanitários, quanto às questões biológicas concernentes a seus parasitos e vetores. Foi justamente por meio de viagens como estas que Chagas refez seu vínculo com Manguinhos e com o tema da malária, desenvolvendo habilidades e conhecimentos específicos que o levariam à descoberta de uma nova doença tropical.

Em 1905, a Companhia Docas de Santos solicitou a Oswaldo Cruz providências para combater uma epidemia de malária que atacava os trabalhadores que construíam uma central hidrelétrica em Itatinga, destinada a abastecer o porto de Santos. Em função de seus conhecimentos sobre a doença, Chagas, que era então médico da Diretoria Geral de Saúde Pública, foi requisitado por Cruz para coordenar a campanha de profilaxia. No início de 1907, missão semelhante foi iniciada por ele, em parceria com Arthur Neiva, em Xerém, na Baixada Fluminense, onde a doença prejudicava os trabalhos de captação de água para a capital federal, realizados pela Inspetoria Geral de Obras Públicas. Em junho daquele ano, igualmente por solicitação de Cruz, Chagas partiu para o norte de Minas Gerais em nova campanha anti-palúdica, junto a trabalhadores da Estrada de Ferro Central do Brasil (para um relato destas campanhas, ver Chagas, 1906, 1909).

Esta terceira campanha contra a malária realizada por Chagas ocorreu num momento de grande importância na trajetória de Manguinhos: a viabilização de um arcabouço institucional que permitisse a transformação da instituição num centro de pesquisa e ensino em medicina tropical. Em 1907, a repercussão da conquista, por Manguinhos, da medalha de ouro no XIV Congresso Internacional de Higiene e Demografia realizado em Berlim foi um importante fator para vencer as resistências à ampliação do instituto. Nesta ocasião, além dos resultados da campanha contra a febre amarela no Rio de Janeiro, Oswaldo Cruz deu grande destaque ao que se considerou a primeira grande descoberta científica de Manguinhos no terreno da medicina tropical: o estudo de Henrique Aragão sobre o ciclo evolutivo do parasito da malária aviária. Em seu retorno ao Brasil, ele foi recebido como herói da ciência nacional. Em dezembro de 1907, sancionou-se o decreto que transformava Manguinhos em Instituto de Patologia Experimental (anteriormente rejeitado). Em março de 1908, o regulamento pelo qual passava a chamar-se Instituto Oswaldo Cruz (IOC) trouxe-lhe maior autonomia administrativa e orçamentária, retirando-o da alçada da DGSP para uma vinculação direta ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores. A autorização para vender os produtos biológicos fabricados na instituição foi fundamental para proporcionar maior flexibilidade financeira. Esta, por sua vez, impulsionava a ampliação de seu quadro de pessoal.4 As atividades de ensino também se expandiriam, com a criação, neste ano, do chamado Curso de Aplicação, que oferecia treinamento em microbiologia e zoologia médica (Benchimol & Teixeira, 1993). Sob estas novas condições institucionais, Manguinhos caminharia rumo a uma maior especialização de suas áreas de pesquisa. Os investimentos iriam incidir especialmente na protozoologia, que cada vez mais constituía o caminho privilegiado para o reconhecimento científico da instituição (Benchimol & Sá, 2005).

A trajetória pela qual o Instituto Soroterápico Federal, criado sob o figurino pasteuriano, ampliou-se de modo a tornar-se um centro de medicina experimental especializado no estudo das doenças tropicais nos remete à questão das relações entre microbiologia e medicina tropical, que tem recebido ênfase na historiografia recente (FArley, 1992; Worboys, 1996). A conciliação entre estas áreas/disciplinas foi exatamente o que marcou, segundo Caponi (2002), a experiência brasileira. A incorporação destes novos modelos de conhecimento médico se deu, segundo a autora, em dois momentos distintos, aos quais estiveram subjacentes diferentes maneiras de se pensar a natureza da patologia nacional. Primeiramente, a criação dos institutos bacteriológicos de São Paulo e de Manguinhos significou um cancelamento da dimensão nacional/particularizada da nosologia brasileira, na medida em que, opondo-se à primazia do clima como elemento de causalidade das doenças, a microbiologia demonstrava que muitas das doenças tidas como peculiares aos climas quentes e ao Brasil faziam parte de um quadro internacional de doenças, como a cólera, a peste e outras doenças bacterianas. Num momento seguinte, a partir do reconhecimento da teoria do inseto-vetor, já não se tratava mais de afirmar que no Brasil ocorriam as mesmas doenças que na Europa, mas justamente de chamar a atenção para que as doenças aqui assumiam certas peculiaridades, relacionadas, sobretudo, a seus transmissores. A hipótese de Caponi (2002) é a de que tal processo, apesar das fases distintas, teria conduzido não a uma diferenciação entre as tradições da microbiologia e da medicina tropical mansoniana, mas a que eles se imbricassem, de modo a dar resposta aos problemas constituídos pelas enfermidades tropicais. A trajetória de Manguinhos teria sido emblemática desta associação.

Esta é uma chave interpretativa interessante para pensar as circunstâncias históricas específicas pelas quais as novas teorias médicas produzidas na Europa na passagem do século XIX ao XX foram apropriadas no contexto particular de institucionalização da ciência nacional. A associação entre microbiologia e medicina tropical derivou-se do próprio caminho de legitimação social da medicina experimental no Brasil (referido, por sua vez, ao padrão geral de institucionalização da ciência brasileira), ou seja, um caminho em que os diferentes tópicos do conhecimento científico convergiam na perspectiva de serem vistos como passíveis de se reportar, de alguma maneira, a questões tidas como socialmente relevantes no âmbito do projeto nacional de modernização. A possibilidade de articular conhecimento biológico, conhecimento médico e ações sanitárias em torno dos temas concretos da nosologia brasileira conferia justificativa social e possibilidade de integração aos estudos sobre os múltiplos aspectos da relação entre microorganismos, insetos e doenças. Esta vinculação conformou os balizamentos cognitivos e sociais que enquadrariam o objeto ao qual Chagas dedicaria sua vida a construir.


A descoberta
Em junho de 1907, Carlos Chagas foi designado por Oswaldo Cruz, diretor da saúde pública federal, para combater uma epidemia de malária que paralisava as obras de prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil em Minas Gerais, na região do rio das Velhas, entre Corinto e Pirapora. No município de Lassance, onde se construía uma estação da ferrovia, ele instalou um pequeno laboratório num vagão de trem, que também usava como dormitório. Enquanto coordenava a campanha de profilaxia, coletava espécies da fauna brasileira, motivado por seu crescente interesse pela entomologia e pela protozoologia. Em 1908, ao examinar o sangue de um sagüi, identificou um protozoário do gênero Trypanosoma, que batizou de Trypanosoma minasense. A nova espécie era um parasito habitual, não patogênico, do macaco.

Além da busca de novos parasitos, Chagas estava atento a artrópodes que pudessem servir-lhes de vetores. Em uma viagem a Pirapora, Chagas e Belisário Penna (também médico da DGSP, que o acompanharia na missão) pernoitaram num rancho, onde Penna capturou exemplares de um inseto sugador de sangue muito comum na região, sobre o qual lhes havia falado Cantarino Mota, engenheiro da Estrada de Ferro Central do Brasil. Era conhecido popularmente como “barbeiro”, pelo fato de que, naquelas regiões, ainda era freqüente os barbeiros aplicarem sangrias e sanguessugas com objetivos terapêuticos, e também porque o inseto pica suas vítimas no rosto. Era abundante nas choupanas de pau-a-pique da região, escondendo-se nas frestas e buracos das paredes de barro durante o dia e atacando seus moradores à noite.

Sabendo da importância dos insetos sugadores de sangue como transmissores de doenças parasitárias aos homens e aos animais, Chagas examinou alguns barbeiros e encontrou, em seu intestino, formas flageladas de um protozoário, com certas características que o fizeram pensar que poderia tratar-se de um parasito natural do inseto ou então de uma fase evolutiva de um tripanossoma de vertebrado. No caso desta segunda hipótese, poderia ser o próprio Trypanosoma minasense.

Por não dispor em Lassance de condições experimentais para elucidar a questão, enviou a Manguinhos alguns daqueles insetos. Oswaldo Cruz os fez se alimentarem em sagüis criados em laboratórios (e, portanto livres, de qualquer infecção) e, cerca de um mês depois, comunicou a Chagas que encontrara formas de tripanossoma no sangue de um dos animais, que havia adoecido. Voltando ao Instituto, este constatou que o protozoário não era o T. minasense, mas uma nova espécie de tripanossoma, que batizou então de Trypanosoma cruzi, em homenagem ao mestre.

Em Manguinhos, Chagas iniciou estudos sistemáticos sobre o ciclo evolutivo do novo parasito. Em busca de outros hospedeiros vertebrados do T. cruzi e suspeitando que o homem pudesse ser um deles, retornou a Lassance, onde empreendeu exames sistemáticos de sangue nos moradores. Ao examinar animais domésticos, verificou a presença do T. cruzi no sangue de um gato. No dia 14 de abril de 1909, encontrou finalmente o parasito no sangue de uma criança febril. Em nota prévia enviada ao Brasil Médico, anunciou a descoberta (Chagas, 1909 b). Berenice, uma menina de dois anos, era o primeiro caso do que seria considerada a partir de então uma nova doença humana. Aos 22 de abril, o feito foi comunicado, em sessão da Academia Nacional de Medicina, por Oswaldo Cruz. A imprensa deu destaque ao episódio, reverenciado como uma das “glórias de Manguinhos”.

A descoberta e os primeiros estudos da nova entidade mórbida tiveram um impacto decisivo na carreira científica de Chagas, que alcançou grande proeminência no mundo científico, no Brasil e no exterior. Em 1911, no pavilhão brasileiro da Exposição Internacional de Higiene e Demografia, realizada em Dresden, Alemanha, a doença de Chagas foi apresentada com destaque, despertando grande interesse do público. Nesse mesmo ano, seu descobridror foi indicado ao Prêmio Nobel de Medicina. Outro marco importante foi a conquista, por Chagas, em 1912, do Prêmio Schaudinn, concedido de quatro em quatro anos, pelo Instituto de Doenças Tropicais de Hamburgo, ao melhor trabalho em protozoologia.

Sob a liderança de Chagas e com a colaboração de vários pesquisadores do IOC, a nova tripanossomíase passou a ser estudada em seus vários aspectos, como as características biológicas do vetor, do parasito e de seu ciclo evolutivo, o quadro clínico e a patogenia, as características epidemiológicas, os mecanismos de transmissão e as técnicas de diagnóstico. Assumindo centralidade na agenda institucional do IOC e no próprio processo de institucionalização da atividade científica no país, a descoberta da nova tripanossomíase passou a ser tratada, pelos contemporâneos e pela memorialística médica, até o presente, como um mito glorificador da ciência brasileira. Uma das considerações que se tornariam mais recorrentes quanto à importância da descoberta como “feito único” da ciência nacional foi o caráter incomum da seqüência sob a qual ela ocorreu, já que se partiu da identificação do vetor e do agente causal para em seguida determinar a doença a eles associada. Outro aspecto singular foi o fato de o mesmo pesquisador haver descoberto, num curto intervalo de tempo, um novo vetor, um novo parasito e uma nova entidade mórbida.

A historiografia ressalta a inscrição da descoberta no contexto de afirmação e institucionalização da medicina tropical européia, tanto em função dos referenciais teóricos que a viabilizaram, quanto pela contribuição que a própria descoberta teve no sentido de consolidar a nova especialidade. Outro aspecto salientado é a importância da descoberta como fonte de legitimação, visibilidade e recursos – materiais e simbólicos – para o projeto institucional de Oswaldo Cruz (Stepan 1976; Benchimol & Teixeira 1993; Perleth 1997; Worboys 1997; Coutinho 1999; Sá 2005; Kropf 2006).

Se, por um lado, a descoberta contribuiu para dar sentido e reforçar o projeto institucional de Manguinhos, ela própria ganhou sentidos particulares como “grande feito da ciência nacional” em função dos significados associados a este projeto, que se apresentava publicamente como destinado a associar produção de conhecimento científico novo e compromisso social com os problemas sanitários do país.
O encontro com a doença do sertão
Em 1910, Chagas apresentou a primeira caracterização clínica da doença que levaria seu nome. A fase aguda da infecção dividia-se em duas formas: casos com graves distúrbios cerebrais (geralmente crianças menores de um ano, que quase nunca sobreviviam), e casos – mais freqüentes – sem tais manifestações, que, entre 10 e 30 dias, evoluíam para o estado crônico. A fase crônica, que compreenderia a maior parte dos casos, abrangeria distúrbios endócrinos, cardíacos e neurológicos. Chagas considerou como sinal clínico mais característico da doença a hipertrofia da tireóide (bócio). Para ele, nas localidades onde havia a tripanossomíase, o bócio endêmico não era o mesmo que ocorria na Europa (que muitos já atribuíam à carência de iodo), mas resultado da ação do Trypanosoma cruzi na tireóide. Constituindo, segundo Miguel Couto, catedrático de Clínica Médica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (FMRJ), o ‘selo da doença’, o bócio foi considerado o sinal primordial para seu diagnóstico clínico e, conseqüentemente, para seu enquadramento como entidade nosológica específica. Além do “papo”, as perturbações motoras, da linguagem e da inteligência decorrentes da “forma nervosa” assumiram grande relevo na caracterização da importância médico-social da doença, como “fator importante de degeneração humana” (Chagas, 1910a: 163).

O desenho da nova tripanossomíase fazia emergia um objeto médico-científico e, ao mesmo tempo, social. Em sua conferência na ANM, Chagas afirmou que se estava diante de um “[...] terrível flagelo de vasta zona do país, aí inutilizando numerosa população para a atividade vital, criando gerações sucessivas de homens inferiores, de indivíduos inúteis, fatalmente votados à condição mórbida crônica, a tal coeficiente de inferioridade que os torna elementos inaproveitáveis na evolução progressista da Pátria.” (Chagas, 1910 b: 446).

Suas palavras foram amplificadas por uma estratégia de grande efeito persuasivo. A luz elétrica, inaugurada na Academia naquela noite como mais um símbolo do progresso vivido na recém-renovada capital da Belle Époque, foi usada por Chagas para projetar imagens cinematográficas feitas em Lassance, a materializar, no centro da medicina e do país, um país distante e atrasado. O aparato do laboratório também foi utilizado para convencer aquela importante audiência. Além de peças anátomo-patológicas, 16 microscópios foram franqueados a quem quisesse observar o novo parasito. O espetáculo foi descrito pela imprensa, ampliando os canais de circulação e visibilidade dos enunciados de Chagas.

Expressando-se como ‘doença do sertão’, a doença de Chagas particularizava a idéia de ‘doença tropical’ como ‘doença nacional’, ‘doença do Brasil’. Se, como aponta Arnold (1996), o contato dos europeus com os ‘trópicos’ – espaço não apenas físico, mas conceitual, cultural e político – significou a experiência da alteridade, a caracterização da tripanossomíase, por ser a doença de uma dada região, de uma dada população, sob certas condições sócio-ambientais, também revelavam um ‘outro’.

As declarações de Chagas na Academia tiveram grande repercussão. Na Câmara Federal, o deputado mineiro Camillo Prates exigiu providências dos poderes federais. O Correio da Manhã, aplaudindo a iniciativa e criticando os que apontavam limites constitucionais à intervenção da União nas questões de saúde dos estados, salientou tratar-se:

“[...] não do interesse propriamente de um ou outro Estado, mas do interesse de muitos Estados. São necessidades não de Minas ou de Goiás somente que impõem essas providências, mas do Brasil inteiro. [...] O Brasil não é só o Rio de Janeiro. Não esqueçam os nossos legisladores e governantes de que vive aqui, mais ou menos comodamente, um milhão de brasileiros, ao passo que mourejam nos sertões cerca de dezoito milhões (Vidal, 1910).


No contexto do debate sobre a moléstia de Chagas, surgiam, em 1910, as bandeiras e argumentos que conformariam, anos depois, o movimento pelo saneamento dos sertões e suas implicações na reforma dos serviços federais de saúde pública do país (Lima & Hochman, 1996; Hochman, 1998).

Em 1911, em uma segunda conferência na ANM, diante de ministros e do presidente da República, Hermes da Fonseca, Chagas intensificou a associação entre os elementos do enquadramento médico-científico e aqueles que conformavam a doença como objeto social:

“[...] minando lentamente o organismo humano e nele produzindo uma queda progressiva da vitalidade, tornando o indivíduo incapaz para o trabalho e perpetuando-se, talvez, por transmissão hereditária, em gerações sucessivas de homens inferiores, a tireoidite parasitária cria, em vastas regiões de Minas Gerais e de outros Estados do Brasil, uma população de degenerados, certamente inaproveitáveis na evolução progressiva do país” (Chagas, 1911: 373).
A idéia de que a decadência orgânica das populações rurais era um obstáculo ao progresso social e econômico, a exigir a intervenção do Estado imprimia contornos particulares à medicina tropical no Brasil. Citando os europeus empenhados em combater a ‘doença do sono’ na África por interesses colonialistas, Chagas salientava que, aqui, o estudo da patologia tropical deveria estar comprometido com os destinos da própria nação: “[...] é o futuro de um grande povo que se deverá zelar” (Chagas, 1911: 374-5).

Em 1912, Chagas formulou, na abertura do VII Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia, em Belo Horizonte, o argumento que, em 1918, se condensaria na imagem da ‘trindade maldita’, cunhada por Belisário Penna como selo do movimento sanitarista: “os três grandes problemas sanitários do interior do Brasil”, responsáveis por seu atraso social e econômico, eram a malária, a ancilostomose e tripanossomíase brasileira. Colocando o saneamento rural como caminho para dar continuidade à missão ‘redentora’ da medicina nacional, afirmou que, se Oswaldo Cruz havia ‘reabilitado’ o país mediante o saneamento da capital, o desafio, naquele momento, era o combate aos problemas sanitários do interior, “onde nem sempre tem sido possível chegar os benefícios de uma ação bem dirigida” (Chagas, 1912: 8).

Nestes primeiros anos de produção de conhecimentos sobre a doença, a estreita vinculação entre as dimensões científica e político-social da tripanossomíase expressou-se fundamentalmente na própria tessitura dos textos e declarações de Chagas, veiculados, basicamente, nos espaços específicos da medicina e da ciência – a literatura especializada, os congressos e associações médicas –, ainda que buscando atingir os espaços da política. A partir de 1916, o processo de ‘enquadramento’ médico e social da doença envolveria novas audiências, projetando-se no campo intelectual e, sobretudo, na arena política brasileira.
Entre dúvidas e glórias: a doença do Brasil e o movimento sanitarista
Em 1916, Miguel Pereira pronunciou o discurso que se tornaria célebre e polêmico, em que, indignando-se com o quadro sanitário do interior do país, afirmou que o Brasil constituía um “imenso hospital” (Jornal do Commercio, 1916). Este foi um ano decisivo também na trajetória da doença de Chagas, cuja caracterização clínica e epidemiológica era, naquele momento, objeto de uma controvérsia científica.

Em 1915, estudos feitos na Argentina, sob a liderança do microbiologista austríaco Rudolf Kraus, confrontaram as formulações de Chagas sobre as formas crônicas da tripanossomíase, em especial a etiologia parasitária do bócio endêmico. Apesar da presença de vinchucas infectadas e de ‘papudos’ no território argentino, os pesquisadores inquietavam-se com o fato de não haver sido diagnosticado nenhum caso humano da doença (Kraus, Maggio, Rosenbuch, 1915). Kraus e seus colaboradores argumentaram, então, que as manifestações tireoidianas e neurológicas atribuídas à tripanossomíase americana em sua fase crônica corresponderiam, na realidade, ao bócio e ao cretinismo endêmicos já descritos na Europa. Ou seja, tratavam-se de endemias distintas e sobrepostas. Segundo eles, a tripanossomíase seria uma doença essencialmente aguda, restrita às localidades em que vinha sendo estudada no Brasil. Para explicar a ausência de casos na Argentina, referiram-se a uma possível atenuação da virulência do T. cruzi em função do clima (Kraus, Rosenbuch, 1916).

Em setembro de 1916, Chagas rebateu tais alegações ao tomar parte no Primeiro Congresso Médico Nacional, em Buenos Aires. Declarou que, mesmo que viesse a rever algumas idéias, nenhuma das contestações ameaçava seu conceito geral da doença que, salientou, não se limitava a casos agudos nem ao Brasil (Chagas, 1916 a). Contudo, ainda que reiterando suas convicções, deu início a um importante processo de ‘reenquadramento’ no desenho clínico da tripanossomíase, minimizando a primazia dos sinais tireoidianos e reforçando a importância dos elementos cardíacos.5

Foi na solenidade em homenagem a Aloísio de Castro, diretor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, pela participação no encontro na Argentina, que o presidente da ANM Miguel Pereira pronunciou o discurso que lançaria a campanha sanitarista. Suas palavras repercutiram fortemente no meio médico e no debate político e intelectual sobre a identidade nacional (Lima & Hochman, 1996). Conquistou muitas adesões, mas também gerou intensas críticas, por parte do que consideraram que este diagnóstico “pessimista e exagerado” feria o orgulho nacional. No contexto da I Guerra Mundial, o momento era de grande fervor nacionalista e temas como a questão racial, a imigração, a educação e o recrutamento militar entrecruzavam-se na perspectiva de identificar as mazelas e as chances de “regeneração” do país.

A doença de Chagas (cujos estudos Pereira acompanhara de perto, chegando a propor uma das designações mais usadas por Chagas, a de “tireoidite parasitária”) foi um ingrediente decisivo da denúncia quanto ao “vasto hospital”. Em resposta aos que duvidavam desta enfermidade, Pereira acentuou a missão social dos homens de ciência que, como Chagas, foram aos sertões e desvendaram a triste realidade um Brasil abandonado, doente, que só responderia aos clamores patrióticos do momento por meio de “um exército de sombras” (Jornal do Commercio, 1916).

Em 1918, como desdobramento da intensa mobilização despertada pelo discurso de Pereira, criou-se a Liga Pró-Saneamento do Brasil, dirigida por Belisário Penna. Com grande repercussão na imprensa, nos meios intelectuais e no Congresso Nacional, o movimento sanitarista reivindicava que o Estado brasileiro aumentasse seu poder de intervenção no campo da saúde pública e conduziu a uma ampla reforma dos serviços sanitários, com a criação, em 1920, do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), do qual Chagas seria o primeiro diretor (Hochman, 1998). No âmbito deste movimento, a dimensão simbólica da doença de Chagas como “doença do Brasil” foi intensificada. Ironicamente, na contramão do rearranjo que Chagas promovia no desenho clínico da doença, o discurso político reforçaria justamente um dos principais elementos que ele buscava minimizar: a associação com o bócio. Nos principais textos que veiculavam a campanha (Penna, 1918), este continuaria a ser o selo da doença, materializando visualmente, juntamente com as desordens neurológicas, os efeitos dramáticos do quadro mórbido dos que pereciam no interior do país.

A projeção assumida pela tripanossomíase americana e por seu descobridor no domínio da política expressava e gerava reconhecimento e legitimidade, mas, ao mesmo tempo, impunha maior susceptibilidade a controvérsias e tensões. À medida que impulsionava o brado dos sanitaristas, a “doença do Brasil” se tornou objeto de uma intensa polêmica, que conferiria às questões científicas debatidas na Argentina novos significados e implicações, referidos ao debate em torno da identidade nacional.

Em 1919, no calor das discussões sobre a reforma dos serviços sanitários do país, alguns pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz questionaram duramente a importância médico-social atribuída à tripanossomíase. Declarando que a associação com o bócio endêmico era insustentável e que havia levado a um exagero na avaliação do impacto social da tripanossomíase. Apontaram que, em contraste com as estimativas dos sanitaristas, que calculavam em milhões as vítimas do T. cruzi, havia apenas poucas dezenas de casos agudos comprovados parasitologicamente. Baseando-se em Kraus, afirmaram que este parasito talvez tivesse baixa patogenicidade para o organismo humano. Numa evidência dos significados políticos que envolviam o tema, acentuaram que as “cores tétricas” (Vasconcellos, 1919) com que muitos pintavam a tripanossomíase e o quadro sanitário nacional trariam o descrédito sobre o país, afugentando os imigrantes. Os pronunciamentos provocaram reação imediata de Chagas e Penna e ganharam as páginas da imprensa.

A contenda atingiu sua máxima intensidade em 1922, quando, na Academia Nacional de Medicina, Afrânio Peixoto afirmou que aquela era, na realidade, uma “raridade nosográfica” e não um flagelo nacional. Além das dúvidas quanto à definição clínica e à dimensão epidemiológica e social da doença, questionou-se a própria autoria de Chagas na descoberta do parasito, que, segundo alguns, caberia a Oswaldo Cruz, por ter sido ele o autor da infecção experimental que revelara o parasito. A Academia formou então uma comissão para avaliar a questão. Depois de intensos debates, em novembro de 1923, o parecer da Academia reiterou o mérito e idoneidade dos trabalhos de Chagas e foi-lhe favorável quanto à prioridade da descoberta do T. cruzi. Contudo, deixou em aberto o cerne científico e político da questão. Enfatizando as restrições nos métodos de diagnóstico das formas crônicas, acentuou que não dispunha de condições para pronunciar-se quanto à definição clínica e à extensão geográfica da doença (ANM, 1923 a). Em conferência, Chagas reiterou suas convicções, insistiu que considerava a questão do bócio passível de revisão e que, caso ela fosse descartada, isso não invalidava os outros aspectos da doença, como os elementos cardíacos. Com veemência, rebateu os que acusavam de antipatriótica e pessimista sua visão sobre o país (ANM, 1923 b).

Segundo Stepan (2001), o conflito na Academia esteve relacionado ao debate em torno da medicina tropical e seus significados para a identidade nacional. Nas reações de Peixoto à representação do Brasil como nação de ‘degenerados’, estaria contida a visão dos que se opunham à idéia de uma medicina específica dos ‘trópicos’, vista como estímulo para antigos estereótipos que afrontavam o orgulho nacional, além de um determinismo climático incompatível com as perspectivas redendoras da higiene.

Concordando com Stepan, considero que a polêmica que cercou a tripanossomíase americana deve ser compreendida como uma controvérsia que mobilizou elementos de natureza científica (relativos às dúvidas que, de fato, cercavam a caracterização clínica e epidemiológica da doença) e também política, e isso não apenas no que diz respeito a rivalidades com Chagas. Constituindo uma fase específica da trajetória de construção e legitimação deste fato científico e social, expressou o confronto entre duas posições no debate nacionalista da época: os que defendiam e os que negavam o diagnóstico do ‘Brasil imenso hospital’, mas que, sob perspectivas opostas, compartilhavam a visão de que a doença de Chagas era o emblema deste olhar sobre a nação.

Considerações finais
Projetada na cena pública pelas bandeiras do movimento sanitarista e posta em suspeição justamente em função das implicações políticas que, no âmbito deste movimento, assumiu como ‘doença do Brasil’, a tripanossomíase americana seguiria, a partir da polêmica na ANM, sua trajetória de construção. As novas trilhas cognitivas que Chagas havia tomado em 1916 – e que imprimiam à doença um novo enquadramento como mal cardíaco – foram reforçadas e levariam, após a sua morte, sob novas circunstâncias cognitivas, institucionais e políticas, a uma nova etapa deste longo e coletivo processo de produção de consenso.

No IOC, os discípulos de Chagas mobilizariam novos interesses em torno da doença, sobretudo os dos clínicos do interior. As pesquisas conduzidas por Evandro Chagas e Emmanuel Dias, respectivamente, no Serviço de Estudo de Grandes Endemias e no Centro de Profilaxia e Moléstia de Chagas na cidade mineira de Bambuí, produziriam novos acordos cognitivos e sociais para que a ‘doença do Brasil’ fosse, no decorrer da década de 1950, reconhecida como fato científico e problema de saúde pública nacional (Kropf, 2005). Afastada, definitivamente, a correlação com o bócio, a doença passaria a ser caracterizada, essencialmente, como uma cardiopatia crônica e, em 1950, seria inaugurada, em Uberaba, a primeira campanha de profilaxia, mediante aplicação de inseticidas nas moradias.

Associando as teorias européias sobre germes, vetores e doenças dos ‘climas quentes’ às questões e desafios particulares de uma nação que se pretendia moderna (e da ciência que pretendia conduzi-la), o caminho pelo qual se partiu de um novo parasito encontrado no sangue de uma menina sertaneja para se chegar a uma endemia do continente americano foi longo e acidentado. Associando diversos atores sociais, espaços institucionais e esferas da vida social, em distintas circunstâncias históricas, este é um percurso que nos permite refletir sobre as intricadas e estreitas relações entre ciência e sociedade.
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1 Sigo as formulações de Charles Rosenberg (1992), para quem as doenças constituem objetos histórica e socialmente ‘emoldurados’ (framed), mediante certos procedimentos cognitivos e sociais que as definem como entidades específicas, e, ao mesmo tempo, apresentam-se como ‘moldura’ para a sociedade, imprimindo-lhe impactos, valores e significados. Sob tal perspectiva, a doença de Chagas constitui objeto fértil para se refletir sobre a natureza sócio-cognitiva da produção do conhecimento científico, conforme as abordagens contemporâneas da história e da sociologia da ciência. Ver Kropf (2004).

2 Para uma problematização do conceito de “descoberta”, à luz dos preceitos da sociologia da ciência, ver Branningan (1984).

3 Sobre Carlos Chagas, ver Chagas Filho (1993) e Kropf & Hochman (2007).

4 Em março de 1908, Carlos Chagas foi formalmente incorporado ao quadro de pesquisadores assistentes de Manguinhos.

5 Na nova classificação que propôs para as formas crônicas, suavizou o peso dos elementos endócrinos e apresentou a etiologia parasitária do bócio endêmico como “problema anexo”, passível de revisão (Chagas, 1916 b: 20).


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