Medos e ansiedades na facilitaçÃo de grupos: um caminho para a autotransformaçÃo fears and anxieties when facilitating groups: a path to self-transformation



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MEDOS E ANSIEDADES NA FACILITAÇÃO DE GRUPOS: UM CAMINHO PARA A AUTOTRANSFORMAÇÃO
Fears and anxieties when facilitating groups: a path to self-transformation
Simone Pessoa Pereira Sampaio1

Elaine Vieira2


RESUMO
As idéias expostas neste artigo se propõem a lançar luzes aos educadores e condutores de grupos acometidos de sentimentos de medo e ansiedade quando da ação de facilitar grupos ou expressar idéias em público. O facilitador de grupo é definido, para o escopo do trabalho, como toda a pessoa que se dispõe a colaborar para a expressão e o aprendizado dos que participam de grupos por ela coordenados, seja nas salas de aula das universidades e espaços educacionais em geral, seja na condução de reuniões de trabalho em empresas. Recorrendo a princípios biocêntricos, porquanto psicológicos e espirituais conectados com o ambiente, esse texto contempla uma abordagem assertiva na identificação das causas e efeitos do estresse sofrido por muitos educadores quando enfrentam a atividade de condução de grupos. Abrange uma pesquisa de natureza qualitativa, que adota o método da aplicação de questionário semi-estruturado aplicado a facilitadores de grupos profissionais, os quais analisam e compartilham suas experiências acerca do tema. Finalmente, aponta caminhos autênticos para a libertação de medos e ansiedades dos facilitadores de grupos, visando a efetividade na sua atuação e melhor qualidade de vida. Enfatizando que o modo de tratar dos bloqueios ao florescimento das habilidades humanas latentes é subjetivo e contingente da vida de cada ser, o artigo conclui que o sentimento do medo e da ansiedade ocorre porque as pessoas não sabem verdadeiramente amar o próximo no presente. Contrariamente, o facilitador que ama, sendo o amor entendido como a entrega, o espírito de solidariedade que inspira a doação legítima, está voltado para a sua contribuição ao processo de construção das pessoas.
Palavras-chave: Medos, ansiedades, facilitadores de grupos

ABSTRACT

The ideas exposed in this article aim to shed light upon educators and group conductors when they are on the job of facilitating group work or expressing themselves in public, and they become prey of their own feelings of fear and anxiety. A group facilitator is defined - for the purpose of this article - as anyone dedicated to foster the expression and learning abilities of the participants in a group she or he coordinates, be it in classrooms (at an university or any other educational setting), or conducting organizational meetings. With the help of biocentric principles, whereas psychological and spiritual connected with the environment, this text deals with an assertive approach when identifying causes and effects of the stress many educators suffer when facing the activity of group coordination. The study was based on a qualitative research, adopting the method of semi-structured questionnaire applied to professional group facilitators, where they reflect upon and share their experiences related to the theme. Finally, there are some suggestions that point out to authentic ways to free facilitators from fear and anxiety, in order to better their performance and their quality of life. It is emphasized that the way one treats obstacles to the flourishing of potential human abilities is subjective and unique to each one's way of life, which leads to the conclusion that these feelings of fear and anxiety occur because one doesn't know how to really love his/her neighbor in the now. On the other hand, a facilitator who knows how to love - being love understood as an offering, as a spirit of solidarity that inspires an legitimate donation -, then this facilitator is oriented to the contribution he or she can make to the process of building better people.


Keywords: Fears, anxieties, facilitators of groups.

1. INTRODUÇÃO
Embora estudos modernos apontem o educando como o principal agente do processo educacional, a atuação do educador é decisiva para o êxito da empreitada educacional. Além da bagagem de conteúdo que o educador carrega consigo e os recursos por ele utilizados no espaço educacional, há que se ponderar a filosofia de atuação que o inspira.

Por falta de consciência do verdadeiro papel do educador ou pela adoção de pseudo valores, constata-se a incidência de desgastes emocionais que causam infelicidade e limitam o processo de aprendizagem.

O conceito de facilitação de grupos extrapola as clínicas de psicoterapias e paulatinamente ocupa lugar nas salas de aula de ensino formal e informal. O termo facilitador de grupos será utilizado aqui no sentido amplo: toda a pessoa que se dispõe a colaborar para a expressão e o aprendizado dos que participam de grupos por ela coordenado, seja nas salas de aula das universidades e espaços educacionais em geral, seja na condução de reuniões de trabalho nas empresas. O facilitador de grupo, é portanto, aquele conduz o grupo ou deixa-se conduzir por ele, seja fazendo provocações ou sendo provocado, seja agindo ou observando, mediando ou sendo mediado, visando um objetivo específico.

Como marco teórico, recorre-se à abordagem biocêntrica, capitaneada por um de seus expoentes contemporâneos, o antropólogo e psicólogo Rolando Toro (1988) e aos ensinamentos de Eva Pierrakos (1990), em seu livro O Caminho da Autotransformação. Como objetivo, esse trabalho se propõe a lançar luzes sobre questões críticas que envolvem sentimentos de medos, ansiedades, tensões que limitam a ação do facilitador de grupos.

Para ampliar a discussão do tema, foi realizada uma pesquisa semi estruturada, obtendo o retorno de nove facilitadores, através de questionários respondidos de próprio punho, no qual compartilham a sua experiência acerca do assunto.

Ao final desse texto, espera-se ter promovido uma melhor compreensão dos medos e ansiedades sofridos pelo facilitador de grupos, contribuindo para o seu enfrentamento.



2. OS MEDOS E AS ANSIEDADES NA FACILITAÇÃO DE GRUPOS
Muito embora o medo se caracterize por uma reação instintiva frente a perigos reais iminentes e funcione como mecanismo de defesa imprescindível à sobrevivência humana, esse sentimento assumiu ao longo da história do ser humano, em grande medida, uma função desvirtuada do que é proposto pela natureza. Na realidade social, a incidência indiscriminada do medo, em nome de um pseudo-equilíbrio, é atribuída a ameaças imaginárias, muitas vezes improcedentes.

Em seu livro Como Vencer o Medo, Haggai (1990:23) aborda o aspecto instintivo do medo:

“O medo – essa reação básica, fisiológica, que acelera as batidas do coração, e nos prepara para a fuga ou ação defensiva – afeta o animalzinho selvagem que foge do leopardo da mesma forma que me afeta quando vejo um veículo prestes a bater contra meu carro. A reação é instintiva e essencial.”

A ansiedade, por sua vez, configura-se como uma perturbação de espírito inconsciente, pois o indivíduo experimenta um desconforto, um sentimento de opressão sem identificar exatamente o que lhe incomoda. Ferreira (1986:127) explica a ansiedade como sendo “Receio sem objetivo ou relação com qualquer contexto de perigo, e que se prende, na realidade, a causa psicológica inconsciente”. Trata-se de um estado emocional semelhante ao medo, porém direcionado para o futuro.

A discussão neste artigo centra-se especificamente nos medos e nas ansiedades mais comuns do facilitador de grupos, seus reflexos no seu dia-a-dia e a forma de lidar com eles. Tendo em vista o caráter intrínseco de ambos, as manifestações dos medos e ansiedades são trabalhadas em conjunto, sem a preocupação de distinguí-las.

Mãos geladas, suor excessivo, taquicardia, respiração ofegante, lividez, contração muscular, dificuldade de raciocínio, tensão mental e psicológica e, às vezes, desespero são alguns dos sintomas que se manifestam naqueles que sofrem de ansiedade e medo por ocasião da expressão pública e condução de grupos.

Quando se está nessa fase, o indivíduo praticamente não se aventura a criar ou induzir oportunidades do gênero. Permanece mais passivo e prefere entregar à sorte o chamado para a ação. A aflição começa quando é recebido um convite ou uma convocação para proferir uma palestra ou facilitar um grupo. A alegria e a satisfação ante a chance de enriquecimento pessoal e profissional são toldadas por sentimentos limitantes. Um turbilhão de sentimentos emerge travestido de dúvidas do tipo:


  • Será que tenho competência para assumir esse compromisso?

  • Serei eu a pessoa certa para facilitar esse grupo?

  • O tempo é suficiente para preparar o material do evento?

  • Conseguirei material interessante para a minha intervenção?

  • Será muito exigente o público que irei facilitar?

  • Será que as pessoas vão perceber o meu nervosismo?

  • Conseguirei definir adequadamente os tempos (e movimentos)?

  • Conseguirei “segurar” o grupo e despertar o seu interesse?

  • E se der o branco?

  • E se a turma não gostar de mim?

  • E se rirem de mim?

Quando se percebe portador assíduo de manifestações tão indesejáveis tende-se para uma das seguintes alternativas: ou encara-se o problema e tenta-se superá-lo com perseverança, exposição e muito sofrimento; ou, como é mais cômodo, desiste-se da carreira e “joga-se a toalha” como muitos o fazem. Nesse sentido, Haggai coloca muito bem:

“(...) a eliminação do medo significa a eliminação de desafio da vida, e a abdicação da oportunidade de auto-realização. É claro que sentir medo é uma coisa desagradável. Contudo, a solução não é evitar o medo, mas usá-lo, transcendê-lo e vencê-lo. Não foi assim que Sir. Edmund Hallary chegou ao topo do monte Everest e Neil Armstrong à lua?” (HAGGAI, 1990: 24).

Rolando Toro, em seu livro Projeto Minotauro (TORO, 1988), discorre sobre a Árvore dos Medos que se constitui de uma rede de interrelacionamentos das diversas espécies de medos, em cuja raiz está o medo de perder a identidade. Vinculados a esse medo essencial, vinculam-se diretamente o medo de viver, o medo de amar, o medo do primordial3 e o medo de expressar os próprios potenciais, os quais Toro denomina de medos nucleares. Subjacentes a esses, estão uma grande cadeia de medos que vão desde o medo da solidão até o medo de expressar a agressividade, de dizer não e de contestar.

Toro recomenda que pessoas que apresentem identidade fragilizada busquem o reforço da sua identidade e o enfrentamento da raiz de todos os medos, senão para liquidá-la, pelo menos para encará-la de frente e estabelecer um diálogo que possibilite uma qualidade existencial mais profícua e saudável.

No trecho a seguir, Toro traduz esse tênue limite entre o medo e a identidade:
“Quando entramos no reino do medo, entramos também em contato com a nossa identidade, como se a iminente ameaça de destruição a tornasse mais forte e a obrigasse a buscar suas reservas de invulnerabilidade. Existe uma tensa relação entre o medo do caos e a coragem de viver. A existência se nos oferece, assim, como um permanente desafio.” (Toro, 1988:73)
3. EDUCAÇÃO BIOCÊNTRICA: UMA FONTE DE INSPIRAÇÃO PARA O FACILITADOR
O enfrentamento de medos e ansiedades encontra valiosos aportes na educação biocêntrica, por tratar-se de uma abordagem que privilegia o amor, o prazer, a alegria, a troca, a emoção e todos os sentimentos favoráveis a uma vida saudável e plena. Pretende, portanto, ser uma visão ecológica da educação porque busca a harmonia em todas as dimensões humanas (espiritual, psíquica, afetiva e motora) integradas aos sistemas sociais, biológicos, planetário e cósmico.

Sobre a origem da abordagem biocêntrica, vale citar Rolando Toro (1988), um dos grandes seguidores e criador da biodança, quando resgatou a importância dos potenciais biológicos para o fortalecimento do vínculo com a vida. Esses potenciais, também denominados linhas de vivências, abrangem a essência dos princípios da educação biocêntrica, quais sejam: “a vitalidade (impulso natural para o movimento e desenvolvimento vital); a sexualidade (ímpeto ao desejo, ao prazer e a perpetuação da espécie); a criatividade (impulso à expressividade e criação); a afetividade (impulso ao amor e à solidariedade); e a transcendência (capacidade de buscar a intimidade consigo mesmo e com a totalidade)”. O desenvolvimento dessas linhas de vida produz uma evolução, ou melhor, uma revolução na maneira de encarar o mundo e se posicionar nele.

É oportuno discorrer sobre o relacionamento professor-aluno na abordagem biocêntrica da educação, vez que serve de referencial para o facilitador de grupos na busca de livrar-se dos encargos dos medos e ansiedades a que se vem referindo no decorrer desse trabalho. Para tanto, recorre-se à Ruth Cavalcante, co-autora do livro Educação Biocêntrica – Um Movimento de Construção Dialógica (Cavalcante, 1999: 41), no qual relaciona em forma de tópicos os diversos aspectos que caracterizam essa relação básica na dinâmica de grupos. Visando contribuir ao propósito desse tema, acrescentar-se-ão breves comentários a cada característica mencionada pela autora:


  • “Interação orientada pela consciência ética”: a relação de troca entre facilitador e facilitando se estabelece com base na liberdade e no amor, pilares do novo conceito de ética.

  • “Relação horizontal, circular e transdimensional”: não há, de forma alguma, uma relação de hierarquia, nem mesmo uma comunicação unilateral em qualquer sentido. As relações acontecem em todas as direções. Facilitador e facilitando encontram-se numa relação de igualdade e integração que possibilita a superação da unidimensionalidade.

  • “O educador como mediador na construção do conhecimento e o educando como sujeito da aprendizagem”: o facilitando é promovido de uma posição passiva, receptora, para a condição de agente ativo do seu próprio processo de transformação. Cabe ao facilitador assessorá-lo nesse processo de construção, criando e promovendo condições para que o próprio facilitando conquiste os seus espaços de expressão.

  • “Relação dialógica e amorosa”: a troca dialógica é fundamental para o desenvolvimento mútuo do facilitador e facilitando, pois é através do diálogo que os fenômenos de fato acontecem. O amor é a senha única possível para que haja a entrega necessária às transformações legítimas.

  • “Cooperação afetiva e aprendizagem mútua”: na mesma linha do item anterior, a troca afetiva é que consolida a aprendizagem e promove as transformações.

  • “Relação empática e cultivo do vínculo”: A compreensão do outro passa pelo sentir-se como se ele fora, procurando visualizar a sua ótica, os seus sentimentos. É a aceitação do outro e a sua ligação inteira com ele.

Como se vê, as posturas acima descritas para a ação de facilitação estão fundamentadas na ética, na igualdade, na liberdade, no diálogo, na cooperação, na empatia e sobretudo no amor. Perseguí-las não parece uma missão fácil. Ao contrário, remete para um longo caminho a ser trilhado, pelo qual somente a linguagem do amor é compreensível. Dominar esse idioma é o grande desafio do facilitador de grupos, pois é o único capaz de traduzir as suas próprias necessidades e do grupo. Nesse caminho, acredita-se, não há espaço para ansiedades ou medos.

Desconectados desse referencial, muitos facilitadores concentram toda a sua energia em planejamentos inflexíveis e se prestam ao seu cumprimento rigoroso sem atentar para a correta leitura do grupo. Nesses casos, os resultados são medíocres e o desgaste significativo para ambas as partes.

Ademais, o custo da antibiocentricidade para os envolvidos tende a se prolongar na medida em que pouco se faz para a conscientização do verdadeiro papel do educador, facilitador de grupos.

Uma estratégia simples herdada da fenomenologia é o registro de sentimentos e impressões tão logo eles surjam. Embora eventualmente se exercite a reflexão após cada ação de facilitação, é importante a prática do princípio do distanciamento reflexivo através do registro após a vivência do fenômeno, ocasião em que se propiciam insights para a solução de problemas identificados na condução do grupo.

Ponciano (1993:15) , em seu livro Gestalt-Terapia: O Processo Grupal, aborda essa questão quando ensina: “Descrever o processo é mais importante que interpretá-lo. A pessoa termina por encontrar seu próprio sentido através de seu processo vivido e escutado interiormente por ela.”

Quando se utiliza a escrita como forma de expressão de sentimentos, observa-se a emergência de nuances ainda não evidenciadas, vez que existem percepções, intuições que se camuflam no interior das pessoas. O ato de descrever os fenômenos tem demonstrado o seu poder de revelar tais surpresas.

Nesse sentido, Roberto Crema contribui com o conceito de sincronicidade no texto O Facilitador Holocentrado, constante do livro Saúde e Plenitude:
“A sincronicidade é o oposto: exige uma atitude consciente e atenção plena. O significado que se apreende do entrecruzamento de dois eventos ou seqüências causais distintas é um clarão repentino, único e intransferível para qualquer outra situação. (Crema, 1995: 48)
4. O CAMINHO DA AUTOTRANSFORMAÇÃO
Conhecidos os princípios da educação biocêntrica que reforçam os potenciais humanos para o fortalecimento de relacionamentos saudáveis, explorar-se-á acerca dos bloqueios pessoais e caminhos internos do facilitador enquanto ser em transformação.

No seu livro a Arte de Ensinar, Rubem Alves denuncia a deturpação de processos educacionais arcaicos que bloqueiam e inibem o desenvolvimento da expressividade, tão fundamental para o processo de interação educador-aluno:


“Compreende-se que, com o passar do tempo, a inteligência se encolha por medo e horror diante dos desafios intelectuais, e que o aluno passe a se considerar como um burro. Quando a verdade é outra: a sua inteligência foi intimidada pelos professores, e por isto, ficou paralisada”. (Alves, 1994: 17)
Aprofundando no conhecimento do ser humano, Eva Pierrakos (1990), em seu livro O Caminho da Autotransformação apresenta grandes contribuições para a solução dos medos e ansiedades do facilitador de grupos. O primeiro fundamento é a necessidade do indivíduo se assumir como de fato é, com todas as suas limitações e virtudes legítimas, abandonando, de vez, o esforço de aparentar uma falsa imagem de si. Assim, desenvolve os conceitos da representatividade do ser humano através das três esferas: eu superior, eu inferior e auto-imagem idealizada, que denomina de máscara. O eu superior, ou esfera central, representa o que há de mais puro, essencial e divino:
“O eu superior é livre, espontâneo, criativo, amoroso, generoso, onisciente e capaz de alegria e felicidade infinitas. Você sempre pode entrar em contato com ele quando está na verdade, quando dá de coração e por meio da meditação e oração.” (Pierrakos, 1990: 38)
O eu inferior é a dimensão não desenvolvida da natureza humana, da qual emanam todas as emoções e impulsos negativos, inclusive o medo e a ansiedade. É o que Pierrakos chama de mundo oculto da egocentricidade. Apesar do subdesenvolvimento, essa esfera sobrepõe-se à primeira e comanda o comportamento da maioria das pessoas.

A terceira faceta do ser humano é a auto-imagem idealizada, também conhecida como a máscara, que Pierrakos (1990:38) descreve como “A camada mais externa, que as pessoas utilizam como um escudo protetor para encobrir o eu inferior e muitas vezes também o seu eu superior”. É adotando essa equivocada aparência que pretensos facilitadores sofrem os tão indesejáveis sentimentos de medos e ansiedades, conforme detecta a autora nesse trecho: “...procuramos desesperadamente igualar-nos a uma imagem que criamos de como deveríamos ser. O esforço contínuo para sustentar essa versão idealizada é responsável por grande parte dos nossos problemas.” (PIERRAKOS, 1990: 37).

Na próxima passagem, Pierrakos apresenta a solução: “A prática da confrontação honesta e compassiva com o eu inferior, ao mesmo tempo que nos faz aderir cada vez mais solidamente ao eu superior, acarreta a libertação pessoal suprema.” (PIERRAKOS, 1990: 17)

Viva a verdade! Abaixo a mentira! Essas frases traduzem um princípio a ser perseguido por todos os que desejam facilitar grupos. Percebe-se, entretanto, que de forma involuntária e sutil as pessoas acabam sacrificando um aspecto importante desse valor, na medida em que procuram disfarçar para os outros, e sobretudo, de si mesmas, suas limitações, complexos, medos, inabilidades e fraquezas. Busca-se ressaltar belezas, virtudes, talentos, que se dispõem ou não, comprometendo, assim inúmeras oportunidades de serem autênticas e darem vazão ao seu eu superior. Ao contrário, em importantes momentos da vida, inclusive quando na condução de grupos, deixam-se conduzir pelo eu inferior aliado à auto-imagem idealizada, e porque não dizer, à máscara.

Essa opção, embora vise à aceitação dos facilitandos e evite momentaneamente a dor da rejeição, acarreta uma série de sofrimentos colaterais além da frustração óbvia, especialmente no que se refere à atuação como facilitador de grupos. Ao contrário, nesse esforço inútil, sofre-se de sentimentos de insegurança, ansiedade, medo e outros bloqueadores do autodesenvolvimento.

Nesse sentido, Pierrakos sentencia:


“O único modo possível de encontrar o seu eu verdadeiro, de chegar à serenidade e o respeito de si mesmo e de viver sua vida plenamente é proceder à dissolução da auto-imagem idealizada. (...) Além disso, o eu idealizado também manifesta falsas necessidades, que são acrescentadas e criadas artificialmente, como a necessidade de glória, de triunfo, para satisfazer a vaidade ou o orgulho. A busca dessas necessidades nunca resulta em realização verdadeira.” (PIERRAKOS, 1990: 43).
Essa consciência desenvolvida provoca forte ressonância. Inspira e amplia a visão que as pessoas têm de si mesmas. Observando-se por esse prisma, permite-se vivenciar alguns avanços na auto-denúncia do seu tirano interior, notadamente quando da atuação em grupos, foco desse trabalho.

Por outro lado, a autora conforta quando declara a grandeza do eu superior ou o Deus interior que cada ser humano traz consigo:


“Quando reunir coragem para tornar-se o seu verdadeiro eu, você descobrirá que ele é muito superior ao eu idealizado, embora inicialmente lhe possa parecer o contrário. Então você sentirá a paz de estar em casa dentro de si mesmo”. (PIERRAKOS, 1990: 48)

Nesse mesmo sentido, Deepak Chopra, no seu livro As Sete Leis Espirituais do Sucesso dedicou a sua primeira lei: a lei da potencialidade pura. Igualmente, o autor revela o autopoder, o campo de todas as possibilidades e da criatividade infinita que está dentro de cada um de nós quando declara: “Quando você descobre sua natureza essencial, quando sabe quem realmente é, encontra a sua potencialidade. É no conhecer-se que reside a capacidade de realização de todos os sonhos...” (CHOPRA, 1994: 15)

Ainda aqui, Chopra introduz o conceito de auto-referência, pelo qual o ser humano se baseia para ser e agir a partir do seu verdadeiro eu e não ilusoriamente se apóia na referência externa para a qual não tem controle, a que ele chama de objeto-referência:
“Seu verdadeiro Eu – que é seu espírito, sua alma – está livre dessas coisas. É imune a crítica. Não se sente inferior a ninguém. Mas também é humilde... Na auto referência você experimenta seu verdadeiro Eu, que não teme desafios, respeita todas as pessoas e não se sente inferior a ninguém. O auto poder é, portanto, o verdadeiro poder.” (CHOPRA, 1994: 17)
Uma vez conectados com esses princípios, o pretenso facilitador de grupos deve rever profundamente as suas posturas. Em vez de prender-se aos ditames externos, preocupado em agradar em demasia aos outros em detrimento do seu próprio sentido. Essa constatação desencadeará a busca do verdadeiro eu e o ficar atento às suas sinalizações. Ao oferecer-lhe oportunidade de manifestar-se, será possível vivenciar momentos de prazer, de paz e realização.

Outrossim, deve-se admitir que essa conquista não é meta fácil de se atingir. A tirania do eu idealizado tem a seu favor a desenvoltura que tantos anos lhe propiciaram. Transpô-la é tarefa espinhosa, porém possível e auto motivadora, na medida em que se conquistam pequenas vitórias. Quem se aventurar nesse caminho da autotransformação poderá conseguir uma série de pequenas vitórias do eu superior, inclusive no campo da facilitação de grupos.

Uma reflexão acurada e honesta sobre essas questões é um passo imprescindível para a identificação de prováveis pseudo necessidades que perduram até hoje. Assim, recomenda-se, como propósito, identificá-las, expressá-las e delas se libertar para sempre, liberando-se para necessidades atuais e legítimas. Somente avançarão aqueles que se disponham a buscar a si mesmo e estejam dispostos a pagar os ônus inerentes ao enfrentamento de paradigmas arraigados. Ônus que vão desde a confrontação e assunção de deficiências, limitações e responsabilidades até a permissão de sentir o sabor das derrotas e não achar que é o fim do mundo e se tornarem capazes de encarar as crises, não como um mal e sim como uma oportunidade única de desenvolvimento e realização.

Fácil de falar, fácil de escrever, fácil de ler. Agir, colocar em prática, certamente não o são. Entretanto, a tomada de consciência crítica de todos esses aspectos, em si, já é um grande passo nesse caminho da autotransformação.


5. PESQUISANDO VIVÊNCIAS DE FACILITADORES DE GRUPOS
Acredita-se que além da observação, ação e reflexão centrada em si, a pessoa pode conseguir consideráveis aportes a partir das experiências de outras pessoas, pois novas perspectivas podem descortinar soluções para velhos problemas ou ainda remeter para horizontes nunca antes imaginados.

Com esse intuito, foi elaborado um breve questionário que objetivou captar a síntese da vivência e aprendizado com relação à questão dos medos e ansiedades no processo de condução de grupos de alguns facilitadores já iniciados profissionalmente. Dos catorze eleitos por consideração e respeito profissional, obteve-se o retorno de nove, inclusive do renomado psicólogo e autor de diversos livros, Roberto Crema. Visando obter maior diversidade, procurou-se nessa seleta amostra, contemplar facilitadores de ambos os sexos, em estágios diferenciados quanto ao nível de experiência e, com idade variando de 33 a 57 anos.

Quando questionados se os facilitadores consideravam-se experientes, quatro dos nove não se consideram facilitadores experientes, em virtude do tempo efetivo atuando como facilitador ou por não se sentirem seguros suficientemente para assim se considerarem. Já os outros cinco assumiram-se facilitadores experientes exatamente pelo oposto, ou seja, por terem vários anos dedicados ao trabalho de facilitação de grupos.

Nesse ponto, merece menção o fato de que alguns não se consideram experientes, mesmo contando com uma considerável vivência como facilitador, por julgarem-se inacabados. Desses, o sentimento é de que o ineditismo de cada grupo exige uma perícia do facilitador que impõe um caminho a ser percorrido cada vez mais além. O facilitador 1 retrata isso muito bem quando registra que “Cada grupo é tão novo, mesmo as pessoas sendo parecidas, a junção é sempre surpreendente. Nessas horas me vejo começando de novo.” O facilitador dois pensa que “a facilitação dificilmente fica completa e acabada”. Nesse rumo, o facilitador quatro, apesar de considerar-se experiente, admite que “um facilitador nunca está pronto, pois uma experiência nunca é igual a outra, e exigirá sempre uma postura de eterno aprendiz”.

O grande aprendizado aqui é que o sentir-se experiente está atrelado não somente ao tempo efetivo de atuação como facilitador, ou seja, ao caráter quantitativo, mas à consciência de que o trabalho do facilitador é uma caixinha de surpresas na qual, na verdade, nunca se sabe exatamente o que se irá encontrar, por mais preparado que se esteja.

A segunda questão levantada procurou identificar possíveis incidências de sentimentos de ansiedades, tensões ou medos por parte dos entrevistados. O resultado foi quase unânime quanto à ocorrência de ansiedades, tensões ou medos antes ou durante o processo de facilitação. Houve quem sentisse tais sentimentos até mesmo após o trabalho de facilitação em si. Entretanto, o maior registro verifica-se antes do processo em si ou durante os primeiros momentos da facilitação. Nesse aspecto, vale o registro de que, de uma maneira geral, os que se assumiram experientes apresentaram menor incidência desses sentimentos.

Quanto à caracterização, apenas três dos facilitadores que se dizem experientes não fizeram registro de manifestações físicas decorrentes das ansiedades, tensões ou medos. Em geral, houve manifesto de alterações relacionadas à respiração, taquicardia, sudorese, sensação de frieza nas mãos e na barriga. O facilitador 8 expressa seus sintomas de forma bem característica: “Sem dúvida a sensação mais freqüente é uma coisa na barriga associada à voz um pouco trêmula”. A propósito, foi interessante constatar que mesmo facilitadores conscientemente experientes declararam sentir tais manifestações.

A ansiedade foi a tônica do grupo pesquisado, entretanto, houve entre os mais experientes interpretações adversas quanto a esse sentimento. O facilitador sete por exemplo, considerou positivo o sentimento de ansiedade e excitação quando escreveu “Eu sinto ansiedade, excitação, mas acho bom sentir (...) é a excitação de encontrar o novo, o imprevisível (...) pois me mobiliza mais para o trabalho (...)”.

O medo do facilitador de não agradar ao grupo facilitado ou não ser aceito por ele ou ainda não criar empatia, teve repercussão sobretudo no grupo de facilitadores menos experientes.

Já Roberto Crema, com autoridade, declara que muito raramente percebe em si tais sentimentos e presenteia com uma sapiência contundente: Na medida em que aprendemos a amar, o medo vai decrescendo, naturalmente. Medo é ausência de amor. E na medida em que fazemos do instante o grande Mestre, a ansiedade e tensão vão fenecendo, naturalmente. Ansiedade é incapacidade de viver o aqui-e-agora. Tensão é querer ser o que não somos; é a falência do relaxamento na realidade presente.

Com essas palavras, Roberto Crema sintetiza praticamente tudo o que se precisa apreender sobre a temática proposta nesse trabalho. Nelas se reconhecem os ensinamentos de Eva Pierrakos, a lei da doação também contida no livro As Sete Leis Espirituais do Sucesso, de Deepak Chopra e o princípio da presentificação da fenomenologia, base da abordagem gestáltica de Jorge Ponciano. Confia-se que ao tempo em que se vai incorporando essa sabedoria no dia-a-dia, certamente avança-se substancialmente no processo de superação dos medos e ansiedades decorrentes da ação de facilitação.

A terceira e última questão levantada pretende conhecer os ensinamentos construídos pelos facilitadores pesquisados ao longo de suas trajetórias. Aqui destacar-se-á um trecho de cada um pela ordem cronológica em que foram ofertadas as lições:



  • Facilitador 1: “ (...) algo que me ajuda quando estou ansiosa, é respirar profundamente, às vezes escrevo também todas as minhas necessidades... Esta sensação e compromisso de dar o melhor de mim fica superior a qualquer avaliação que possam fazer do meu trabalho.”

  • Facilitador 2: “Procuro racionalizar que a minha ajuda ao grupo será dentro das possibilidades, minhas e do grupo.”

  • Facilitador 3: “Enquanto seres humanos teremos sempre sentimentos e emoções de todo tipo, inclusive aqueles originados nos medos e parece que o segredo está realmente na serenidade e aceitação destes, sendo esta a melhor forma de transcendê-los. A grande questão não é deixar de sentir medos, mas sim aprender a lidar com eles, de forma que não nos paralisem e sim nos impulsionem para frente.

  • Facilitador 4: “Essa responsabilidade de mostrar para os outros que sabe tudo, talvez seja a grande geradora de insegurança entre os facilitadores. O facilitador que sabe que não sabe tudo, mas sabe que tem muito a agregar e provocar os participantes chega relaxado.”

  • Facilitador 5: “ (...) procuro sintonizar com as pessoas, olhar nos olhos, fazer uma leitura da postura corporal delas; ficar atenta à minha respiração expirando e inspirando profundamente, estabelecendo um compromisso com o grupo de construirmos juntos algo para o nosso crescimento, bebo bastante água.”

  • Facilitador 6: Compreender o Apego, ou seja, a identificação, como a raiz do sofrimento psíquico; Lograr a Plena Atenção...; Conquistar a aceitação do real (...); Realizar a Vocação, a Voz interior que expressa nosso mais íntimo desejo (...); Ser capaz do Serviço, viço do Ser, nossa oferta à coletividade, sobretudo de nossa própria Missão ou Vocação, a capacidade de doação que é o sinal da saúde maior, da plenitude humana. Chegamos neste mundo com as mãos vazias; partiremos com as mãos vazias. O único passaporte que levamos é o das nossas doações.” (Roberto Crema)

  • Facilitador 7: “O que me ajuda a lidar com esses sentimentos é respirar, meditar, visualizar o grupo, clarear meus sentimentos e confiar que farei sempre o melhor que eu posso, embora nem sempre isso seja o melhor que o outro espera de mim (...)”

  • Facilitador 8: Assumo os meus medos e procuro encontrar/fazer cursos para me fortalecer teoricamente.”

  • Facilitador 9: Respiro fundo, entro na sala, olho o grupo nos olhos, rio e enfrento a situação como se fosse normal sentir aquilo sempre em situações que tais.”

Os pensamentos desses facilitadores falam por si.
6. CONCLUSÕES
A forma de lidar com os bloqueios ao desenvolvimento natural das potencialidades humanas é por demais subjetiva e o seu delineamento varia em função da história de vida e das características próprias de cada indivíduo. Nesse sentido, a compreensão e o enfrentamento dos sentimentos de medo e ansiedade no processo de facilitação de grupos, objeto deste trabalho, requerem um mergulho individual com uma certa dose de profundidade e ousadia.

Ao se propor trabalhar esse tema, abordando os sentimentos de medo e ansiedade do facilitador de grupos, busca-se a revisão de paradigmas acerca da questão, a partir da trajetória individual, da auto-observação e auto-questionamento orientados por uma fundamentação teórica aliada à vivência prática compartilhada por facilitadores que atuam profissionalmente.

Nesse contexto, extraíram-se importantes lições acerca do tema medos e ansiedades na facilitação de grupos, que essencialmente convergem para uma simples constatação: sente-se medo e ansiedade porque não se sabe amar verdadeiramente as pessoas no instante presente. Costuma-se prender a apegos superficiais, acessórios. Prefere-se assumir papéis artificiais, centrados no ego, ao invés de ser íntegro e amante do outro. Por outro lado, tende-se a ficar ligado ao passado ou ao futuro, e essa postura impede uma entrega autêntica no momento presente. Enfim, atua-se no grupo desapercebido de que o verdadeiro sentido é o encontro legítimo com as pessoas no aqui e agora. E o amor? É a única forma de viabilizar essa conquista.

Entenda-se aqui o amor como a entrega, o espírito de solidariedade que inspira a doação sem interesses escusos. O facilitador que ama tem claramente o sentido da missão de contribuir com o grupo, ofertando-lhe o que possui de melhor. O que lhe importa não é o julgamento sobre a sua performance, muito menos a possibilidade do “show”; vale sim, a legítima contribuição para o processo de construção das pessoas.

Por outro lado, mesmo visualizando o valor que esse aprendizado possa incorporar ao intelecto das pessoas, tem-se a consciência da sua insuficiência e limitação. Ele requer a vivência para materializar-se e gerar conseqüências. A reflexão sem ação não passa de um sonho. A ação sem reflexão perde o sentido, não realiza.

Desde que o facilitador cumpre um papel de espelho ao ficar no foco do trabalho, o estar em paz com suas próprias qualidades e com seus 'defeitos' oferece uma atitude que pode ser tomada como exemplo. Como diz Roberto Crema:


"Cada pessoa é depositária de uma parcela da totalidade: cuidar do pedacinho do mundo que somos de forma a dar testemunho de saúde e plenitude, é uma tarefa prioritária da existência."
Por fim, espera-se que a abordagem ora apresentada, somada às vivências compartilhadas pelos facilitadores pesquisados nesse estudo tenham proporcionado valiosas contribuições, inclusive no que diz respeito ao reforço da identidade. Crê-se que outros facilitadores interessados em desenvolver os aspectos aqui focalizados possam se sentir estimulados a percorrer os seus próprios caminhos nessa busca.

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVES, R. 1994. A Alegria de Ensinar. 6ª Ed. São Paulo: Ars. Poética.


ANDRADE, C., GÓIS, C., ARRAIS, C. et al. 1999. Educação Biocêntrica – Um Movimento de Construção Dialógica. Fortaleza.
CHOPRA, D. 1994. As Sete Leis Espirituais do Sucesso. 14ª Ed. São Paulo: Best Seller.
CREMA, R. 1995. Saúde e Plenitude. 1ª Ed. São Paulo: Summus.
FERREIRA, A. B. H. 1986. Novo Dicionário Aurélio. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
HAGGAI, J. 1990. Como Vencer o Medo. 2ª Ed. São Paulo: Mundo Cristão.
PIERRAKOS, E. 1990. O Caminho da Autotransformação. 10ª Ed. São Paulo: Cultrix.
RIBEIRO, J. P. 1993. Gestalt-Terapia: O Processo Grupal. São Paulo: Summus.
SAMPAIO, S. P. P. 1998. A Abordagem Gestáltica - Uma Visão Pessoal. Fortaleza. Monografia do Curso de Desenvolvimento Pessoal na Abordagem Gestáltica, Instituto Gestalt do Ceará.
TORO, R. 1988. Projeto Minotauro – Biodança. Petrópolis: Vozes.

1 simoneps@parceirize.com.br

2 little.star@terra.com.br

3 Relacionado ao medo do caos, ao terror ancestral à morte, à doença e à desorganização mental.




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