Memória em psicanálise: passado e futuro produzindo-se1



Baixar 52.01 Kb.
Encontro01.08.2016
Tamanho52.01 Kb.


MEMÓRIA EM PSICANÁLISE: PASSADO E FUTURO PRODUZINDO-SE1

Bruno Salésio da Silva Francisco2



Introdução
Olhada no seu todo a memória é uma função curiosa, que provoca muitas conjecturas. Como nós seres humanos nos organizaríamos e funcionaríamos se não fôssemos dotados de memória? Teríamos que pensar nossa existência sem uma continuidade. A memória garante uma continuidade e uma repetitividade no nosso funcionamento. Um funcionamento que não se repete, em alguma forma, não deixa marca e torna-se menos apreensível. Se a apreensão não ocorre, fica difícil descrever e conhecer nossa existência por um observador, um outro. A apreensibilidade necessita de um tempo de funcionamento continuado. Este tempo constitui-se num processo diacrônico, ao longo do qual se formam registros, comparações, ilações, aprendizados, experiências, abstrações, representações, dentro da nossa mente. E por aí afora... Num organismo que dispõe de memória, a possibilidade de repetir uma função facilita enormemente um funcionamento do ser, pois uma experiência guardada é um trabalho estocado, facilitador de novas experiências (Bahnung)3. Boas ou más. Uma experiência sem memória é como um trabalho realizado por primeira vez, de resultado não registrado e sem criar previsibilidade para seu agente. Neste sentido a memória, como um sistema, organiza um funcionamento dentro de condutas que passam a ser previsíveis. Nas relações intra-psíquicas e inter-pessoais a previsibilidade é tranqüilizadora e o contrário, primariamente assustador, como já apreendemos por meio da memória de nossa prática psicanalítica. Continuidade e previsibilidade são as concatenações que se ligam à representação de um futuro a partir do marco de um passado.
Memória e causalidade
Nos primórdios da psicanálise, a busca da lembrança traumática equivalia à busca da conexão causal. E uma vez chegado à causa, remover-se-ia o efeito, no caso, o sintoma e o sofrimento. Este era o modelo médico de uma hipótese teórica para a época. A memória (fenômeno psicológico) equivaleria à causa (agente físico), na clínica das doenças mentais, com Breuer e Freud. No dizer dos autores a ligação é freqüentemente tão nítida que se torna bem evidente como foi que o fato desencadeante produziu esse fenômeno específico de preferência a qualquer outro. Neste caso o sintoma foi claramente determinado pela causa determinante4. Esta visão intelectualista da memória, dentro de uma lógica positivista, ao meu ver reducionista, muito banal na época do materialismo científico, logo mostrou suas limitações para os resultados clínicos. Dois anos depois, Freud5 já separado de Breuer, concebeu a memória (rememoração) como sendo a força persistente atuante de uma experiência6. Mesmo que não tivesse elaborado ainda a noção de pulsão, antevê-se, nessa forma de conceituar, a presença da dinâmica pulsional posteriormente descrita. Com este caráter de ocorrência fundacional e geradora de conseqüências, a memória passa a ser compreendida como uma função, pela qual percepções de um outrora são retidas e/ou reproduzidas, dentro da pessoa que se continua.

Isto não significa que Freud não tenha sido fiel, até o fim da vida, ao esquema: traumatismo/recalque/esquecimento/rememoração/cura.


Memória e registro
A memória se inicia pelo registro de um fato acontecido. O registro é um código fixado. Uso a palavra código para me referir ao fato de que o registro fixado não é isomórfico à experiência: o que se fixa não é como pensamos a estática de uma foto. A função mnêmica não é passiva, nem tampouco fixação e reprodução de realidades externas, mas um contínuo processo de transformação, mantido em virtude da permanente interação entre o exterior e a contínua reelaboração interna: não há marcas, como nas películas fotográficas, mas códigos como nos computadores7. A realidade registrada é importante como um referente e a rememoração é um representante inferível desta realidade. Há que distinguir entre referência a uma realidade, ainda quando não tenhamos meio de afirmar com certeza em que consiste, e nossa capacidade de comprovar a realidade de um acontecimento psíquico que continua existindo dentro da nossa mente como conjectura.8 A partir dessas características, a função da memória passa a interferir na organização e no funcionamento da pessoa e nas suas relações com a exterioridade (experiências inter e transubjetivas) ou consigo mesmo (intersubjetividade).
Memória e retranscrição
Enquanto marca retida, a memória constitui-se como referência dentro da mente, para desencadear novos desdobramentos como nas percepções, nas apercepções, nas identificações e reconhecimentos, nas codificações, na atenção, nas emoções, nas evocações. Freud, na carta 52 a Fliess, datada de 06 de dezembro de 1896, escrevia sobre a memória como um processo de estratificação, que em formas de traços, estaria sujeito, de tempos em tempos, a um rearranjo, segundo novas circunstâncias – a uma retranscrição. Acrescenta que a memória não se apresenta de uma só vez, mas se desdobra em vários tempos.9

A partir desta proposição freudiana, entendo que as memórias como referentes tanto sofrem alterações, na qualidade de dependentes vivos do mundo interno de um sujeito-sempre-em transformações, como determina, por outro lado, novas formações na interioridade do mesmo.

Atualmente podemos chegar aos seguintes derivados mnésicos10:


  1. lembranças propriamente ditas: conscientes, recuperadas pelo processo analítico, junto com as lembranças encobridoras, mas ou menos misturadas com o fantasmas;

  2. os derivados mnésicos: elementos contextuais na periferia do conteúdo (como os mencionados por Freud em Construções em análise), os sonhos, os delírios, as alucinações;

  3. a memória amnésica: a compulsão à repetição, os estados de despersonalização ou somatização, etc. Aqui a expressão máxima de um sentido mínimo, por meio de uma atividade alucinatória, distancia a figurabilidade da representação. Há mais signo que significante. São fenômenos mais “para si” do que “para os outros”.

Indago o que os derivados mnésicos e a memória amnésica teriam a ver com as teorias dos Botella. Indago se, no caso Thomas11, ao “alucinar” o lobo, o analista não estaria regredi(e)ndo a derivados mnésicos seus e à sua memória amnésica, como produto de uma complexa elaboração contratransferencial, abrindo acesso à linguagem, via sentido, do seu paciente autista. Em que medida o “conto do lobo”, enquanto memória social12, funcionaria como um organizador filogenético na decifração daquela relação?
Memória filogenética
Freud considera a compulsão à repetição como uma forma de memória que estende o domínio do rememorado à filogênese. Para ele as pulsões de hoje foram atos na história da espécie. Ao se interiorizarem, os atos da história transformaram-se em estado de pulsão.13 Quando Freud teorizou sobre os fantasmas originários (Urphönemene/Urphantasien), referiu-se a pontos de partida nos quais se ancoram desenvolvimentos posteriores e com os quais poderia ocorrer alguma forma de ligação causal, nos vários tempos da existência humana. Não se pode aqui falar que tenham sido necessariamente cenas realmente vividas pelo indivíduo. Para minha teorização, considero tais fantasmas como portadores de um valor organizador, útil e eficaz na compreensão e nos resultados clínicos da nossa prática psicanalítica. Os fantasmas originários constituem uma matriz estruturante do inconsciente que estabelecem um continuum de uma vida em tempos fortemente significativos, equivalentes a matrizes simbólicas. Eles são os marcadores atualizados de um acontecer, tais como a vida intra-uterina, o nascimento, o Édipo, a cena primária, a separação da família efetuada pela sociedade, a adolescência, a entrada na vida pela escolha de uma profissão ou companheiro(a), a procriação e a paternidade/maternidade, a maturidade que desemboca no início do declínio da existência, a condição de avô/avó e, por fim, a morte.

Pequeno exemplo: um casal descobriu, à luz da realidade de que entre seu segundo e terceiro filho havia uma diferença inusitada de um ano e quatro meses apenas, o que para eles era considerado muito pouco tempo. Em conversa entre si, descobrem que o marido tinha uma irmã depois dele, com a diferença de um ano e quatro meses; a esposa tinha uma irmã depois dela com a diferença de um ano e quatro meses. Seus pais se continuaram neles? Ou foi uma memória ontogenética de cada um dos membros deste casal?

Associo a teorizações de outros autores a idéia de um organizador desenvolvimental, a seguir.

Refiro-me às protofantasias do sistema teórico kleiniano, a partir do conceito de fantasia inconsciente, as quais diferem das colocações freudianas citadas porque não são pensadas na diacronia histórica pulsional.

Quando Winnicott fala de um self verdadeiro que busca uma interação e comunicação com alguém significativo, através da memória do não acontecido14, acho que se refere, em parte a isto.

Ocorre-me também a pré-concepção de Bion, como organizador de um rumo, na busca da realização.

A noção de originário e de pictograma15 também me parece equivalente à de um organizador (auto-engendramento), um ponto de partida, numa teoria de desenvolvimento ontológico.
Memória e temporalidade
A psicanálise se interessa pouco pela rememoração; seu verdadeiro objeto é a temporalidade.16 A memória remete à história e esta ao tempo. A causalidade psíquica atravessada pela temporalidade estava ausente na medicina anterior ao surgimento da psicanálise. A ação do tempo sobre a memória vem desde a época de Breuer e Freud: A desproporção entre a duração de muitos anos do sintoma histérico e a ocorrência isolada que o provocou, é o que estamos invariavelmente habituados a encontrar em neuroses traumáticas. Com grande freqüência, é algum fato da infância que estabelece um sintoma mais ou menos grave que persiste durante os anos que se seguem.17

O ser é tempo porque o ser, ao incorporar o ser do outro em sua relação com ele, acrescenta-se com sua vida, seja pela forma como imagina proceder dele, seja ao situar-se na posição de doador ou interlocutor, para sobreviver. Se nossos filhos são nossa memória, nossas lembranças são também algo assim como seres aos quais lhes damos vida e que sobrevivem à presença concreta tanto de nós neles como deles em nós.18

A memória é importante para a dinâmica mental porque é um sistema depositário, não só do passado, mas também da organização pré-formadora do presente. Isto é o que Freud quer dizer com o caráter conservador das pulsões. E das retranscrições!

Encontramos na clínica situações em que pacientes não separam memória de temporalidade: a relação é vivida concretamente, sem separação de tempo entre o conteúdo do rememorado e a relação transferida no presente. Pode-se extrair do discurso de tais pacientes uma necessidade de convencer o analista de que quase não há causalidade temporal em ação, na transferência, nem um vínculo entre antecedentes e conseqüentes, entre causa e efeito, em suma entre sujeito e objeto. As sessões parecem desenvolver-se em um presente muito pesado e pouco significativo. A relação carece de sentido e de representação. Fica difícil viver na relação transferencial desejos inconscientes de amor e ódio. Os pacientes que não articulam suas memórias com a representação formariam pouca espessura no seu pré-consciente, com pouca fantasmatização de seus depósitos mentais. Winnicott já se referiu que o analista, para tais pacientes não representa a mãe e sim é a mãe. A negação de relações entre o repetido e o reprimido tenta neutralizar o passado. Neste sentido a temporalidade seria um eterno retorno de um tempo jamais caduco que a análise voltará a colocar na sua órbita.


Memória e representatividade
Quando Freud foi assistir aos seminários de Brentano, ainda estudante de medicina, certamente estava atraído pela curiosidade do mestre sobre representações, como uma porta para o psíquico.19 O aparelho psíquico freudiano está calcado em representações, entrelaçadas com fenômenos de memória e de percepções. Uma percepção transforma-se em memória. A rememoração transforma a memória novamente em percepção representada. Freud usou este mecanismo para teorizar sua metapsicologia, como tentativa de explicação clínica.

As representações passaram a compreender a função, mesmo rudimentar, pela qual no sistema mente são estruturados, em alguma memória, aspectos transformados, mesmo se parciais e de modo distorcido, do mundo com o qual se entra em interação, assim como aspectos do próprio Eu que com tal mundo entram em relação.20

Alguns autores atuais afirmam que as respostas de uma teoria analítica centrada exclusivamente na noção de representação já se mostram insuficientes para acessar e ajudar muitos pacientes que nos procuram hoje em dia.21 Os Botella teorizam uma dinâmica transformacional representação-percepção-alucinação, o alucinatório, como um processo permanente da vida psíquica, o representante cinético da pulsão enquanto impulso (Drang) e movimento (Trieberegung). O alucinatório seria o representante cinético da pulsão da mesma maneira que o afeto seria o representante qualitativo do quantitativo da pulsão. Durante o dia o alucinatório deve ser inibido em proveito da representatividade e da percepção; no entanto, no sonho, esta via regrediente se desenvolve. Na sessão analítica, em certos momentos inesperados, sob os efeitos de uma regressão formal do pensamento, pode-se produzir no analista, sem que ele perceba, um “acidente” de pensamento, um “trabalho de figurabilidade” quase alucinatório; ele seria o único meio de ter acesso ao sentido do irrepresentável do paciente.

Freud já falou em “uma satisfação alucinatória da necessidade”. A idéia do alucinatório está presente na obra de Freud, considerado como um pressuposto básico, governando a vida psíquica, mas não foi desenvolvida.22

Foi Green quem apresentou uma formação alucinatória, a “alucinação negativa”, para referir-se a uma representação da ausência de representação, o reverso cujo verso é a realização alucinatória, como fundamento do psíquico.

Estas hipóteses metapsicológicas muito têm contribuído para ajudar no tratamento de pacientes com funcionamento borderline e operatório, entre outros.



Memória e desejo
São os traços mnêmicos inconscientes que se fixaram na experiência da satisfação que definem o que é desejo, em A interpretação dos sonhos, capítulo VII.

O passo seguinte, foi vincular o desejo a uma representação inconsciente, ou seja com um significante. Vestígio da satisfação de uma necessidade, o desejos ressurge, reinvestindo a representação, como “o capitalista” fornecedor de energia para “as reuniões com o objeto”, no dizer de Freud, visando a elaboração psíquica da falta, da ausência. O desejo inaugura a figura de um começo sem chegada. Capturados pelas marcas de nossas experiências, delas nos tornamos prisioneiros e com elas tentamos construir nossas satisfações, sempre substitutivas, pois ao objeto da satisfação primeira não se chegará jamais. Volto à idéia de código: o desejo nos fornece um código, com o qual vamos nos desenvolver. Nossa marca é sermos desejantes.



Memória e sentido
Quando a psique retém ao invés de só descarregar, como acontece no processo da função mnêmica, cria-se uma rede que se interpõe entre o corpo e o real, contra a inclinação de alívio só por meio de descarga. A rede assim formada distribui as energias, reparte-as, concentra em certos lugares, abre passagens, possibilita derivações, promove mudanças de orientação, etc. porque a reticulação é indissociável da atribuição de um sentido. Como resposta, a reticulação passa a estar acompanhada pela busca de um controle que permita ao sujeito a visão de conjunto, a perspectiva.

O sentido da organização da memória passa pelo conflito ocultar/revelar, como sustentação de uma imagem de si mesmo, como reforço das fontes de prazer e das possibilidades de satisfação. É quando a função da memória passa a ser utilizada, no aparelho mental, como criadora de sentido.

Referindo-se à transferência, Bion assim a expôs: A transferência simplesmente significa a maneira como duas pessoas estão vinculadas. Não o que é vinculado ao que, mas o fato de que estão vinculados. E isto é tudo o que se está investigando. Não A e B mas A+B ou A-B. É o + ou o - que interessa.23 Juntando-se memória e sentido, a mente vive/simboliza o sentido da memória: o sentido de o sujeito ter uma função de reter algo de suas experiências, reprocessá-las e recriar-se incessantemente. Refiro-me a este sentido que liga um sujeito à função da sua memória. Há portanto um paradoxo no conceito de sentido: aquilo que gera sentido também faz nascer o sentido. O sentido da memória que faz nascer um sujeito gera um sujeito com sentido/consentido.

Como esforço de diferenciação visando uma clareza, sublinho que a dimensão do sentido é produtiva; a dimensão da significação é representativa e ambas conjugam-se no processo de simbolização.24


Memória e acting out
O acting de que trata Freud no trabalho de 1914 é aquele que surge como resistência a preencher as lacunas na memória. No curso da corrente associativa a repressão suprimiu pedaços que não serão preenchidos por recordações e sim por atos. Quando a transferência se torna hostil ou excessivamente intensa, precisando de repressão, o recordar imediatamente abre caminho à atuação. É aí que Freud prescreve que não devemos tratar a doença do paciente como um acontecimento do passado, mas como uma força atual. Curiosamente Freud acrescenta que com freqüência é ‘recordado’ algo que nunca poderia ter sido ‘esquecido’ porque nunca foi em ocasião alguma notado, nunca foi consciente. Freud coloca neste outro grupo de processo psíquicos as fantasias, processos de referência, impulsos emocionais, vinculações de pensamento, todos como atos puramente internos, não podendo ser contrastados com impressões e experiências externas.25 Haveria, para Freud, uma amnésia não esquecida, uma amnésia amnésica. A rememoração se daria com a forma de acontecimentos não mnêmicos. É a repetição em que o ato repetido faz as vezes de lembrança. Aqui Freud se refere a um tipo de memória encobridora, uma montagem ou uma colagem de lembranças de épocas diferentes. A demarcação entre lembrança e fantasia dá lugar a dúvidas. Por isso a memória pode atuar a própria memória, ao substituir uma lembrança por uma montagem. Seria resistência a lembrar através da criação de disfarces, de derivados.

Certa vez atendi uma paciente médica e deprimida que, durante alguns meses, apresentava a seguinte versão sobre seu nascimento: relatava com vividez sensorial (überdeutlich) e convicção que, ao nascer, sua mãe tivera uma problema de hipotonia uterina, com conseqüente hemorragia. Todos os profissionais da saúde da sala de parto a abandonaram e foram cuidar da sua mãe. Nos seus primeiros relatos, ouvi esta versão imaginando minha paciente sozinha, sobre uma mesa de sala de parto, abandonada e contemplando a “morte” da mãe. Duplo golpe! Só depois de algum tempo dei-me conta de que uma criança recém-nascida não poderia ter condições de prestar tanta atenção a tantos fatos reais concretos, como minha paciente me queria fazer acreditar. A partir daí pudemos elaborar, sofridamente e por longo tempo, via transferência, o mito de um nascimento que revelava a marca de um funcionamento mental onde a qualidade afetiva mais intensa continha o abandono, a tristeza, a depressão e relações objetais de pouca vida. Por muito tempo tive que ocupar o lugar pesado de um analista distanciado, hipotônico e hemorrágico, onde minha paciente me colocava subliminarmente.

Na transferência, a passagem do estado de memória ao ato (que às vezes faz a memória) muda a intensidade da transferência ou a torna hostil. No dizer de Freud, a transferência cria, assim, uma região intermediária entre a doença e a vida real, através da qual a transição de uma para a outra é efetuada..26

Na época do trabalho de 1914, havia uma parte da teoria freudiana em que memória e psique estavam indissociáveis. O problema heurístico, neste caso, seria como juntar um inconsciente que ignora a passagem do tempo com memória, temporal por definição.


Memória e Transferência
No caso do Homem dos Lobos, Freud foi a fundo na busca da rememoração, procurando estabelecer a realidade da cena da observação do coito parental. As análises posteriores a que Serguei Constantinov Pankejeff se submeteu demonstram como muito dos seus sintomas e muito do seu sofrimento não foi resolvido com o intenso trabalho de Freud. Numa segunda versão acrescentada após as formulações sobre as fantasias originárias em que o paciente teria presenciado um coito entre cachorros, diante desta situação e das dúvidas sobre a realidade da cena primária, Freud sugere interpretá-la como um fantasma retroativo. A rememoração mais completa vale pouco se a repressão toma a forma de rejeição. As lembranças reaparecem, porém trata-se menos de um levantamento da repressão do que um retorno das lembranças, afetadas por esta clivagem. Freud se dá conta, desde então, de que a eliminação da amnésia, assim como o reconhecimento do reprimido como aceitação puramente intelectual27, não bastam para gerar insight. A recuperação da amnésia e do reprimido exige uma convicção sentida e de um investimento de objeto do analista, porém não deve impedir pensar por si mesmo.28

Existe um grau de concretude na mente de pacientes que funcionam sem a possibilidade de deslizar da recordação para o sentido. Tenho encontrado tais situações clínicas em transferências erotizadas (distintas de transferências eróticas) cuja análise permitiu a hipótese de desastres representacionais, por trauma ou por ausência de libdinização primitiva, originadas nas relações inaugurais com objetos primários alienantes.

Espero que este texto possa ser entendido como um percurso da minha memória viva e de suas transformações, em relação ao que venho aprendendo sobre psicanálise, através dos meus mestres reais (meus professores e colegas) e dos meus mestres representados (minhas leituras), a quem muito agradeço.

Referências bibliográficas:
AULAGNIER, Piera. (1975). A violência da interpretação. Do pictograma ao enunciado. Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda, 1979.

BION, Wilfred Ruprecht. Entrevista com Bion. Revista Brasileira de Psicanálise, v. 26, n. 3, 1992.

BOTELLA, Sara & César. (2001). La figurabilidad psíquica. Buenos Aires: Amorrortu editores, 2003.

____________. Irrepresentável. Mais além da representação humana. Porto Alegre: Editora Criação Humana Ltda., 2002.

BREUER, Josef; FREUD, Sigmund. (1893). Sobre os mecanismos psíquicos dos fenômenos histéricos: comunicação preliminar. SEB, 2.

FRANCISCO, Bruno Salésio da Silva. Memória e repetição na metapsicologia do acting out. Dissertação de Mestrado na Universidade Católica de Pelotas, 1999.

FREUD, Sigmund. (1896). Extrato dos documentos dirigidos a Fliess. SEB, 1.

____________. (1914). Recordar, repetir e elaborar. SEB, 14.

____________. (1927). O futuro de uma ilusão. SEB, 21.

____________. (1937). Construções em análise. SEB, 23.

____________. (1950) [1895]. Projeto para uma psicologia científica. SEB 1.

GREEN, André. (2000). La diacronia en psicoanálisis. Buenos Aires: Amorrortu editores, 2002.

IMBASCIATI, Antonio.(1991). Afeto e representação. São Paulo: Editora 34, 1998.

JONES, Ernest.(1953). A Vida e a obra de Sigmund Freud. Rio de Janeiro:Imago Editora Ltda., 1989.

MONTESPERELLI, Paolo. (2002). Sociología de la memoria. Buenos Aires: Nueva Visión, 2004.

SAFRA, Gilberto. Memória e processo psicanalítico. Revista IDE, n. 40, Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, 2004.

SELAIBE, Mara. Ensaio clínico sobre o sentido. Pulsões, fantasias e pensamento onírico. São Pulo: Casa do Psicólogo, 2003.

TANIS, Bernardo. Memória e temporalidade. Sobre o infantil em psicanálise. São Paulo; Casa do Psicólogo, 1995.


Bruno Salésio da Silva Francisco

Rua Quíncio Barcellos, 178

Pelotas

Rio Grande do Sul



Brasil

e-mail:bsalesio@terra.com.br




1 .Trabalho apresentado na Conferência Internacional de Clínica Psicanalítica. Psicanálise: Singularidade e Diversidade –IPA/CAPSA- realizado no Rio de Janeiro, entre 23-25 de novembro de 2006.

2 .Membro Efetivo da Sociedade Psicanalítica de Pelotas e da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro.

3 . Freud, S., 1895, p. 401.

4 . Breuer, J. & Freud, S., 1893, p. 44.

5 . Freud, S. 1950 [1895], p.401.

6 . O negrito é do autor.

7 . Imbasciati, A., 1998, p.23.

8 . Jeff Anderson, advogado caçador de pedófilos entre ministros religiosos cristãos nos EUA, envolveu-se de tal forma com o drama dos clientes que chegou a considerar a hipótese de ele próprio ter sido violentado na infância. Apesar de ter recorrido a muitas horas de psicoterapia, em busca de uma confirmação, não a encontrou.

9 . Freud, S., 1896, p. 317.

10 . Green, A., 2002, p.231.

11 . Botella, S.&C., 2003, p.41.

12 . Montesperelli, P., 2004, p.11 e segs.

13 . Freud, S., 1927.

14 .Safra, G., 2004, p.8.

15 . Aulagnier, P., 1979, p.66.

16 . Green, A., 2002, p.191.

17 . Breuer, J. & Freud, S., 1893, p.44.

18 . Ibidem, p.195.

19 . Jones, E., 1989, p.50.

20 . Imbasciati, A., 1998, p. 7.

21 . Botella, S.&C., 2003, p.15.

22 .Freud, S., 1937, p.300 e segs.

23 . Bion, W.R., 1992, p.445.

24 . Selaibe, M., 2003, p.15.

25 . Freud, S., 1914, p. 195.

26 . Freud, S., 1914, p. 201.

27 . Daí a ineficácia clínica da visão intelectualista da memória!

28 . Green, A., 2002, p.203.



©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal