Memória histórica, cultural e identitária do assentamento passo liso



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MEMÓRIA HISTÓRICA, CULTURAL E IDENTITÁRIA DO ASSENTAMENTO PASSO LISO


RESUMO

O objetivo principal deste, é conhecer o modo de vida e as práticas culturais dos moradores do Assentamento Passo Liso. Foram investigados inclusive através de fontes orais, os possíveis processos de preservação de sua memória histórica, formação identitária e cultural, empreendidos pelos Movimentos Sociais que organizam este assentamento, e como é valorizada esta identidade camponesa no local.


Palavras-Chave: História, Memória; Cultura; Identidade; Comunidades Camponesas.

HISTORICAL MEMORY, CULTURAL IDENTITY AND THE SETTLEMENT PASSO LISO

ABSTRACT

The main purpose of this is to know the way of life and cultural practices of the residents of the settlement Passo Liso. Were investigated including through oral sources, the possible processes to preserve their historical memory and cultural identity formation, undertaken by social movements that organize this settlement, and how this is valued peasant identity in place.


Keywords: History, Memory; culture; identity; Peasant communities.

LA MEMORIA HISTÓRICA, LA IDENTIDAD CULTURAL Y EL ASENTAMIENTO PASSO LISO.

El objetivo principal de esto es saber la forma de prácticas de vida y culturales de los habitantes del asentamiento Passo Liso. Se investigaron incluyendo a través de fuentes orales, los posibles procesos para preservar su memoria histórica y la formación de la identidad cultural, llevado a cabo por los movimientos sociales que organizan este acuerdo, y cómo esto se valora la identidad campesina en su lugar.
Palabras clave: História; Memória; Cultura; Identidad; Las comunidades campesinas.

INTRODUÇÃO


Nas últimas décadas, observa-se o surgimento de movimentos sociais preocupados em defender o modo de vida e as concepções de mundo das populações camponesas. Sabendo que a valorização da cultura dessas comunidades é um anseio dos Movimentos Sociais, neste trabalho procurou-se investigar se há processos direcionados ao resgate da história local, da cultura e da preservação da identidade por parte dos sujeitos residentes no local e, através desses processos, conhecer o modo de vida e as práticas culturais dos moradores do Assentamento Passo Liso, localizado no município de Laranjeiras do Sul – Paraná.

A memória histórica das comunidades camponesas está fortemente relacionada com a expansão do espaço urbano, desde a modernidade. A partir de então o campo tem se transformado em um local de transferência de mão de obra para as indústrias da cidade. Este forte crescimento do espaço urbano e da influência de um modo de vida citadino tem efeitos sobre a vida dos povos camponeses. Além da migração, também se observa a depreciação de sua experiência de vida, que é pouco valorizada até mesmo nos projetos governamentais dedicados ao meio rural. Como exemplo, veja o fechamento das escolas rurais e o contingente de alunos que devem se deslocar do campo para encontrar estudo na cidade.

Conhecendo essa realidade e a demanda da sociedade civil por projetos que partam da experiência dessa população, este estudo aborda as práticas e experiências culturais da comunidade do Assentamento Passo Liso, bem como os esforços dos assentados no sentido de valorizar sua experiência de vida. Num sentido mais amplo, este trabalho pretende contribuir para a valorização da tradição histórica, cultural e identitária de grupos camponeses.

Nesse estudo, a discussão se organizará por meio da exposição analítica das concepções de: Memória Histórica, Cultura, Identidade Camponesa. Por fim será abordada de forma sistemática a pesquisa de campo, a qual compreendeu entrevistas com moradores do Assentamento Passo Liso e alunos da escola Padre Josimo Moraes Tavares, a qual se localiza nessa mesma comunidade.

A comunidade camponesa em questão está localizada aproximadamente à 25 quilômetros da sede do município, fazendo parte de um assentamento do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). A história da constituição dessa comunidade está associada à ocupação das terras, que foi realizada num primeiro momento por trinta e seis famílias, no dia 12 de outubro de 1987. Atualmente, há quarenta e duas famílias residentes no local. A escola está localizada na parte central do assentamento, onde também existem a igreja e o centro comunitário. A estrutura escolar resume-se em 02 salas de aula, 01 laboratório de informática, 01 banheiro e 01 cozinha. É construída de madeira e não possui espaço de recreação. As aulas acontecem no período vespertino e os dois professores que atuam na escola moram próximo à mesma.

Além de ter morado por muitos anos em uma comunidade próxima a este assentamento, tenho contato direto com os moradores e a escola, pois atuo como pedagoga responsável pelas escolas do campo do município. Frequentemente estou conversando com toda a comunidade escolar e conhecendo a cada dia aspectos da vida cotidiana dos mesmos.

Foi a partir dessa experiência pregressa que iniciei a pesquisa sobre a questão da identidade dos moradores do Assentamento Passo Liso, buscando conhecê-la, principalmente, através dos relatos da experiência ali vivida. A partir daí, o que se pretendeu foi confrontar essa experiência à luz dos conceitos de identidade camponesa, consagrados pela literatura acadêmica que trata desse tema.

Deste modo, através das reflexões a serem desenvolvidas, busca-se, nessa pesquisa, socializar as experiências conhecidas a partir das entrevistas e da análise teórica do tema exposto, procurando obter uma compreensão das concepções e um conhecimento da vida campesina, suas características e movimentos em prol da cultura.


MEMÓRIA, IDENTIDADE E MODO DE VIDA CAMPONÊS
Memória e identidade
A memória, enquanto passado vivido reflete os acontecimentos e tradições de grupos sociais. As experiências acumuladas variam conforme o lugar ou grupo e se transformam ao longo do tempo.

“(...) ainda que a sociedade dependa estreitamente de condições naturais, ela é essencialmente consciência; as causas e os fins nela se misturam e se embaraçam (...).” (HALBWACHS, 1968, p. 21).

A memória, por sua vez, é extremamente influenciada pela cultura popular, pela história de vida familiar e religiosa dos grupos afins, e por outros elementos que são imprescindíveis na contextualização desse conceito em análise, como por exemplo, a identidade das comunidades camponesas, que é influenciada pela partilha da memória histórica e dos registros históricos, da preservação das origens. Desse modo, destaca-se a compreensão da importância da preservação de uma memória histórica entre os grupos.

No que se refere ao conceito de identidade camponesa, pode-se afirmar que escolhas e caracterizações políticas fizeram e fazem parte de determinadas características identitárias. Nesse sentido, vários fatores devem ser levados em consideração para se problematizar o conceito de identidade camponesa. Aqui estou interessada principalmente na superação de preconceitos, na discussão de políticas públicas e dos processos educacionais que devem ser construídos com os sujeitos do campo. O processo que envolve a criação de uma identidade se consolida com experiências culturais e políticas, as quais, promovem mudanças de valores e novas formações, tornando a identidade heterogênea.

Durante a história, houve exclusões de todo tipo que geraram as desigualdades, infelizmente os camponeses estão incluídos nesse processo, sendo considerados atrasados e o lugar onde vivem é frequentemente desvalorizado. As características que são impostas ao sujeito do campo, podem ser moduladas à partir do momento em que o próprio camponês inverteu esses conceitos, criando autonomia e preservando a luta da agricultura familiar.

Para tanto, Caldart (2004, p. 33) destaca que:


Os sem-terra assentados até podem ser considerados uma nova forma de campesinato, mas jamais serão os mesmos camponeses de antes. Por isso, continuam chamando-se e sendo chamados de Sem Terra, e participam do MST; porque essa é a nova identidade que, enraizada nas suas próprias tradições culturais de trabalhador da terra, recriou sua identidade porque a vinculou com uma luta social, com uma classe e com um projeto de futuro.
Essa formação da identidade camponesa produzida pelo modo de vida e trabalho no campo está ligada às mudanças econômicas e políticas. Falar em uma memória e em identidade camponesa nos dias de hoje, requer ressaltar a diversidade cultural em que os camponeses estão inseridos. Os saberes e conhecimentos dos moradores assentados os tornam mais atuantes, defensores de suas culturas, onde constroem sua história e identidade própria.

Conforme Leite e Mahfoud (2007, p. 01):


A memória é fenômeno psicossocial que garante a continuidade entre passado e presente. Contemplada na perspectiva das coletividades, é a mais antiga guardiã dos tesouros de cada cultura, primeira responsável pela preservação de experiências na sucessão das gerações.
É preciso destacar que hoje as políticas públicas já trazem algumas propostas que não desmereçam a vida no campo e suas especificidades, mas sim incentive os sujeitos do campo e seu território como lugar que promove a vida. Mas o que é ainda essencial para a formação e valorização da identidade camponesa é a ação coletiva dos sujeitos do campo em afirmar sua autoconsciência, identificando-se com o lugar onde está.
O autoconhecimento faz o ser ter orgulho de suas identidades pessoais e sociais e clareia os objetivos para a vivência dos sujeitos. Identidades podem ser formadas, construídas e reconstruídas através dos processos sociais. (MIRANDA; SCHWENDLER, 2010, p. 178).
Nessa perspectiva, vemos que existem diversos elementos que influenciaram a constituição da identidade na nossa atualidade, tais como os movimentos sociais, os novos discursos, entre outros elementos que expressamente tiveram importância na construção da nossa identidade.

O que se nota são movimentos de reforço a essas identidades locais, através de um processo que apreende tanto tradições culturais particulares quanto elementos da cultura globalizada do mundo atual.

Assim, podemos afirmar que a identidade, é um processo de identificações históricas, de um determinado grupo, e que fazem sentido aos indivíduos que a ele compõe. Ou seja, a identidade de um grupo, relaciona-se a aceitação dos indivíduos a esse sentimento de pertencimento a esse grupo étnico, cultural, religioso, econômico, etc.

A aceitação de determinado indivíduo a um grupo identitário, como as relações religiosas, culturais, entre outras, se dão a partir de processos de interações sociais com a própria realidade. A identidade é assim, plural, construída a partir das mais diferentes relações sociais, que se fazem presentes a um determinado grupo. Por sua vez, o grupo social, formado por indivíduos que apresentam determinadas ações, influenciadas pela sua subjetividade, pode ser entendido como:


(...) um sistema complexo de significações e sentidos subjetivos produzidos na vida cultural humana, e ela se define ontologicamente como diferente dos elementos sociais, biológicos, ecológicos e de qualquer outro tipo, relacionados entre si no complexo processo de seu desenvolvimento. Temos definido dois momentos essenciais na constituição da subjetividade - individual e social -, os quais se pressupõem de forma recíproca ao longo do desenvolvimento. A subjetividade individual é determinada socialmente, mas não por um determinismo linear externo, do social ao subjetivo, e sim em um processo de constituição que integra de forma simultânea as subjetividades social e individual. O indivíduo é um elemento constituinte da subjetividade social e, simultaneamente, se constitui nela. (GONZÁLEZ REY, 2002, p. 36-37).
Assim, a identidade também se constrói a partir das transformações que o indivíduo passa ao longo da sua existência, através das interações nas relações cotidianas, que são mutáveis, e que se determinam através da subjetividade de cada indivíduo. A identidade é ainda uma construção que nem sempre acaba, pois a identidade seja ela individual, ou de um grupo, pode ser transformada ao longo do tempo, e com a influência de acontecimentos e fatos da história.

Para alguns grupos, o importante é não esquecer o passado. No caso de comunidades camponesas, não esquecer o passado é preocupação também da escola. Este é também um espaço de reprodução social que pode garantir a preservação da memória histórica ao conferir importância à história de antepassados. Através da produção de material didático sobre a história local e da participação de todos os movimentos sociais podem preservar em suas místicas e celebrações, a memória de pessoas que antecederam, responsáveis por lutas e que hoje se tornaram exemplos dentro dessas comunidades.

No trabalho de valorização da identidade camponesa fazem-se presentes as práticas sociais organizadas e a contribuição das práticas educativas presentes no campo. Os projetos de educação destinados ao campo devem ter o reconhecimento da identidade e o respeito pelos saberes dos educandos do campo, fortalecendo as ideologias de luta e contribuindo não só para os educandos, mas para toda comunidade, na construção de sua consciência de classe e na valorização dos saberes próprios, que possibilitam afirmar sua própria história.

Em compasso com essas questões, é preciso falar das contribuições do sociólogo Maurice Halbwachs, principalmente sobre o conceito de memória social. A partir da leitura de Halbwachs, pode-se relacionar os conceitos de memória social, coletiva e histórica.

Segundo Halbwachs (1968) a memória, vista como um fenômeno social, só é possível de ser construída e reproduzida pela coletividade, ao longo do tempo. Dessa forma, assim como a cultura desse grupo social é definida de modo dinâmico pelas partes integrantes, (e, sobretudo, mutável), também é a memória social. Pois ao ser mutável, ela torna-se seletiva, ocasionando seleções diante dos acontecimentos que ficam ou não gravadas na memória do grupo social, e que serão transmitidos para as futuras gerações.

Outra questão importante ao conceito de memória social é tratada também por Halbwachs (1968, p. 14) à relação entre memória individual e memória coletiva:


Certo, a memória individual existe, mas ela está enraizada dentro dos quadros diversos que a simultaneidade ou a contingência reaproxima momentaneamente. A rememoração pessoal situa-se na encruzilhada das malhas de solidariedades múltiplas dentro das quais estamos engajados. Nada escapa à trama sincrônica da existência social atual, e é da combinação destes diversos elementos que podemos emergir esta forma de chamamos de lembrança, porque a traduzimos em uma linguagem.
Segundo o autor (1968), a existência de uma memória individual, se dá a partir e pela interiorização de um grupo, portanto de uma memória coletiva e histórica. Essa memória histórica é ainda definida nos termos usados pelo autor como “passado vivido”, o que constitui uma gama de ações e de fatos que foram importantes para a constituição do grupo social, da sua cultura, e consequentemente da sua memória social.

A memória dos indivíduos seria segundo Hallbwachs, caracterizada por duas formas: a primeira seria constituída pela lembrança de uma só pessoa, e a segunda pela constituição de um determinado fato coletivo pertinente a todo o grupo social.


No mais, se a memória coletiva tira sua força e sua duração do fato de ter por suporte um conjunto de homens, não obstante eles são indivíduos que se lembram, enquanto membros do grupo. Dessa massa de lembranças comuns, e que se apóiam uma sobre a outra, não são as mesmas que aparecerão com mais intensidade para cada um deles. Diríamos voluntariamente que cada memória coletiva, que este ponto de vista muda conforme o lugar que ali eu ocupo, e que este lugar mesmo muda segundo as relações que mantenho com outros meios. Não é de admirar que, do instrumento comum, nem todos aproveitam do mesmo modo. Todavia quando tentamos explicar essa diversidade, voltamos sempre a uma combinação de influências que são todas de natureza social. (HALBWACHS 1968, p. 51).
Assim, a conceitualização de memória se baseia em processos sociais e históricos, em fatos e narrativas expressivas a determinados grupos, de acontecimentos vivenciados, que legitimam, reforçam e produzem a identidade do grupo. É assim a presença de um “passado vivido”, é o que constitui e reproduz intelectualmente um grupo social.

Nas relações que constituem a memória histórica, podemos afirmar que a memória reflete a história. Acontecimentos e fatos aproximam a história e a memória de um caráter mais complexo, pois assim estariam necessariamente relacionadas às críticas sobre a reminiscência.

Em se tratando de comunidades camponesas, a relação entre memória e história é marcada pela luta pelo respeito dos seus conhecimentos. Essa luta também é marcada pelo trabalho de registro dessa história.
Registrar significa necessariamente assegurar a memória – a reflexão e releitura da experiência -, mas também, é um elemento para a propagação desta e, o que é importante, um meio de acesso a bens culturais coletivos para os sujeitos aqui retratados/auto-retratados. (MIRANDA; SCHWENDDLER, 2006, p. 58).
Em assentamentos este processo é fundamental e percebe-se que existem alguns registros dos processos históricos do local, mas o que predomina é a história oral, onde as pessoas mais velhas reproduzem as histórias e valores culturais para as novas gerações.

Pela oralidade os camponeses relacionam passado e presente, compartilhando experiências e formando coletivamente a sua história e a sua identidade, e assim criam expectativas e projetam o futuro.

Outros questionamentos inerentes sobre como a memória é problematizada na experiência dos assentados, se revela nas relações com a dialética. Sobre isso Nora (1993, p. 09) afirma que:

A memória é vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse sentido, ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulneráveis a todos os usos e manipulações, suscetível de longas latências e de repentinas revitalizações.


Esses novos apontamentos levam, sobretudo a uma compreensão e estruturação maior em relação ao conceito de memória em relação à historiografia, mas que permitem compreensões complexas do conceito de memória social, influenciada pela história.
Modo de vida camponês
Para compreender a grande diversidade cultural que forma uma comunidade camponesa, é preciso reconhecer a história e lutas da estrutura fundiária e de classes sociais. As condições culturais do campesinato se reforçam politicamente perante a sociedade através da defesa do seu território e de sua forma de organizar a vida.

A comunidade camponesa se baseia na pequena propriedade familiar, onde a terra é a base para o trabalho de produção agrícola, o que justifica a importância da luta pela terra, este elemento fundamental para a vida das famílias camponesas.

As comunidades camponesas englobam muitas categorias sociais, e tem como característica, uma diversidade sociocultural que se cria e se mistura nas festas e celebrações comunitárias formando uma integração social. A igreja e a escola são espaços dessas celebrações, reuniões e de manifestação cultural do campo.

O campo está ligado à cultura dos sujeitos nele inseridos. Sua valorização é a valorização da realidade onde o campesino está, onde ele trabalha, onde retira seu próprio sustento, onde possui seus modos de vida neste espaço que historicamente está sendo modificado e transformado.


Conhecer uma realidade é, portanto, reconhecê-la como historicamente determinada, constituída por sujeitos que a representam, a simbolizam. Sob a forma de percepção, de intuição, de sensações, de concepções, a realidade é sempre uma realidade para um indivíduo ou grupo de indivíduo que compartem entre si o sentido dessa realidade. (TEVES, 1992, p. 7).
Apesar das transformações sócio-econômicas, as características da comunidade camponesa resistem. E quando se fala em assentados as resistências a essas imposições são ainda maiores.
A comunidade é a materialização concreta da resistência e das lutas desenvolvidas pelos moradores. Ela permanece como prova inconsistente de que a racionalidade camponesa não aceita a padronização e/ou a lógica da produção capitalista. (MENDONÇA, 1998, p. 72).
Nesses espaços coletivos, há muita cooperação e solidariedade, troca de serviços, apesar das pessoas possuírem culturas diferentes, mas lutam juntas por fatores políticos e culturais que defendem sua terra.
Pode ser que não haja nenhuma afinidade entre essas pessoas, excetuando o fato de residirem no mesmo fragmento de território, dependerem das mesmas instituições e participarem juntas, para melhor ou pior, das vicissitudes da mesma pequena área. (SMITH, 1971, p. 114).
O cotidiano no campo retrata a cultura, através de aspectos materiais, ou seja, a relação com o trabalho, e imateriais, através de valores, como expressões religiosas, mística, etc. Estas vivências coletivas caracterizadas principalmente em assentamentos formam um acervo cultural, como retrata Caldart (2004, p. 163):
Essa experiência humana de participação em um movimento social como o MST produz aprendizados coletivos que, aos poucos, se conformam em cultura, naquele sentido de jeito de ser, de hábitos, de posturas, de convicções, de valores, de expressões de vida social produzida em movimentos e que já extrapolam os limites desse grupo social específico.
Dentre as expressões históricas vinculadas a cultura camponesa, destacam-se as crenças predominantemente ligadas à religiosidade e valores pessoais.

A religiosidade presente nas manifestações culturais, que inclusive faz parte da formação histórica da nossa sociedade, é vivida frequentemente pelos povos do campo, fazendo parte de todos os sujeitos, independente da idade. Visto que a origem dos movimentos sociais está enraizada na religião, essa cultura é demonstrada muitas vezes em símbolos, mística e celebrações festivas.

A união para o bem estar de todos se percebe nos aspectos econômicos, políticos e culturais. Em comunidades organizadas, como os assentamentos são desenvolvidas atividades na agricultura camponesa e mobilizados seus conhecimentos ambientais, relacionando-se com a terra como algo que garante a sobrevivência.

Os traços culturais e a época em que foram vividos pode se tornar conflitante no processo de organização dos assentamentos, explica Caldart (2004, p. 191).


(...) Conflito entre os elementos da cultura que traz em si pela herança de gerações, e novas vivências socioculturais que projetam a produção de uma outra cultura, pela pressão de um tempo que foi proporcionalmente curto, mas cuja intensidade e densidade de experiência foi tão forte que não pode simplesmente ser esquecido sem que permaneçam algumas de suas marcas.
Desse modo, por mais que a sociedade de hoje contribua para a transformação da cultura própria das comunidades do campo, influenciando ao consumismo e individualidade, os valores e experiências de relação com pessoas, estará sempre presente nas relações familiares, no zelo pela natureza e interações culturais que fazem parte das raízes das populações camponesas.
HISTÓRIA DO ASSENTAMENTO
A formação histórica dos assentamentos é marcada por vários conflitos, envolvendo diferentes culturas, gerando novas formas de vida.

Os espaços, gestos, imagens e objetos são fatores importantes para evocar a memória e resgatar a história vivida pelas pessoas. Assim, tornam-se atuantes os momentos mais marcantes e contribuindo para a formação de uma própria identidade. Para entendermos como essas questões estão relacionadas, é preciso conhecer um pouco a história do assentamento.

A história da comunidade do Assentamento Passo Liso parte de relatos orais, de moradores da referida comunidade. A comunidade do Assentamento Passo Liso existe há vinte anos. Desde janeiro de 1987 quando foram assentados os seus moradores.

Nas entrevistas com moradores do Assentamento Passo Liso constata-se que a luta pela Terra teve início em 1986. Conforme seus relatos a vida era muito mais dura, “o tempo de acampamento é um tempo duro, é esperar na incerteza”. (Morador 1).

Na época não havia ocupações ainda, se fazia acampamentos nas beiras das BRs como forma de protesto e questionamento, o governo considerava muito feia tal atitude.” (Morador 2)

Moradores mais antigos afirmam que o Senhor Herno foi procurado na época para que liderasse alguns moradores da comunidade de Nova Laranjeiras que era distrito de Laranjeiras do Sul, para a conquista da Terra, pois haviam entendido que não se doavam terras, era preciso conquistá-las. Formaram então um acampamento na BR 277 em Nova Laranjeiras, próximo a ponte da área indígena. Nesta época quem dava manutenção às BRs era o DNER, da qual o Senhor Davi era o encarregado, o qual conversava com os acampados para que saíssem da “sua” BR, pois entendia que não era interessante que ali permanecessem.

Em maio de 1986 se mudaram para a BR 158 no Campo do Bugre, negociando então com o Incra a desapropriação da área onde hoje existe assentados. Em outubro do mesmo ano o Incra traz a notícia de que o processo havia voltado e que as terras não seriam desapropriadas, decidiram então, em assembléia geral, que a área em questão seria ocupada.

Em 24 de janeiro de 1987 houve a integração de posse e iniciou-se a medição da terra. Na época da formação do assentamento, os moradores comentam que foi uma época difícil, tinham a terra, porém sem condições de trabalho, pois não tinham absolutamente nada, trabalhavam como diaristas para conseguir alguma comida, o governo então deu um fomento de seis meses e a situação melhorou um pouco, começaram então suas lavouras. Hoje a grande fonte de renda da comunidade é a produção leiteira.

Segundo os entrevistados houve muitas mudanças de membros da comunidade, alguns por não se adaptarem, outros por motivo de doenças ou outros.

Nas entrevistas foi possível perceber que desde o início o Senhor Herno foi um importante líder, envolvendo-se nas decisões tomadas, relatando que nas situações em que enfrentavam problemas procuravam envolver sempre as pessoas que pareciam mais interessadas, pois alguns se demonstravam muito individuais, ou pouco participativos dos movimentos sociais, muitos continuaram a participação nas reuniões da comunidade e seus filhos os precederam como foi o caso dos Senhores Pedro Aquino Bueno e Davino Miguel Knob.

Essa memória partilhada pelos moradores antigos da comunidade revela aspectos históricos importantes. Nas narrativas se destacam alguns aspectos que são apresentados como fundamentais nas relações familiares e do trabalho no assentamento. Dentre esses aspectos destaca-se o cultivo e a valorização da história de luta, da diversidade cultural dessa comunidade, a fim de preservar sua identidade, esta que é vinculada a uma luta social preocupada com a formação humana de seus sujeitos.

Com o conhecimento da história local, os indivíduos assumem a condição de sujeitos de seu destino, inseridos na sociedade.

A grande preocupação de alguns moradores do assentamento é criar a consciência nas novas gerações, de que a história, cultura e identidade do local onde vivem deve ser preservada e valorizada, diante das várias influências do espaço urbano.
MODO DE PRODUÇÃO E SOBREVIVÊNCIA
A maioria dos moradores do Assentamento Passo Liso produz de maneira convencional, alguns tentam fazê-la organicamente, embora ainda se sintam despreparados, sem saber por onde começar. “Nossa lavoura é convencional, mas pretendo que seja orgânica, embora seja difícil.” (Morador 3).

A maioria produz para seu sustento e têm uma alimentação saudável apresentam produção de milho, feijão, leite, batata, mandioca, abóbora, ovos, aves e suínos, alguns ainda a soja, a maioria têm hortas nas propriedades.

Há uma razoável produção agrícola neste assentamento e a tentativa de superar os problemas da reforma agrária.

Alguns moradores falam sobre a necessidade de maior atenção de técnicos agroecológicos preparados para subsidiar suas produções, gostariam de maior atenção, revertendo assim algumas dificuldades em realizar as produções de maneira a não agredir o meio ambiente. “... queríamos aulas com técnicos também, eles podiam ajudar a gente e ensinar os filhos”. (Morador 4). “... queríamos um técnico agrícola trabalhasse com os alunos”. (Morador 5).

Pode-se considerar a agricultura familiar camponesa como suporte da autonomia dos assentados, como a forma de trabalhar com a terra, preservando a questão ambiental, percebendo a terra como espaço de produção e de conhecimento para sua autonomia.

Mostra-se então que a conflitualidade existente nas lutas é pela defesa da autonomia desses povos e pela agricultura familiar, aspectos estes que influenciam na construção da identidade. Percebe-se que essa questão da conflitualidade ainda é existente quando se trata de lutar por uma agricultura sustentável e por um país mais justo e democrático.


MODO DE VIDA
A luta pelo reconhecimento e pela legitimidade da conquista da terra improdutiva e, consequentemente, sua organização social após a ocupação do espaço se corporifica à medida que os assentados permaneçam fortalecidos pela ideia de encontrar mecanismos de organicidade interna, visando o bem estar social de todos.

Do ponto de vista pedagógico, desde a ocupação, o assentamento já começa a proporcionar experiências e vivências carregadas de significações socioculturais que formam o indivíduo na organização social do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, porque provocam mudanças que acontecem gradativamente, mas que são profundas: aos poucos as pessoas passam a se posicionar de maneira diferente diante de suas realidades. Essas mudanças provocam uma série de continuidade e de rupturas com valores anteriores, desdobrando em novas formas de enraizamento na vivência compartilhada no coletivo.

O assentamento é um espaço de socialização dos sem-terra, porque ali vão conviver com diversos valores culturais, credos, mitos, desejos, medos, anseios, angústias, sentimentos e histórias de vidas que serão partilhadas de forma significativa, reencontrando alternativas coletivas de viver, ressignificando modos, costumes, atitudes, costumes e valores, incorporados em experiências anteriores para uma nova maneira de viver, aquela da compreensão, do partilhar nos momentos de tomada de decisão e isso é perfeitamente perceptível na história dessa comunidade.

No cotidiano se aprende também a respeitar diferenças quando todos compreendem que o processo é de um aprendizado de trocas de experiências para uma nova leitura do mundo: viver em comunidade numa lógica em movimento, a comunidade cresce quando juntos partem em busca de soluções e é aí que aprendem a respeitar as diferenças.

Percebe-se que ao afirmarem sua identidade Sem Terra há certo orgulho, talvez por se sentirem conscientes de sua condição de oprimidos, afinal sabemos que muitos de nós, sequer tem consciência dessa condição e nem da existência de um sistema que oprime e exclui.

O tempo de acampamento, por certo é um tempo difícil, mas também se percebe que além da luta pela terra, é um tempo de formação, de luta coletiva, onde a troca flui nos momentos de companheirismo e nas reuniões e assembléias, isso os encoraja a lutar e passar por cima de leis elaboradas por e para interesse de alguns.

É na consciência de expropriados da Terra que começa a consciência de uma identidade coletiva, no reconhecimento da mesma situação e da mesma condição de vida, nesse momento essa identidade se sobrepõe a interesses individuais. “No começo foi difícil eu não sabia como era conviver no Movimento, se me falassem alguma coisa eu não gostava, depois aprendi que todo mundo precisava fazer um pouco.” (Morador 4).

É através de conflitos que se começa a criação de uma nova identidade de homem e de mulher participativos e cientes de seus direitos, mas também de seus deveres.

Nesse processo tenso e conflituoso os camponeses se educam e se sentem “agricultores Sem Terra”, identidades que estão imbricadas, uma identidade situacional, onde uma não nega a outra.

Após tão conflituosa luta por dignidade e igualdade de direitos, a luta parece não ter fim, “foi difícil aquele tempo, não que hoje seja fácil, a gente ainda continua brigando por escola, por problemas que surgem na comunidade, e quando precisa vamos à Secretaria de Educação ou a Prefeitura, mas se precisa a gente vai buscar solução!” (Morador 4).

Na perspectiva de estar sempre buscando melhores condições para sua subsistência, a identidade do grupo se constrói e se reconstrói, num processo contínuo, são mulheres e homens engajados em luta pela libertação.

Suas vivências em busca de autonomia, suas decisões coletivas, fazem parte de uma cultura do assentamento, onde a comunidade é unida e possui tradições culturais que prezam pela boa convivência dos assentados.

Todo dia 12 de outubro, fazemos uma festa no assentamento com colaboração de todos, a festa é para as crianças e comemoramos o aniversário do assentamento.” (Morador 2).

Com relação à religiosidade das pessoas que moram no assentamento, percebe-se que a maioria é católico.

Todo mundo vai a igreja nos domingos, fazemos as rezas nas casas também, mas a participação é na maioria dos mais velhos, os jovens estão perdendo esta tradição.” (Morador 2).

Há uma grande preocupação de que os jovens e adolescentes contribuam com as lutas e movimentos do assentamento, mantendo a identidade e cultura dessa comunidade e que esses valores cultivados por eles não se percam.

Visto que os modos de vida do homem do campo produzem a sua identidade, a compreensão dos saberes e da cultura socialmente construída pelo homem do campo, na sua própria diversidade sociocultural, leva a analisar o sentido que os camponeses tem da sua identidade e da sua realidade. É assim que compreendemos o seu modo próprio de vida e suas relações com a utilização das terras e da natureza em si, as quais conformam a identidade que caracteriza o indivíduo do campo.


A ESCOLA
Tanto os professores quanto os alunos da Escola Rural Municipal Padre Josimo Moraes de Tavares mostraram forte identificação com o lugar. Isso se expressa no discurso e os professores tem atuação direta nas ações da comunidade, participando de clubes e associações comunitárias.

Na análise dos questionários e entrevistas com professores, as formas de identificação com as comunidades foram expressas no discurso principalmente quando estimulados por perguntas ligadas ao sentimento de ser morador do campo. Os questionários consistem em declarações positivas no interesse pela história e preservação da cultura da comunidade em que vive.

Os professores que fizeram parte da pesquisa são moradores e atuam na comunidade em que mora. Isso permite a descrição das principais características do lugar com referência à identidade do entrevistado e à sua forma de se identificar com a comunidade. Mostra-se ainda nas entrevistas o orgulho de ser morador do campo, no sentido de valorização da autonomia e cultura. Mencionando sempre a referência física, como as belezas e riquezas naturais e a tranquilidade de viver no campo por meio dos elementos da natureza.

Os entrevistados sintetizam as mudanças trazidas pelo desenvolvimento do meio rural, onde na época de infância dos mesmos fizera falta a educação e saúde e a precariedade das estradas rurais, dificultando também o transporte e o acesso à cidade. Então um grande marco de desenvolvimento foi a construção de espaço físico destinado a escola, promovidas pela gestão municipal.

As tradições expostas pelos professores se ligam ao ambiente físico, nas referências com o campo, pois se supõe que as pessoas expressam também sua identidade e cultura de lugar por meio de sua fala.

Morador do campo, deve expor sua cultura, o seu jeito de ser, a forma de falar.” (Professora 1).

As identificações podem expressar algumas características que se conecta à coletividade dos moradores do campo, como no discurso da entrevistada abaixo:

As pessoas do campo são muito solidárias, muito companheiros. Se conhece todo mundo, e gostam inclusive, de se envolver, de estar perto das pessoas, de contar causos e histórias. Eu acho que isso é uma característica do campo.” (Professora 2).

Destaca-se entre os moradores do campo a característica de ser uma pessoa muito forte, batalhadora, ainda que, por vezes, sofredora:

O homem do campo é uma pessoa forte, lutadora, sofredora muitas vezes, onde tiram da terra sua própria subsistência.” (Professora 2).

Percebeu-se que os professores no geral, conhecem a história da comunidade, relataram em suas falas sobre os primeiros moradores e primeiros professores.

A pesquisa leva a entender que esses conhecimentos são de extrema importância no ambiente escolar, por isso, o professor precisa ter os conhecimentos da história e cultura do local onde a escola está situada.

Em relação à memória histórica da comunidade, a escola possui um croqui ou mapa da comunidade, o registro de informações das famílias, o calendário da produção e documentos que contemplam aspectos históricos, culturais e organizacionais. As informações armazenadas nesses instrumentos podem, também, ser úteis a outras instituições.

Destacam-se os subtemas dos aspectos históricos, geográficos e culturais, conforme abaixo:

a) Aspectos históricos:

- Origem da comunidade;

- Dados sobre sua fundação;

- Origem do nome;

- Primeiros habitantes.

b) Aspectos geográficos:

- Localização (limites);

- Hidrografia;

- Relevo;

- Extensão.

c) Aspectos culturais:

- Mitos, lendas, ditos populares;

- Idiomas (línguas);

- Festas e comemorações;

- Esportes, jogos;

- Música (canções, instrumentos);

- Danças regionais (folclore, trajes utilizados);

- Religião.

Estas informações são de demasiada importância porque servem para: colher informações gerais sobre a comunidade. Transmitir seus costumes, valores e cultura de uma geração a outra. Fortalecer a identidade cultural de uma região. Escrever a própria história da região, para que não se perca.

Os professores usam documentos de apoio que lhe permitam dar a seus alunos um testemunho de como sua comunidade era no passado e como se desenvolveu.

Os professores demonstraram que utilizam estratégias para estimular a comunidade educacional na qual trabalha a participar das atividades da escola. Os alunos, por sua vez, desempenham atividades que beneficiam sua comunidade, como recuperar elementos culturais representativos e empreender ações de saúde, saneamento, nutrição, preservação do meio ambiente, etc.

Encontra-se uma infinidade de formas de expressão da identificação local entre os professores, pois mostram que não tem vontade de sair do campo, esta autoestima é repassada aos alunos. Ainda relatam também que agora as condições de vida no meio rural estão mais acessíveis.

Na escola procuro valorizar a cultura da comunidade em que faço parte.” (Professora 1).

As declarações dos professores mostraram que os mesmos procuram sempre resgatar aspectos históricos da comunidade em que atuam e a valorização da cultura e identidade dos seus alunos é essencial.

Em entrevistas com os alunos, percebeu-se que os mesmos trazem muitas histórias antigas contadas pelos pais, mostrando em suas narrativas muitos valores ligados à família.

A identificação local se mostrou na forma coletiva com a comunidade, onde as expressões são ligadas a valores culturais.

Gosto de morar aqui onde nasci... gosto de todo mundo aqui... todo mundo é amigo.” (Aluno 1).

As pessoas do campo têm a característica de ser hospitaleiro, acolhedor, atencioso, trabalhador, honesto e tranquilo. As famílias dos alunos são formadas por pai, mãe e filhos.

A maioria dos alunos nasceu na comunidade em que vivem e conhecem um pouco da história da sua comunidade, mas percebe-se o desconhecimento da imagem territorial onde a mesma está inserida, ou seja, não conhecem mapas que mostrem a localização da sua comunidade.

Quando questionados sobre datas de criação da comunidade e da escola, os alunos não souberam informar.

Alguns alunos contaram que seus pais ajudaram na construção da escola e citaram nomes de pessoas que doaram a madeira para essa construção.

Os sistemas de valores e padrões de comportamento dos alunos estão intimamente ligados à cultura dos povos do campo, onde é primordial os valores familiares, repassados de geração para geração.

Meus pais sempre dizem que temos que respeitar os mais velhos, ir na igreja todos os domingos... não faltar na catequese.” (Aluno 2).

Estas características são tradições das comunidades do campo, destacando ainda o respeito entre as pessoas da comunidade.

Percebeu-se ainda que os alunos se mostram preocupados com o aspecto físico da escola, igreja e pavilhão da comunidade, conservando o patrimônio histórico e cultural das comunidades.

Os alunos se mostraram empolgados com o grande desenvolvimento da sua comunidade, no que se refere à comunicação, meios de transporte, etc.

Antes não tinha nem telefone aqui e agora temos telefone e até internet.” (Aluno 3).

Meu pai teve que caminhar muito pra poder estudar e eu venho de transporte escolar todos os dias... não chego na escola cansado.” (Aluno 4).

Foram mencionadas nos questionários as mudanças radicais nas condições de cidadania, como o maior e melhor acesso à saúde e educação.

Para ilustrar a mudança, alguns alunos citaram a nova infraestrutura de estradas, acesso à internet no telecentro comunitário da comunidade.

Uma das ações valorizadas pela escola é quando os pais dos alunos vêm à escola para contar um pouco sobre a história da comunidade. Com a narrativa da história do lugar, os alunos puderam perceber o que permanece e o que mudou nos aspectos históricos e culturais da sua comunidade.

Para os assentados, é necessário que a comunidade e professores assumam coletivamente esse processo de valorização da identidade e cultura local sempre preservando a memória histórica.

Queríamos desde o início uma educação, diferente, pensávamos em uma receita para a professora! Queríamos que as crianças entendessem o que os pais faziam. E que crescesse se sentindo filho de agricultor e também agricultor.” (Morador 2).

No início eram quarenta famílias, muito unidas, pela terra e pela escola, conseguiram que a primeira Escola não fosse de lona, a mesma foi construída de laminas compradas pelos moradores da comunidade, de chão batido, as carteiras foram adquiridas junto à Secretaria Municipal de Educação, no mandato do Prefeito Valmir Gomes da Rocha Loures:

...quando fomos pensar na escola, fizemos tudo de lamina e lona, nós mesmos, só pedimos as carteiras pro Prefeito Valmir, que era o prefeito da época, eles não queriam, disseram prá nós cortar as árvores e fazer cepos, mas nós lembramos que tinha carteira sobrando numa Escola de Nova Laranjeiras, o Herno sabia que tinham trocado as carteiras lá, nossa Escola era de chão batido.” (Morador 1).

Para muitos moradores uma educação voltada para os valores do campo ainda é um sonho, dizem acreditar que esse sonho também deve ser de outros camponeses em outras comunidades, mesmo fora de assentamentos, pois são agricultores como qualquer outro, que desejam ver sua cultura valorizada.

Nós pensava nessa escola e acho que outros de outras comunidades que não é assentamento também pensavam, pois também são agricultor”. (Morador 2).

Alguns líderes da comunidade dizem que hoje ao visitar a escola percebem que as crianças podem escolher o cardápio da mesma, pois não comem aquilo de que não gostam. Este foi um motivo para que conversassem com os alunos relembrando a dificuldade pela qual passaram na época de acampamento e início de Assentamento, e se hoje podem escolher o que comer, podem se considerar privilegiados, e para que chegassem a isso houve luta de seus pais.

Outro dia a gente teve aí na escola e viu as crianças injeitando de comer quirera e chá com bolacha, então entramos e fomos lembrar com eles o tempo do acampamento, as crianças naquele tempo não podiam “injeitar” nada, era muito dura a vida naquela época, eles são privilegiados, no meu tempo até calçado no pé era luxo. A gente não é rico, mas têm o que comer vestir e morar, pra gente isso é muito bom.” (Morador 2)

Alguns camponeses entrevistados consideram que a escola sempre foi uma “boa escola”, nos dando a impressão que a simples existência de uma escola já é suficiente para contentá-los. “Pra mim a escola sempre foi boa, não tenho queixa.” (Morador 5). Porém, a maioria, entre eles, os mais ativos na comunidade, espera que a Escola trabalhe inserindo em seu contexto a comunidade, “a Escola deve trabalhar a importância da agricultura, onde os alunos não se sintam inferiores por morar no campo.” (Morador 1).

Muitos moradores esperam uma escola inserida dentro da comunidade, onde seus filhos não precisem se distanciar da comunidade para estudar. É necessário mais que isso, uma escola que tenha qualidade, e que se comprometa com educadores que acreditem nesta educação.

... Agora que conquistamos a terra, temos outros problemas, queremos uma escola que ensine do “nosso jeito”, as nossas coisas, e que passe para os nossos filhos a vontade e coragem pra lutar por um mundo melhor!” (Morador 2).

Para esses assentados, o ensino no campo tem muito a ver com o trabalho e a cultura do campo, para tanto, não se pode deixar perder isso e cabe a escola mediar esse cultivo da identidade cultural camponesa, ajudando as pessoas em sua cultura, que deve ser recriada e conservada para recuperar valores humanos e sociais utilizando-se das principais raízes e seus vínculos, buscando o engajamento pessoal para formar seres conscientes perante a sua identidade campesina. A escola deve incentivar seus alunos a valorizar a história dos seus antepassados, tendo uma visão crítica sobre ela e a aprender do passado para saber projetar o futuro.

A escola deve contribuir com a construção de uma memória coletiva, fazendo um resgate da identidade do homem do campo por meio da educação, trabalhando junto a todas às crianças, jovens e adultos, possibilitando criar um sentimento de orgulho dentro do grupo social ao qual estão inseridos. Assim consequentemente ajudará a reconstruir a vida dos trabalhadores do campo, portanto deve buscar organizar-se levando em conta à vida e os espaços nos quais elas se encontram, para que seus alunos (estudantes) sejam chamados a compreender o verdadeiro significado do trabalho e onde eles possam expressar sua cultura e sua identidade.

A escola como sendo um espaço de diálogo, de conversa e de comunicação oral, deve investigar características das narrativas orais dos educandos, suas representações não só das suas experiências de vida, mas também das suas noções do que é a existência social. Ao relatar sua realidade, isto contribui não só para um melhor trabalho do educador com o conteúdo, como também se constitui num recurso necessário para o sucesso do processo ensino-aprendizagem.

Partindo-se do pressuposto de que a criança, ao chegar escola, já possui uma bagagem cultural proveniente do lugar em que vive, os professores podem usar esse conhecimento e essas práticas culturais em suas aulas e assim fazendo um resgate da memória mantendo viva a memória e valorizando saberes e a identidade da comunidade.

Reconhecendo então a importância desse resgate, é necessário e importante promover o registro escrito das histórias guardadas apenas na memória dos moradores antigos, para que estas histórias, manifestações culturais, cantigas, etc., estejam disponíveis também para as novas gerações, salvaguardando, assim, o patrimônio cultural da comunidade.

A diversidade sociocultural existente nessa comunidade de assentamento é um fator que redobra a atenção dos educadores. Compreender essa relação entre os mesmos é imprescindível, conhecer a identidade dos povos do campo, suas dificuldades, inquietudes, suas raízes históricas, para assim valorizar esses aspectos.

Esse processo de valorização da diversidade sociocultural dos alunos do campo constrói sujeitos que protegem sua vida questionando-se ante a realidade, argumentando e defendendo o que pensam e sendo capazes de se reconhecerem enquanto sujeitos das suas próprias histórias, sujeitos do campo, com realidades culturais próprias e diferenciadas.
CONCLUSÃO
O presente estudo possibilitou a reflexão sobre o tema de estudo desde o levantamento de pesquisas bibliográficas até a análise da pesquisa de campo.

Este trabalho descreveu sobre como é feito o trabalho de resgate da história, cultura e identidade da comunidade do Assentamento Passo Liso. Com isso, buscou-se analisar as características marcantes das metodologias e conhecimentos dos professores sobre o assunto e os conhecimentos dos alunos sobre sua comunidade.

Na trajetória deste trabalho, foi possível detectar a importância do conhecimento da história e cultura da Comunidade do Assentamento Passo Liso por parte dos professores, alunos e comunidade em geral.

Sob este enfoque aponta-se nas considerações sobre a história local, identidade e cultura dos sujeitos do campo, que acima de tudo os mesmos visam seguir os valores fundamentais dos povos do campo, como por exemplo, um lugar de apego ao território, à família e a união pela crença nas tradições e valores.

Percebeu-se que os professores da escola visitada, têm como base nos seus ensinamentos, a identidade, a realidade cultural dos alunos e a história da comunidade em que atua. Vale ressaltar, que os alunos pesquisados demonstraram um conhecimento amplo da realidade local, vivenciado nos momentos de produções de conhecimentos da escola.

Com relação à história enquanto experiência viva dos professores do campo é preciso ressaltar que os alunos também produzem e são produtos dos contextos sociais e de suas histórias. Sendo esta inserção trazendo uma formação de indivíduos comprometidos com os princípios da democracia e da identidade dos camponeses.

Após este estudo e de acordo com os autores referenciados na pesquisa, concluí que a escola assume um papel da educação do campo para o resgate dessa cultura, pois além de resgatar a cultura dos povos do campo, desenvolve consciência crítica, imaginação, criatividade, expressão e comunicação. Pois a escola sendo um espaço de comunicação e conhecimento deve levar aos alunos, sujeitos do processo educativo, se tornarem cidadãos e assumirem o seu papel na sociedade em que vive. Portanto acredito que é importante a escola assumir o papel de levar essas informações aos alunos e ao mesmo interagir com os conhecimentos trazidos por eles e aproveitá-los em todas as disciplinas e atividades escolares.

Dessa forma, a construção do conhecimento depende de situações que permitam à criança pensar sobre coisas significativas para ela, ou seja, que pertencem ao seu contexto histórico e a sua cultura, na oportunidade de desenvolver habilidades sociais por meio das trocas de relações inseridas na diversidade cultural, se tornando importantes para o seu desenvolvimento social.

Portanto, acredita-se que este estudo contribuiu para fortalecer e reafirmar a importância da memória histórica, da cultura e identidade da comunidade do campo em estudo, destacando para o compromisso com uma prática docente voltada para a valorização a cultura e a identidade dos educandos e de sua condição de sujeitos e protagonistas de suas próprias histórias, buscando metodologias que favoreçam sempre no resgate da história das comunidades camponesas.

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