Memórias, criação e autoria no Design Contemporâneo Memorias, creación y autoría en el Diseño Contemporáneo



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Memórias, criação e autoria no Design Contemporâneo

Memorias, creación y autoría en el Diseño Contemporáneo.

Memories, creation and authorship in Contemporary Design.

Mônica Moura i

Ana Beatriz Pereira de Andrade ii

Marina Jardim Tarozzo iii


Resumo: Este artigo apresenta e discute a presença da memória e sua relação com a criação e a autoria no design contemporâneo tanto no universo profissional quanto na formação superior em design a partir de discussões teóricas, análises e exemplos de ações, produtos, objetos e um projeto de ensino-aprendizagem de caráter interdisciplinar com o tema memória.
Palavras-chave: Design, Design Contemporâneo, Memória, Criação, Autoria, Projeto, Ensino, Interdisciplinaridade.
Resumen: El articulo presenta y discute la presencia de la memoria y su relación con la creación y la autoría en el Diseño Contemporáneo tanto en el universo profesional como en la formación en Diseño a partir de discusiones teóricas, análisis y ejemplos de acciones, productos, objetos y un proyecto de enseñanza-aprendizaje de carácter interdisciplinar con el tema Memoria.
Palabras-llave: Diseño, Diseño Contemporáneo, Memoria, Creación, Autoría, Proyecto, Enseñanza, Interdisciplinaridad.
Abstract: This article presents and discusses the presence of memory and its relation with the creation and authorship in Contemporary Design, not only in the professional universe but also in the Design college education, from theoretical discussions and analyses, and examples of actions, products, objects, to an interdisciplinary project of teaching-learning under the theme Memory.
Key-words: Design, Contemporary Design, Memory, Creation, Authorship, Project, Education, Interdisciplinarity.

Minha mãe me deu um rio. Era dia de meu aniversário...



A mãe prometeu que no aniversário de meu irmão

Ela iria dar uma árvore para ele,

Uma que fosse coberta de pássaros...

Os pássaros ficavam durante o dia nas margens de meu rio

E de noite eles iam dormir na árvore do meu irmão...

mas o que nos unia demais eram os banhos nus no rio entre pássaros.

Nesse ponto a vida era um afago!”.
Manuel de Barros In: Memórias Inventadas, p. 135, 2008.
A memória, nas últimas décadas, passou a ganhar papel de destaque na contemporaneidade. Nesse tempo repleto de informações aceleradas, de diversos tipos de conexões e acessos ao universo digital perante linguagens e narrativas que se mesclam, se hibridizam e refletem, interferem e modificam a vida material e imaterial. Nos parece que diante a tanta informação e desinformação, típicos da ‘era dos extremos’ (conforme Hobsbawm, 1994), ocorre a necessidade do resgate e a consequente valorização da memória em ações que abrem caminhos para a busca do que é mais significativo e da permanência do que há de mais humano e singular na vida cotidiana.
Mas, também é esse o tempo no qual as doenças emocionais e neurológicas, denominadas de “doenças contemporâneas”, estão muito presentes levando muitas pessoas acometidas por esses males (mal de Alzheimer, demências, entre outras) a perder parte ou completamente a memória. Diante dessa realidade e, até talvez, em contrapartida ao enfrentamento da mesma, várias pessoas, instituições e organizações (museus, ONGs, entre outros) passaram a dar maior valor à memória, as experiências vividas, as histórias pessoais, aos fatos do cotidiano.
Outro aspecto trazido pela contemporaneidade foi a intensificação da globalização e entre as reações resultantes ganharam destaque e importância os valores e identidades locais, constituindo assim mais um motivo de valorização da memória, tanto a pessoal quanto a coletiva.
Lygia Fagundes Telles nos fala que as “memórias são lampejos, sementes de pensamentos e lembranças” (Telles: p. 138, 2009). Abbagnano (1998) afirma que a memória é constituída por duas condições ou momentos distintos: a conservação e a recordação. A conservação diz respeito à persistência de conhecimentos passados, é denominada de memória retentiva. A recordação é a capacidade e a possibilidade de evocar o conhecimento do passado e de torná-lo atual ou presente. Platão os chamou respectivamente de “conservação de sensações” e “reminiscência” (Fil.,34 a-c). Para Bergson (1999), a memória é um progresso do passado ao presente em um estado agente que é a recordação.
A partir das reflexões acima indicadas, podemos apontar que a memória pode ser retentiva ou recordativa. A primeira é constituída pela conservação de sensações, de conhecimentos. A segunda diz respeito às recordações, as reminiscências e tem o caráter ativo da deliberação de escolha. Portanto, a memória diz respeito às histórias pessoais ou coletivas, as lembranças e recordações, aos vestígios, marcas, sensações e percepções, vivências, incluindo-se aí os ritos de passagem e os hábitos cotidianos. Assim sendo, a memória inter-relaciona as lembranças e o passado resgatando-os ao presente, mas associando a eles novas informações, ou seja, a memória nunca é isenta e não mantém a situação, a lembrança intacta ou exatamente da forma como ela foi vivida. Ao lembrarmos, associamos novos conhecimentos, novas percepções, interpretações e novas informações ao fato lembrado. Portanto, a memória não é isenta de interlocuções e é muito criativa. Ao lembrarmos-nos de algo ou de uma situação acionamos não apenas o cognitivo, mas também o emocional, que é somado às nossas atuais experiências de vida. Dessa forma, entrelaçamos o passado vivido às nossas convicções e à nossa existência no presente. A memória diz respeito aos conhecimentos e vestígios do passado que já estiveram disponíveis, às recordações que trazidas ao presente se somam a outros olhares. Evocamos a recordação e a tornamos presente.
A memória também pode ser entendida como marcas na e da alma que se movem entre a conservação, a persistência e recordações. Podemos dizer que essas relações se estabelecem de maneira íntima e afetiva aos nossos pensamentos, ideias, lembranças, fagulhas de sensações que se constituem como representações e constroem a personalidade e a identidade a partir do reconhecimento do já visto e vivenciado.
Mas as memórias também têm a ver com sensibilidade, e nada como a literatura para ativar a nossa sensibilidade. Em Viver para Contar (2003), Gabriel Garcia Marquez, de forma profunda e poética, inicia a obra com a seguinte epígrafe: “A vida não é o que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la”.
“A toda hora, somos capazes de recuperar aspectos de nosso passado: é como se nos contássemos histórias a nós-mesmos, alguns chegam a registrá-las em forma de diário. Mas o relato primordial é o que pode ser feito a outras pessoas: através dele, o que vivemos e que é bem nosso ganha uma dimensão social, obtém testemunhas (mesmo que a posteriori), faz com que os outros ampliem sua experiência, através das nossas palavras. Há troca e cumplicidade. Viver, para Contar (a vida), o título das memórias de Gabriel García Márquez, serve para todos nós. Viver algo notável gera a necessidade de contar: você sabe o que eu vi? você sabe o que me aconteceu ? E tudo o que nos acontece é notável porque nos concerne. É interessante notar que estudiosos supõem ter a linguagem se originado, em nossa espécie, a partir da representação de situações sociais; talvez se possa dizer, parafraseando García Márquez, que se nos lembramos é para poder contar” (Ades: 2004, p. 1)

A literatura é uma grande fonte, tanto para a sensibilização quanto para os estudos e análises relacionados à memória e a criação. Além das obras Memórias Inventadas (trechos de poema na abertura desse artigo), Invenção e Memória e Viver para Contar, acima citadas. Dessa forma, podemos observar que quando a memória é resgatada ela se transforma em potência entre a ação e o ser criador, seja ele escritor, poeta, artista, designer.


Esses fragmentos de textos literários, aqui reproduzidos, foram selecionados e aqui se encontram como um estímulo para despertar nossa atenção, sensação e percepção a respeito da importância da memória, daqueles momentos e instantes que, por pareceram tão comuns e cotidianos não os valorizamos no momento em que os vivemos, mas que à distância, com o passar do tempo, tornam-se essenciais na constituição de nossa identidade e de nossa alteridade. E, também, essência para nossas referências ou inspirações destinadas à criação, ao desenvolvimento projetual, aos sonhos que, ao resgatarem o passado se transformam em projetos no presente e em objetos expressivos e poéticos no futuro. Sejam estes objetos produtos de diferentes naturezas, escalas e tecnologias para as mais diferentes necessidades que envolvem a vida do ser humano. E, retomar a memória, as lembranças, as histórias pessoais, de vida é uma forma de construir ou expandir o seu eu e de compreender o outro, o ser humano que está ao nosso lado e que também assume o papel de sujeito-usuário na esfera do design.

Memórias na Ação Criadora
“A aparição do designer como autor é uma das ideias chave do design gráfico pós-moderno” (Poynor:2003,p.118). Podemos dizer que esse aspecto não fica restrito ao design gráfico e se estende a todos os segmentos de design.
Sabemos que um autor é aquele que dá origem a criação, invenção ou instituição de algo. No design contemporâneo os criadores, os autores tornaram-se centros de atenção e destaque na mídia, nas premiações e nas exposições e, também, foco de estudos acadêmicos e científicos. Evidência também pronunciada pelas dinâmicas de mercado com resultados significativos na autoria, nos valores de seus projetos, obras e objetos que passam a incorporar e destacar a assinatura de seu autor.
Poynor (2003) também destaca que o ato de desenhar, de projetar nunca é algo neutro e os designers, especialmente nos últimos 30 anos, sempre trazem algo de pessoal em seus projetos e têm sido considerados os profissionais mais significativos da cultura contemporânea, onde a memória assume papel significativo.
Pudemos observar em várias palestras de designers estrangeiros, tanto no Brasil quanto no exterior, que a maioria deles começava contando sua história de vida, quem era, onde nasceu, como era sua família, seus brinquedos e brincadeiras favoritas e o que isso tinha a ver com sua atuação em design. Esse discurso era permeado por fotos, músicas, objetos e ambientes antigos, geralmente da infância do palestrante.
Também, podemos inferir que o acesso aos diversos tipos de informação que circulam nas redes digitais fragilizou a criação de maneira geral. Muitas coisas são criadas e disseminadas rapidamente e os acessos e processos a diversos tipos de criação foram facilitados e massificados. Nessa situação a autoria e a inovação também ganhou destaque. Mas, como criar e inovar a partir de informações e referências diferenciadas? Passou a ganhar maior valor àquilo que é único, pessoal, algumas vezes até íntimo. Uma das maneiras é buscar aquilo que é pessoal, único, diferenciado. Nesse aspecto incluem-se as memórias ativadas por meio das histórias pessoais, que, ao serem reveladas, ganham outra dimensão, especialmente quando falamos do universo da criação em suas várias linguagens, entre elas, a do design.
Maldini e Aragão
Em 2006 ocorreu na capital de São Paulo a ‘I Mostra Internacional de Design’ e teve como título e mote temático “Safety Nest – O Ninho Seguro”. Esta mostra teve curadoria geral de Nicola Goretti e consultoria curatorial de Paola Antonelli. A proposta da exposição se relacionava a discussão sobre a segurança e a violência nas cidades como metáforas dominantes deste século e o papel do design perante a essas situações. A exposição reuniu designers de diferentes países refletindo e expressando questões relacionadas à busca pela segurança e proteção por meio de diferentes olhares e culturas.
Uma das instalações apresentadas foi a intitulada “In Situ” (No Lugar) desenvolvida pelas designers uruguaias Irene Maldini e Fabiana Aragão. O espaço da instalação é coberto por uma parede e um piso, ambos de tecido e contem diversas divisões dispostas em bolsos nos quais, ao explorarmos a peça, encontramos objetos, tais como cartas, fotos, mechas de cabelo, papéis com anotações, colagens, documentos. Ao observarmos mais detalhadamente esse espaço de tecido, percebemos que é dobrável e transforma-se em uma sacola, possível de ser carregada.
“In Situ” explora os aspectos da memória em vários aspectos. Primeiro, pela referência a colcha de retalhos, comum em várias partes do mundo e que representa uma das mais fortes memórias afetivas. Segundo, exploram a ditadura ocorrida no Uruguai entre 1973 a 1985 quando as pessoas foram proibidas de levar seus objetos pessoais (que continham suas lembranças e suas histórias) para o exílio. Terceiro, constroem um tipo de casa portátil, que pode ser levada a qualquer lugar com os objetos pessoais e recordações contidos nos bolsos da colcha. E, também, exploram as experiências mediante catástrofes e situações de risco, momento no qual as pessoas devem abandonar rapidamente suas casas e espaços. Especialistas indicam que em situações dessa natureza o mais importante é levar consigo as lembranças, recordações e documentos fundamentais, pois são essas questões que nos ajudam a reconstruir a vida, tanto emocionalmente quanto nas questões práticas. Essas relações foram abordadas por essas designers de forma poética destacando a importância do papel da memória e enfocando a memória na ação criadora em design.
Mana Bernardes

Por favor território vou atrás de uma memória da onde o amor gera flores

minha bisavó com elas enfeitava

suas tortas de nozes

(Mana Bernardes In: Mana e Manuscritos, 2011, p. 205)


Esse poema de autoria da designer Mana Bernardes revelam, além da sensibilidade e da construção poética, a sua relação com a memória, com as histórias familiares e com as afetividades. A memória tornou-se tema e alvo de seu trabalho e de sua pesquisa criativa e projetual.
Mana é designer, é também artista, poeta, mediadora cultural, joalheira, ativista social, performer, videomaker. Ela define o profissional de design como uma usina criativa, no sentido do designer ser um articulador que percebe, soma coisas, materiais, tecnologias, associa potencialidades, consegue resultados e pode atuar em diversas plataformas e meios, seja na indústria, na medicina, no desenvolvimento de próteses, no artesanato e manufatura, junto a comunidades ou em outros locais. Ela afirma que em sua atuação observa e estuda a natureza, cria relações com o espaço, com as comunidades do lugar, com as potencialidades desses ambientes, dos materiais e das pessoas.
Essa designer tem a sua própria marca e trabalha em uma oficina-ateliê. Afirma que trabalha com ideias e busca representar estas ideias com materiais cotidianos, caso contrário, vai buscar materiais adequados, ou seja, os que melhor se adaptem às suas ideias. Também afirma que o design que faz é “design de processos” e que sua grande missão no mundo é promover o desenvolvimento autoral feminino.
A questão do feminino está impregnada no trabalho desta designer não apenas pelas peças, produtos, ambientes, instalações, performances e poesias que cria e produz. O feminino em seu trabalho também é trazido pelas relações de memória afetiva. Mana retira também de sua vivência e das relações e histórias familiares referências e inspirações para seus projetos. Inclusive as dificuldades servem como potencialidade para a criação. Ela diz: “O que me importa é o que se faz com a memória, o que se inventa. (...) Não adianta ter só memória, o que me comove é fazer algo com essa memória”(Bernardes In: Memória inventada, O Globo, Ela, p.2, 19/10/2013).

Um desses processos de criação partiu da experiência que Mana vivenciou com sua avó nos últimos anos de vida de Clarice Ramos Leal que foram marcados por lapsos de memória. E aí se encontra uma beleza na particularidade. Os lapsos e a falta de memória de alguém que nos é muito querido nos leva a valorizar a memória e as lembranças. Fato que pode ser gerador e um estímulo para a invenção, a criação e novos projetos.


A maneira que Mana encontrou para lidar com a situação e estabelecer diálogos com sua avó, e até talvez uma tentativa de reativar algumas lembranças e a memória de Clarice, foi vestir os vestidos da avó para que ela lhe contasse histórias desses vestidos que eram também entremeadas às histórias de vida e de imaginação. Isso porque as conversas e as histórias contadas por Clarice, conforme relato de Mana, eram meio reais e meio inventadas. Mas, todos os dias, durante cinco anos, este ritual se repetiu.
Mana recebeu como herança de sua avó, Clarice Ramos Leal, um baú com todos os vestidos que a avó fez durante sua vida. Vestidos de luxo. A história, permeada por memórias e a herança, somadas à vivência de Mana na área de design e em ações multidisciplinares, levaram a designer a desenvolver o projeto “EntreFios” que envolve uma exposição, performances, um catálogo, um documentário, uma plataforma virtual e o trabalho de residência com 30 mulheres de comunidades próximas ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ) onde será realizado o evento, previsto para ser inaugurado em setembro de 2016.
O projeto Entrefios integra diferentes propostas que abrangem o trabalho de Mana Bernardes em três linhas de ação concebidas por essa designer/artista. A primeira diz respeito a uma linha do tempo, ao percurso de trabalhos de Mana Bernardes com peças de joalheria, poemas manuscritos em diferentes suportes, objetos, performances e instalações que serão reunidos em uma grande exposição individual. A ideia é que a exposição comece com as “joias cotidianas”, realizadas com materiais comuns, tais como garrafas PET, palitos de dente, bolas de gude, grampos e cordas. Esse foi o processo com o qual a designer iniciou sua carreira e que estruturou seu trabalho. Para Mana, a criação e produção de joias não é um fim, é um meio, significa menor tamanho para maior valor, e o simbolismo contido no valor independe do material. Ainda segundo a artista/designer, a criação de joias é como uma maquete daquilo no qual seu trabalho veio a se desenvolver posteriormente. Esse fazer constante envolvido pelos projetos, pela criação e expressão levou Mana a um processo em que as joias se transformam e se expandem, surgindo esculturas, instalações, manuscritos em diversas superfícies, objetos e trabalhos de educação, sempre a partir de um pensamento poético como fio condutor.
A segunda linha de ação do projeto “Entrefios” irá demonstrar a metodologia de desenvolvimento de processo autoral, criada e praticada por Mana Bernardes desde 2002 em diferentes lugares do Brasil e denominada por ela como "História de Vida Através do Objeto, História do Objeto Através da Vida". Essa proposta é sempre realizada em grupo onde as participantes são convidadas a contar alguma história de vida delas e com o uso de lápis, papel e arame flexível é solicitado que se construa uma forma de algo que simbolize essas pessoas e suas histórias. Segundo Mana o tema central será a expressividade feminina, “as mulheres vão expressar suas vivências pessoais, como dramas amorosos e relações com mães e avós, em performances, poemas, esculturas e instalações”(Bernardes In: O Globo, segundo caderno, p.3, 2014). E, ainda, afirma: “Assim como eu vou exorcizar uma parte de minha história com a obra, vou possibilitá-las o mesmo, para que transformem os seus dramas em arte. Eu me curo de minha existência escrevendo e assim fico bem”(Bernardes In: O Globo, caderno Ela, p.2, 2013). É importante apontar que por meio da dinâmica "História de Vida Através do Objeto, História do Objeto Através da Vida" o processo autoral ganha força, especialmente pelo fato de que essas mulheres, ao assumirem suas histórias, começam a encarar e manusear os materiais de outra forma e o desenvolvimento expressivo autoral, de objetos ou obras, é impulsionado. O grupo contará com 30 mulheres e a metodologia será desenvolvida no sistema de residência no MAM-RJ cujo espaço será utilizado para os encontros e a criação de objetos/obras. O processo continuará após a inauguração da exposição, quando o público terá acesso ao trabalho que estará sendo realizado na metodologia, como em um open studio (ateliê aberto). As atividades e os trabalhos resultantes dessa dinâmica também farão parte da exposição.
A terceira linha de ação consiste na concepção, produção, realização e exibição do documentário Entrefios que registrará os processos de trabalho da artista além de performances desenvolvidas por Mana e pelas mulheres participantes da metodologia. O documentário será um registro autoral da diretora Chloë de Carvalho a respeito dos processos de trabalho de Mana Bernardes. A narrativa do filme será construída com o entrelaçar de duas vertentes: documental e experimental. A vertente documental acompanha a artista preparando a exposição no MAM e o processo de residência com as 30 mulheres. A vertente experimental consiste em oito filmes produzidos a partir de performances que serão desenvolvidas por Mana e pelas participantes da residência.
O trabalho de Mana Bernardes nos aponta vários aspectos do design contemporâneo. Primeiro a diluição de fronteiras entre áreas, pois processos criativos, artísticos ou projetuais no campo do design convivem com os projetos pedagógicos e sociais, com as várias linguagens – poesia, performances, vídeos, instalações, filmes-, e com a gestão cultural e os diversos segmentos do design: produto, moda, ambientação, joalheria, design editorial. Outra relação que aponta a contemporaneidade em seu trabalho é a inter-relação que estabelece a partir deles entre o design e a arte. Além disso, as relações com a memória, as histórias familiares, as histórias afetivas que ganham em importância e, quando resgatadas, passam a compor um significativo mapeamento de sensibilidades determinando criações projetuais únicas, e singulares, inovadoras.

Fahrer Design
Sergio Fahrer se formou em engenharia e foi estudar Luteria no MIT (Musicians Institute of Technology), em Los Angeles, EUA. Quando trabalhou no laboratório de luteria da universidade, ele passava grande parte do tempo sentado em uma cadeira desconfortável, o que lhe ocasionava dores nas costas. Visando resolver esse problema, ele desenvolveu uma cadeira acoplando uma base de Cajon (instrumento peruano de percussão) a uma travessa interna de um contrabaixo acústico, passou cola nas lâminas e em um tecido para curvar melhor a madeira. Depois disso trabalhou no acabamento da peça pintando-a inteirinha de branco e colando na superfície 1.500 palhetas de guitarra. Era 1992 e, naquele momento, nascia a cadeira Blues, um processo inovador (técnica de curvar a madeira inspirada pela confecção de instrumentos musicais) e um futuro designer.
Na época Sergio nem imaginava que estava desenhando seu primeiro móvel e que teria reconhecimento internacional com essa peça. Isso aconteceu por causa de seu professor que gostou tanto da cadeira que a inscreveu, sem o Sergio saber, em um prêmio internacional de design. Resultado: a cadeira Blues ganhou o primeiro lugar no Woodcraft Design Award, em 1993. Foi o primeiro prêmio internacional de Sergio Fahrer como designer de mobiliário.
Depois disso a técnica de madeira curvada com formas orgânicas foi aperfeiçoada com a multilaminação em MDF, e com esse processo Sergio Fahrer obteve uma patente internacional.
Está aqui um aspecto com o qual podemos perceber a importância da história pessoal na sua relação com a história profissional. Esse designer nasceu de uma necessidade e da busca da resolução de um problema. Ele até fala que foi pelo desvio que chegou à área do design. Mas sabemos que os desvios da vida nos levam por caminhos incríveis. Foram os desvios, os caminhos trilhados e as escolhas de Sergio durante o decorrer de sua vida que o levaram a ser hoje um dos principais designers contemporâneos brasileiros. Ele ressalta que encontrou o caminho do design pela música. Até hoje o Sergio, junto com o seu irmão Jack Fahrer, tem uma banda, a Fourplay.
Jack Fahrer é músico, com formação e atuação em moda e em HQs. Em 2007 se associou ao Sergio e, juntos, criaram a marca de design de mobiliário, a Fahrer Design.

Essa dupla de designers atua de forma colaborativa, mas também respeitando as identidades e singularidades. Há projetos em dupla, há projetos de cada um individualmente. Jack tem um olhar diferenciado para as superfícies, as estampas, os tecidos e as cores. Enquanto Sergio é apaixonado pelo desenho, pela estruturação, pela tecnologia e pelos processos.


Juntos atuam plenamente com criações diferenciadas e com a aplicação de tecnologias e processos inovadores nas peças que projetam e produzem, tais como madeira curvada com formas orgânicas e multilaminação em MDF; madeira faqueada e torneada; tubos de fenolite (laminado plástico); fibra de buriti; alumínio de aviação reciclado; alumínio naval; aço-carbono; acrílico reciclado com impressão nano; entre outros materiais sustentáveis. Atualmente, exploram o uso da seringueira como alternativa a outras madeiras já extintas ou em processo de extinção.
Sergio iniciou sua carreira como designer atuando de forma independente e sua marca era Sergio Fahrer. Anos depois seu irmão veio unir a ele e nesse momento sentiram a necessidade de mudar o nome da marca e realizar o processo de branding da mesma.
Quando recebemos o cartão da empresa com a nova marca- Fahrer Design - percebemos que estavam em sintonia com as propostas e atitudes contemporâneas no design. Depois de analisar o cartão entrevistamos o designer Sergio que nos contou que a foto é de 1971, foi tirada no Colégio Bar-Ilan em Copacabana, Rio de Janeiro, onde ele e o Jack estudaram entre 1968 e 1973. O cartão foi desenvolvido porque em 2014 a Questto/Nó estava no processo de realização do branding da marca Fahrer Design e perceberam que a empresa dos Fahrer tinha uma história que estava presente no trabalho e na maneira de eles pensarem o design e a construção das peças e dos produtos. Por esse motivo os profissionais da Questto/Nó pediram algumas fotos de vários períodos da vida dos irmãos Fahrer e, quando estavam garimpando fotos antigas, a Lucienne, esposa do Sergio viu essa foto e disse: "Leva esta, pois fala tudo de você". Ele atendeu ao pedido dela, mas levou outras também. Porém, a visão e a intuição feminina prevaleceram. Essa foi a foto escolhida na reunião com a Questto/Nó para o cartão e como a imagem da empresa. Sergio conta que um primeiro momento ele e o Jack estranharam a decisão e ficaram apreensivos, pois como explicariam a foto de uma criança como símbolo da empresa? E a resposta foi: pois expliquem!
Assim Sergio explica o cartão: “De fato a ligação com a imagem faz sentido. Desde muito cedo (na foto eu tinha seis anos) eu via o mundo como construção, via os materiais como passíveis de articulação. Tudo era motivo para reinventar, compor, construir, testar, usar. Eu construía e destruía tudo o que passasse perto de mim (para certo desespero de meus pais). Acredito que grande parte da paixão que tenho pelas formas, pelas soluções e pelos diversos materiais veio desde aí, num caminho que só não foi definitivo logo cedo porque fiz alguns desvios. Mas não existem desvios que não nos devolvam àquilo que somos, como diria um amigo meu. O resultado foi ótimo, todos os clientes e colaboradores adoram contar a nossa história.”
E como é importante além de ter uma história, mostrar e contar essa história. Porque contar a história significa criar laços, mostrar os percursos, falar do sensível, de sentimentos e emoção, se mostrar como ser humano, muitas vezes antes e além de ser um profissional.
A foto do cartão da empresa Fahrer diz muito além do que está registrado visualmente, nos remete ao resgate de memórias e aponta o fazer criativo que, décadas depois, passa a ser a prática da profissão de designer daquele menino da fotografia. A imagem da foto, resgatada de um álbum das recordações familiares é trazida a público e constrói relações de afetividade e de proximidade emocional. Ao observarmos a foto nos remetemos também às lembranças de situações de infância. O tempo dessa foto nos é indicado pelas roupas, pelo modo de vestir e pelo ambiente, pela situação. Por outro lado, encontram-se as relações profissionais explicitadas, o brincar com instrumentos que remetem à criação, ao explorar da imaginação e da inventividade, aspectos da atuação profissional desses designers no presente. Portanto, passado e presente, o simbólico e o emocional se fundem no resgate da memória e trazem para o cartão de visitas outra aura.
O cartão é para uso profissional e, geralmente, os ambientes e propostas profissionais são mais sérios, rígidos, distantes e até frios. Com esse cartão eles quebram a frieza, o distanciamento e despertam na pessoa que recebe o cartão um sentimento agradável e inevitavelmente a lembrança dessa pessoa quando era criança e estava em situação semelhante. Esse fato cria motivos para uma conversa que se alonga e torna-se prazerosa: Quando foi isso? Onde estudou? Ah, gostava de blocos de montar, eu também...
Ao trazer essa foto para o cartão na esfera profissional esses designers atendem ao universo do emocional, simbólico e da valorização da memória e histórias pessoais tão presentes na contemporaneidade. Por outro lado, essa ação aponta outras questões muito interessantes na atualidade. A atuação em somatória do branding, da gestão de marcas, do marketing e da economia é pautada pela busca da inovação a partir da observação precisa de tendências e mudanças na sociedade (aspirações, desejos, novos hábitos, novas valorizações de determinados aspectos). E isso é realizado com tal agilidade na dinâmica do mercado que, rapidamente, transformam os novos valores que são construídos pela sociedade em produto. No caso específico aqui relatado, uma história individual. Portanto, a história individual ganhou um peso significativo na contemporaneidade em detrimento, muitas vezes, da história coletiva.
Os irmãos designers Fahrer continuam a explorar suas imagens em conjunto, ora em seu ambiente de trabalho, junto a peças criadas por eles, ora em outras situações. Destacamos que a relação emocional, de afetividade familiar e de companheirismo continuam a marcar esta dupla de designers, ou seja, aproxima os universos profissional e pessoal, desfazendo os limites e fronteiras que até bem pouco tempo atrás eram vistos de forma desvinculada e separada.
A Memória no processo de ensino-aprendizagem em design em uma ação interdisciplinar
A memória seja por meio do resgate das lembranças ou da investigação da maneira de se viver constitui um dos aspectos determinantes para a criação no contemporâneo. Isso ocorre na atualidade porque diante da pluralidade de informações, conhecimentos e técnicas, desenvolvimento tecnológico acelerado e compartilhamento de informações incessante, o ser humano passou a buscar questões e aspectos que remetam ao que é singular, único, diferenciado, às histórias pessoais. Podemos perceber que neste caminho as afetividades, emoções e memórias tornam-se essenciais.
Conforme diz a historiadora Dulce Pandolfi “A memória não diz respeito apenas ao passado. Ela é presente e é futuro” (Pandolfi In: Memórias da ditadura, O Globo, 2013). Ou seja, o resgate do passado ajuda a construir o presente e o futuro. A memória retomada, a lembrança vivenciada torna-se presente novamente ao ser resgatada, auxiliando a delinear e a visualizar o futuro. Design diz respeito ao presente e ao futuro.
No campo do design, começamos a perceber a ação relacionada à memória pessoal e a histórias de vida. Então começamos a observar mais atentamente, a pesquisar, coletar dados e informações a respeito de como e por que a memória passava a ser um aspecto presente e que se destacava no campo do design contemporâneo. Retomamos alguns trabalhos de nossa formação universitária a esse respeito e percebemos que seria importante trazer a pesquisa somada às vivências desenvolvidas para o processo de ensino e aprendizagem em sala de aula.
Dessa forma nascia o projeto interdisciplinar “Livro de Memórias” destinado aos alunos do curso de Design Gráfico (UNESP, Bauru) e envolvendo principalmente as disciplinas de Oficina Gráfica e Fotografia, entre outras que dão suporte a esse projeto (Tipografia, Produção Gráfica) e associando as disciplinas realizadas anteriormente pelos alunos no decorrer do curso.
A grande questão que este tipo de trabalho envolve é a de considerar todas as possibilidades e todas as verdades construídas pelo processo de resgate da memória familiar para potencializar a criação e o design autoral.
Cada pessoa tem uma história que é única, permeada por diversas histórias e personagens que constituem uma memória singular. As histórias marcantes na nossa vida, a primeira vez de uma série de fatos são, na verdade, até mais simples de se recordar e as mantemos em nossa memória quase como um exercício contínuo de repetição e fixação, porém, é importante ativarmos a ação de percebermos e nos lembrarmos da vida cotidiana, pois ela, nos gestos, atos e fatos traz enorme potencial com relação às recordações que se constituem em novas experiências e novos conhecimentos.
A proposta é que, a partir do resgate das memórias, das histórias familiares e pessoais, o aluno desenvolva um livro a partir de uma pesquisa sobre quem ele é, suas relações familiares e de amizades, suas lembranças de vida, histórias pessoais, hábitos cotidianos e ritos de passagem que são apresentadas em um texto formulado pelo próprio aluno. Após a fase de levantamentos para a pesquisa, é realizada a escolha do tema norteador do livro, a síntese e edição do texto produzido e é desenvolvido o projeto que deve ser contemplado com a criação e seleção dos textos, das imagens, materiais e acabamentos que irão compor o livro. O objetivo principal é relacionar conteúdo e forma, design editorial, de superfície e autoral.
Em paralelo a essas atividades o aluno é colocado em contato com o aprendizado das linguagens e técnicas gráficas e visuais que irão compor o livro, entre elas, monotipias, clichê de barbante, xilogravura, isogravura, linóleo-gravura, serigrafia, estamparia, fotografia, fotograma, tipografia, processos gráficos. Vários suportes são explorados, tais como diferentes tipos de papéis, tecidos, plásticos, madeiras.
Nos últimos anos a produção de livros artesanais, livros de artista em peças únicas ou em pequenas séries tem sido retomada e tem potencializado um novo mercado, tanto o de pequenas editoras ou ateliês de produção literária artesanal quanto o das feiras desse tipo de produto. Esse tipo de produção tem sido valorizado no Brasil e já ocorrem editais para patrocínio advindos de órgãos culturais estatais.
Portanto, trazer esse tipo de produção para as disciplinas de Oficina Gráfica e Fotografia possibilita aos alunos, por meio do processo pedagógico, explorar vários aspectos de importância para sua formação como designer. Primeiro, tomar a consciência do conhecer a si mesmo, as suas origens e relações familiares, ou seja, conhecer sua própria história possibilita assumir o papel de agente na criação e experimentação de processos autorais. Segundo, estabelecer essas relações como referências para sua atuação projetual. Terceiro, abrir a possibilidade de atuar com o segmento de design editorial e de livros autorais, seja em peças únicas, seja em séries. E, ainda, criar espaços produtivos com este tipo de produto. E, também, criar uma nova história partindo do que foi levantado e pesquisado, mas selecionando conceitos importantes para uma nova criação, como veremos nos exemplos abaixo.
O resultado da proposta tem sido bem aceito pelos alunos que se envolvem no processo, estabelecem e fortalecem relações afetivas tanto com os familiares quanto com os amigos e colegas de classe, resgatam histórias, lembranças, objetos, fotos, textos e outras coisas guardadas que são simbólicas e expressam a sua história de vida. Os resultados obtidos, ao longo desses quatro anos, têm sido muito significativos.
Outro aspecto importante a ser destacado é que nessa ação não há certo ou errado, pois todas as histórias desenvolvidas, independente do fato de serem reais ou imaginadas, são corretas e consideradas. A diferença que pode ocorrer no resultado e que norteia a avaliação das disciplinas é o processo de desenvolvimento da proposta e o resultado final do livro.
Livros de Memórias: histórias de vida, histórias de design

Selecionamos apenas alguns exemplos, mas existem muitos outros que merecem ser publicados em outras ocasiões. Muitos desses trabalhos estão expostos em mostra permanente no site design contemporâneo (www.designcontemporaneo.com.br )


Entre Linhas, de Marcella Gadotti, é um livro que explorou de maneira muito criativa a forma em sua relação com o conteúdo. O livro propõe uma leitura não linear e cada página é um círculo que pode ser lido isoladamente, porém tem ligação com as outras partes da história de Marcella a partir de um fio de linha. Lembranças como a das comidas de alma (pipoca, canjica, mingau) que a mãe lhe oferecia quando a menina estava doente foram transformadas em imagens e textos sensíveis.
Leve é o título do livro de Daniela Brüno que a partir da pesquisa sobre suas memórias e histórias descobre e destaca o papel importante que a dança tem em sua vida. Amor e leveza se misturam e se unem tornando-se partido projetual, texto, forma e expressão por meio de diversas linguagens.
Relicário, de Maria Tereza M. Rosa, indaga e retoma suas memórias e o papel que elas exercem em sua vida. De forma poética e delicada transforma as memórias em imagens, textos, interferência sobre fotos, cria ilustrações e o livro torna-se esse lugar para guardar as lembranças preciosas, como seu título, um relicário de memórias.
Flores é o título do livro de Giovani Ramos Flores. Isso mesmo, o aluno toma o seu sobrenome e ele se transforma em título, em protagonista dessa história permeada de afeto, lembranças, saudades e emoções na descoberta de si mesmo.
C, de Cristian Camilo López Parra, também traz como título o seu nome, a primeira letra de seu nome, que ele não gostava, mas que descobriu na faculdade o quanto é bonito desenhar letras e a tipografia. Cristian foi um aluno intercambista, nascido em Bogotá, desenvolveu todo o livro de forma bilíngue, cada página escrita em espanhol tem seu correspondente em português. Além disso, fez quatro livretos reunidos em uma caixa. Os livretos e as cores marcam cada parte da história de sua vida. O livro foi todo datilografado em uma máquina de escrever emprestada.
Recorrenteza é o título do livro de Marina Jardim Tarozzo. O processo de envolvimento da aluna foi intenso, ao pensar e repensar sobre si mesma trouxe suas histórias familiares e aprendizados e observações pessoais com intensa coragem e sensibilidade. Relacionou a vida a um rio por uma relação estabelecida através da fluidez. Os momentos e as passagens da vida foram relacionados à nascente, afluentes e foz. O envolvimento e a qualidade do processo e do resultado final foram tão intensos que convidamos a aluna a descrever o seu processo e o seu livro que se encontra no texto abaixo.
Palavras de Marina:

Como resultado final, memórias pessoais corridas, estampadas e organizadas com papel, tinta e outros materiais inusitados. Porém, o exercício pedido em sala para a disciplina de Oficina Gráfica é muito mais complexo e vai além das páginas do livro.


O pesquisar memórias e a atividade de transcrevê-las através de estampas, signos e cores, que diferem um pouco da leitura de uma fotografia ou outro tipo de imagem, é intenso e demanda muita dedicação e maturidade.
Como definir sua história pessoal em um tema? Como uniformizar algo que parece tão disperso e confuso?
No caso do meu projeto, o tema central, que me possibilitou conectar todas as minhas experiências e memórias, foi caracterizado e denominado como fluidez. Assim, o título ficou “Recorrenteza”. O livro foi dividido em três capítulos, o primeiro discorria sobre o meu nascimento e origem, sendo assim denominado como “NASCENTE’. Já no segundo, procurei concentrar memórias mais dispersas, que não necessariamente possuem uma linearidade, porém são particularidades que me compõe como quem eu sou, como Marina. Assim, o apelidei de “AFLUENTES”. E tentando concluir algo que não necessariamente possui um fim, pois a vida continua, o último capítulo chamei de “FOZ”, onde dialoguei sobre a saída de casa, as viagens e experiências mais recentes que me parecem encaminhar para o que possa acontecer no futuro.
O tema da fluidez e a linearidade do correr de um rio, também deveria permear o formato do livro, influenciando o modo de leitura. Assim, optei por deixar o livro em formato retangular, e a estrutura de sanfona, de maneira que todas as memórias que estejam ali dentro possam ser observadas de uma vez só, ao abrir o livro e esticá-lo sobre alguma superfície.
É um projeto pesado, que envolve uma busca pessoal profunda; porém traz a todos os alunos que tem a possibilidade de fazê-lo, uma maturidade em termos metodológicos e projetuais, que poucas disciplinas proporcionam aos estudantes de Design. Uma carga que acaba sendo levada não apenas em todo o decorrer do curso de graduação, mas parece permear toda a carreira profissional.
Considerações Finais
Os exemplos que trouxemos nesse artigo indicam a atuação dos designers na contemporaneidade onde a memória, histórias pessoais, inventividade e sensibilidade caminham juntas na construção de objetos que, um dia, construíram novas e outras histórias. Apontam também que tanto os profissionais quanto os alunos em processo de formação, destacam a importância da memória que, ao ser resgatada a partir das histórias familiares e das lembranças, passa a conscientizar, ajudar ou retomar a construção das histórias pessoais. Nesse processo, o conhecimento é explorado tornando essas memórias vivas novamente pela reativação das lembranças. Essa ação também envolve o autoconhecimento, a consciência de si mesmo, fato que é de relevância para todos aqueles que trabalham com criação, pois sabemos que a única coisa que pertence verdadeiramente ao homem é a sua história e a sua memória que vivem além dele mesmo e que constroem histórias únicas.
Na atuação no mercado profissional, a memória passa também a construir a marca de empresas e confere referências e temáticas para o desenvolvimento dos trabalhos dos designers, formando ou auxiliando nos processos de criação e desenvolvimento de produtos.
Podemos até dizer que a questão da memória já se tornou estratégia de mercado no cenário contemporâneo. Isso é fato, mas a memória passou a ser valorizada e é tomada pela dinâmica da economia e das estratégias de mercado porque ela representa hoje um grande diferencial de importância.
Conhecer-se, saber de onde veio, quais são os seus companheiros de vida, lidar com sentimentos é ter o poder de construir sua identidade, fazer escolhas e valorizar o sensível e o simbólico no decorrer da vida pessoal e profissional e poder ver o mundo a partir de diferentes ângulos e perspectivas, reconhecendo no outro um pouco de si mesmo.
O processo que envolve o resgate de memórias também colabora para entender o outro, o ser humano, os sujeitos com os quais lidamos, especialmente em uma profissão como a de designer, que tem como premissa básica a relação humana e a busca de uma sociedade melhor.

Referências
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TELLES, Lygia Fagundes. (2009) Invenção e Memória. SP: Companhia das Letras.


i Mônica Moura é bacharel e licenciada em artes, mestre e doutora em comunicação e semiótica, pós-doutorado em design contemporâneo, coordenadora do Grupo de Pesquisa em Design Contemporâneo: sistemas, objetos e cultura (CNPq / UNESP), desenvolve pesquisas em design, moda e joalheria na contemporaneidade, teoria e crítica do design; relações entre design e arte; tecnologias e mídias digitais; ensino; interdisciplinaridade e transdisciplinaridade; metodologias e processos em design, é professora assistente doutora com atuação no departamento e no programa de pós-graduação (mestrado e doutorado) em Design, FAAC, UNESP, Bauru, SP, Brasil.


ii Doctora en Psicología Social, Máster en Comunicación y Cultura, Licenciada en Diseño.  Maestra en el Departamento de Diseño de la Universidade Estadual Paulista – FAAC/UNESP. Miembro del Grupo de Investigación en Diseño Contemporáneo : sistemas, los objetos y la cultura (CNPq / UNESP ). Miembro del Conselho Editorial de Estudos em Design, Actas de Diseño y de otros comités editoriales y revisión de revistas científicas y congresos en el ámbito del diseño. Representa FAAC/UNESP en Universidad de Palermo. Miembro de Sociedade Brasileira de Design da Informação. Pesquisadora en Diseño Social y Comunitário, Fotografía, Tipografía, Metodología de Proyeto, Género y Diseño Grafico.


iii Marina Jardim Tarozzo é universitária, estudante de design (gráfico e produto), atua como bolsista e monitora no Laboratório de Pesquisa, Extensão e Ensino Design Contemporâneo, é membro do Grupo de Pesquisa em Design Contemporâneo: sistemas, objetos e cultura (CNPq / UNESP), atuou como bolsista no Laboratório de Design Solidário (2012, 2014) onde também produziu uma pesquisa de iniciação científica sob a orientação do Prof Dr. Cláudio Roberto y Goya como bolsista CNPq, e realizou o programa Ciências sem Fronteiras na Universidade de Florença, curso de Design, em Florença, Itália, como bolsista CAPES.




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