Memórias do Instituto Benjamin Constant Louis Braille na história de todos nós



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Memórias do Instituto Benjamin Constant



Louis Braille na história
de todos nós

Hercen Hildebrandt1



Salve, espírito forte, eterno exemplo santo!

Aos míseros que vão curvados sob a cruz!

Salve, Braille imortal! tu conseguiste tanto, Que foste o redentor de teus irmãos sem luz!

Augusto José Ribeiro

Trajando nossos elegantes uniformes de gala, ouvíamos o professor Francisco José da Silva proferir um discurso que sempre concluía com a declamação do poema de Au­gusto José Ribeiro, A Louis Braille, cuja última estrofe está na epígrafe deste texto. As sole­nidades comemorativas do aniversário da instalação do Imperial Instituto dos Meninos Cegos, atual Instituto Benjamin Constant (IBC), eram longas, cansativas... e, no momento em que o diretor preparava-se para anunciar seu encerramento, a voz - muito peculiar - de nosso velho mestre, uma das pessoas mais humanas que tive o orgulho de conhecer, surgia-nos aos ouvidos: Peço a palavra!, com ele bradando de algum ponto da plateia. E pronunciava seu indefectível discurso.

cansados, ansiosos por deixar o auditório, suportávamos, com a impaciência tão costumeira quanto à fala de seu Silva, aquela "lenga-lenga chata". Em seguida, nossa banda de música, formada por alunos e ensaiada por um professor igualmente cego, ex­celente compositor e arranjador, que todos estimávamos e admirávamos, executava o Hino à Instalação do Instituto, composto no século XIX, com letra de Augusto José Ribeiro, e finalmente podíamos retirar-nos, aliviados.

Às vezes, em nossas brincadeiras de adolescentes, alguém, remedando seu Silva, ironizava: "Peço a palavra!', ou "Salve Braille imortal!', e ríamos escancaradamente. Eu ainda

1 Ex-aluno e ex-professor do Instituto Benjamin Constant.

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não tinha consciência do que, no futuro, as palavras de seu Silva representariam para a formação de minha concepção de mundo. O significado da história dos cegos, de Louis Braille e do sistema de leitura tátil criado por ele, a conquista mais importante para nosso processo de emancipação da tutela da sociedade, ainda hoje muito atrasado, era incom­preensível para mim.

Ingressei no jardim de infância do IBC em maio de 1945, com a idade de seis anos. As atividades do educandário, interrompidas em 1937 para as obras de conclusão do pré­dio em que ainda hoje ele funciona, reiniciaram-se em 1944, com elas ainda não concluí­das, dada a preocupação do corpo docente com a demora do retorno das crianças às aulas. Mudanças na política educacional brasileira no Estado Novo, pela necessidade de prepa­rar os trabalhadores para o modelo de substituição das importações, além de valiosas conquistas obtidas pelos cegos e os avanços tecnológicos dos recursos empregados na produção de livros em braille ocorridos no início do século XX, impuseram ao então dire­tor significativas alterações, tanto em seu projeto arquitetônico quanto em sua organiza­ção funcional:



  • foi modernizado e ampliado seu parque gráfico;

  • construíram-se os edifícios onde funcionariam sua imprensa braille e seu jardim de infância;

  • seu curso foi equiparado ao das demais escolas brasileiras - antiga reivindicação de ex-alunos, que desejavam matricular-se em escolas convencionais para dar prossegui­mento aos estudos;

  • criaram-se cursos de caráter profissionalizante.

Foi a partir do Estado Novo que trabalhadores cegos começaram a obter coloca­ção em oficinas de autarquias federais. Nos anos 1950, eles chegariam às linhas de produ­ção de grandes indústrias.

O Brasil buscava desenvolver sua economia, e suas instituições educacionais pre­cisavam preparar-se para um novo papel. Nosso instituto ajustava-se à nova realidade do país. Vivia, portanto, uma fase de transição, talvez a mais importante de sua história.

Testemunhei a realização de algumas obras, ainda por fazer; a instalação de cur­sos profissionalizantes, que, embora nem sempre adequados às necessidades do mun­do do trabalho, nos preparavam para ele e contribuíam para o crescimento de nossa autoestima; o ingresso dos primeiros ex-alunos em cursos sequenciais ao antigo ginásio e sua chegada às universidades; a partida de colegas adultos, que ingressaram no Insti­tuto com idade acima da regulamentar em razão de seu período de inatividade, para a vida profissional.

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Participei de nosso grêmio estudantil desde sua fundação. Lembro com saudade nosso serviço de alto-falantes, com sua programação semelhante à de uma rádio-emissora, incluindo programas de auditório e rádio-teatro, toda produzida e apresentada por nós, então responsáveis pelo serviço de som da escola. Orgulho-me de nosso conselho de re­presentantes, que, em diversas oportunidades, obteve da direção medidas significativas para nossos interesses. O Grêmio Benjamin Constant filiou-se à União Metropolitana de Estudantes Secundários e, em março de 1960, teve seu apoio, juntamente com o da União Brasileira de Estudantes Secundários, para o movimento grevista que obteve do Ministé­rio da Educação (MEC) a substituição de um diretor do IBC.

Convivendo com colegas cegos, como eu, sentia-me livre para brincar, estudar e pensar a vida sob a orientação de professores, em sua quase totalidade também cegos, que, mesmo sem a hoje tão exigida e ansiada formação acadêmica, tinham a experiência das dificuldades que seus alunos enfrentariam ao deixar a escola. Os próprios trabalhado­res videntes, acostumados a conviver conosco, já não achavam tão extraordinário que al­guém fosse capaz de fazer alguma coisa sem o apoio da visão.

Reunindo crianças de variadas origens étnicas, condições econômicas, procedên­cias regionais e convicções religiosas para estudar juntas, o IBC oferecia-nos a oportunida­de de conhecer pessoas com formação diferente da nossa, confrontar ideias e valores, romper com preconceitos.

Em muitos casos, o afastamento de uma criança cega de sua família, desde que esta não a abandone, é uma medida de grande eficácia para levá-la a compreender que sua vida pode ser tão ou mais produtiva que a de seus pais e a de seus irmãos videntes.

Se os antigos tiflocômios foram criados para livrar-nos da mendicância, as escolas especializadas para cegos surgiram para estimular-nos a tornarmo-nos independentes. E foi um aluno do Instituto Nacional dos Jovens Cegos, de Paris, a pioneira dessas escolas, menino de 16 anos, o criador da leitura tátil que contribuiu decisivamente para nosso in­gresso nas universidades e no mundo do trabalho.

Ainda adolescentes, entre as paredes do IBC, meus colegas e eu ouvíamos as no­tícias dos resultados de nossos companheiros mais velhos. Um dia, deixaríamos o Institu­to e teríamos de lutar para superar as mesmas dificuldades que eles enfrentavam. Certamente, servir-nos-íamos do Sistema Braille e de nossa experiência no IBC para isso.

Sentado ao computador, revolvendo minhas lembranças para produzir este arti­go, recordo minha trajetória no IBC e não posso esquecer seu Silva e seu indefectível dis­curso nas solenidades dos dias 17 de setembro.

O presente é o futuro do passado e parte do passado do futuro. Assim é a história. Entendendo o passado, podemos projetar o futuro. E era essa a lição que, ainda que in­conscientemente, nosso velho mestre buscava transmitir-nos com suas palavras. Piegas,



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sim, proferidas em momento que julgávamos inoportuno, o que nos levava a ironizá-las, mas ricas em exemplos de ideal e dignidade.

As escolas especializadas para nós e o Sistema Braille integram-se em uma célula indivisível na trajetória de nossa educação.

Em 2009, tive a honra de redigir o editorial do número da revista Benjamin Cons­tant comemorativo do bicentenário daquele que considero o mais importante de nossos companheiros; nosso primeiro grande líder mundial, que ainda hoje permanece vivo em tudo o que realizamos.

Louis Braille não nos presenteou com uma varinha de condão nem nos abriu as portas do paraíso terrestre. Mas sua vida e obra, muito bem descritas na edição especial da Benjamin Constant comemorativa de seu bicentenário, mostram-nos um importante exemplo de luta e solidariedade a seus companheiros.

Segundo Edgar Guilbeau, escritor cego que viveu no século XIX, "um fato curioso têm notado aqueles que estudam atentamente a história dos cegos. É que todos os pas­sos da evolução social têm, ainda que lentamente, sido acompanhados por eles".

Não existimos à parte da história dos humanos. É isso que a obra de Braille mostra ao mundo. Ainda hoje, os 63 sinais produzidos com apenas seis pontinhos, ordenados segundo um critério lógico e na medida da poupa do dedo indicador de uma criança, são o recurso mais adequado para nossa compreensão do que é uma letra, uma sílaba, uma palavra, uma frase. Permitindo-nos a criação de diversos códigos, favorecem-nos a leitura e a escrita em todos os idiomas, além da música, da matemática, da física, da química, com independência.



O surgimento da leitura tátil, criada por um cego, demonstra-nos de maneira elo­quente e definitiva que muito mais importante que perguntar o que podemos fazer é investigar como o podemos. E ninguém melhor que nós mesmos para respondê-lo.

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