Memórias Rurais da Cidade-Metrópole – Notas de uma Reflexão Ponto de Partida



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    Seminário Internacional SEGREDO e MEMÓRIA na ERA da INFORMAÇÃO

    29 e 30 de Novembro 2007



    Memórias Rurais da Cidade-Metrópole – Notas de uma Reflexão

    Ponto de Partida

    Fixar o olhar na transformação dos campos em redor da cidade permite-nos acompanhar uma das dinâmicas mais vigorosas da vida moderna: o crescimento urbano, que vai dando aos territórios arrabaldinos formas e tons desconhecidos localmente e que são sempre experimentados pelos do lugar como novos, por mais que a experiência suburbana tenha décadas e se reconheça a nível planetário. Esses territórios, agora mudados, passam as ser vividos com uma sequenciação temporal que separa o tempo antes e o tempo depois da urbanização e com ela emergem as memorias do lugar antes existente.



    Camadas de Sedimentação Urbana

    Porém, essa experiência é apenas mais uma na história do local. Assim, não só os arredores urbanizados acumulam já camadas de vivência social do espaço que derivam das formas como esse território foi sendo vivido ( veja-se, por exemplo , a importância do lugar no circuito da cidade em crescimento e as utilizações que lhe foram sendo dadas ao longo da História) como os lugares hoje centrais da cidade já foram em grande medidas arredores mais ou menos próximos dos centros urbanos marcados fisicamente nas várias épocas. Para interpretar este fenómeno que importante analisar e que muito contribui para melhor compreender o que são as memórias rurais que marcam a ávida dos territórios urbanizados recorremos ao conceito de camadas de sedimentação urbana. Pesquisar a condição original de lugares que são hoje centrais nas cidades, ou que sendo periféricos ocupam lugares relevantes no circuito metropolitano que se vai constituindo, permite melhor entender a cidade que se agiganta não deixando de perscrutar o que dá sentido como lugar humanamente construído e modificado por populações que dela se foram apropriando. Deste processo de sedimentação ficam vestígios de várias épocas e de várias populações que se mesclam, sobrepõem ou se substituem.



    A memória autêntica dos lugares

    Estes vestígios ganham importância pela sua raridade, dimensão e pela sua extensão e são alvo de uma das facetas mais presentes nas políticas da cidades contemporâneas. A da busca de originalidades que confiram particularidade à cidade em causa e que estimula uma cultura de réplicas que copiam, imitam ou até inventam o passado ao lado dos lugares que conservam os seus vestígios: os museus, o comércio do turismo.

    Este paradoxo que alimenta a (falsa) questão da autenticidade é mais visível quando pensamos nas áreas que se tornam metropolitanas. As memorias de um passado que identifica lugares outrora distantes física e socialmente servem hoje como a oferta de turismo cultural de uma área que tem sincronicamente razão de ser e por isso são pontos acrescidos de um roteiro turístico e cultural que pode ser percorrido em poucas horas. O papel dos cientistas sociais tem sido central neste plano ao serem estimuladores, por iniciativa própria – sobretudo com formas académicas de monografias – ou por encomenda dos municípios, de uma dinâmica de (re)construção das memórias locais. Ponte para o conflito entre puristas e pragmáticos, entre cientistas sociais e técnicos de várias origem, estamos perante a luta pela melhor definição da verdadeira memoria dos lugares...

    Património Local e Mobilidade Global

    E aqui coloca-se uma questão essencial na interpretação do que podemos entender por memória da cidade: Não será que a ideia que hoje temos de memoria da cidade não é antes de tudo uma reinvenção a partir da experiência da actualidade? Não é o património, recurso essencial da afirmação identitária e da consequente capitalização para o turismo, uma leitura parcial por isso, feita a partir do ponto de vista de quem tem uma certa versão da história a contar?

    Conceito traiçoeiro, amplo ou restrito, o património refaz-se consoante a contemporaneidade. A memoria invade as experiências do quotidiano a que se associam a produção de narrativas sobre o sítio. A forma como se é hoje de um sítio metropolitano, raramente tem a ver com a condição do arrabaldino de outros tempos, já que o efeito claro da modernidade e da mobilidade são dominantes, assim como são frequentes as chegadas e as partidas dos que vivem numa dada zona ou bairro da metrópole.

    A pertença suburbana como objecto de investigação

    A memória rural é um dos aspectos que conforma a emergência de identidades suburbanas e é muitas vezes um dos argumentos mais fortes para sustentar uma particularidade no contexto metropolitano. Tais dinâmicas são tanto mais interessantes quanto vão contra o senso comum que promove a ideia que nos arredores inóspitos das grandes cidades não se desenvolvem sociabilidades agregadoras. Um plano fundamental da investigação sociológico é o de reconhecer a criatividade que existe em lugares refeitos para novas dinâmicas edificadoras. Tomamos esta perspectiva como uma forma de melhor entender a transformação urbana em vez de a moralizar.

    Não chega dispor apenas de uma parafernália de instrumentos de observação urbana, hoje existentes, é preciso associar-lhes capacidade interpretativa. Daí resulta uma das mais-valias das Ciências Sociais que se concretiza no apoio à tomada de decisões, trazendo a questão subjectiva mas central da memoria, dos sentimentos de pertença dos que vivem um lugar, para o discurso político e económico sobre a realidade da Cidade-Metrópole.

    Memorias em Reconversão: os saloios no Contexto da Metrópole de Lisboa

    Não cabe neste texto a pretensão de desenvolver resultados de investigações anteriores. Recorremos-lhes apenas para ilustrar as ideias que aqui apresentamos. No caso de Lisboa, falamos da edificação da cidade-metrópole e da sua diversidade que dá origem à relocalização dos lugares dos arredores no contexto metropolitano. Estes são alvo de uma reconstrução local feita de memórias e que servem para solidificar uma identidade suburbana.

    Da irrelevância social à estratégia de uma afirmação alternativa, o exemplo aparentemente anacrónico, dos saloios serve bem para mostrar como pode uma história local ser revisitada e valorizada por parte de certos interesses que têm nesse legado um capital para afirmar uma identidade municipal.

    Para tomar contacto com os argumentos a que recorremos na apresentação oral, consultar:



    www.oac.pt/menuobservatorio.htm

    boletim OBS nº 6 : Luís Vicente Baptista, Território e cultura saloia: a construção de (uma) identidade local?



    Luís Vicente Baptista

    Professor no Departamento de Sociologia, FCSH-UNL, investigador do CesNova







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