Mensagem de condolências pelas vítimas do terremoto em são juliano de apúlia



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3. A Maria, Mãe e Rainha da Mongólia, confio as expectativas e as esperanças da Igreja e da Nação mongóis, a fim de que, tendo passado por um longo período de dificuldade, agora possam olhar para o futuro com confiança renovada.

Que a luz de Cristo vos acompanhe a todos ao longo do caminho que se vos apresenta. É de bom grado que corroboro estes votos com a minha particular Bênção apostólica, que agora lhe confio, venerável Irmão, como meu especial representante.

Castel Gandolfo, 22 de Agosto de 2003.

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II ÀS IRMÃS URSULINAS DE MARIA IMACULADA REUNIDAS EM CAPÍTULO GERAL

Caras Irmãs Ursulinas de Maria Imaculada

1. É-me grato transmitir uma cordial saudação à Superiora-Geral e às Irmãs vindas a Roma para o Capítulo Geral do vosso benemérito Instituto. Além disso, desejo abraçar todas as vossas Irmãs que trabalham na Itália, na Índia, no Brasil e no Continente africano. Transmito-lhes uma cordial saudação, corroborada pela certeza de uma lembrança especial na oração, a fim de que cada Ursulina de Maria Imaculada possa, com alegria e fidelidade, seguir Cristo pobre, casto e obediente, e dedicar-se totalmente ao serviço dos irmãos.

A Assembleia capitular representa uma ocasião privilegiada de oração, de reflexão e de discernimento, para identificar em conjunto as directrizes mais oportunas para o futuro da Congregação. Trata-se de um tempo profícuo para renovar o compromisso de uma resposta generosa, pessoal e comunitária ao chamamento de Deus.

O tema do Capítulo é particularmente encorajador e actual: "As Ursulinas de Maria Imaculada enfrentam os desafios de um mundo em contínua evolução e renovadas entregam-se à missão da Igreja". Trata-se de um apelo a viver a vossa missão em plena sintonia com a Igreja, mantendo-vos solidamente unidas a Cristo e disponíveis para enfrentar corajosamente os desafios do terceiro milénio.

Estimadas Irmãs, sede conscientes de que, como realça uma recente Instrução da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, "à imitação de Jesus, aqueles que Deus chama ao seu seguimento são consagrados e enviados pelo mundo para continuar a sua Missão. Aliás, a vida consagrada, sob a acção do Espírito Santo, torna-se ela mesma missão" (Recomeçar a partir de Cristo, 9).

2. Na primeira metade do século XVII, a vossa Fundadora deu vida em Placência, a um Instituto destinado ao serviço do próximo abandonado. Conservando intacto o seu carisma, empenhai-vos em qualificar cada vez mais o apostolado da vossa Congregação, para que corresponda plenamente às exigências dos nossos tempos. Vós sois chamadas a ser "contemplativas em acção", isto é, prontas para responder às necessidades das pessoas, de maneira especial dos jovens, testemunhando ao mesmo tempo a urgência de uma profunda espiritualidade, renovada nos métodos e nas formas, mas fiel ao espírito das origens.

Imitai a fé inabalável da Beata Brígida Morello, que tive a alegria de elevar à glória dos altares há cinco anos. Como recordei nessa feliz circunstância, nos seus exemplos e ensinamentos "trasparece uma exortação constante à confiança em Deus. Ela gostava de repetir: "Confiança, confiança, grande coração! Deus é o nosso Pai e nunca nos abandonará!"" (Insegnamenti, XXI/1 [1998/1], pág. 538). O segredo do apostolado consiste precisamente em saber que "não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados" (1 Jo 4, 10).

3. Contemplando Cristo crucificado e ressuscitado coração da espiritualidade da Beata Brígida Morello alargar-se-ão os horizontes da vossa dedicação aos pobres, aos doentes e a quantos se encontram em necessidades materiais e espirituais mais urgentes, com particular atenção às mulheres e aos jovens. Assim, conservareis fielmente a herança que a Beata Fundadora vos deixou, a vós que sois suas filhas espirituais, e sereis capazes de pôr em prática a sua inspiração carismática neste nosso tempo, dando importância sobretudo àquilo que "sois", e não tanto àquilo que "realizais".

Com estes sentimentos e bons votos, enquanto vos asseguro uma lembrança constante na oração, concedo-vos de coração, a cada uma de vós e a todas as vossas Comunidades espalhadas pelo mundo, uma especial Bênção apostólica que, de bom grado, faço extensiva aos vossos entes queridos e a quantos são objecto dos vossos cuidados apostólicos.

Castel Gandolfo, 27 de Agosto de 2003.


MENSAGEM DO CARDEAL ANGELO SODANO EM NOME DO SANTO PADRE AOS PARTICIPANTES NO XXIV ENCONTRO PARA A AMIZADE ENTRE OS POVOS EM RÍMINI (ITÁLIA)

Excelência Reverendíssima

Também neste ano o Santo Padre deseja transmitir-lhe, a Vossa Excelência, aos organizadores e a quantos participam no Encontro para a amizade entre os povos, a sua cordial saudação.

1. O tema escolhido para a edição de 2003 constitui uma expressão tirada do Salmo 33 [34]:

"Quem não deseja a vida, quem não quer dias felizes?". Trata-se de uma interrogação que leva a reflectir. O homem passa longos períodos da sua existência quase insensível ao chamamento da verdadeira felicidade, chamamento este que contudo encontra abrigo na sua consciência; ele vive como que "distraído" pelas numerosas relações com a realidade, enquanto parece que o seu ouvido interior já não sabe reagir.

Vêm à mente as palavras de Isaías: "Ninguém invocava o teu nome, nem se esforçava para se apoiar em ti, pois Tu escondeste-nos a tua face e entregaste-nos ao poder das nossas culpas" (64, 6). O profeta realça a raiz da dificuldade suscitada pela pergunta do Salmo, acrescentando:

"Apresentei-me àqueles que não perguntavam por mim e deixei que aqueles que não me procuravam me encontrassem. E ao povo que não invocava o meu nome, Eu disse: "Aqui estou, aqui estou!"" (Ibid., 65, 1).

Estas palavras do profeta Isaías são, talvez, o melhor contraponto para o tema do Encontro:

Deus faz-se vivo, interpela o homem fechado em si mesmo e confundido pela sua própria iniquidade; torna-se-lhe presente, procurando constantemente chamar a sua atenção. A insistência de Deus, que se manifesta com amor a um filho cuja vida se encontra à deriva, constitui um comovedor mistério de misericórdia e de gratuidade.

2. O mundo que a humanidade construiu, sobretudo nos séculos mais recentes, tende com frequência a ocultar nas pessoas a aspiração natural à felicidade, aumentando a "distração" em que elas já correm o risco de cair, em virtude da sua debilidade intrínseca. A sociedade actual favorece um tipo de desejo controlável segundo leis psicológicas e sociológicas e, por conseguinte, utilizável frequentemente para finalidades de lucro ou de gestão do consenso. Uma pluralidade de aspirações substituiu o anseio que Deus inseriu na pessoa como um aguilhão, para que O procure e só nele encontre a plena realização e a paz. As aspirações parciais, orientadas por meios poderosos, capazes de influenciar as consciências, tornam-se forças centrífugas, que afastam o ser humano cada vez mais de si mesmo, tornando-o infeliz e, por vezes, mesmo violento.

O Encontro de Rímini2003 volta a propor um tema de actualidade perene: a criatura humana, animada por esta aspiração de realização infinita, nunca é redutível a um meio para alcançar qualquer interesse que seja. A marca do divino, que nela adquire a forma de saudade da felicidade, torna-a por sua natureza não instrumentável.

3. Por conseguinte, a dificuldade diante da interrogação levantada no Salmo 34 [33] brota do facto de que o homem muitas vezes não encontra a força para dizer: "Eu! Eu sou um homem que deseja a vida, que quer dias felizes". O tema do Encontro recorda a necessidade de um desagravo: ele deve recuperar a energia e a coragem de se colocar diante de Deus para responder ao "Aqui estou, aqui estou!" do Senhor, dizendo embora com voz ténue, eco daquele mesmo chamamento: "Aqui estou, também eu estou aqui! Invoco-te, agora que me encontraste".

Esta resposta ao Deus que clama até vencer a nossa surdez descreve a tomada de consciência, repleta de emoção, a que a pessoa chega no âmago mais íntimo de si mesma. Isto acontece precisamente no momento em que o chamamento de Deus consegue passar pelas nuvens que pairavam sobre a consciência. Somente esta resposta: "Aqui estou!" restitui ao homem o seu verdadeiro rosto e representa o início do seu resgate.

Porém, a pessoa deve ser ajudada por uma educação adequada que tenda, como sua finalidade, a favorecer o despertar pessoal da consciência do seu objectivo, suscitando no seu coração as energias necessárias para o obter. Por conseguinte, a educação nunca visa a massa, mas cada pessoa individualmente, na sua fisionomia singular e irrepetível. Isto pressupõe um amor sincero pela liberdade do homem e um compromisso incansável em sua defesa.

4. Com o tema do corrente ano o Encontro recorda, além disso, aos povos da Europa que parecem vacilar sob o peso da sua história, onde é que mergulham as suas raízes. Voltando a propor a interrogação do Salmo, a manifestação de Rímini recorda com vigor a grande figura de São Bento no acto de acolher quem pedia para entrar no mosteiro (cf. Regra, Prólogo 15). A sua Regra representou, além de um caminho de perfeição cristã, um instrumento inigualável de civilização, de unidade e de liberdade. Durante séculos, muitas vezes marcados pela confusão e a violência, ela permitiu edificar baluartes, graças aos quais os homens e as mulheres de diferentes épocas foram novamente orientados para a plena realização da sua dignidade. O futuro edifica-se recomeçando a partir das origens da Europa e valorizando as experiências do passado, profundamente assinaladas pelo encontro com Cristo.

Enquanto faz votos a fim de que o Encontro seja uma ocasião de verdadeiro crescimento cultural e espiritual, Sua Santidade assegura a sua oração e envia de coração uma especial Bênção apostólica a quantos participarem nas várias manifestações programadas.

Também eu formulo votos de pleno bom êxito para esta nobre iniciativa e é de bom grado que me confirmo, com sentimentos de distinto respeito.

Seu, devotíssimo no Senhor

Angelo Card. SODANO Secretário de Estado
DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II A DIVERSOS GRUPOS DE PEREGRINOS PRESENTES NO PALÁCIO APOSTÓLICO DE CASTEL GANDOLFO

Sábado, 23 de Agosto de 2003

1. Dou-vos as cordiais saudações de boas-vindas a todos vós, caros peregrinos, com quem hoje tenho a alegria de me encontrar.

Aos fiéis italianos da Paróquia da Natividade da Bem-Aventurada Virgem Maria, em Miane

Saúdo, em particular, os fiéis italianos da Paróquia da Natividade da Bem-Aventurada Virgem Maria, em Miane, Diocese de Vitório Véneto. Caríssimos, a lembrança da vossa bonita terra traz-me a recordação do meu venerado predecessor João Paulo I. Ele amava a Paróquia de Miane, e também eu me uno à vossa comunidade com profundo afecto. Obrigado por esta visita!

Trouxestes convosco a imagem de Nossa Senhora do Carmo, com as coroas para a Virgem e o Menino, que benzo de bom grado. Desejo exprimir-vos a minha estima pela vossa iniciativa de recitar o Rosário durante este Ano que lhe é dedicado: encorajo-vos a todos famílias, jovens e idosos a contemplar de modo assíduo o Rosto de Cristo, juntamente com Maria, a fim de serdes sempre seus discípulos e testemunhas fiéis.

Ao Movimento Juvenil Salesiano italiano do Trivéneto

Além disso, saúdo o grupo do Movimento Juvenil Salesiano do Trivéneto. A vossa presença, caros jovens, oferece-me a oportunidade de lembrar uma vez mais a actualidade do carisma e da mensagem de Dom Bosco, especialmente para as novas gerações. De facto, o espírito salesiano ajuda os jovens a compreender que o Evangelho é uma inesgotável fonte de vida e de alegria. Também vós viveis esta maravilhosa realidade: a exemplo de Dom Bosco, sede sempre alegres, generosos e corajosos ao combater o mal com o bem, artífices de esperança e de paz em todos os ambientes da vida.

Saúdo com afecto o Comandante e os Carabineiros da Companhia de Castel Gandolfo que, todos os anos, prestam o seu serviço generoso nas Vilas Pontifícias.

É com satisfação que saúdo, também, a Delegação da Pastoral Juvenil da Conferência Episcopal Italiana, que nestes dias realiza uma peregrinação à Cruz do Adamello. Obrigado pela vossa generosidade.

Aos jovens da Diocese espanhola de Solsona

2. É com afecto que saúdo D. Jaime Traserra, Bispo de Solsona, na Espanha, e os sacerdotes e jovens que realizais a peregrinação de Roma a Assis. Queridos jovens, não tenhais medo! Deixai-vos guiar pelo Espírito no caminho do discernimento vocacional. Sei que nos vossos corações há um profundo desejo de servir generosamente o Senhor e os irmãos. Que o amor da Virgem Maria e a minha cordial Bênção vos acompanhem sempre.

3. Voltemos agora o contemplar a Virgem santa, que ontem venerámos com o bonito título de "Rainha". Ajude-nos Maria, a "Serva do Senhor", a estar cada vez mais conscientes de que o verdadeiro modo de reinar é servir. E que Ela nos ajude a oferecer também com alegria o nosso serviço a Deus e ao próximo. Com estes votos, agradeço-vos novamente a vossa visita e, de coração, abençoo-vos a todos.

Aos peregrinos provenientes da Polónia

Saúdo cordialmente os peregrinos de Katowice, da Paróquia da Catedral de Cristo-Rei. Sei que viestes por ocasião do 25º aniversário do Pontificado. Agradeço-vos a lembrança e a benevolência. Quanto a mim, lembrar-me-ei de que, neste quarto de século, um dia o Papa visitou a vossa Catedral. Recordo-me daquele encontro com os doentes e os inválidos de trabalho, que teve lugar já há vinte anos. Lembro-me também do encontro com os habitantes da Silésia na esplanada do aeroporto. Juntamente convosco, agradeço a Deus por aqueles encontros e por todos os frutos deles nascidos. E rezo pela Silésia, porque bem sei quantos problemas atormentam aquela região e quantas pessoas sofrem pela falta de trabalho e de pão. Faço votos a fim de que, com a ajuda de Deus, se consiga ir quanto antes ao encontro das necessidades dos homens que enfrentam um duro trabalho.

Abençoo-vos de coração, a vós e aos vossos entes queridos. Deus vos conceda a sua alegria!


MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II NO 750° ANIVERSÁRIO DA MORTE DE SANTA CLARA DE ASSIS

Caríssimas Irmãs

1. No dia 11 de Agosto de 1253 encerrava a sua peregrinação terrena Santa Clara de Assis, discípula de São Francisco e fundadora da vossa Ordem, chamada das Irmãs Pobres ou Clarissas, que hoje conta, nas suas várias ramificações, cerca de novecentos mosteiros espalhados pelos cinco continentes. Depois de 750 anos da sua morte, a recordação desta grande Santa continua a estar muito viva no coração dos fiéis, e portanto é com particular prazer que, nesta ocasião, envio à vossa Família religiosa um cordial pensamento e uma afectuosa saudação.

Nesta data jubilar tão significativa, Santa Clara exorta todos a compreender cada vez mais profundamente o valor da vocação, um dom de Deus que devemos fazer frutificar. A este propósito, escrevia no seu Testamento: "Entre os outros benefícios, que recebemos e continuamos a receber todos os dias do nosso Doador, Pai das misericórdias, pelos quais temos o dever de prestar, a Ele que é glorioso, sentidas acções de graças, porque é grande o dom da nossa vocação. E quanto maior e mais perfeita ela é, tanto mais lhe somos devedoras. Por isso, o Apóstolo admoesta: Conhece bem a tua vocação" (2-4).

2. Tendo nascido em Assis por volta dos anos de 1193-1194 da nobre família de Favarone de Offreduccio, Santa Clara recebeu, sobretudo da mãe Hortulana, uma sólida educação cristã.

Iluminada pela graça divina, deixou-se atrair pela nova forma de vida evangélica começada por São Francisco e pelos seus companheiros, e decidiu, por sua vez, empreender um seguimento de Cristo ainda mais radical. Deixou a casa paterna na noite entre o Domingo de Ramos e a Segunda-Feira Santa de 1211 (ou 1212), seguindo o conselho do mesmo Santo, dirigiu-se para a pequena igreja da Porciúncula, berço da experiência franciscana onde, em frente do altar de Santa Maria se despojou de todas as suas riquezas, para vestir as pobres vestes de penitência em forma de cruz.

Depois de um breve período de busca, chegou ao pequeno mosteiro de São Damião, onde se uniu a ela também a irmã mais pequena, Inês. Aqui, juntaram-se-lhe outras companheiras, desejosas de encarnar o Evangelho numa dimensão contemplativa. Face à determinação com que a nova comunidade monástica seguia as pegadas de Cristo, considerando a pobreza, as fadigas, as tribulações, as humilhações e o desprezo do mundo, motivos de grande alegria espiritual, São Francisco, movido por afecto paterno, escreveu-lhes: "Dado que por inspiração divina vos fizestes filhas e escravas do altíssimo sumo Rei, o Pai celeste, e desposastes o Espírito Santo, escolhendo viver segundo a perfeição do Santo Evangelho, quero e prometo, tanto eu como os meus irmãos, ocupar-me de vós, como deles, com atenção e especial solicitude" (Regra de Santa Clara, cap. VI, 3-4).

3. Clara inseriu estas palavras no capítulo central da sua Regra, reconhecendo nelas não só um dos ensinamentos recebidos do Santo, mas o núcleo fundamental do seu carisma, que se delineia no contexto trinitário e mariano do Evangelho da Anunciação. Com efeito, São Francisco via a vocação das Irmãs Pobres à luz da Virgem Maria, a humilde escrava do Senhor que, cheia do Espírito Santo, se tornou a Mãe de Deus. A humilde serva do Senhor é o protótipo da Igreja, Virgem, Esposa e Mãe.

Clara sentia a sua vocação como uma chamada a viver seguindo o exemplo de Maria, que ofereceu a própria virgindade à acção do Espírito Santo para se tornar Mãe de Cristo e do seu Corpo místico. Sentia-se estreitamente associada à Mãe do Senhor e por isso exortava Santa Inês de Praga, a princesa boémia que se tornou clarissa, do seguinte modo: "Estreita-te à sua dulcíssima Mãe, que gerou um Filho que nem os céus o podiam conter, e apesar disso ela recolheu-o no pequeno claustro do seu santo seio e levou-o no seu ventre virginal" (3ª Carta a Inês de Praga, 18-19).

A figura de Maria acompanhou o caminho vocacional da Santa de Assis até ao fim da sua vida. Segundo um significativo testemunho dado no Processo de canonização, do leito de Clara moribunda aproximou-se Nossa Senhora inclinando o seu rosto sobre ela, cuja vida tinha sido uma imagem radiosa da Sua.

4. Só a escolha exclusiva de Cristo crucificado, que empreendeu com amor fervoroso, explica a decisão com que Santa Clara se encaminhou pela via da "nobilíssima pobreza", expressão que encerra no seu significado a experiência de despojamento, vivida pelo Filho de Deus na Encarnação. Com a qualificação de "nobilíssima" Clara desejava expressar, de certa forma, a submissão do Filho de Deus, que a enchia de estupefacção: "Esse tão grande Senhor escrevia descendo ao seio da Virgem, quis mostrar-se ao mundo como um homem desprezível, necessitado e pobre, para que os homens que eram muito pobres e indigentes, famintos devido à excessiva penúria do alimento celeste se tornassem n'Ele ricos com a posse do reino celeste" (1ª Carta a Inês, 19-20). Ela aceitava esta pobreza em toda a experiência terrena de Jesus, de Belém ao Calvário, onde o Senhor "despojado permaneceu na cruz" (Testamento de Santa Clara, 45). Seguir o Filho de Deus, que se fez caminho para nós, exigia que ela só desejasse mergulhar com Cristo na experiência de humildade e de pobreza radicais, que incluíam qualquer aspecto da experiência humana, até ao despojamento da Cruz. A escolha da pobreza era para Santa Clara uma exigência de fidelidade ao Evangelho, a ponto de determinar o pedido ao Papa de um "privilégio da pobreza", como prerrogativa da forma de vida monástica por ela começada. Inseriu este "privilégio", defendido com tenacidade durante toda a vida, na Regra que recebeu a confirmação papal nas vésperas da sua morte, com a Bula Solet annuere de 9 de Agosto de 1253, há 750 anos.

5. O olhar de Clara permaneceu até ao fim fixo no Filho de Deus, de quem contemplava incessantemente os mistérios. O seu olhar era o olhar amante da esposa, repleto do desejo de uma partilha sempre mais plena. Em particular, mergulhava na meditação da Paixão, contemplando o mistério de Cristo, que do alto da Cruz a chamava e atraía. Escrevia assim: "Vós, todos, que passais pela estrada, parai para ver se existe um sofrimento semelhante ao meu; e respondemos, digo a Ele que chama e geme, com uma só voz e um só coração: nunca me abandonará a tua recordação e consome-se em mim a minha alma" (4ª Carta a Inês, 25-26). E exortava: "Portanto, deixa-te arder de modo cada vez mais forte por este fervor de caridade... E brada com todo o ardor do teu desejo e do teu amor: Atrai-me para ti, ó Esposo celeste!" (Ibid., 27.29-32).

Esta comunhão plena com o mistério de Cristo iniciou-a na experiência da habitação trinitária interior, em que a alma assume uma consciência cada vez mais viva da habitação de Deus nela: "Enquanto o céu e todas as outras coisas criadas não podem conter o Criador, ao contrário, a alma fiel, sozinha, é sua morada e estadia, e isto apenas devido à caridade, da qual os ímpios estão privados" (3ª Carta a Inês, 22-23).

Guiada por Clara, a comunidade reunida em São Damião escolheu viver segundo a forma do Santo Evangelho numa dimensão contemplativa claustral, que se distinguia como um "viver comunitariamente em unidade de espírito" Regra de Santa Clara, Prólogo, 5), segundo um "modo de santa unidade" (Ibid., 16). A compreensão particular demonstrada por Clara do valor da unidade na fraternidade parece relacionar-se a uma experiência contemplativa madura do Mistério trinitário. De facto, a contemplação autêntica não leva ao individualismo mas realiza a verdade de ser um só no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Clara não só orientou na sua Regra a vida fraterna para os valores de serviço recíproco, de participação, de partilha, mas preocupou-se com que a comunidade estivesse também firmemente edificada na "unidade da caridade e paz intercambiáveis" (cap. IV, 22), e ainda que as irmãs fossem "solícitas em conservar sempre reciprocamente a unidade da caridade intercambiável, que é vínculo da perfeição" (cap. X, 7).

De facto, estava convencida de que o amor intercambiável edifica a comunidade e origina um crescimento na vocação; por isso, exortava no Testamento: "Amando-vos reciprocamente no amor de Cristo, aquele amor que tendes no coração, mostrai-o fora com as obras, para que as Irmãs, estimuladas por este exemplo, cresçam sempre no amor de Deus e na caridade recíproca" (59-60).

7. Clara compreendeu este valor da unidade também na sua dimensão mais ampla. Por isso, quis que a comunidade claustral estivesse plenamente inserida na Igreja e firmemente ancorada nela com o vínculo da obediência e da submissão filial (cf. Regra, cap. I, XII). Ela tinha total consciência de que a vida das claustrais devia tornar-se espelho para outras Irmãs chamadas a seguir a mesma vocação, assim como testemunho luminoso para todos os habitantes do mundo.

Os quarenta anos vividos no âmbito do pequeno mosteiro de São Damião não limitaram os horizontes do seu coração, mas dilataram a sua fé na presença de Deus, realizando a salvação na história. São conhecidos os dois episódios em que, com a força da sua fé na Eucaristia e com a humildade da oração, Clara obteve a libertação da cidade de Assis e do mosteiro, do perigo de uma destruição iminente.

8. Como não realçar que 750 anos depois da confirmação pontifícia, a Regra de Santa Clara conserva intactos o seu fascínio espiritual e a sua riqueza teológica? A perfeita consonância de valores humanos e cristãos, a sábia harmonia de fervor contemplativo e de rigor evangélico confirmam-na para vós, queridas Clarissas do terceiro milénio, como uma via-mestra que deve ser seguida, sem adaptações nem concessões ao espírito do mundo.

Clara dirige a cada uma de vós as palavras que deixou a Inês de Praga: "Tu és verdadeiramente feliz! É-te concedido gozar deste convívio sagrado, para poder aderir com todas as fibras do teu coração Àquele cuja beleza é a admiração incansável das bem-aventuradas multidões do céu" (4ª Carta a Inês, 9).

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