Mensagem de condolências pelas vítimas do terremoto em são juliano de apúlia



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4. Senhor Embaixador, antes de concluir este encontro desejo exprimir-lhe os meus melhores votos para que a missão que hoje começa seja fecunda de frutos e bons êxitos. Peço-lhe novamente que se faça intérprete dos meus sentimentos e esperanças junto do Senhor Presidente da República e demais Autoridades do seu País, ao mesmo tempo que invoco a bênção de Deus e a protecção de Nossa Senhora de Copacabana sobre Vossa Excelência, sobre a sua distinta família e colaboradores, e sobre todos os amadíssimos filhos e filhas da nobre Nação boliviana, que recordo sempre com profundo apreço.
DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AO QUINTO GRUPO DE BISPOS DA CONFERÊNCIA EPISCOPAL DE RITO LATINO DA ÍNDIA POR OCASIÃO DA VISITA "AD LIMINA APOSTOLORUM"

6 de Setembro de 2003

Prezados Irmãos no Episcopado

1. É com alegria que vos dou as boas-vindas, Bispos provenientes das Províncias Eclesiásticas de Agra, Deli e Bopal. Exprimo-vos uma vez mais, a vós e ao querido povo do vosso País, o meu profundo afecto: "Porque Deus, a quem presto culto no meu espírito, ao serviço do Evangelho de seu Filho, me é testemunha do modo como, constantemente, me recordo de vós" (Rm 1, 9). É-me particularmente grato saudar o Arcebispo D. Concessão, a quem agradeço os sentimentos que me exprimiu em nome dos Bispos aqui presentes, do clero e dos fiéis das vossas Dioceses. Entre os numerosos acontecimentos importantes que tiveram lugar na Igreja que está na Índia, depois da vossa última visita ad Limina, teve lugar a criação da nova Diocese de Jabua. Ao reunirdes-vos junto dos túmulos dos Apóstolos para exprimir a solidariedade entre Pedro e as vossas Igrejas locais, a presença do Pastor de um novo rebanho representa um sinal encorajador da vitalidade e do crescimento da fé no vosso País.

2. O Apóstolo Tomé, São Francisco Xavier e Madre Teresa de Calcutá são apenas alguns dos exemplos extraordinários do zelo missionário que sempre esteve presente na Índia. É precisamente este espírito de evangelização que continua a infundir nos fiéis do vosso País o desejo de proclamar Jesus Cristo, mesmo quando devem enfrentar grandes dificuldades. Como Bispos, estais bem conscientes de que, juntamente com o clero e os religiosos, os leigos são fundamentais para a missão da Igreja, especialmente nas regiões em que a população cristã vive espalhada. "Nas comunidades eclesiais, a sua acção é tão necessária que, sem ela, o apostolado dos pastores, na maioria das vezes, não consegue alcançar o seu pleno efeito" (Catecismo da Igreja Católica, n. 900). Tendes a peito as palavras do Senhor, quando dizeis ao vosso rebanho: "Ide também vós para a minha vinha" (Mt 20, 7). Mostra-o claramente a seriedade com que preparais os leigos para ajudar os seus Bispos e o clero em geral na difusão do Evangelho. Ao mesmo tempo, a disponibilidade dos fiéis a trabalhar ao lado dos seus sacerdotes manifesta-se de maneira concreta na sua notável participação na catequese, nos conselhos pastorais, nas pequenas comunidades cristãs, nos grupos de oração e nos numerosos programas de compromisso social e de desenvolvimento humano.

A formação das pessoas, a fim de que sejam capazes de enfrentar as exigências de ser católicos responsáveis, requer que elas se conformem cada vez mais com Jesus Cristo, através da participação nos seus três munera de sacerdote, profeta e rei. Isto não deve ser entendido como uma extensão do papel clerical, mas como uma realidade compartilhada por todos os cristãos, na graça recebida através do Baptismo e da Confirmação. Estas tarefas cristãs tornam-se cada vez mais urgentes em regiões como as vossas, que não têm a grande ventura de poder contar com um sacerdote residente em cada uma das suas comunidades. Aos fiéis leigos que se encontram sem um ministro ordenado na sua localidade ou na sua cidade, apresenta-se um desafio ainda maior, de promover a fé de muitas formas diferentes: ajudando a orientar as orações matutinas e vespertinas tradicionais, como fazem muitas das vossas famílias; e servindo como catequistas ou contribuindo para o desenvolvimento de um plano ou de um ponto de vista pastoral. Todas estas responsabilidades, tanto as pequenas como as grandes, constituem modos de se dar a si mesmo, quer como testemunhas, quer como instrumentos "da missão da própria Igreja, "segundo a medida dos dons de Jesus Cristo" (Ef 4, 7)" (Lumen gentium, 33, par. 2).

3. Desde os primeiros dias da sua presença em solo indiano, a Igreja católica desempenhou um profundo compromisso social nos âmbitos da assistência à saúde, do desenvolvimento do bem-estar e, de modo especial, no campo da educação. O Concílio Vaticano II recorda-nos que a educação católica constitui um elemento fundamental para preparar os jovens católicos, a fim de que se tornem adultos fiéis. "Esta educação não só desenvolve a maturidade que é própria da pessoa humana, mas tende sobretudo a fazer com que os baptizados tenham uma consciência cada vez maior do dom da fé que receberam" (cf. Gravissimum educationis, 2). Em muitas das vossas escolas, uma elevada percentagem de professores e estudantes não é católica. A sua presença nas nossas instituições poderia contribuir para aumentar a compreensão recíproca entre os católicos e os fiéis que pertencem às outras religiões, numa época em que os mal-entendidos podem ser uma fonte de sofrimento para muitos. Ela poderia constituir também uma oportunidade para educar os estudantes não católicos num sistema que já deu prova da sua capacidade de transformar os jovens em cidadãos responsáveis e produtivos.

Uma das principais contribuições que as nossas estruturas educativas e todas as institutições católicas podem oferecer, nos dias de hoje, à sociedade no seu conjunto, é a sua catolicidade incondicional. As escolas católicas devem ter como finalidade "dar vida a um ambiente penetrado pelo espírito evangélico de liberdade e de caridade e, por fim, a coordenar toda a cultura humana com a mensagem da salvação, de maneira que o conhecimento do mundo, da vida e do homem, que os alunos adquirem gradualmente, seja iluminado pela fé" (cf. Gravissimum educationis, 8). Por este motivo, é fundamental que os vossos institutos educativos conservem uma vigorosa identidade católica. Isto exige um programa de estudos que se caracterize pela participação na oração e na celebração da Eucaristia, e requer que todos os professores sejam bem preparados, não apenas na sua matéria de ensino, mas também na fé católica. É encorajador observar que muitas das vossas Dioceses estão a procurar pôr em prática as recomendações da Exortação Apostólica pós-sinodal Ecclesia in Asia e, na medida do possível, inserindo em todas as escolas sacerdotes, religiosos, religiosas e conselheiros bem preparados. Isto ajudará a assegurar que todos os departamentos e cada uma das vossas actividades emanem com alegria o espírito da Igreja de Jesus Cristo (cf. Ecclesia in Asia , 47).

4. A presença e a influência do presbítero nas instituições católicas é uma forma de promover as vocações, cuja validade já foi provada ao longo do tempo. São poucas as coisas mais atraentes, para os jovens que estão a considerar a possibilidade de abraçar uma vida de serviço sacerdotal ou religioso, para lá do exemplo de um sacerdote zeloso que não só ama o sacerdócio, mas que também exerce o seu ministério com alegria e dedicação. Através da paternidade espiritual do presbítero, o Espírito Santo convida muitas pessoas a seguir ainda mais de perto as pegadas de Jesus Cristo: "Vinde após mim, e Eu farei de vós pescadores de homens" (Mt 4, 19). A este propósito, estou feliz por observar o vosso compromisso constante na promoção de um número cada vez maior de vocações autóctones. São notáveis os vossos numerosos programas destinados aos jovens. Os grupos de serviço à juventude e os campos especializados na catequese, no desenvolvimento da personalidade, na formação dos guias e no discernimento das vocações são um terreno fértil para ajudar os jovens e as jovens a reconhecer o chamamento de Deus na sua própria vida (cf. Pastores dabo vobis, 9).

Ofereço as minhas orações especiais aos jovens que já tomaram a decisão de seguir a formação sacerdotal. É fundamental que os futuros ministros da Igreja recebam uma adequada formação filosófica, teológica e espiritual, a fim de poderem compreender de maneira realista o valor de uma vida feita de pobreza, de castidade e de obediência. Hoje, mais do que nunca, os sacerdotes são chamados a constituir um sinal de contradição no seio das sociedades, que se tornam cada vez mais secularizadas e materialistas. "É muito forte sobre os jovens o fascínio da chamada "sociedade de consumo", a ponto de os tornar submissos e prisioneiros de uma interpretação individualista, materialista e hedonista da existência humana" (Pastores dabo vobis, 8). Às vezes, esta atitude pode insinuar-se também na vida dos nossos seminaristas e dos nossos sacerdotes, tentando-os a não viver "segundo a lógica do dar e da generosidade" (cf. ibidem). O Bispo tem a tarefa especial de garantir que os seminários e as casas de formação disponham de um pessoal constituído por sacerdotes que sejam exemplares na virtude e extraordinários mestres da fé. Como realçou o Sínodo dos Bispos para a Ásia, é "difícil e delicada a tarefa que os espera na educação dos futuros sacerdotes. Trata-se de um apostolado de forma nenhuma secundário para o bem-estar e a vitalidade da Igreja" ( Ecclesia in Asia , 43).

5. A preparação dos sacerdotes de hoje exige que os seminaristas sejam formados nas numerosas e diferentes tradições da nossa fé católica. E isto é válido de maneira particular na Índia, que tem a ventura de poder contar com católicos tanto orientais como latinos, que vivem uns ao lado dos outros. O número dos católicos sírio-malabares e sírio-malancares presentes na vossa região desafia todos os fiéis a respeitar as exigências e as aspirações de quantos celebram a mesma fé de maneira diferente (cf. Discurso aos Bispos sírio-malabares da Índia, 13 de Maio de 2003). "Como bons dispenseiros das graças de Deus, cada um de vós ponha à disposição dos outros os dons que recebeu" (1 Pd 4, 10). Porém, esta partilha só pode realizar-se através do diálogo inter-ritual, da educação, dos projectos conjuntos e da experiência das várias tradições litúrgicas do catolicismo. Formulo votos a fim de que os Bispos latinos e os Prelados orientais continuem a trabalhar em conjunto, com harmonia, com um espírito compartilhado do amor de Jesus Cristo e da sua mensagem universal de salvação. "Como filhos de uma única Igreja, renascidos para a vida nova em Cristo, os crentes são chamados a resolver tudo num espírito de união de objectivos, de confiança e de caridade sem fim" (Ecclesia in Asia , 27).

A mesma união de objectivos é importante para o diálogo ecuménico, actualmente em acto com os nossos irmãos separados. Todos os católicos são responsáveis pela promoção do compromisso em favor da unidade cristã. Embora as Igrejas orientais estejam "directamente empenhadas no diálogo ecuménico com as Igrejas ortodoxas irmãs" (Ibidem), também os católicos de rito latino devem assumir um papel activo neste intercâmbio, através da participação nos debates e nas actividades ecuménicas em geral. Devemos recordar sempre que "o diálogo não é apenas uma troca de ideias; de certo modo, é sempre um "intercâmbio de dons"" (Ut unum sint, 28).

6. Estimados Irmãos no Episcopado, quando regressardes à vossa querida Terra, peço-vos que transmitais as minhas saudações mais cordiais aos sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos das vossas Dioceses. O ano passado foi um período repleto de incertezas, de conflitos e de sofrimentos para muitas pessoas na Índia. Recordando o mandato que o Senhor deixou aos seus discípulos, rezo a fim de que, ao partirdes da Cidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, fiqueis cheios do Espírito Santo e vos prepareis para agir como instrumentos de reconciliação, suscitando no coração dos membros do Povo de Deus o firme desejo de trabalhar por uma paz duradoura e pela justiça no vosso País (cf. Jo 20, 21-22).

Com estes sentimentos, confio a Igreja que está na Índia à amorosa intercessão de Nossa Senhora Santíssima, Rainha do Rosário, e concedo-vos a todos, do íntimo do coração, a minha Bênção apostólica como penhor de alegria e de esperança no Senhor.


MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II AO CARDEAL WALTER KASPER POR OCASIÃO DO ENCONTRO ECUMÊNICO REALIZADO NA GRÉCIA

Ao Venerado Irmão Cardeal Walter KASPER Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos

Recebi com satisfação a notícia de que a louvável iniciativa de convocar encontros intercristãos, tomada em 1992 pelo Instituto Franciscano de Espiritualidade do Pontifício Ateneu Antonianum em Roma e pela Faculdade de Teologia da Universidade Aristóteles de Tessalonica, da Igreja ortodoxa da Grécia, continua a oferecer oportunidades de encontros e de intercâmbios. Realizar-se-á, de facto, em Joanina, no Epiro, de 3 a 7 de Setembro de 2003 uma assembleia sobre o tema: "A relação entre espiritualidade e dogma cristão no Oriente e no Ocidente". Nesse encontro a reflexão será sobre um aspecto que alimenta o diálogo teológico entre católicos e ortodoxos. Senhor Cardeal, confio-lhe a tarefa de transmitir aos organizadores e participantes a minha cordial saudação.

Depois de ter enfrentado temas importantes, como a oração e a contemplação, a espiritualidade do monaquismo, a dimensão eclesial da espiritualidade e muitos outros, esta nova assembleia debruçar-se-á, como já indica o tema, sobre o contributo que a espiritualidade oferece à doutrina, alimentando-lhe o desenvolvimento e o aprofundamento. A espiritualidade, de facto, influenciando as disposições do ânimo e do coração, cria o contexto psicológico adequado em que empreender o diálogo de modo aberto e confiante. Isto é particularmente importante quando católicos e ortodoxos enfrentam questões e problemas que ainda os dividem.

Renovo de bom grado o meu encorajamento aos esforços conjuntos do Ateneu Antonianum de Roma e da Faculdade de Teologia de Tessalonica, dedicados a fazer sobressair as convergências de cristãos ortodoxos e católicos na adesão à Verdade revelada, e fico feliz com o apoio oferecido à iniciativa do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos. De facto, a procura de uma comunhão mais profunda entre Oriente e Ocidente cristãos não deve limitar-se aos contactos oficiais e às iniciativas tomadas a nível mais alto. O conhecimento e a compreensão recíprocos são favorecidos pelos acontecimentos como este em programa, que empenham os vários contextos da vida eclesial e, em especial, os académicos e formativos. Assim, é promovido de maneira concreta aquele espírito de abertura e de escuta que muito favorece o progresso no caminho que é o nosso desejo há-de levar depressa à plena comunhão.

Ao formular votos de bom êxito à assembleia de Joanina, apresento a minha saudação fraterna ao Metropolita dessa cidade, Sua Excelência Theochlitos, que a hospeda. A bondade do Senhor concedeu-nos experimentar nestes últimos tempos relações mais intensas e profícuas. Enquanto elevo fervorosas acções de graças ao Senhor por este renovado sinal de diálogo, invoco sobre quantos têm favorecido o encontro e sobre todos os presentes nos trabalhos, as abundantes bênçãos de Deus.

Castel Gandolfo, 28 de Agosto de 2003, memória de Santo Agostinho de Hipona.

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II AO PONTIFÍCIO COMITÉ DAS CIÊNCIAS HISTÓRICAS POR OCASIÃO DO CONGRESSO PELO CENTENÁRIO DA MORTE DO PAPA LEÃO XIII

Veneráveis Irmãos Ilustres Senhores Gentis Senhoras

1. Muito oportunamente, o Pontifício Comité das Ciências Históricas quis recordar o centenário da morte do Papa Leão XIII, de venerada memória. De facto, este meu ilustre predecessor não se limitou a fundar a Comissão cardinalícia para a promoção dos estudos históricos, da qual teve origem o actual Pontifício Comité das Ciências Históricas, mas igualmente incentivou as ciências históricas mediante a abertura aos estudiosos do Arquivo Secreto do Vaticano e da Biblioteca Apostólica do Vaticano.

Alegro-me, portanto, por esta iniciativa e, com muito prazer, saúdo cada um de vós, que nestes dias quisestes prestar homenagem à memória de um tão iluminado Pontífice, colocando em particular evidência os méritos em relação às disciplinas históricas.

2. Como se sabe, o incentivo de Leão XIII alargou-se eficazmente aos diversos âmbitos da acção pastoral e do empenho cultural da Igreja. Já tive a oportunidade de me deter a falar sobre alguns deles em ocasiões precedentes. Por exemplo, sobre a atenção que o Papa Pecci reservou aos problemas emergentes no campo social na segunda metade do século XIX, atenção que ele expressou de modo especial na Carta encíclica Rerum novarum. Quanto a este assunto da doutrina social da Igreja, dediquei, por minha vez, a Encíclica Centesimus annus, com amplas referências àquele Documento fundamental (cf. nn. 4 -11).

Devemos recordar também o forte impulso dado por Leão XIII à renovação dos estudos filosóficos e teológicos, particularmente com a publicação da Carta Encíclica Aeterni Patris, com a qual ele contribuiu igualmente, de modo significativo, para o desenvolvimento do neotomismo. Mencionei precisamente este aspecto particular do seu Magistério, na Encíclica Fides et ratio (cf. nn. 57-58).

Finalmente, não devemos esquecer a sua profunda devoção mariana e a sua sensibilidade pastoral pelas tradicionais formas de piedade popular para com a Virgem Maria, em particular pelo Rosário. Sublinhei este aspecto na recente Carta apostólica Rosarium Virginis Mariae, na qual recordava a sua Encíclica Supremi apostolatus officio e outras das suas numerosas intervenções sobre esta oração, que ele recomendava como "eficaz instrumento espiritual para os males da sociedade" (n. 2).

3. Sem perder de vista este amplo contexto teológico, cultural e pastoral no qual se desenvolveu a acção do Papa Leão XIII, o presente Congresso oferece-me uma grata oportunidade para recordar o incentivo do grande Pontífice na campo dos estudos históricos.

Como Leão XIII, estou igualmente convencido de que é bom para a Igreja esclarecer, tanto quanto possível mediante os instrumentos das ciências, a plena verdade dos seus dois mil anos de história. Sem dúvida, aos historiadores pede-se não só que apliquem escrupulosamente todos os instrumentos da metodologia histórica, mas que prestem também uma consciente atenção à ética científica que sempre deve assinalar as suas pesquisas. No seu conhecidíssimo documento Saepenumero considerantes, Leão XIII endereçou aos estudiosos de história um famoso conselho de Cícero: "Primam essere historiae legem ne quid falsi dicere audeat, deinde ne quid veri non audeat; ne qua suspicio gratiae sit in scribendo, ne qua simultatis" (Leonis XIII Acta, III, 268).

Estas palavras de grande sabedoria incentivam o historiador a não ser nem acusador nem juiz do passado, mas a empenhar-se pacientemente para compreender cada coisa com a máxima perspicácia e amplidão, a fim de delinear um quadro histórico o mais possível fiel à verdade dos factos.

4. Diversas vezes, durante estes anos, procurei sublinhar a necessidade da "purificação da memória" como premissa indispensável em vista de uma ordem internacional de paz (cf. por exemplo, Mensagem para o Dia Mundial da Paz, de 1997, n. 3).

Quem investiga sobre as raízes dos conflitos em acto nas diversas partes do planeta descobre que os eventos acontecidos nos séculos passados continuam a fazer sentir também no presente as suas funestas consequências. Não raramente e isto torna ainda mais complexa a situação estas memórias "poluídas" tornaram-se exactamente pontos de cristalização da identidade nacional e, em alguns casos, até mesmo da religiosa. Eis por que é preciso renunciar a qualquer instrumentalização da verdade. O amor dos historiadores pelo próprio povo, também pela sua comunidade religiosa, não deve entrar em competição com o rigor pela verdade elaborada cientificamente. Foi daqui que teve início o processo da purificação da memória.

5. O convite para honrar a verdade histórica não comporta, obviamente, que o estudioso abdique da sua orientação ou abandone a sua identidade. Dele se espera somente a disponibilidade para compreender e a renúncia a expressar um juízo apressado ou deveras faccioso.

De facto, no estudo da história não se pode automaticamente aplicar ao passado critérios e valores adquiridos somente depois de um processo secular. Porém, é importante esforçar-se acima de tudo por remontar ao contexto socio-cultural da época, para compreender o que aconteceu a partir das motivações, das circunstâncias e dos aspectos do período em exame. Os acontecimentos históricos são o resultado de interligações complexas entre a liberdade humana e os condicionamentos pessoais e estruturais. Devemos ter presente tudo isto quando pretendemos "purificar a memória".

6. Ilustres Senhores e gentis Senhoras! Destas reflexões emerge com clareza que é necessário em primeiro lugar reconciliar-se com o passado, antes de se iniciar um processo de reconciliação com outras pessoas ou comunidades. Este esforço por purificar a própria memória comporta, tanto para os indivíduos como para os povos o reconhecimento dos erros efetivamente cometidos e dos quais é justo pedir perdão: "Não se pode permanecer prisioneiros do passado", admoestava eu na Mensagem citada (n. 3). Isto às vezes exige não pouca coragem e abnegação. Somente este, porém, é o caminho pelo qual os grupos sociais e as nações, libertados dos empecilhos dos antigos sentimentos, podem unir as suas forças com fraterna e recíproca lealdade, para criar um futuro melhor para todos.

Que isto aconteça sempre! Eis o desejo que corroboro com uma particular lembrança na oração. Ao renovar a cada um de vós o meu vivo agradecimento pelo serviço que prestais à Igreja, apresento-vos os melhores votos no Senhor e abençoo-vos a todos de coração.

Vaticano, 28 de Outubro de 2003.


DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS PARTICIPANTES NA CONFERÊNCIA DOS MINISTROS DO INTERIOR DA UNIÃO EUROPEIA

Sexta-feira, 31 de Outubro de 2003

Ilustres Senhores Gentis Senhoras

1. A todos dirijo uma deferente saudação, com um pensamento de especial gratidão ao Deputado Giuseppe Pisanu, que se fez intérprete dos sentimentos de todos com oportunas expressões.

Apreciei muito o facto de que, para a Conferência dos Ministros do Interior da União Europeia, tenha sido escolhido como tema "O diálogo inter-religioso: factor de união social na Europa e instrumento de paz na área mediterrânea". Ter dado prioridade a este tema significa reconhecer a importância da religião não só para a tutela da vida humana, mas também para a promoção da paz.

"As religiões dignas deste nome disse no início do ano de 1987 ao Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé as religiões abertas, de que falava Bergson que não são simples projecções dos desejos do homem, mas uma abertura e uma submissão à vontade transcendente de Deus que se impõe a toda a consciência , permitem estabelecer a paz... Sem o respeito absoluto do homem, respeito baseado numa visão espiritual do ser humano, não há paz" (n. 6; L'Oss. Rom. Ed. port. de 18/01/1987, pág. 1).

2. A vossa Conferência desenvolveu-se na perspectiva do objectivo prioritário dos Ministros do Interior da União Europeia, que consiste na construção de um espaço de liberdade, segurança e justiça, no qual todos se sintam na própria casa. Isto requer a busca de novas soluções para os problemas relacionados com o respeito da vida, com o direito de família, com a imigração; problemas que devem ser considerados, não só na perspectiva europeia, mas também no contexto do diálogo com os Países da área mediterrânea.

A desejada união social exigirá ainda mais aquela solidariedade fraterna que provém da consciência de ser uma única família de pessoas chamadas a construir um mundo mais justo e fraterno. Esta consciência já estava de certa forma presente nas antigas religiões do Egipto e da Grécia, que tiveram o seu berço no Mediterrâneo, mas também, e sobretudo, nas três grandes religiões monoteístas: o hebraísmo, o cristianismo e o islamismo. A este propósito, como não observar, com uma certa tristeza, que os fiéis destas três religiões, cujas raízes históricas se encontram no Médio Oriente, ainda não estabeleceram entre eles uma convivência plenamente pacífica precisamente onde elas surgiram? Nunca serão demasiadas as tentativas de criar as condições de um diálogo sincero e de uma cooperação solidária entre todos os crentes num único Deus.

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