Mensagem de condolências pelas vítimas do terremoto em são juliano de apúlia



Baixar 3.59 Mb.
Página6/105
Encontro19.07.2016
Tamanho3.59 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   105

5. A vida e a reflexão cristã encontram nesta verdade uma fonte inexaurível de luz. De facto, a sacramentalidade do matrimónio constitui um caminho fecundo para penetrar o mistério das relações entre a natureza humana e a graça. No facto de que o próprio matrimónio do princípio se tenha tornado na Nova Lei sinal e instrumento da graça de Cristo, é evidenciada a transcendência constitutiva de tudo o que pertence ao ser da pessoa humana, e em particular à sua racionalidade natural, segundo a distinção e a complementaridade entre o homem e a mulher. O humano e o divino entrelaçam-se de maneira admirável.

A mentalidade de hoje, altamente secularizada, tende para afirmar os valores humanos da instituição familiar afastando-se dos valores religiosos e proclamando-os totalmente autónomos de Deus. Influenciada pelos modelos de vida propostos com muita frequência pelos meios de comunicação social, pergunta: "Porque é que se deve ser sempre fiel ao outro cônjuge?", e esta pergunta transforma-se em dúvida existencial nas situações críticas. As dificuldades conjugais podem ser de índoles diferentes, mas todas acabam, no final, num problema de amor. Por isso, a pergunta anterior pode ser formulada de novo assim: porque é que é sempre necessario amar o outro, mesmo quando tantos motivos, aparentemente justificativos, levariam a deixá-lo?

Podem ser dadas muitas respostas, entre as quais têm sem dúvida muita importância o bem dos filhos e o bem de toda a sociedade, mas a resposta mais radical passa, antes de mais, pelo reconhecimento da objectividade do facto de ser cônjuges, visto como dom recíproco, tornado possível e confirmado por Deus. Por isso, a razão última do dever de amor fiel é unicamente a que está na base da Aliança divina com o homem: Deus é fiel! A fim de tornar possível a fidelidade de coração ao próprio cônjuge, mesmo nos casos mais difíceis, é preciso por conseguinte recorrer a Deus, certos de que se recebe a sua ajuda. A vida da fidelidade recíproca requer, entre outras coisas, a abertura àquela caridade de Cristo, que "tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta" (1 Cor 13, 7). Em todos os matrimónios se torna presente o mistério da redenção, realizada mediante uma participação real na Cruz do Salvador, de acordo com aquele paradoxo cristão que une a felicidade com a assunção do sofrimento em espírito de fé.

6. Destes princípios podem ser tiradas numerosas consequências práticas, de índole pastoral, moral e jurídica. Limito-me a mencionar algumas, relacionadas de maneira especial com a vossa actividade judiciária.

Em primeiro lugar, nunca podeis esquecer que tendes nas vossas mãos aquele mistério grande do qual fala São Paulo (cf. Ef 5, 32), tanto quando se trata de um sacramento em sentido estrito, como quando aquele matrimónio tem em si a índole sagrada do princípio, estando chamado a tornar-se sacramento mediante o Baptismo dos dois esposos. A consideração da sacramentalidade põe em relevo a transcendência da vossa função, o nexo que o une operativamente com a economia salvífica. O sentido religioso deve, por conseguinte, penetrar todo o vosso trabalho. Desde os estudos científicos sobre esta matéria até à actividade quotidiana na administração da justiça, não há espaço na Igreja para uma visão meramente imanente e profana do matrimónio, simplesmente porque essa visão não é teologica nem juridicamente verdadeira.

7. Nesta perspectiva, é necessário, por exemplo, assumir de maneira muito séria a obrigação formalmente imposta ao juiz pelo cân. 1676 de favorecer e procurar activamente a possível confirmação do matrimónio e a reconciliação. Sem dúvida, a mesma atitude de apoio ao matrimónio e à família deve reinar antes do recurso aos tribunais: na assistência pastoral as consciências devem ser pacientemente iluminadas com a verdade sobre o dever transcendente da fidelidade, apresentada de modo favorável e atraente. Na obra para uma positiva superação dos conflitos conjugais, e na ajuda aos fiéis em situação matrimonial irregular, é necessário criar uma sinergia que envolva a todos na Igreja: os Pastores de almas, os juristas, os peritos nas ciências psicológicas e psiquiátricas, os outros fiéis, sobretudo os que são casados e com experiência de vida. Todos devem ter consciência de que se trata de uma realidade sagrada e de uma questão que toca a salvação das almas!

8. A importância da sacramentalidade do matrimónio, e a necessidade da fé para conhecer e viver plenamente esta dimensão, poderia também dar ocasião a alguns mal-entendidos, quer nno lugar de admissão às núpcias, quer de juízo sobre a sua legitimidade. A Igreja não recusa a celebração das núpcias a quem está bene dispositus, mesmo se imperfeitamente preparado do ponto de vista sobrenatural, sob condição de que tenha a recta intenção de casar segundo a realidade natural da conjugalidade. Com efeito, não se pode configurar, paralelamente com o matrimónio natural, outro modelo de matrimónio cristão com específicos requisitos sobrenaturais.

Esta verdade não deve ser esquecida no momento de delimitar a exclusão da sacramentalidade (cf. cân. 1101 2) e o erro determinante sobre a dignidade sacramental (cf. cân. 1099) como eventuais motivos de nulidade. Mediante as duas figuras é decisivo ter presente que uma atitude dos noivos que não tenha em conta a dimensão sobrenatural no matrimónio, pode torná-lo nulo unicamente se atenta contra a validade a nível natural no qual é posto o mesmo sinal sacramental. A Igreja católica sempre reconheceu os matrimónios entre os não-baptizados, que se tornam sacramento cristão mediante o Baptismo dos cônjuges, e não tem dúvidas sobre a validade do matrimónio de um católico com uma pessoa não baptizada se é celebrado com a devida dispensa.

9. No final deste encontro, o meu pensamento dirige-se aos casais e às famílias, para invocar sobre eles a protecção de Nossa Senhora. Também nesta ocasião é-me grato propor de novo a exortação que lhes dirigi na Carta apostólica Rosarium Virginis Mariae : "A família que reza unida, permanece unida. O Santo Rosário, por antiga tradição, presta-se sobretudo para ser a oração com a qual a família se reencontra" (n. 41).

Concedo-vos a todos vós com afeto, queridos Prelados Auditores, Oficiais e Advogados da Rota Romana, a minha Bênção!

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II À COMISSÃO PARA O DIÁLOGO COM AS IGREJAS DO ORIENTE

28 de Janeiro de 2003

Eminências Excelências Queridos Sacerdotes

É-me grato dar as boas-vindas aos membros da Comissão preparatória encarregada da organização de um diálogo teológico entre a Igreja católica e as antigas Igrejas do Oriente.

Em primeiro lugar, saúdo os representantes das antigas Igrejas do Oriente. Através de vós, transmito a minha saudação fraternal aos meus veneráveis Irmãos, Chefes das Igrejas que vós representais: Sua Santidade o Papa Shenouda III, Sua Santidade o Patriarca Zakka I Iwas, Sua Santidade o Catholicos Karekin II, Sua Santidade o Catholicos Aram I, Sua Santidade o Patriarca Paulo, Sua Santidade o Patriarca Jacob e Sua Santidade o Patriarca Basílio Mar Tomás Mateus II. É com gratidão que me recordo das várias oportunidades que tive de os encontrar e de revigorar os vínculos de caridade entre nós. Dirijo as minhas saudações inclusivamente aos membros católicos desta Comissão preparatória, em representação das diversas comunidades do Oriente e do Ocidente.

Já se alcançou um progresso ecuménico substancial entre a Igreja católica e as diversas e antigas Igrejas do Oriente. Obtiveram-se esclarecimentos essenciais no que diz respeito às controvérsias tradicionais sobre a Cristologia, e isto permite-nos professar em conjunto a fé que nos é comum. Este progresso é extremamante encorajador, uma vez que "nos mostra, de facto, que o caminho percorrido é justo e que razoavelmente se pode esperar encontrar juntos a solução para as outras questões controversas" (Ut unum sint, 63). Que os vossos esforços em ordem a criar uma Comissão Conjunta para o Diálogo Teológico constitua um passo a mais rumo à plena comunhão na verdade e na caridade.

Muitos de vós provindes do Médio Oriente e dos Países limítrofes. Oremos em conjunto, para que esta região seja preservada da ameaça da guerra e de posteriores focos de violência. Que os nossos esforços ecuménicos estejam sempre voltados para a edificação de uma "civilização de amor", fundada na justiça, na reconciliação e na paz.

Sobre vós e todas as pessoas que estão confiadas ao vosso cuidado pastoral, invoco cordialmente as abundantes bênçãos de Deus Todo-Poderoso.
IV ENCONTRO MUNDIAL DAS FAMÍLIAS

DISCURSO DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II

25 de Janeiro de 2003

1. Com a mente e a oração estou convosco, amadas famílias das Filipinas e de mais diversas regiões da terra, que vos congregastes em Manila para o vosso IV Encontro Mundial: saúdo-vos afectuosamente em nome do Senhor!

Nesta ocasião, tenho a alegria de enviar uma saudação cordial e propiciadora das melhores bênçãos para todas as famílias do mundo, que vós representais: a todas «graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai e da de Jesus Cristo, nosso Senhor» (1 Tm 1, 2).

Agradeço ao Senhor Cardeal Alfonso López Trujillo, Legado Pontifício, as amáveis palavras que em vosso nome me dirigiu. A ele e aos seus colaboradores no Pontifício Conselho da Família desejo exprimir o meu apreço pelo largo empenho e solicitude que puseram na preparação deste Encontro. A minha viva gratidão ao Senhor Cardeal Jaime Sin, Arcebispo de Manila, que generosamente vos acolhe nestes dias.

2. Sei que, na sessão teológico-pastoral que acabastes de celebrar, aprofundastes o tema: «A família cristã, boa nova para o terceiro milénio». Escolhi estas palavras para o vosso Encontro Mundial, a fim de sublinhar a sublime missão da família que, tendo acolhido o Evangelho e deixando-se iluminar pela sua mensagem, assume o inevitável compromisso de tornar-se sua testemunha.

Queridas famílias cristãs, anunciai com alegria ao mundo inteiro o tesouro maravilhoso de que sois portadoras enquanto igrejas domésticas! Esposos cristãos, na vossa comunhão de vida e amor, na vossa mútua entrega e no acolhimento generoso dos filhos, sede em Cristo luz do mundo! O Senhor pede-vos para serdes cada dia uma lâmpada que não fica escondida, mas é colocada «em cima do velador e assim alumia a todos os que estão em casa» (Mt 5, 15).

3. Antes de mais nada, sede «boa nova para o terceiro milénio», vivendo com empenho a vossa vocação. O matrimónio, que um dia mais ou menos distante celebrastes, é o vosso modo específico de ser discípulos de Jesus, de contribuir para a edificação do Reino de Deus, de caminhar para a santidade a que é chamado todo o cristão. Como afirma o Concílio Vaticano II, os esposos cristãos, cumprindo a sua missão conjugal e familiar, «avançam sempre mais na própria perfeição e mútua santificação» (Gaudium et spes, 48).

Acolhei plenamente e sem reservas o amor que, no sacramento do matrimónio, Deus Se antecipa a dar-vos, tornando-vos assim capazes de amar (cf. 1 Jo 4, 19). Permanecei sempre ancorados nesta certeza, a única que pode dar sentido, força e alegria à vossa vida: o amor de Cristo jamais se afastará de vós, não vacilará a sua aliança de paz convosco (cf. Is 54, 10). Os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis (cf. Rm 11, 29). Ele gravou o vosso nome nas palmas das suas mãos (cf. Is 49, 16).

4. A graça, que recebestes no matrimónio e que perdura no tempo, provém do coração trespassado do Redentor, que Se imolou no altar da Cruz pela Igreja, sua esposa, afrontando a morte para a salvação de todos.

Por isso, esta graça traz consigo a peculiaridade da sua origem: é a graça do amor que se oferece, do amor que se dá e perdoa; do amor altruísta, que se esquece da dor própria; do amor fiel até à morte; do amor fecundo de vida. É a graça do amor benevolente, que tudo crê, tudo suporta, tudo espera, tudo desculpa, do amor que não tem fim e sem o qual tudo o mais nada é (cf. 1 Cor 13, 7-8).

Com certeza que isto não é sempre fácil, e na vida diária não faltam as ciladas, as tensões, o sofrimento e mesmo o cansaço. Mas, no vosso caminho, não estais sozinhos. Convosco vive e actua Jesus, como esteve em Caná da Galileia, numa hora de aflição para aqueles esposos recém-casados. De facto, o Concílio lembra também que o Salvador vem ao encontro dos esposos cristãos e permanece com eles para que, assim como Ele amou a Igreja e Se entregou por ela, de igual modo os esposos, dando-se um ao outro, se amem com perpétua fidelidade (cf. Gaudium et spes, 48).

5. Esposos cristãos, sede «boa nova para o terceiro milénio», testemunhando com convicção e coerência a verdade acerca da família.

A família fundada sobre o matrimónio é património da humanidade, constitui um bem grande e sumamente precioso, necessário para a vida, o desenvolvimento e o futuro dos povos. Segundo o plano da criação estabelecido desde o princípio (cf. Mt 19, 4.8), aquela é o âmbito onde a pessoa humana, feita à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26), é concebida, nasce, cresce e se desenvolve. A família, enquanto formadora por excelência de pessoas (cf. Familiaris consortio , 19-27), é indispensável para uma verdadeira «ecologia humana» (Centesimus annus , 39).

Agradeço os testemunhos que destes nesta tarde e que acompanhei com atenção. Fazem-me recordar a experiência adquirida como sacerdote, como Arcebispo em Cracóvia e ao longo destes quase 25 anos de Pontificado: como já afirmei mais vezes, o futuro da humanidade passa pela família (cf. Familiaris consortio , 86).

Recomendo-vos, queridas famílias cristãs, que testemunheis com a vida de cada dia que, mesmo entre muitas dificuldades e obstáculos, é possível viver em plenitude o matrimónio como experiência repleta de sentido e como «boa nova» para os homens e mulheres do nosso tempo. Sede protagonistas na Igreja e no mundo: isto é uma exigência que brota do próprio matrimónio que celebrastes, do vosso ser igreja doméstica, da missão conjugal que vos caracteriza como células primordiais da sociedade (cf. Apostolicam actuositatem, 11).

6. Finalmente, para serdes «boa nova para o terceiro milénio», queridos esposos cristãos, não esqueçais que a oração em família é garantia de unidade num estilo de vida coerente com a vontade de Deus.

Recentemente, ao proclamar o Ano do Rosário, recomendei esta devoção mariana como oração da família e pela família: de facto, ao recitar o Rosário, «põe-se Jesus no centro, partilham-se com Ele alegrias e sofrimentos, colocam-se nas suas mãos necessidades e projectos, e d'Ele se recebe a esperança e a força para o caminho» (Rosarium Virginis Mariæ , 41).

Enquanto vos confio a Maria, Rainha da Família, para que acompanhe e sustente a vossa vida, tenho a alegria de anunciar-vos que o V Encontro Mundial das Famílias realizar-se-á em Valência, Espanha, no ano 2006.

Concedo agora a todos a minha Bênção, que vos deixo com uma recomendação: com a ajuda de Deus, fazei do Evangelho a regra fundamental da vossa família, e da vossa família uma página do Evangelho escrita para o nosso tempo!

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II NO CONTEXTO DA "JORNADA ACADÉMICA" DO PONTIFÍCIO CONSELHO PARA OS TEXTOS LEGISLATIVOS

Sexta-feira, 24 de Janeiro de 2003

1. Sinto-me muito feliz por vos receber, estimados participantes na Jornada Académica organizada pelo Pontifício Conselho para os Textos Legislativos sobre o tema "Vinte anos de experiência canónica", que se passaram desde que, a 25 de Janeiro de 1983, tive a alegria de promulgar o novo Codex Iuris Canonici. Agradeço de coração ao Presidente do Pontifício Conselho, ao Arcebispo Julián Herranz, pelos sentimentos expressos em nome de todos e pela eficaz exposição do Congresso.

A coincidência entre a data de promulgação do novo Código de Direito Canónico e a do primeiro anúncio do Concílio dois acontecimentos que têm a data de 25 de Janeiro leva-me a recordar mais uma vez a relação íntima que existe entre o Concílio e o novo Código. De facto, não devemos esquecer-nos de que o Beato João XXIII, ao manifestar a intenção de proclamar o Concílio Vaticano II, revelava poder proceder também à reforma da disciplina canónica. Pensando precisamente nisto, na Constituição apostólica Sacrae disciplinae leges eu realçava que tanto o Concílio como o novo Código tinham surgido "de uma única e mesma intenção, que é a de restaurar a vida cristã. De uma intenção como esta, de facto, toda a obra do Concílio tirou as suas normas e a sua orientação" (AAS , 75, 1983, cap. II, pág. VIII).

Durante estes vinte anos pudemos constatar até que ponto a Igreja precisa do novo Código. Felizmente as vozes de contestação do direito já estão muito ultrapassadas. Contudo, seria ingénuo ignorar o que ainda falta fazer para consolidar nas actuais circunstâncias históricas uma verdadeira cultura jurídico-canónica e uma práxis eclesial atenta à dimensão pastoral intrínseca às leis da Igreja.

2. A intenção que presidiu a redacção do novo Corpus Iuris Canonici foi sem dúvida a de pôr à disposição dos Pastores e de todos os fiéis um instrumento normativo claro, que contivesse os aspectos essenciais da ordem jurídica. Mas seria completamente simplicista e desorientador conceber o direito da Igreja como um mero conjunto de textos legislativos, segundo a óptica do positivismo jurídico. De facto, as normas canónicas baseiam-se numa realidade que a transcende; esta realidade não é composta só de dados históricos e contingentes, mas inclui também aspectos essenciais e permanentes nos quais se concretiza o direito divino.

O novo Código de Direito Canónico e este critério é válido também para o Código dos Cânones das Igrejas Orientais deve ser interpretado nesta óptica teológica. Desta forma, podem ser evitados certos reducionismos hermenêuticos que empobrecem a ciência e a práxis canónica, afastando-as do seu verdadeiro horizonte eclesial. Isto verifica-se, como é evidente, sobretudo quando a legislação canónica é colocado ao serviço de interesses alheios à fé e à moral católica.

3. Por isso, em primeiro lugar, o Código deve ser contextualizado na tradição jurídica da Igreja. Não se trata de cultivar uma erudição histórica abstracta, mas de penetrar aquele fluxo de vida eclesial que é a história do Direito Canónico, para dela tirar a inspiração para a interpretação da norma. Com efeito, os textos do Código inserem-se num conjunto de fontes jurídicas, que não é possível ignorar sem se expôr à ilusão racionalista de uma norma satisfatória de qualquer problema jurídico concreto. Uma mentalidade assim abstracta revela-se infecunda, sobretudo porque não tem em conta os problemas reais e os objectivos pastorais que estão na base das normas canónicas.

Ainda mais perigoso é o reducionismo que pretende interpretar e aplicar as leis eclesiásticas separando-as da doutrina do Magistério. Segundo esta visão, os pronunciamentos doutrinais não teriam qualquer valor disciplinar, valor que deveria ser reconhecido unicamente aos actos formalmente legislativos. É evidente que, nesta óptica reducionista, por vezes chegou-se a fazer a hipótese de duas soluções diferentes para o mesmo problema eclesial: uma inspirada nos textos magisteriais, a outra nos canónicos. Na base de uma semelhente orientação econtra-se uma ideia de Direito Canónico muito empobrecida, como se ele se identificasse unicamente com o conteúdo positivo da norma. Não é assim: de facto, a dimensão jurídica, sendo teologicamente intrínseca às realidades eclesiais, pode ser objecto de ensinamentos magisteriais, até definitivos.

Este realismo na concepção do direito funda uma autênctica interdisciplinaridade entre a ciência canónica e as outras ciências sagradas. Um diálogo deveras proveitoso deve partir daquela realidade comum que é a própria vida da Igreja. Mesmo estudada sob diferentes pontos de vista nas várias disciplinas científicas, a realidade eclesial permanece igual a si mesma e, como tal, pode permitir um intercâmbio recíproco entre as ciências, sem dúvida útil para cada uma delas.

4. Uma das novidades mais significativas do Código de Direito Canónico, assim como do Código dos Cânones das Igrejas Orientais, que se lhe seguiu, é a normativa que os dois Textos contêm sobre os deveres e os direitos de todos os fiéis (cf. CIC, câns. 208-223; CCIO, câns. 7-20). Na realidade, a referência da norma canónica ao mistério da Igreja, desejado pelo Vaticano II (cf. Decr. Optatam totius, 16), passa também através da via-mestra da pessoa, dos seus direitos e deveres, tendo, sem dúvida, presente o bem comum da sociedade eclesial.

Precisamente esta dimensão personalista da eclesiologia conciliar permite compreender melhor o específico e insubstituível serviço que a Hierarquia eclesiástica deve prestar para o reconhecimento e a tutela dos direitos dos indivíduos e das comunidades na Igreja. Nem na teoria nem na prática se pode prescindir do exercício da potestas regiminis e, mais em geral, de todo o munus regendi, hierárquico, como caminho para declarar, determinar, garantir e promover a justiça no interior da Igreja.

Todos os instrumentos típicos através dos quais se exerce a potestas regiminis leis, actos administrativos, processos, sanções canónicas adquirem desta forma o seu verdadeiro sentido, o de um autêntico serviço pastoral em favor das pessoas e das comunidades que compõem a Igreja. Por vezes este, serviço pode ser mal compreendido e contestado: é precisamente então que ele se revela mais necessário para evitar que, em nome de pretensas exigências pastorais, sejam tomadas decisões que podem causar e até favorecer inconscientemente verdadeiras injustiças.

5. Consciente da importância do contributo específico que, como canonistas, dais em benefício da Igreja e das almas, exorto-vos a perseverar com renovado impulso na vossa dedicação ao estudo e à formação canónica das novas gerações. Isto não deixará de favorecer um significativo contributo eclesial àquela paz, obra da justiça (cf. Is 32, 17), pela qual pedi que se reze sobretudo neste Ano do Rosário (cf. Carta apost. Rosarium Virginis Mariae, ns. 6 e 40).

Com estes votos concedo-vos a todos com afecto a minha Bênção.


DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS BISPOS DO REGIONAL SUL I DO BRASIL EM VISITA "AD LIMINA APOSTOLORUM"

23 de janeiro de 2003

Senhores Cardeais, Venerados Irmãos no Episcopado

1. Depois de me ter encontrado pessoalmente com cada um de vós nos dias passados, me é grato agora saudar-vos conjuntamente e, por vosso intermédio, agradecer a Deus por esta ocasião de entrar em contato com as Comunidades cristãs que representais, a todas elas dirigindo neste momento uma saudação afetuosa e sincera.

Transmiti-lhes, amados Irmãos, os meus mais cordiais sentimentos, assegurando a minha solidariedade espiritual aos sacerdotes, aos religiosos e às religiosas, ao laicado cristão, aos jovens, aos doentes e a todas as componentes do Povo de Deus. A D. Fernando Antônio Figueiredo, Bispo de Santo Amaro e Presidente do Regional Sul 1, o meu agradecimento pela sua gentil atenção e pelas expressões de obséquio que há pouco me dirigiu também em vosso nome.

2. «A época em que vivemos - escrevi na encíclica Redemptoris missio - é ao mesmo tempo dramática e fascinante. Se por um lado parece que os homens vão no encalço da prosperidade material, mergulhando cada vez mais no consumismo materialista, por outro lado manifestam a angustiante procura de sentido, a necessidade de vida interior, o desejo de aprender novas formas e meios de concentração e de oração. Não só nas culturas densas de religiosidade, mas também nas sociedades secularizadas, procura-se a dimensão espiritual da vida como antídoto à desumanização» (n.º 38). É o chamado «ressurgimento religioso» que, embora não desprovido de ambiguidades, contém todavia fermentos e estímulos a não transcurar. Vós percebeis quão difundida é esta exigência de Deus entre a vossa gente, uma população tradicionalmente ancorada nos perenes princípios do cristianismo, mas submetida a influências negativas de vária ordem.

Porventura o fenômeno das seitas, que também nas vossas terras se está difundindo com incidência intermitente de zona para zona e com pontas acentuadas de proselitismo entre as pessoas mais fracas social e culturalmente, não é um sinal concreto de uma insatisfeita aspiração ao sobrenatural? Não constitui ele para vós, Pastores, um autêntico desafio a renovar o estilo do acolhimento dentro das comunidades eclesiais e um estímulo premente a uma nova e corajosa evangelização, que desenvolva formas adequadas de catequese, sobretudo para os adultos?

1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   105


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal