Mesa redonda



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Encontro29.07.2016
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MESA REDONDA

CONSTRUINDO O DIÁLOGO PSICÓLOGOS-EDUCADORES NO ATENDIMENTO A CRIANÇAS E JOVENS COM QUEIXA ESCOLAR


Coordenação: Ms. Roseli F. L. Caldas (Universidade Paulista e Universidade P. Mackenzie)

Participantes: Profa. Dra. Adriana M. Machado (IP – USP)

Ms. Marlene Isepi (Escola de Aplicação FE – USP)

Fala de Abertura
Ms. Roseli F. L. Caldas
Construir a possibilidade de diálogo entre educadores e psicólogos visando buscar outras possibilidades de atuação diante das Queixas Escolares implica em estabelecer uma nova relação entre Psicologia e Educação.

Ao longo da história Psicologia e Educação tem sido cúmplices de ideologias que atribuem ao indivíduo a responsabilidade por seu sucesso ou fracasso escolar.

A Psicologia aproximou-se da Educação pondo à disposição suas técnicas de avaliação que primam por encontrar nos alunos os elementos explicativos de suas dificuldades. Atributos psíquicos, déficits, características de personalidade, estruturas familiares, histórias passadas têm sido tomados como determinantes para o desenvolvimento escolar de muitas crianças, em especial, daquelas pertencentes às classes populares.

Uma história de parceria perniciosa entre Educação e Psicologia que tem sido responsável por muitos equívocos, cujo preço tem sido pago por tantos alunos, ao longo do tempo.

Questões políticas, sociais, raciais, econômicas ficaram, por muito tempo, fora do foco do olhar dirigido a este imenso número de alunos tidos como possuidores de Problemas de Aprendizagem.

A partir da década de 80, quando os primeiros trabalhos de Maria Helena Souza Patto põem-se a denunciar a submissão da Psicologia à Ideologia, novas discussões vêm sendo feitas no sentido da construção de outra história. De uma história que amplie o foco, antes voltado exclusivamente para o aluno e sua família.

No entanto, alterar este olhar tão cristalizado exige um esforço impossível de ser conseguido sem o fortalecimento mútuo entre Psicologia e Educação.

É preciso darmo-nos as mãos para a busca de saídas aos graves problemas da Educação Brasileira, especialmente no que diz respeito às elevadas taxas de alunos a quem são atribuídas dificuldades de aprendizagem.

Novamente juntas, Psicologia e Educação devem encorajar-se a práticas inovadoras.

Para tanto algumas atitudes devem ser desenvolvidas. Quero destacar duas:



  • Humildade – Deixar de lado qualquer pretensão de valorar as ciências como melhores ou piores, como mais ou menos reconhecidas. Psicologia e Educação são caminhos diferentes cujo alvo pode ser o mesmo: construir práticas educativas que favoreçam os processos de humanização e a capacidade de pensamento crítico das novas gerações.

  • Valorização do professor enquanto alguém que deixa marcas nos alunos. Professores não são pessoas de nossa família ou nosso rol de amigos. No entanto, são lembrados ao longo de nossas vidas pelas marcas deixadas. Seja no sentido positivo ou negativo. Muitos fazem parte de nossas memórias. Isto deve trazer ao mesmo tempo privilégio e responsabilidade aos educadores. Creio que o melhor caminho para o estabelecimento de uma parceria mais construtiva entre professores e psicólogos, é que nós, psicólogos, de fato valorizemos o trabalho dos professores e mostremos esta valorização em nossas relações com a escola. É preciso tranformar nosso olhar que, muitas vezes, tem criticado a culpabilização dos alunos e tem lançado aos professores toda a responsabilidade sobre o caos da Educação. Citando Heller, juízos provisórios que passam a definitivos e logo se transformam em preconceitos; generalizações que fazermos categorizando as pessoas sem muito cuidado; críticas feitas de um lugar diferente daquele ocupado pelos protagonistas da educação.

Agnes Heller nos convida à reflexão sobre nosso cotidiano enquanto psicólogos e educadores. Olharmos cuidadosamente para nossas ações e refletirmos sobre nossos caminhos, para, então, JUNTOS questionarmos o cotidiano escolar que têm produzido alunos com queixas escolares e propormos possibilidades efetivas de transformação.

INTERVENÇÃO

Profa. Dra. Adriana Marcondes Machado

(IP – USP)

Vamos à escola para intervir em um processo de produção. Entramos nessa produção e exercemos uma ação que visa alterar um campo de forças (saberes/poderes). Essa atitude exige clareza nos objetivos, exige bastidores, estratégias, avaliações. É uma ação política que se dá nos encontros, na experimentação. Não vamos mostrar nada ao professor, não vamos convencer o professor de nada, vamos fazer aparecer forças que se encontram submetidas a forças hegemônicas. Como? Criando dispositivos que visam afetar o campo problemático de maneira que as questões possam ser entendidas, percebidas, sentidas, como efeito desse campo. Isso se consegue mais pelo contágio do que pela via da conscientização.

Foucault apresenta uma concepção de história como campo de forças em luta onde discursos, práticas e saberes se produzem e se confrontam, onde um certo modo de funcionamento se hegemoniza dentre outras possibilidades. Desses confrontos emergem saberes e práticas dominantes que constroem certos modos de vida e de existência. Trabalhando com essa concepção, precisamos trazer à cena o que é considerado lixo, resíduo, sem brilho, o que não foi dito, e, portanto, temos como desafio fortalecer forças que estão presentes e não dominam. Para que isso aconteça, é importante que a individualização seja questionada. Mais do que questionada, seja rompida, e que se faça emergir as forças que a constitui. Desde o século XVIII, a individualização é um modo dominante de constituição dos objetos-sujeitos. A categoria de indivíduo tomada como objeto de estudo pelas psicologias é uma forma datada de subjetivação que, transformada em natural, única e universal “oculta” os processos sociais de produção de subjetividade que a engendraram.

O conceito de produção de subjetividade para autores como Foucault e Deleuze, abre a possibilidade de pensarmos em intervirmos nos próprios modos de subjetivação – sempre maquinados, fabricados, transformados no registro social. A produção de processos de subjetivação nesse sentido, e não o sujeito, passa a ser um conceito clínico importante para o trabalho. Onde intervimos? Nas instituições que se instrumetam nos estabelecimentos. Aqui utilizamos o conceito de instituição da análise institucional (Lourau): instituição (difere de estabelecimento) como algo não localizável, como forma que produz e reproduz as relações sociais. Certas práticas tomadas como universais (no campo da psiquiatria e da educação, por exemplo), instrumentam certas hipóteses de base (separação doentes mentais x normais, ou mestres x aprendizes, por exemplo), que precisam, estas sim, serem interrogadas quanto às condições históricas de sua produção e reprodução.

A análise institucional pode intervir em estabelecimento e com dispositivos, mas sempre visando a apreender a instituição em seu sentido ativo. Um SERVIÇO ESCOLA, por exemplo, como o SERVIÇO DE PSICOLOGIA ESCOLAR no qual atuo, requer que indaguemos sobre as instituições que se instrumentam no estabelecimento desse Serviço e em suas práticas. O campo de instituições (no sentido conceitual) assim parece quase infinito: aí se instrumentam instituições como formação, avaliação, a psicologia, o contrato, a subjetividade, a saúde mental, a educação inclusiva, o domínio do público e do privado, da supervisão, a universidade.

Dessa maneira podemos afirmar o ato político que toda investigação constitui na medida em que desconstruimos os saberes e práticas que atravessam e se instrumentam em nossas ações com a queixa escolar (análise da implicação/Lourau). Desnaturalizar o instituído, criar novos modos de existência, restituir ao coletivo o que está aprisionado no corpo de uma criança, é singularizar. É fazer aparecer a produção múltipla presente em uma história, em um caso, com o objetivo de alterarmos o campo produtivo.



Fala de Marlene Isepi (Escola de Aplicação – FE – USP)

A partir do relato da história de um adolescente do Ensino Fundamental, analisaremos situações recorrentes em escolas e clínicas-escolas de Psicologia nos processos de triagem e avaliação.



Considerando que o ser humano é um ser social que se constitui nas relações grupais e institucionais, apresentaremos informações que possibilitem conhecer a instituição escolar em questão, sua postura frente aos alunos, o contato com as famílias e os recursos humanos e materiais disponíveis para, finalmente, contribuir para a construção do diálogo entre psicólogos e educadores no atendimento a crianças e jovens com queixa escolar.

O acompanhamento escolar na infância e adolescência, o trabalho da orientação pedagógica com alunos, professores, funcionários e famílias, a importância do registro dos atendimentos efetuados e a possibilidade do auxílio de profissionais externos à escola para auxiliar alunos, responsáveis e a própria intituição serão assuntos abordados durante a exposição e debate.


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