Mestranda de antropologia social universidade federal do para



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III SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTORIA DAS RELIGIÕES

A PRESENÇA FEMININA NO MINISTÉRIO DE CURA CARISMÁTICA

KÁTIA BÁRBARA DA SILVA SANTOS

MESTRANDA DE ANTROPOLOGIA SOCIAL

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARA

kbss@amazon.com.br

BELÉM/PA-2001


A PRESENÇA FEMININA NO MINISTÉRIO DE CURA CARISMÁTICA


Kátia Bárbara S. Santos

A presença das mulheres é majoritária nas reuniões do movimento Carismático católico ( MACHADO,1996; PRANDI,1997). A maioria dos participantes do ritual de cura carismática são mulheres; parte do discurso é direcionada a elas, e sobre elas, onde podemos identificar algumas características atribuídas como próprias delas, que ressaltam a idéia de sua maior capacidade de perdoar, de ser generosa e de compreender melhor os problemas da vida privada. O objetivo deste trabalho é mostrar como a performance da cura carismática participa, nesse sentido, na reprodução do modelo hierárquico de gênero. A pesquisa a partir da qual discuto a questão vem se desenvolvendo junto ao ministério de cura da Igreja de São José de Queluz1, Belém/ Pa, onde os ministros vêm desenvolvendo métodos e técnicas que visam à cura do corpo e da alma.



Um breve histórico sobre a Renovação Carismática Católica

Em 1976, surge um novo movimento religioso nos Estados Unidos, na cidade norte americana de Pittsburgh. Em um retiro espiritual, que envolveu professores e alunos da Universidade de Duquesne, os participantes experimentaram o batismo no Espírito Santo, falaram em "línguas", alguns obtiveram o dom da profecia ou do conhecimento, vivenciando uma profunda transformação espiritual. Lançavam-se assim as bases de um movimento pentecostal dentro da Igreja Católica na qual seus adeptos "centram a vida religiosa na esfera da intimidade, desenvolvem acentuado controle moral no âmbito da família, dos costumes e da sexualidade, desinteressam-se completamente dos problemas de caráter coletivo e, por conseguinte, da militância política" (PRANDI, 1997: 15-32).


O movimento Carismático nasce nos Estados Unidos em 1967, trazendo a pentencostalização à igreja católica. Neste movimento os leigos passam a vivenciar o poder do Espírito Santo em seus rituais religiosos. Duas versões são relatadas quanto à chegada deste movimento ao Brasil. A primeira, divulgada pela Secretária Nacional da RCC, que teria surgido com alguns padres jesuítas em 1972, que o disseminaram a partir de São Paulo, a várias regiões do Brasil; a segunda, que se encontra no trabalho de Dom Cipriano Chagas em 1969, através dos padres jesuítas Eduardo Dougherty e Haroldo Rahm. Ambas as versões tem um ponto em comum: o Movimento Carismático Católico (MCC) chegou ao país assim que surgiu nos EUA (CARRANZA 1998, PRANDI 1997, PRANDI & SOUZA, 1996).

A versão da entrada deste movimento em Belém, data de 1973, na paróquia de Nossa Senhora de Nazaré, por um grupo de leigos e sacerdotes que criaram o primeiro Grupo de Oração da cidade denominado de "Gloria no Senhor", com encontros semanais onde as pessoas participam dos grupos de oração para orarem, louvarem a Deus com cânticos e através do exercício dos dons do Espírito Santo, para as petições de graça e cura. Esses grupos de oração são o ponto alto da vida carismática, ocorrendo de várias formas: as pessoas cantam, dançam, pulam, trocam experiências e recebem as bênçãos que Jesus pode lhes dar (MAUÉS, 2000).

A terapêutica religiosa é uma prática constante no Movimento Carismático Católico pelos grupos de oração, através de oficinas, seminários, encontros, congressos e, principalmente, dos ministérios de cura com reuniões especificas para a cura de doenças.

Uma janela aberta para a performance da cura

Na igreja São José de Queluz, há algum tempo, um grupo de católicos desenvolve trabalhos orientados para aqueles que buscam a cura do corpo e da alma. Todas as quintas feiras das 16 às 19 horas, dez leigos, homens e mulheres, reúnem-se para exercerem o dom da escuta, da cura, para falarem da palavra de Deus e atenderem as mais diversas doenças físicas e espirituais formam eles o ministério de cura "Realeza de Deus" que atua naquela igreja.

Para as reuniões acontecerem é necessário que os ministros de cura jejuem, assistam à missa diariamente, recebam a eucaristia. A cura moral dos próprios ministros deve ser um processo constante, levando-os, conseqüentemente, ao caminho da salvação e facilitando com que as graças do Espírito Santo cheguem aos doentes.

O ministério de cura "Realeza de Deus" é, também, uma espécie de estágio para os neófitos que pretendem seguir a carreira de ministro. Mas, alguns requisitos são importantes para isso: ter uma vida em oração, dar testemunho, ter disponibilidade para criar uma intimidade com Deus, assumir todas as responsabilidades de um ministro, ser "tocado" para participar do ministério de cura, identificar-se com ele, renunciar aos vícios, ser um membro ativo do grupo de oração de sua paróquia, ter vocação para o ministério, servindo nele como “um canal de graça”. Segundo os ministros, ser um “instrumento disponível nas mãos de Deus”. Esses são elementos indispensáveis na preparação espiritual para o processo da cura.

Tanto os ministros quantos os que freqüentam o ministério de cura acreditam que após uma tarde de oração suas vidas podem mudar, através da revisão de seu comportamento que é reforçada através do depoimento de outras pessoas que deixaram suas vidas serem conduzidas por Jesus, que através dele buscaram a felicidade, "perdoando, sem ressentimentos, os causadores dos males que os afligiam" (MAUÉS, SANTOS &SANTOS: 2000).

Rabello (1994: 47) ao analisar o projeto de cura e as práticas rituais de três grupos religiosos, o Jarê, o culto pentecostal e o espiritismo, ressaltam que "na passagem da doença à saúde pode se dar uma reorientação mais completa do comportamento do doente, na medida em que transforma a perspectiva pela qual este percebe seu mundo e relaciona-se com outros". No ritual de que venho tratando, percebo o quanto os ministros buscam, através das praticas de cura, reorientar os participantes a um novo contexto, considerando que fora da Igreja não há salvação.

Desde o início do no ritual de cura carismática até o termino da sessão se é levado a entrar em sintonia com todo o universo mágico-religioso, através do apelo emocional a uma efetiva intimidade com Deus na crença de um Pai que está muito mais próximo de nós. Cânticos, orações, leitura da bíblia e depoimentos são métodos e técnicas utilizados na terapia de cura nesse tratamento religioso. Para Rabello (1994 ) “a utilização de determinados meios durante a performance facilita a construção de certos cenários, contribuindo para persuadir os indivíduos a reorientarem suas ações em função dos novos contextos construídos".

Csordas (1994) um dos pesquisadores que tem realizado vários estudos sobre a RCC nos Estados Unidos, destaca que a noção de performance é um elemento central para o estudo da cura religiosa. A abordagem performática oferece a oportunidade, dentro do contexto da cura religiosa, de "um modo de alcançar e formular a especificidade da experiência dos participantes".

Tanto os ministros quanto às pessoas que freqüentam o ministério de cura acreditam que, após uma tarde de oração, suas vidas podem mudar através da revisão do seu comportamento, reforçados pelos depoimentos de pessoas que "deixaram suas vidas serem conduzidas por Jesus", que através dele buscaram e encontram a felicidade, fazendo uma retrospectiva da vida "perdoando, sem ressentimentos, os causadores dos males que as afligiam" (MAUÉS. SANTOS & SANTOS, 1999).

O ritual de cura do Ministério "Realeza de Deus"

Mais uma Quinta-feira, 15 horas2, em um dos salões paroquial da Igreja São José de Queluz, um pequeno grupo de pessoas já estava à espera de que as portas se abrissem para participarem da reunião de cura. Às 16 horas as portas foram abertas para que tivéssemos acesso ao interior da sala; ao entrarmos, sentamos nas cadeiras que estavam organizadas em forma de círculo, tomando conta de todo o salão; era um grupo formado de homens, mulheres, jovens, idosos e crianças das mais diversas faixas etárias e classes sociais. No fundo da sala podíamos ver um grupo de 10 ministros todos com um terço e a Bíblia nas mãos; no meio deste existe uma mesa onde são colocados vários terços, um crucifixo de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz, uma garrafa de cor azul com o formato da imagem de Nossa Senhora, com água benta, livros de cantos e de orações.

Uma senhora, aparentando ter mais de sessenta anos, levanta-se do meio do grupo e dá boas vindas a todos que foram chamados naquele dia para serem curados através das graças do Senhor. É a coordenadora do ministério de cura "Realeza de Deus que explica que Deus escolhe como quer nos curar, se não acontece a cura, não é porque ele não nos ama, "mas porque Deus quer o melhor para nós". Fala também que a cura poderá não ocorrer fisicamente, mas que sempre seremos curados interiormente. Esclarece que o "ministério de cura não quer dizer a mesma coisa que um grupo de oração que vocês costumam freqüentar todas as quartas-feiras na Renovação Carismática; o ministério de cura é um grupo especial para atender às pessoas que chegam ao ministério com desequilíbrio físico, psíquico, emocional, desavenças familiares, pessoas que andaram fora do caminho do senhor, em terreiros de macumba, espiritismo, e que vêm se desvencilhar destas situações, (segundo ela) o ministério está ali para ajudar na caminhada com o Senhor, depois, todos poderão retornar ao grupo de orações de suas igrejas.

Um livro de oração é retirado de cima da mesa, "Orações de Poder II", uma série de doenças foram citadas pedindo a intercessão do Espírito Santo. A coordenadora pede que vamos ao nosso passado e recordarmos de todos os momentos difíceis, das lembranças dolorosas, das pessoas que nos magoaram, pedindo a Jesus que nos cure de todas as mágoas. Em seguida, os ministros de cura distribuem o livro de canto "Louvemos ao Senhor", de onde é escolhido o canto Espírito Santo.


Espírito, Espírito, Espírito Santo de Deus. (bis)

Vem controlar todo o meu ser, vem dirigir o meu viver, o meu pensar, o meu falar, o meu sentir, o meu agir.
Lágrimas, sorrisos misturam-se. Assim que o canto termina, a coordenadora do grupo pede que abracemos o irmão ao nosso lado. Neste momento há uma certa agitação e todos procuram estender as mãos em direção uns dos outros, pronunciando a seguinte expressão: "a paz do Senhor, irmão". Em seguida, os terços foram distribuídos e por mais de meia hora ficamos orando; logo em seguida passamos para a "leitura da palavra" (da Bíblia). D. Joana3 – coordenadora do ministério, pede que quem tenha a Bíblia procure se aproximar de quem não tem; alguns ministros cedem suas Bíblias para que outras pessoas possam ler. É pedido a alguém do salão que faça a leitura da palavra e todos ficam em silêncio até que a leitura terminar.

Encerrada a leitura, D. Joana pediu que falássemos da parte que mais tocou nosso coração, "o que o nosso coração fala pra gente". Nesse momento poucas pessoas participam, a maior participação é dos ministros e de algumas pessoas que são convidadas a darem testemunho de suas curas. Os relatos dos convidados são festejados com aplausos e louvores.

Assim que termina a leitura da Bíblia, Dona Joana se retira da sala, encaminhando para uma outra sala as pessoas que queriam conversar com ela, a fim de serem feitos os relatados dos motivos que os levaram a procurar o ministério da cura. Em resposta, algumas pessoas levantam a mão, e aos poucos são atendidas.

Às 18 horas, os ministros fecham as janelas e as portas. Enquanto fazem isso ensaiam cantos, molham-se com água benta, passando-a nas mãos, nos braços e atrás da nuca.

Quatro cadeiras são colocadas no meio do salão e aos poucos as pessoas são chamadas a ocuparem os lugares. A Bíblia nos é dada aberta, colocada em cima de nossas pernas, onde colocamos as mãos e fechamos os olhos. Um ministro estende suas mãos em nossa cabeça, enquanto a outra está por traz, na mesma posição, intercedendo, outros ministros ficam cantando durante estes momentos. Cria-se forte clima emocional, somos convidados a entrar numa maior intimidade com o Espírito Santo, e a fazer uma auto-análise de nossas vidas, pedindo perdão pelos nossos pecados, e a quem tenhamos ofendido. Muitas vezes, segundo o ministério, essas situações impedem o processo da cura. Ressaltam que "o Pai nos perdoa sempre". Algumas pessoas chegam a chorar, outras ficam pensativas, alguns acompanham as músicas, aos poucos todos são atendidos.

Ao final da reunião apenas os ministros permanecem para a oração de agradecimento pelo trabalho, nesse momento os ministros compartilham algumas visões que presenciaram no ritual, é comum relatarem que visualizaram a presença de "Jesus curando seus filhos", "Maria passeando pelo salão passando a mão na cabeça de cada um de nós", "legiões de anjos cantando e dançando". Esses momentos são festejados com louvor. O Pai Nosso é ultima oração, reunidos com mãos dadas agradecem por mais uma oportunidade de servir ao Senhor.



Gênero, "uma categoria útil de analise" e imprensidível ao universo religioso.

Machado & Mariz, (1997: 71) nos chamam a atenção para uma variável-chave, que é o gênero, para quaisquer estudos sobre religião no Brasil, onde as mulheres são a maioria em todos os grupos religiosos.

O conceito de gênero esta ligada à história do movimento feminista contemporâneo que através do desenvolvimento das várias "ondas". O discurso feminista trouxe para o meio acadêmico a ferramenta que viria a desconstruir ou, quem sabe, revolucionar algumas concepções que faziam parte não só do senso comum, mas da linguagem cientifica; de que as desigualdades sociais entre homens e mulheres estariam pautadas sobre as características biológicas.

A categoria gênero segundo Bila Sorj (1992:15) envolve duas dimensões: a primeira de que as características biológicas entre os sexos não dão conta "da explicação do comportamento diferenciado do masculino e feminino observado na sociedade". Segundo, de que a organização da vida social delega de forma desigual, poderes entre os sexos, onde a mulher esta em posição de inferioridade.

A categoria gênero não vem negar as diferenças biológicas entre os "corpos sexuados" mas como essas características são reelaboradas na prática social e "tomadas por parte do processo histórico" (Louro, 1997: 22) onde as instituições, as estruturas, as práticas quotidianas, os rituais, as relações sociais como um todo, passam a ser instrumentos manipuláveis dentro de uma ordem estrutural.

Louro (1997) ajuda-nos a compreender que as concepções de gênero não se dão apenas de forma diferente entre as sociedades ou momentos históricos, mas também nos diversos grupos que constituem uma determinada sociedade: étnicos, religiosos, raciais, e de classe.

Assim percebemos que o universo da religião católica está profundamente marcado pelo discurso da diferenciação sexual que atravessa séculos. Brown (1990:19) explica que no século II D.C as mulheres eram consideras como homens imperfeitos; tal afirmação era explicada pela própria natureza, por não possuírem, na hora da fecundação, o liquido que lhes daria o "calor" e a "espirito vital". Biologicamente, "diziam os médicos, os homens eram os fetos que haviam realizado o seu potencial pleno por reunirem um excedente de 'calor' e um ardoroso ' espírito vital '.

Como o discurso da diferença dos sexos não está apenas no campo da idéias mas também das instituições, das estruturas, das práticas cotidianas, nos rituais, nos arranjos sociais e na pratica social, o ministério de cura da RCC é a minha "janela aberta" na qual através das experiências dos participantes no ritual da cura, algumas hipóteses estão sendo elaboradas e reelaboradas à medida que a pesquisa vem se desenvolvendo, e as leituras vão sendo direcionadas para o foco de analise.

Esta noção ajudou-me a tirar o véu que encobria o ritual e sua ação sobre os participantes, através de uma maior atenção aos depoimentos daqueles que tinham sido curados ou que estavam percebendo alguma mudança com relação aos problemas que os trouxeram ao ministério, assim como ao discurso dos ministros de cura, às conversas informais no final da reunião, levaram-me a dar mais atenção às transformações que diziam ter ocorrido em suas vidas a partir do momento que passaram seguir o "receituário" carismático.

Mulheres na RCC: a caminho da santificação

O século da razão trouxe consigo a fé na Ciência, como uma outra maneira de explicar “as coisas da vida”, onde a magia, o sobrenatural, as superstições, não teriam mais espaço no mundo desencantado. Mas o que temos presenciado é que não é preciso ir muito longe nas grandes cidades para depararmos com movimentos religiosos, que prometem a resolução de todas as aflições da vida cotidiana, dos mais diferentes modos, visto que o mundo moderno e institucionalizado não tem conseguido dar conta de aspectos tão específicos do dia a dia de homens e mulheres. E são as mulheres que constituem a maioria em todas as formas de filiação religiosa (PRANDI, 1997; CSORDAS, 1983; MACHADO, 1996).

Segundo Prandi, as mulheres são a maioria no movimento carismático, dizendo que isto pode ser comprovado em qualquer reunião que desejamos freqüentar: nos congressos, nas oficinas, nos retiros, nos grupos de oração, seminários, nos cursos para ministro de cura e nas missas carismáticas. (1997:16).

Como em todo e qualquer ritual de cura a RCC possui também o seu corpo de especialistas com suas práticas de cura, permitindo que o doente reoriente sua vida a partir de um novo contexto voltado para o universo religioso. O Ministério de Cura Realeza de Deus é também uma espécie de laboratório, onde os recém formados ministros, oriundos de diversas outras paróquias, fazem o aprendizado prático do como trabalhar em um ministério de cura. Assim, a quantidade de ministros participante nas reuniões é instável, sendo que o Ministério Realeza de Deus possui um quadro de ministros, composto de 10 pessoas, sendo seis mulheres e quatro homens, na faixa etária entre 40 a 70 anos. Onde 70 %4 deles vivem de aposentadoria e os 40% restantes, que são mulheres, não têm renda, são domésticas. No que se refere ao grau de formação, apenas 30% desses ministros têm curso superior, (dois homens e uma mulher); 20% o segundo Grau (duas mulheres) e a maioria, 50% (três mulheres e dois homens) têm apenas o 1o. Grau. É interessante ressaltar que a maioria dessas pessoas tornou-se ministro de cura não por ter sido um dia, por ela, beneficiada, mas, segundo eles, por terem sido tocados pelo Espírito Santo, embora todos já relataram ter sido curados em algum momento de suas vidas.

Para ser ministro de cura, mais do que ter vocação5, segundo os próprios ministros, é preciso renunciar a muitas coisas, ter uma vida de oração, dar-se como testemunho das constantes graças recebidas, ter disponibilidade para que possa criar intimidade com Deus, assumir as responsabilidades de ser um ministro, identificar-se com o ministério, renunciar aos vícios, e ser um membro ativo do grupo de oração de sua paróquia.

A função de ministro de cura requer que este esteja em constantes atividades religiosas, seja ocupando alguma outra função na igreja ou participando dos eventos promovidos pela RCC. Ao final das reuniões do ministério de cura, é comum escutarmos algumas mulheres comentarem do quanto estão atarefadas com as atividades da igreja, que precisam ter mais tempo para ficarem com seus esposos.


Os Ministros de Cura de Queluz é também uma espécie de laboratório, no qual passam vários ministros de diversas paróquias, numa espécie de "estágio" a fim de aprenderem, na prática, como trabalhar em um ministério de cura.

No caso particular das mulheres atendidas, as ministras (os) sempre procuram melhorar sua auto-estima, elas que aparecem com problemas como: depressão, traições conjugais, desavenças familiares e outros; no entanto observei que no ritual o discurso é sempre voltado para reafirmar a idéia de uma natureza feminina capaz de compreender e lidar melhor com os problemas cotidianos. Dona Joana, coordenadora do ministério de cura, durante o ritual levantou a questão da incompreensão das mulheres perante determinados comportamentos dos homens; tomou como exemplo o atraso dos homens, na chegada do trabalho, sendo acusados, pelas esposas, de estarem em companhia de outras mulheres, "de conduta duvidosa", quando muitas vezes estes homens estão conversando com os amigos de trabalho. E em vez disso aconselha que deviam perguntar como foi o seu dia, procurando logo servir seu jantar. Estas e outras situações referentes ao comportamento da mulher muitas vezes na opinião da ministra acabam interferindo na relação do casal.

Como as maiorias dos participantes do ritual de cura carismática são mulheres, grande parte dos discursos é direcionado a elas onde podemos identificar algumas construções de que a mulher tem a capacidade maior de perdoar, de ser generosa e de compreender melhor os problemas da vida privada. Segundo Machado (1996:39) devido à influência pentecostal na RCC “a busca feminina da santificação, expressa um aperfeiçoamento de alguns atributos do ideal de mulher predominante na sociedade inclusiva".

No ritual de cura cria-se uma rede de solidariedade onde há uma certa abertura no ritual para que as mulheres possam discutir sobre seus problemas familiares dentro do ministério de cura. É após a leitura da Bíblia onde todos são convidados a mostrarem o seu entendimento sobre a passagem que leram, que muitas mulheres encontram o momento para falarem de suas vidas ou através do testemunho6 o quanto Jesus vem atuando em suas vidas depois que passaram a conhecer sua palavra. Nestes momentos Maria é tomada como exemplo de mulher que soube assumir o seu papel de esposa e mãe, segundo as ministras, é através da renúncia e do perdão de tudo que "atravanque" o caminho de libertação do "homem".

A performance do ritual, que envolve todo ritual do ministério de cura "facilita a construção de certos cenários, contribuindo para persuadir os indivíduos a reorientarem sua ação em função dos novos contextos construídos" (RABELLO, 1994: 49) deste modo podemos perceber através dos discursos dos ministros e das mulheres que freqüentam o ministério, em busca da cura, o quanto através da revisão e da mudança de seu comportamento suas vidas podem assumir posturas que cada vez mais reforçam o modelo hierárquico de gêneros.

Referências Bibliográficas

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CSORDAS, Thomas J. The rhetoric of transformation in ritual healing. Culture, Medicine, and Psychiatry 7: 333-375, 1983.

__________. The Sacred Self: A cultural phenomenology of Charismatic healing. Berkeley, Los Angeles and London: University of California Press, 1994.

LOURO, Guacira Lopes. Gênero sexualidade e educação: Uma perspectiva pós-estruturalista. Petropolis Rio de Janeiro: Vozes. 1997.

MACHADO, Maria das Dores Campos e MARIZ, Cecília L- Mulheres e práticas religiosa nas camadas populares: uma comparação entre as igrejas pentecostais, as comunidades Eclesiais de Base e os grupos carismáticos- Revista brasileira de Ciências Socias n 34, v. 12, ano de 1997.

MAUÉS, R. Heraldo. O Leigo católico no Movimento Carismático em Belém, Pará. Trabalho apresentado no XXII Encontro Anual da ANPOCS, Caxambu, 27 a 31 de outubro de 1998, 1998 b.

MAUÉS, R Heraldo; K. B. Santos; M. C. Santos (2000). "Em busca da cura: ministros e "doentes" na Renovação carismática Católica". Trabalho apresentado na XXII Reunião Brasileira de Antropologia, Brasília/DF, 15-19/ 07/2000.

NICOLAU, Roseane Freitas. A aflição e a cura. In O Caminho da Fé: um estudo da conversão religiosa ao pentencostalismo e suas implicações na vida do sujeito. Dissertação de Mestrado em Antropologia. Belém: UFPA, 1997.

PIERUCCI, Flávio Antonio & Prandi, Reginaldo, A realidade social das religiões no Brasil. São Paulo: Ed. Hucitec, 1996.

PRANDI, Reginaldo. O Sopro do Espírito. São Paulo: EDUSP, 1997.

RABELLO, Miriam Cristina M. (1994). Religião, ritual e cura. In: Alves, Paulo Cezar (org.), Saúde e doença: um olhar antropológico. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 1994.

ROTHE, Rosa Marga. A chegada dos missionários “quadrangulares” na metrópole da Amazônia. In Pentecostais, Protestantes? Um estudo na Igreja do Evangelho quadrangular em Belém. Dissertação de Mestrado em Antropologia. Belém: UFPA, 1998.

SORJ, Bila. O Feminismo na Encruzilhada da Modernidade e Pós-modernidade. In. COSTA, A. de O. e BRUSCHINI, C. (Orgs.). Uma Questão de Gênero. Rosa dos Tempos, Fundação Carlos Chagas, São Paulo, 1992, p. 15-23.



 Texto provisório, sujeito a revisão e reformulações. Citar somente com autorização da autora.

1 Segundo os informantes da pesquisa, o ministério de cura de Queluz, é um dos grupos mais fortes tomado como referência para outros ministérios de cura.

2 Das 15 às 16 horas os ministros de cura oram pelo Ministério de cura.

3 Por questão ética, o nome da informante é fictício.

4 Estes dados foram obtidos em campo e através de entrevistas direcionadas com os ministros de cura.

5 Alguns ministros foram chamados pela coordenadora do Ministério de cura Realeza de Deus para trabalharem no ministério, outros foram tocados pelo poder do Espírito Santo a fazerem parte do grupo.

6 É o ato de falar em público das graças e benefícios alcançados pelo fiel.



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