Metodologia Científica



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Metodologia Científica




  1. Prolegômenos


1.1 – O Conhecimento e seus Níveis
O homem não age diretamente sobre as coisas. Sempre há um intermediário, um instrumento entre ele e seus atos. Isto também acontece quando faz ciência, quando investiga cientificamente. Ora, não é possível fazer trabalho científico, sem conhecer os instrumentos. E estes se constituem de uma série de termos e conceitos que devem ser claramente distinguidos, de conhecimentos a respeito das atividades cognoscitivas que nem sempre entram na constituição da ciência, de processos metodológicos que devem ser seguidos, a fim de chegar a resultados de cunho científico e, finalmente, é preciso imbuir-se de espírito científico.

Se a apropriação é física, sensível, por exemplo, a representação de uma onda luminosa, de um som, o que acarreta uma modificação de um órgão corporal do sujeito cognoscente, tem-se um conhecimento sensível. Tal tipo de conhecimento é encontrado tanto em animais como no homem.

Se a representação não é sensível, o que ocorre com realidades tais como conceitos, verdades, princípios e leis, tem-se então um conhecimento intelectual.

Pelo conhecimento o homem penetra as diversas áreas da realidade para dela tomar posse. Ora, a própria realidade apresenta níveis e estruturas diferentes em sua própria constituição. Assim, a partir de um ente, fato ou fenômeno isolado, pode-se subir até situá-lo dentro de um contexto mais complexo, ver seu significado e função, sua natureza aparente e profunda, sua origem, sua finalidade, sua subordinação a outros entes, enfim, sua estrutura fundamental com todas as implicações daí resultantes.

Esta complexidade do real, objeto de conhecimento, ditará, necessariamente, formas diferentes de apropriação por parte do sujeito cognoscente. Estas formas darão os diversos níveis de conhecimento segundo o grau de penetração do conhecimento e conseqüente posse, mais ou menos eficaz, da realidade, levando ainda em conta a área ou estrutura considerada.

Ao tratar, por exemplo, do homem, pode-se considerá-lo em seu aspecto externo e aparente e dizer uma série de coisas que o bom senso dita ou que a experiência cotidiana ensinou; pode-se, também, estudá-lo com espírito mais sério, investigando experimentalmente as relações existentes entre certos órgãos e suas funções; pode-se, ainda, questioná-lo quanto a sua origem, sua liberdade e destino; e, finalmente, pode-se investigar o que dele foi dito por Deus através dos profetas e de seu enviado, Jesus Cristo.

Têm-se, assim, quatro espécies de considerações sobre a mesma realidade, o homem, e consequentemente o pesquisador está se movendo dentro de quatro níveis diferentes de conhecimento. O mesmo pode ser feito com outros objetos de investigação.

Tem-se, então, conforme o caso:



  • conhecimento empírico,

  • conhecimento científico,

  • conhecimento filosófico,

  • conhecimento teológico.




      1. Conhecimento Empírico

Conhecimento empírico, também chamado vulgar, é o conhecimento do povo, obtido ao acaso, após inúmeras tentativas. É ametódico e assistemático.

O homem comum, sem formação, tem conhecimento do mundo material exterior, onde se acha inserido, e de um certo número de homens, seus semelhantes, com os quais convive. Vê-os no momento presente, lembra-se deles, prevê o que poderão fazer e ser no futuro. Tem consciência de si mesmo, de suas idéias, tendências e sentimentos. Cada qual se aproveita da experiência alheia. Pela linguagem os conhecimentos se transmitem de uma pessoa à outra, de uma geração à outra.

Pelo conhecimento empírico, o homem simples conhece o fato e sua ordem aparente, tem explicações concernentes às razões de ser das coisas e dos homens e tudo isso obtido pelas experiências feitas ao acaso, sem método, e por investigações pessoais feitas ao sabor das circunstâncias da vida; ou então haurido no saber dos outros e nas tradições da coletividade; ou, ainda, tirado da doutrina de uma religião positiva.




      1. O Conhecimento Científico

O conhecimento científico vai além do empírico: por meio dele, além do fenômeno, conhecem-se suas causas e leis que o regem. É metódico.

Conhecer verdadeiramente, é conhecer pelas causas”, diz Bacon. Assim, saber que um corpo abandonado a si cai, que a água sobe num tubo em que se fez vácuo, etc., não constitui conhecimento científico; só o será se explicar estes fenômenos, relacionando-os com a sua causa e com sua lei.

Conhecemos uma coisa de maneira absoluta, diz Aristóteles, quando sabemos qual é a causa que a produz e o motivo porque não pode ser de outro modo; isto é saber por demonstração; por isso a ciência reduz-se à demonstração.

Daí as características do conhecimento científico:


  1. é certo, porque sabe explicar os motivos de sua certeza, o que não ocorre com o empírico;

  2. é geral, isto é, conhece no real o que há de mais universal, válido para todos os casos da mesma espécie. A ciência, partido do indivíduo procura o que nele há de comum com os demais da mesma espécie;

  3. é metódico, sistemático. O sábio não ignora que os seres e os fatos estão ligados entre si por certas relações. O seu objetivo é encontrar e reproduzir este encadeamento. Alcança-o por meio do conhecimento das leis e princípios. Por isso, toda a ciência constitui um sistema.

Além disso, são ainda propriedades da ciência a objetividade, o desinteresse e o espírito crítico.

Pode-se dizer que a ciência é um sistema de proposições rigorosamente demonstradas, constantes, gerais, ligadas entre si pelas relações de subordinação relativas a seres, fatos e fenômenos da experiência. É um conhecimento apoiado na demonstração e na experimentação. A ciência só aceita o que foi provado. Segue o método experimental com seus diversos processos, desenvolvidos mais adiante.




      1. Conhecimento Filosófico

O conhecimento filosófico distingue-se do científico pelo objeto de investigação e pelo método. O objeto das ciências são os dados próximos, imediatos, perceptíveis pelos sentidos ou por instrumentos, pois, sendo de ordem material e física, são por isso suscetíveis de experimentação (método científico = experimentação). O objeto da filosofia é constituído de realidades imediatas, não perceptíveis pelos sentidos e por serem de ordem supra-sensível ultrapassam a experiência (método racional).

Na acepção clássica, a filosofia era considerada como a ciência das coisas por suas causas supremas. Modernamente, prefere-se falar em filosofar. O filosofar é um interrogar, é um contínuo questionar a si e à realidade. A filosofia não é algo feito, acabado. A filosofia é uma busca constante do sentido, de justificação, de possibilidades, de interpretação a respeito de tudo aquilo que envolve o homem e sobre o próprio homem em sua existência concreta.

Filosofar é interrogar. A interrogação parte da curiosidade. Esta é inata. Ela é constantemente renovada, pois surge quando um fenômeno nos revela alguma coisa dum objeto e ao mesmo tempo nos sugere o oculto, o mistério. Este impulsiona o homem a buscar o desvelamento do mistério.

A filosofia procura compreender a realidade em seu contexto mais universal. Não dá soluções definitivas para grande número de questões. Habilita, porém, o homem a fazer uso de suas faculdades para ver melhor o sentido da vida concreta.
1.1.4- O Conhecimento Teológico
Duas são as atitudes que se podem tomar diante do mistério.

A primeira é tentar penetrar nele com o esforço pessoal da inteligência. Mediante a reflexão e o auxílio de instrumentos, procura-se obter o conhecimento que será científico ou filosófico.

A segunda atitude consistirá em aceitar explicações de alguém que já tenha desvendado o mistério. Implicará sempre numa atitude de fé diante de um conhecimento revelado.

Este conhecimento revelado ocorre quando houver algo oculto ou um mistério, alguém que o manifesta e alguém que pretende conhecê-lo.

O conhecimento revelado – relativo a Deus – aceito pela fé teológica, constitui o conhecimento teológico. É aquele conjunto de verdades a que os homens chegaram, não com o auxílio de sua inteligência, mas mediante a aceitação dos dados da revelação divina. Vale-se, de modo especial, do argumento de autoridade. São os conhecimentos adquiridos nos Livros Sagrados e aceitos racionalmente pelos homens, depois de ter passado pela crítica histórica mais exigente. O conteúdo da revelação, feita a crítica dos fatos aí narrados e comprovados pelos sinais que a acompanham, reveste-se de autenticidade e de verdade. Passam tais verdades a ser consideradas como fidedignas, e por isso aceitas. Isto é feito com base na lei suprema da inteligência: aceitar a verdade, venha donde vier, contanto que seja legitimamente adquirida.


    1. O Trinômio: Verdade – Evidência – Certeza

Já foi visto que o problema do conhecimento é, em grande parte, enigmático. O Homem é cheio de limitações e a realidade que pretende conhecer e dominar é múltipla e complexa. Diante disto surge a questão: o homem pode conhecer a verdade? O que é verdade?




      1. - A Verdade

Todos falam, discutem e querem estar com a verdade. Nenhum mortal, porém, é o dono da verdade. Isto porque o problema da verdade radica na finitude do homem de um lado, e na complexidade e ocultamento do ser da realidade, de outro lado. O ser das coisas e objetos que o homem pretende conhecer oculta-se e manifesta-se sob múltiplas formas. Aquilo que se manifesta, que parece em dado momento, não é, certamente a totalidade do objeto, da realidade investigada. O homem pode apoderar-se e conhecer aquele aspecto do objeto que se manifesta, que se impõe, que se desvela e isto ainda de modo humano, isto é, imperfeito, pois não entra em contato direto com objetos, mas apenas com sua representação e impressões que causa.

Isto, porém, não invalida o esforço humano na busca da verdade, na procura incansável de decifrar os enigmas do universo. O ser se desvela aqui e acolá, numa e noutra área, com mais ou menos intensidade, mais para uns que para outros... Pode-se dizer que, em certas áreas, o homem já entendeu bastante daquilo que o ser é e manifesta: a conquista tecnológica, as viagens espaciais mostram quanto já foi aprendido e isto graças, certamente, aos instrumentos científicos de que o homem se serviu para perceber e ver o que os sentidos jamais teriam visto. Mas esta é apenas uma faceta da realidade, do ser.

O desvelamento do ser das coisas supõe, e isto é inegável, a capacidade do homem em receber as mensagens, isto implica em atenção, bons sentidos, bons instrumentos. Inútil lembrar que o método e os instrumentos são a alma de toda a pesquisa científica, rumo à abertura do ser, à manifestação do ser, ao conhecimento da verdade.

O que é, pois a verdade? É o encontro do homem com o desvelamento, com o desocultamento e com a manifestação do ser. O ser das coisas se manifesta, torna-se translúcido, visível ao olhar, à inteligência e à compreensão do homem. Pode-se dizer que há verdade, quando o homem (inteligência) percebe e diz o ser que se desvela, que se manifesta. Há uma certa conformidade entre o que o homem julga e diz, e aquilo que do objeto se manifesta.

O objeto, porém, nunca se manifesta totalmente, nunca é inteiramente transparente. Por outro lado, o homem não é capaz de perceber tudo aquilo que se manifesta e nem lhe é possível estar de posse plena do objeto de conhecimento; quando muito, pode conhecer os objetos por suas representações e imagens.

Muitas vezes ocorre, ainda, que o homem, levado por certas aparências e sem o auxílio de instrumentos adequados, emite juízos precipitados que não correspondem aos fatos e à realidade: temos então o erro. Tais erros são freqüentes através da História; temos, por exemplo, as afirmações do geocentrismo, da geração espontânea...

1.2.2 – A Evidência

Tais afirmações erradas decorrem muito mais da atitude precipitada e ignorância do homem, com relação à natureza do ser que se oculta e se desvela fragmentariamente, do que da própria realidade.

A verdade só resulta quando houver evidência. Evidência é manifestação clara, é transparência, é desocultamento e desvelamento do ser. A respeito daquilo que se manifesta do ser, pode-se dizer uma verdade. Mas como nem tudo se desvela de um ente, não se pode falar arbitrariamente sobre o que não se desvelou. A evidência, o desvelamento, a manifestação do ser é, pois, o critério da verdade.
1.2.3 – A Certeza
Finalmente, a certeza é o estado de espírito que consiste na adesão firme a uma verdade, sem temor de engano. Este estado de espírito se fundamenta na evidência, no desvelamento do ser.

Relacionando o trinônimo, poder-se-ia concluir dizendo: havendo evidência, isto é, se o objeto se desvela ou se manifesta com suficiente clareza, pode-se afirmar com certeza, isto é, sem temor de engano, uma verdade.

Quando houver evidência ou suficiente manifestação do objeto, o sujeito encontrar-se-á em outros estados de espírito, o que deve transparecer também na expressão ou na linguagem. São os casos da ignorância, da dúvida e da opinião.

Ignorância é um estado puramente negativo, que consiste na ausência de todo conhecimento relativo a qualquer objeto por falta total de desvelamento. A ignorância pode ser:



  1. vencível: quando pode ser superada;

  2. invencível: quando não pode ser superada;

  3. culpável: quando há obrigação de fazê-la desaparecer;

  4. desculpável: quando não há obrigação de fazê-la desaparecer.

A dúvida é um estado de equilíbrio entre a afirmação e a negação. A dúvida é espontânea, quando o equilíbrio entre afirmação e a negação resulta da falta do exame do pró e do contra.

A dúvida refletida é o estado de equilíbrio que permanece após o exame das razões pró e contra.

A dúvida metódica consiste na suspensão fictícia ou real, mas sempre provisória, do assentimento a uma asserção tida até então por certa, para lhe controlar o valor.

A dúvida universal consiste em considerar toda asserção como incerta. É a dúvida dos céticos.

A opinião se caracteriza pelo estado de espírito que afirma com temor de se enganar. Já se afirma, mas de tal maneira, que as razões em contrário não dão uma certeza. O valor da opinião depende da maior ou menor probabilidade das razões que fundamentam a afirmação. A opinião pode, às vezes, assumir as características da probabilidade matemática. Esta pode ser expressa sob a forma de uma fração, cujo denominador exprime o número de casos possíveis e cujo numerador expressa o de casos favoráveis. Por exemplo, havendo numa caixa 6 "tampinhas" amarelas e 4 brancas, a probabilidade de extrair uma " tampinha" branca será, matematicamente, 4/10.

Só haverá certeza quando o numerador se igualar ao denominador.

A preocupação do cientista é chegar a verdades que possam ser afirmadas com certeza.




    1. Formação do Espírito Cientifico

Feita a distinção entre os níveis de conhecimento, esclarecidas as condições da verdade e do erro, e aprendidas as técnicas da investigação cientifica (veja mais adiante), ainda não será possível realizar um trabalho científico. É necessário, além disso, ter uma reserva de outras qualidades que são decisivas para desencadear a verdadeira pesquisa.

Esta atmosfera de seriedade que envolve e perpassa todo o trabalho, só aparece e transparece se o autor estiver imbuído de espírito científico.


      1. Natureza do Espírito Científico

O espírito científico é, antes de mais nada, uma atitude ou disposição subjetiva do pesquisador que busca soluções sérias, com métodos adequados, para o problema que enfrenta. Essa atitude não é inata na pessoa. É conquistada ao longo do tempo da vida, à custa de muitos esforços e exercícios. Pode e deve ser aprendida, nunca, porém, transmitida.

O espírito científico, na prática, se traduz por uma mente crítica, objetiva e racional.

A consciência crítica levará o pesquisador a aperfeiçoar seu julgamento e a desenvolver o discernimento, capacitando-o a distinguir e separar o essencial do acidental, o importante do secundário.

Criticar é julgar, distinguir, discernir, analisar para melhor poder avaliar os elementos componentes da questão.

A crítica, assim entendida, não tem nada de negativo. É antes uma tomada de posição, no sentido de impedir a aceitação do que é fácil e superficial. O crítico só admite o que é suscetível de prova.

A consciência objetiva, por sua vez, implica no rompimento corajoso com todas as posições subjetivas, pessoais e mal fundamentadas do conhecimento vulgar. Para conquistar a objetividade científica, é necessário libertar-se de toda a visão subjetiva do mundo, arraigada na própria organização biológica e psicológica do sujeito e ainda pelo meio social.

A objetividade é a condição básica da ciência. O que vale não é o que algum cientista imagina ou pensa, mas aquilo que realmente é. Isto porque a ciência não é literatura.

A objetividade torma o trabalho científico impessoal a ponto de desaparecer, por completo, a pessoa do pesquisador. Só interessa o problema e a solução. Qualquer um pode repetir a mesma experiência, em qualquer tempo, e o resultado será sempre o mesmo, porque independe das disposições subjetivas.

A objetividade do espírito científico não aceita meias soluções ou soluções apenas pessoais. O “eu acho”, o “creio ser assim” não satisfazem a objetividade do saber.

Finalmente, o espírito científico age racionalmente. As únicas razões explicativas de uma questão só podem ser intelectuais ou racionais.

As “razões” que a razão desconhece, as “razões” da arbitrariedade, do sentimento e do coração nada explicam nem justificam no campo da ciência.


1.3.2 – Qualidades do Espírito Científico
Além das propriedades fundamentais, já referidas, poder-se-iam acrescentar outras tantas qualidades de ordem intelectual e moral que o espírito científico implica.

Como virtude intelectual ele se traduz no senso de observação, no gosto pela precisão e pelas idéias claras, na imaginação ousada, mas regida pela necessidade da prova, na curiosidade que leva a aprofundar os problemas, na sagacidade e poder de discernimento.

Moralmente, o espírito científico assume a atitude de humildade e de reconhecimento de suas limitações, da possibilidade de certos erros e enganos.

É imparcial. Não torce os fatos. Respeita escrupulosamente a verdade.

O possuidor do verdadeiro espírito científico cultiva a honestidade. Evita o plágio. Não colhe como seu o que outros plantaram.

Tem horror às acomodações. É corajoso para enfrentar os obstáculos e os perigos que uma pesquisa possa oferecer.

Finalmente, o espírito científico não reconhece fronteiras. Não admite nenhuma intromissão de autoridades estranhas; ou limitações em seu campo de investigação. Defende o livre exame dos problemas.

A honestidade do cientista está relacionada, unicamente, com a verdade dos fatos que investiga.


1.3.3 – Importância do Espírito Científico
Diante do exposto, é desnecessário encarecer a importância do espírito científico. O universitário, por exemplo, consciente de sua função na Universidade irá procurar imbuir-se desse espírito científico, aperfeiçoando-se nos métodos de investigação e aprimorando suas técnicas de trabalho. Os conhecimentos científicos que vai adquirir, os bons ou maus mestres que vai enfrentar não constituirão o essencial da vida acadêmica. O essencial é, todos concordam nisto, aprender como trabalhar, como enfrentar e solucionar os problemas que se apresentam não só na Universidade, mas principalmente na vida profissional. E isto não é adquirir conhecimentos científicos feitos, fórmulas mágicas para todos os males, mas sim hábitos, consciência e espírito preparado no emprego dos instrumentos que levarão a soluções de problemas. Estas sempre se apresentarão, na carreira profissional, com novos matizes, de tal forma que as soluções feitas, porventura aprendidas na Universidade, serão inadequadas. Urge então apelar para o espírito de criatividade e de iniciativa que, aliadas ao espírito científico, adquirido ao longo dos estudos universitários, irão achar a solução mais indicada que as circunstâncias exigem.

Aqui vale o ditado: ao pobre que bater à porta não se dá o peixe, mas a linha e o anzol. O peixe resolve a situação presente, mas a linha e o anzol poderão resolver o problema, em definitivo.

Por outro lado, a ciência, hoje em dia, não se resume na criatividade de um gênio isolado que faz descobertas decisivas. A pesquisa científica se apresenta como um edifício, da dimensão dos arranha-céus, que supõe a mobilização de um exército de técnicos e inventores, trabalhando em equipes disciplinadas e que dispõe de orçamentos da importância de um tesouro de Estado.

Como se filiar a tal exército sem a mentalidade e o espírito que o anima?




    1. Paradigmas de Pesquisa

A pesquisa investiga o mundo em que o homem vive e o próprio homem. Para esta atividade, o investigador recorre à observação e à reflexão que faz sobre os problemas que enfrenta, e à experiência passada e atual dos homens na solução destes problemas, a fim de munir-se dos instrumentos mais adequados à sua ação e intervir no seu mundo para construí-lo adequado à sua vida.

Nessa tarefa, confronta-se com todas as forças da natureza e de si próprio, arregimenta todas as energias da sua capacidade criadora, organiza todas as possibilidades da sua ação e seleciona as melhores técnicas e instrumentos para descobrir objetos que transformem os horizontes da sua vida. Transformar o mundo, criar objetos e concepções, encontrar explicações e avançar previsões, trabalhar a natureza e elaborar as suas ações e idéias, são fins subjacentes a todo esforço de pesquisa.

Considera-se que, ao longo do tempo, a ciência estrutura um conjunto de preceitos, noções e processos que caracterizam os procedimentos dominantes em uma comunidade científica nacional ou internacional, em um aspecto particular da ciência durante um período de tempo, que é revolucionado quando um ou vários pesquisadores demonstram as anomalias de uma ciência normal e põem em crise o universo de certezas, obrigando a comunidade toda a repensar os fatos e teorias explicativas, como se pode atestar na astronomia, com Ptolomeu, Corpérnico, Galileu ou, na física, com Aristóteles, Newton, Einstein. O paradigma da pesquisa dominante envolve uma concepção e esta estabelece os critério de definição e de formulação de um problema a ser pesquisado, implicando uma abordagem e os processos de seleção do problema.



2– O Método Científico
2.1– Noção e Importância do Método
Em seu sentido mais geral, o método é a ordem que se deve impor aos diferentes processos necessários para atingir um fim dado ou um resultado desejado. Nas ciências, entende-se por método o conjunto de processos que o espírito humano deve empregar na investigação e demonstração da verdade.

O método não se inventa. Depende do objeto da pesquisa. Os sábios, cujas investigações foram coroadas de êxito, tiveram o cuidado de anotar os passos percorridos e os meios que os levaram aos resultados. Outros, depois deles, analisaram tais processos e justificaram a eficácia dos mesmos. Assim, tais processos, empíricos no início, transformaram-se gradativamente em métodos verdadeiramente científicos.

Deve-se disciplinar o espírito, excluir das investigações o capricho e o acaso, adaptar o esforço às exigências do objeto a ser estudado, selecionar os meios e processos mais adequados. Tudo isso é dado pelo método. Assim, o bom método torna-se fator de segurança e economia.

Muitas vezes, um espírito medíocre guiado por um bom método faz mais progresso nas ciências que outro mais brilhante que vai ao acaso.

Fontenelle assim exaltou o método: “A arte de descobrir a verdade é mais preciosa que a maioria das verdades que se descobrem”.

Evidentemente, o método não substitui o talento, a inteligência do cientista. Ele tem também os seus limites, não ensina a encontrar as grandes hipóteses, as idéias novas e fecundas. Isto depende do gênio e da reflexão do cientista.





    1. Método Científico

Existem autores que identificam a ciência com o método, entendido como um modo sistemático de explicar um grande número de ocorrências semelhantes.

O método científico quer descobrir a realidade dos fatos, e estes, ao serem descobertos, devem, por sua vez, guiar o uso do método. Entretanto como já foi dito, o método é apenas um meio de acesso: só a inteligência e a reflexão descobrem o que os fatos realmente são.

O método científico segue o caminho da dúvida sistemática, metódica, que não se confunde com a dúvida universal dos céticos, que é impossível. O cientista, sempre que lhe fata a evidência, como arrimo, precisa questionar e interrogar a realidade.

O método científico, mesmo aplicado no campo das ciências sociais, deve ser aplicado de modo positivo, e não de um modo normativo, isto é, a pesquisa positiva deve preocupar-se com o que é e não com o que se pensa que deve ser.

Toda investigação nasce de um problema observado ou sentido, de tal modo que não pode prosseguir, a menos que se faça uma seleção da matéria tratada. Esta seleção requer alguma hipótese ou pressuposição que irá guiar e, ao mesmo tempo, delimitar o assunto a ser investigado. Daí o conjunto de processos ou etapas de que se serve o método científico, tais como a observação e coleta de todos os dados possíveis, a hipótese que procura explicar provisoriamente todas as observações de maneira simples e viável, a experimentação que dá ao método científico também o nome de método experimental, a indução da lei que fornece a explicação ou o resultado de todo o trabalho da investigação, a teoria que insere o assunto tratado num contexto mais amplo. O método científico aproveita ainda a análise e a síntese, os processos mentais da dedução e indução, processos esses comuns a todo o tipo de investigação, quer experimental, quer racional. Em suma, método científico é a lógica geral tácita ou explicitamente empregada para apreciar os méritos de uma pesquisa.

É oportuno distinguir, aqui, método e processo. Por método entende-se o dispositivo ordenado, o procedimento sistemático, em plano geral. O processo (a técnica), por sua vez, é a aplicação específica do plano metodológico e a forma especial de o executar. Comparando, poder-se-á dizer que a relação existente entre método e processo é a mesma, que existe entre estratégica e tática. O processo está subordinado ao método e lhe é auxiliar imprescindível.



    1. Processos do Método Científico

O método se concretiza nas diversas etapas ou passos que devem ser dados para solucionar um problema. Esses passos são as técnicas ou processos.

Os objetivos de investigação determinam o tipo de método a ser empregado, a saber: o experimental ou o racional. Um e outro emprega técnicas específicas como também técnicas comuns a ambos.

Pode-se dizer que a maioria das técnicas que compõem o método científico e racional são comuns, embora devam adaptar-se ao objeto de investigação.

Por isso, as técnicas ou processos que, a seguir, serão desenvolvidos, dizem respeito ao método experimental e indiretamente, com as adaptações que se impõem, ao método racional.
2.3.1. Observação
Observar é aplicar atentamente os sentidos a um objetivo, para dele adquirir um conhecimento claro e preciso.

A observação é de importância capital nas ciências. É dela que depende o valor de todos os outros processos. Sem a observação o estudo da realidade e de suas leis reduzir-se-á sempre à simples conjetura e adivinhação. Para o bom êxito da observação exigem-se certas condições.




A – Condições Físicas


Órgãos são, que possam ter sensações normais e corretas.

Bons instrumentos são necessários, porque os sentidos não bastam sempre para satisfazer o rigor da ciência. É preciso armar os cientistas de instrumentos:


  1. que lhes aumentem o alcance, por exemplo, o microscópio, o telescópio, etc.;

  2. que lhes aumente a precisão, e os ajudem a medir com rigor os diversos fenômenos observados: a duração, o peso, a temperatura, etc.;

  3. que supram, até certo ponto, os próprios sentidos, apontando e registrando os fenômenos com sua intensidade variável. Tais são os aparelhos registradores, as chapas fotográficas.



B – Condições Intelectuais

Curiosidade: “Requer-se muita filosofia, diz J.J. Rousseau, para observar o que se vê todos os dias”.

Sagacidade: saber discernir os fatos significativos.

C – Condições Morais

Paciência, para resistir à precipitação natural que nos leva sempre a concluir antes do tempo.

Coragem, que sabe enfrentar o perigo para colher do fato certos fenômenos raros ou decisivos.




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