Metodologia de Intervenção Psicossocial e Acompanhamento do Processo Grupal com Unidades Produtivas em Projeto de Inclusão Produtiva



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Ogioni, A.; Afonso, L.; Peixoto, C.; Gomes, D. D.; Bicalho, G.; Moreira, N. & Silva, W. da C. Metodologia de intervenção psicossocial e acompanhamento do processo grupal com unidades produtivas em projeto de inclusão produtiva da APRECIA



Metodologia de Intervenção Psicossocial e Acompanhamento do Processo Grupal com Unidades Produtivas em Projeto de Inclusão Produtiva1 da APRECIA2
Methodology for Psychosocial Intervention and Group Process Work with Productive Unities Within the Productive Inclusion Project of APRECIA

Aline Ogioni3


Lúcia Afonso4
Carolina Peixoto5
Daniela Dias Gomes6
Georgia Bicalho7
Neila Moreira8
Wanderson da Conceição Silva9
Resumo
O artigo apresenta a metodologia de intervenção psicossocial com unidades produtivas em um projeto de inclusão produtiva desenvolvido pela APRECIA em parceria com a SEDS-MG. Enfatiza o trabalho com a demanda bem como a interrelação entre o processo grupal, a produção e a auto-organização dos grupos. Descreve os princípios, estratégias e instrumentos utilizados no processo de intervenção psicossocial.
Palavras-chave: intervenção psicossocial; processo grupal; inclusão social.

Abstract
The paper presents the methodology for psychosocial intervention with productive unities within a project of productive inclusion developed by APRECIA in partnership with SEDS-MG. It emphasizes the group demand as well as the interrelationship among the group process, production and self-organization. It describes the principles, strategies and tools utilized in the process of psychosocial intervention.
Key words: psychosocial intervention; group process; social inclusion.



O Projeto de Inclusão Produtiva - Objetivos e Público
Em 2007, a Associação Preparatória dos Cidadãos de Amanhã (APRECIA), através de parceria com a Superintendência de Prevenção à Criminalidade (SPC) da Secretaria de Estado de Defesa Social de Minas Gerais (SEDS-MG), iniciou um Projeto de Inclusão Produtiva, com o objetivo de criar estratégias para a prevenção social à violência e à criminalidade. A parceria será finalizada em 2010, mas o trabalho com unidades produtivas terá continuidade através de outros projetos.

O Projeto de Inclusão Produtiva visa promover a qualificação e a inclusão no mercado de trabalho dos beneficiários dos seguintes programas: Central de Apoio e Acompanhamento às Penas e Medidas Alternativas (CEAPA), Programa de Reintegração Social de Egressos do Sistema Prisional (PrEsp), Programa Mediação de Conflitos e Programa de Controle de Homicídios – FICA VIVO!

O público do Projeto é composto de pessoas atendidas nos referidos programas e ainda outras pessoas das comunidades referenciadas pelos Núcleos de Prevenção à Criminalidade (da SEDS-MG) e que tenham sido indicadas por se encontrarem em situação de vulnerabilidade ou risco social.
Princípios e Ações do Trabalho com Inclusão Produtiva na APRECIA
O trabalho de inclusão produtiva na APRECIA parte do princípio que: Quanto maior a presença de fatores de proteção e menor a presença de fatores de risco, menor a probabilidade de incidência e de efeitos negativos de crimes e violência”. Assim, busca-se viabilizar “uma articulação efetiva entre os usuários da política de prevenção e o mercado, seja através do emprego formal ou projetos grupais de geração de renda e capital social.” (Termo de referência para a parceria entre APRECIA e SEDS, 2009).

Entendendo que a prevenção à criminalidade anda lado a lado com a promoção da inclusão social e dos direitos de cidadania, o Projeto de Inclusão Produtiva buscou orientar-se pelos princípios abaixo:



  1. Inclusão social como princípio fundamentado na dignidade do ser humano e no respeito aos direitos de cidadania garantidos pela Constituição de 1988;

  2. Responsabilidade do Estado, conforme a Constituição de 1988, de garantir os direitos de cidadania e as condições de acesso a esses direitos;

  3. Participação da sociedade através da construção de uma cultura de paz e de inclusão social e do fortalecimento dos vínculos sociais e de redes de apoio social;

  4. Articulação do trabalho em rede (entendendo-se aqui a rede de atendimento ao usuário), fortalecendo os meios e os fluxos para as ações de parceria;

  5. Fortalecimento dos direitos de cidadania associado ao desenvolvimento das responsabilidades dos cidadãos diante da sociedade;

  6. Autonomia dos indivíduos e grupos atendidos, visando não apenas a geração de renda como também a auto-organização e a auto-gestão das Unidades Produtivas, buscando a sua inserção digna e responsável na sociedade;

  7. Protagonismo social, visando à construção de vínculos sociais entre as Unidades Produtivas e as suas comunidades, estimulando o empoderamento dos usuários e o seu potencial multiplicador na sociedade.

Seguindo tais princípios, a APRECIA desenvolve um conjunto de ações articuladas que inclui: (1) Encaminhamentos para oportunidade de emprego no mercado formal de trabalho; (2) Articulação com a rede empregadora; (3) Cursos de qualificação profissional, (4) Projetos comunitários de geração de renda e capital social por meio de Unidades Produtivas.

A metodologia apresentada refere-se ao acompanhamento psicossocial dos projetos comunitários de geração de renda e capital social com unidades produtivas.




Projetos Comunitários de Geração de Renda e Capital Social por meio de Unidades Produtivas
As Unidades Produtivas (UPs) são grupos que se dedicam a atividades de geração de renda buscando se constituir de maneira autônoma, organizando suas regras (através de Estatuto ou outros meios), processos de produção, vendas e relações com fornecedores e clientes. No Projeto de Inclusão Produtiva, as UPs são orientadas para se organizar de forma a promover a igualdade de participação na produção, nas decisões e na distribuição de recursos. O trabalho da APRECIA é voltado para a organização e desenvolvimento da autonomia das UPs, visando a sua “desincubação” (ou seja, que se tornem independentes).

No Projeto, o objetivo de geração de renda dá sustentação e materialidade ao objetivo principal que é a prevenção da criminalidade em áreas de risco social. O trabalho busca inserir pessoas cujo perfil encontra, hoje, pouca aceitação no mercado de trabalho formal, incluindo pessoas com baixa escolaridade, idosas, adolescentes e jovens a partir de 16 anos, egressos do sistema penitenciário e outras.

No período de março de 2007 a março de 2009, foram implantadas 24 (vinte e quatro) UPs na região da Grande Belo Horizonte e municípios vizinhos. Até então, o Projeto estava centrado apenas no desenvolvimento dos aspectos de produção e gestão das UPs. Com o avanço do trabalho, ficou clara a necessidade de se desenvolver também as interações humanas nas UPs, ampliando a percepção sobre o capital social desses grupos para incluir as suas competências psicossociais. Assim:

O desafio de constituição de uma Unidade Produtiva envolve o esforço de organização das relações internas ao grupo e das relações do grupo com a rede social da qual deverá fazer parte e proceder às suas trocas materiais e simbólicas. Trabalha-se com a UP visando a sua capacidade de auto-organização e auto-gestão, o que implica não apenas competências técnicas ligadas ao processo de trabalho e de gestão, mas também competências psicossociais ligadas ao processo grupal, por exemplo, construção de regras, constituição de vínculos, comunicação, cooperação, tomada de decisão e formas de distribuição de papéis, poderes e responsabilidades no grupo.



Fundamentos para o Trabalho com UPS no Projeto de Inclusão Produtiva
No período de 2007-2008, nosso trabalho com as UPs mostrou que diversos fatores ameaçavam a coesão dos grupos em torno do seu próprio projeto. Por exemplo, era necessário definir melhor a relação entre coordenação e grupo, melhorar a comunicação e o processo de tomada de decisões e ampliar a rede social de apoio. Era preciso superar dificuldades e construir formas de cooperação que atuassem como fatores de promoção da dignidade e da cidadania dos sujeitos. Observou-se que:

  1. O desenvolvimento das UPs (processo de organização, gestão do trabalho e produção) era atravessado por fatores da dinâmica interna do grupo em cada UP;

  2. O avanço da dinâmica interna do grupo (processo grupal, na dimensão dos vínculos, da comunicação e da autonomia) necessitava, por sua vez, do seu desenvolvimento como unidade produtiva;

  3. O desejado impacto positivo na vida dos participantes do Projeto dependeria da boa articulação entre essas duas dimensões das UPs.

Era necessário, então, construir e consolidar procedimentos e instrumentos de articulação entre essas duas dimensões do trabalho de inclusão produtiva com um público que nunca antes havia participado deste tipo de empreendimento solidário. A partir de abril de 2009, o trabalho com as UPs passou a ser desenvolvido por duas equipes, em duas dimensões entrelaçadas:

A Equipe Técnico-Administrativa (ETA)10 se responsabiliza pelo acompanhamento do processo de produção e gestão nas UPs e a Equipe de Acompanhamento Psicossocial (EAP)11 se responsabiliza pelo acompanhamento do processo grupal nas UPs.

As equipes buscam trabalhar de maneira articulada:

- Os técnicos de cada equipe podem agendar conversas com a sua coordenação sempre que necessário, no dia a dia do Programa;

- Há um fluxo contínuo de comunicação, via internet ou telefone, entre as coordenações para lidar com o dia a dia das demandas dos grupos e da operacionalização de respostas possíveis a estas demandas;

- Há uma reunião quinzenal com todos os componentes das duas equipes para discutir os diversos aspectos necessários ao trabalho no Projeto de Inclusão Produtiva;

- As UPs têm contato por telefone com as coordenações e os técnicos de cada equipe, mas a comunicação se faz preferencialmente através de visitas dos técnicos às UPs;

- A EAP tem uma agenda semanal de visitas às UPs, podendo agendar outras visitas sob demanda;

- A ETA tem uma agenda quinzenal de visitas às UPs e pode agendar outras visitas sob demanda.

Nesta divisão de tarefas, é importante notar que:

- O vínculo entre a Unidade Produtiva e os técnicos que a acompanham é uma parte essencial da nossa metodologia de intervenção psicossocial; e

- O contato freqüente entre os técnicos da EAP e as UPs contribui para possam conhecer mais de perto as demandas dos grupos. Quando essas questões são relativas ao processo grupal (por exemplo, a relação entre coordenação e grupo), a EAP as trabalha diretamente com o grupo. Quando são relacionadas à produção e à gestão (por exemplo, compra de materiais), a EAP as encaminha à ETA, que entra em contato com a UP (por telefone ou visita) para dar soluções às questões apresentadas.

Em seguida, o trabalho das duas equipes é detalhado e relacionado aos fundamentos teóricos do trabalho com as UPs no Projeto de Inclusão Produtiva.
Duas dimensões entrelaçadas do trabalho com UPs
Para definir a metodologia de acompanhamento e avaliação do processo grupal nas UPs, foram escolhidos conceitos e categorias da teoria do Grupo Operativo de Enrique Pichon-Rivière (1994). Comparamos assim a Unidade Produtiva com um Grupo Operativo cuja dinâmica interna e processo grupal devem ser compreendidos, analisados e trabalhados a partir da sua relação com o contexto sociocultural.

Os grupos definem objetivos explícitos na relação com o seu contexto. Percebem-se “em relação com” e para tanto definem o que vão fazer, para quem e com que estratégias e instrumentos. Esse “fazer” do grupo é uma parte fundamental de sua construção de identidade e de sua auto-valorização. O “fazer” do grupo – que o vincula ao contexto social, histórico e cultural – é a sua Tarefa Externa. Ou seja, é externa não porque aconteça fora do grupo, mas porque liga o grupo ao seu contexto.

No caso das UPs, a tarefa externa busca consolidar uma identidade de trabalhadores, auto-organizados e envolvidos com um projeto de inclusão social. Busca dar-lhes apoio para superar a exclusão social e construir condições concretas de construção de novas identidades sociais e novas formas de relação com a sociedade.

Porém, a tarefa externa exige, por sua vez, trabalho e organização. Ou seja, deve ser construída com o grupo de forma que, dentro de seu tempo, mas ao mesmo tempo dentro do tempo social oferecido pelo Projeto, a Unidade Produtiva consiga se tornar independente. O termo técnico utilizado dentro de programas de inclusão produtiva é “desincubar”, isto é, nascer, crescer e “caminhar com as próprias pernas”. Assim, o trabalho com a tarefa externa do grupo é organizada em diferentes etapas que devem, ao evoluir, contribuir para a autonomia da UP.

Da mesma forma, o grupo que compõe a UP deve cuidar de suas relações internas para conseguir desenvolver os seus projetos. Em outras palavras, para se tornar uma UP autônoma, o grupo precisa se organizar para criar uma identidade própria, construir suas regras, organizar as suas formas de coordenação e participação, organizar as suas formas de compartilhamento de saber e de recursos, dentre outras coisas. Para tanto, no grupo, tornam-se vitais os processos de comunicação, cooperação, participação, manejo de conflitos, tomada de decisões e outros aspectos similares.

Chamamos de Tarefa Interna à dimensão da vida do grupo que diz respeito às relações internas e à forma como estas relações internas permitem ou atrapalham a realização dos seus objetivos. Por exemplo, como um excesso de competição pode impedir o desenvolvimento de uma Unidade Produtiva mesmo quando ela conta com recursos para produzir e clientela para comprar os seus produtos.

As duas dimensões – tarefa externa e tarefa interna – não se desenrolam separadamente no grupo. Pelo contrário, estão entrelaçadas durante todo o tempo que chamamos de “processo grupal”. Por isso mesmo, devem ser trabalhadas em conjunto, dentro de uma mesma metodologia. Em seguida, explicamos como organizamos o trabalho com a tarefa externa e a tarefa interna das UPs.

Antes, porém, devemos enfatizar que a concepção pedagógica de Paulo Freire (2003) está presente em todo o trabalho. A aprendizagem possível se faz com base no respeito aos interesses, à dignidade e à autonomia dos sujeitos. Os técnicos que trabalham com as UPs não são “ordenadores” e sim co-ordenadores, co-construtores junto ao grupo, mediante uma escuta qualificada e uma intervenção psicossocial contextualizada.

Por escuta qualificada queremos dizer uma escuta dos interesses do grupo, de sua busca por construção de identidade e dignidade, mas também de seus medos e defesas diante do desafio que lhe é colocado. Portanto, a intervenção que se faz é abrangente e desafiadora, buscando provocar nos sujeitos o desejo de investir em sua própria inclusão social, de exercer os seus direitos de cidadania, de se implicar e lutar para construir os seus projetos de vida. Isto se dá, evidentemente, no contexto de uma política pública e a partir do princípio da responsabilidade do Estado e da Sociedade para apoiar, defender e garantir tais direitos.

Conforme acima mencionado, o Projeto de Inclusão Produtiva conta com duas equipes. Cada qual trabalha com 06 dimensões de desenvolvimento das UPs, buscando sua contínua articulação. A ETA trabalha com seis etapas necessárias para que um grupo de pessoas possa se tornar uma Unidade Produtiva, ou seja, com a sua tarefa externa. A EAP responsabiliza-se por trabalhar com o processo das UPs como grupos, ou seja, com a sua tarefa interna, segundo uma concepção de intervenção psicossocial12.


Realização da tarefa externa das UPs: produção e gestão
São trabalhadas 06 dimensões entrelaçadas em um processo dialético, isto é, podem acontecer de forma simultânea, há retrocessos e avanços na construção do grupo e o fortalecimento de uma dimensão tem impactos positivos nas outras:
Formação da identidade através da escolha de produto e de público
O grupo iniciante (ou que pretende reformular o seu projeto) deverá definir o seu produto, de acordo com os interesses, capacidades e potencialidades de seus membros. A partir daí, a Equipe Técnico-Admnistrativa faz a busca por informação, a análise das possibilidades do mercado, a análise do potencial do grupo e das suas necessidades de capacitação técnica.

A EAP trabalha a identidade do grupo, o vínculo entre os participantes, o vínculo entre a APRECIA e o grupo, a pactuação em torno do pertencimento grupal, as regras, os objetivos e demais aspectos dos projetos do grupo.


Aprendizagem técnica
A aprendizagem técnica para a produção envolve o conjunto de habilidades e competências necessárias para produzir de acordo com padrões de qualidade e na quantidade necessária para o estabelecimento da UP, por exemplo, a habilidade de costura, de fazer móveis e outras.

A ETA busca conhecer as necessidades da UP e oferecer capacitações para o desenvolvimento de suas competências técnicas. A EAP busca trabalhar o reconhecimento de competências e limites, o compartilhamento de saberes e fazeres, as dificuldades relativas à aprendizagem, entre outros aspectos.


Auto-organização e auto-gestão da produção e do trabalho
Para a auto-organização da produção e auto-gestão do processo de trabalho na UP, é necessário criar consensos em torno da divisão de tarefas, a definição de horários, o planejamento da produção, entre outros elementos. A ETA busca conhecer as necessidades da UP e oferecer capacitações para o desenvolvimento de suas competências técnicas relacionadas aos aspectos gerenciais. A EAP busca trabalhar com o grupo o seu conjunto de regras e valores, os acordos e conflitos, a compreensão e definição sobre qual deve ser a relação coordenação-grupo, a divisão de responsabilidades, entre outros aspectos.
Produção
Após ter definido o seu produto e as suas formas de produção, a UP precisar organizar a produção propriamente dita tendo por referência tanto a quantidade quanto a qualidade do seu produto, principalmente na relação com o mercado e o público consumidor. Isto envolve uma comparação entre tipo, quantidade e qualidade do produto que o grupo desejaria produzir com tipo, quantidade e qualidade do produto que o grupo consegue produzir, ou seja, uma comparação entre projeto e realização no contexto. Portanto, em sua relação com o contexto social, o grupo precisa continuamente rever e aprimorar suas competências técnicas e de auto-gestão.

A ETA ajuda a identificar padrões de qualidade, relação com o mercado, captação de recursos e de escoamento de produtos, entre outros aspectos. A EAP busca trabalhar o compartilhamento de saberes, as práticas de cooperação, a disposição para trabalhar em conjunto, a revisão de regras e valores, entre outros aspectos.


Plano de vendas e negócios
Envolve o planejamento da produção, os contatos para as vendas, as estratégias de venda, o plano de distribuição de mercadorias e controle de vendas, dentre outros aspectos.

A ETA oferece capacitações para o desenvolvimento de competências gerenciais e também faz a mediação com a rede parceira, orienta na elaboração do planejamento e dos relatórios financeiros, dentre outros aspectos. A EAP busca trabalhar as formas de cooperação, os conflitos que surgem em torno das divisões de responsabilidades e poder no grupo, estimulando a construção da autonomia do grupo, entre outros aspectos.


Gestão de recursos
Envolve a capacidade do grupo de captar, gerenciar, manter, renovar e aplicar seus recursos (incluindo o dinheiro), de forma a obter ganhos (capital material e capital social) para a UP, sempre de acordo com os critérios de distribuição escolhidos pelo grupo. Privilegiam-se as formas eqüitativas de distribuição, que envolvem decisões sobre as condições de vida, trabalho e produção de cada participante e as maneiras como o grupo pode apoiar cada um de seus membros e fortalecer a sua inclusão social. Envolve capacidades como fazer relatórios de contabilidade, dar telefonemas, fazer prestação de contas, calcular investimento e retorno de cada produto, etc.

A ETA oferece capacitações para o desenvolvimento das competências técnicas e gerenciais necessárias. A EAP busca trabalhar o impacto dessa fase na organização e no projeto do grupo, os sentidos atribuídos ao trabalho e ao dinheiro, como isto afeta o vínculo grupal, entre outros aspectos.


Realização da tarefa interna nas UPs: o processo grupal
Para acompanhar e avaliar a tarefa interna do grupo, fazemos uso dos vetores do processo grupal, conforme definidos na teoria do Grupo Operativo (Pichon-Rivière, 1994): pertencimento, comunicação, cooperação, aprendizagem, tele, pertinência. Observe-se que constituem também um conjunto de 6 dimensões entrelaçadas.

Os vetores do processo grupal são sempre pensados como “pares de oposição dialética”. Isto é, para cada categoria existe outra, oposta e contraditória, que ajuda a configurar um campo de intervenção no grupo. Por exemplo: a cooperação no grupo está dialeticamente relacionada à competição. Assim, quando se pretende ajudar a construir práticas de cooperação, é preciso perceber e discutir (ao invés de negar) as formas de competição e rivalidades presentes, compreender o seu sentido, construir com o grupo respostas a esses conflitos e formas possíveis de cooperação.

Ao se trabalhar com os vetores do processo grupal é necessário compreendê-los no contexto em que estão sendo utilizados, de forma a ampliar a visão do processo do grupo e a identificar competências psicossociais necessárias ao seu desenvolvimento. Os vetores estão intrinsecamente interligados no processo do grupo, sendo aqui apresentado de maneira separada por razões didáticas.

Finalmente, mas não menos importante, é enfatizar que o acompanhamento e a avaliação do processo grupal devem ser construídos sempre junto com o grupo, mostrando aos coordenadores ângulos que talvez não fossem percebidos sem o olhar de todos os envolvidos nos processos de decisão.

A seguir, comentamos os 6 (seis) vetores do processo grupal, em sua articulação dialética, refletindo sobre a sua contextualização em trabalhos de inclusão produtiva13.
Sentimento de Pertencimento: O desejo de cada participante de ser reconhecido como membro identificado aos objetivos do grupo Versus O reconhecimento pelo grupo de um desejo singular em cada participante.

O sentimento de pertencimento ao grupo é diferente da mera consciência de que se está “inscrito” nele. Enquanto a “inscrição” pode ser objetivamente mensurada, o sentimento de pertencimento é subjetivo. Expressa a história do vínculo e das identificações do participante com o grupo. Quanto maior o sentimento de pertencimento, maiores as demandas e as ofertas que o indivíduo traz para o grupo, buscando construir um “lugar” para si na rede de relações. Trata-se aqui do empenho (e não do desempenho) em contribuir para as discussões e atividades. Em todo grupo, o sentimento de pertencimento é vivido com ambivalência e flutuações – mas quanto maior o sentimento de pertencimento menor o impacto destas ao longo do processo. O comprometimento dos participantes pode ser avaliado a partir de suas atitudes diante do enquadre adotado, isto é, do conjunto de regras básicas de funcionamento do grupo. Através do sentimento de pertencimento pode ser deslanchado também um processo de individuação, de desenvolvimento das potencialidades de cada participante, tendo por referência seus desejos e demandas como também as oportunidades criadas pelos vínculos no grupo.

Refletindo sobre o pertencimento, nas UPs, podemos sugerir:

- A situação de exclusão social dos participantes pode impactar, tanto positiva quanto negativamente, a sua disponibilidade para fazer vínculos, desenvolver identificação, enfrentar ambivalência e construir acordos.

- Sob o efeito da identificação negativa com o produto (por exemplo, reciclagem de lixo) alguns grupos sentem-se desvalorizados e desmotivados. Pode, então, resistir à própria autonomia por que esta requer responsabilidades e atitudes contextualizadas para as quais não se sente preparado. É preciso trabalhar com a mudança de identidade do grupo (identidades positivas) e com a ampliação da participação para lograr a construção de práticas de cooperação e solidariedade.

- Existe um forte estigma social relacionado ao fato de algumas pessoas das UPs terem passagem pelo sistema prisional ou cumprido penas alternativas. Outras situações também geram estigma, como desemprego continuado, pobreza, dificuldade para ler e escrever. O estigma pode gerar formas reativas nos sujeitos tais como auto-depreciação e/ou depreciação de pessoas em igual condição social (culpabilização do excluído), sentimento de inadequação social, descrença nas próprias capacidades. O estigma funciona como impedimento para formação do vínculo grupal. Por outro lado, a superação do estigma através de outros traços de identificação no grupo (como ser habilidoso no trabalho, lutar para vencer dificuldades, etc.) facilitará o sentimento de pertencimento e a formação do vínculo grupal.

- Em algumas das UPs, o grupo foi formado através das indicações feitas pelos gestores da política pública dentro da comunidade, a partir de informação sobre pessoas que poderiam participar principalmente usuários de programas sociais. Nesses casos, o produto da UP é definido (por exemplo, vassoura ecológica) antes mesmo de haver um grupo. Há que se fazer um trabalho de apropriação do projeto pelo grupo e de formação de identidade grupal em torno do projeto inicial, inclusive com a possibilidade de mudança de produto.

- Muitas vezes, há necessidade de inclusão de novos membros para que a UP se desenvolva, mas os antigos membros resistem, alegando falta de confiança, falta de disposição para compartilhar saberes, etc. É interessante notar que a reprodução deste processo de exclusão pelo próprio grupo muitas vezes expressa as suas dificuldades de constituição de uma identidade positiva.

- O sentimento de pertencimento pode ser impactado negativamente pelas críticas e pressões advindas de outros grupos de referência, como a família e a comunidade. Por exemplo, a oposição dos cônjuges, a cobrança no contexto familiar de um retorno financeiro mais rápido, entre outros aspectos.

- Para os usuários, o pertencimento a um programa de uma política pública de prevenção à criminalidade também é um fator que traz ambivalências. Para aqueles que já estiveram envolvidos em algum tipo de conflito com a lei, a política pública traz a possibilidade do reconhecimento e do resgate de sua cidadania diante de sua comunidade e da sociedade. Mas para aqueles que nunca tiveram esta experiência, pode, ao contrário, haver dificuldade de se reconhecerem como usuários de um programa que previne o seu possível envolvimento com a criminalidade. Isto pode levá-los a uma atitude de negar o caráter de parceria da Unidade Produtiva ou “esquecer” que estão dentro de uma política pública. Torna-se fundamental trabalhar essas questões com as UPs, não apenas para ajudá-las a se constituírem, mas para criar uma cultura de apoio à cidadania e implicá-las de maneira responsável e participativa nas ações desenvolvidas.


Comunicação: Construção de contextos de diálogo, participação e significação Versus Dificuldades históricas, sociais, culturais, intersubjetivas e subjetivas de comunicação

A comunicação é um processo denso, através do qual o grupo desenvolve seus pactos, objetivos, representações e valores, além de estabelecer e refletir sobre seus vínculos. A produção de sentido para a experiência está estreitamente ligada à comunicação, mas esta também gera incompreensão e conflitos. Comunicar-se com o outro e consigo mesmo são processos interligados. Podemos pensar na quantidade e qualidade da comunicação no grupo estando relacionadas aos processos de cooperação e de negociação de conflitos. A comunicação se dá na e pela linguagem, dentro do contexto social do grupo. Assim, tanto a comunicação quanto a reflexão se dá na linguagem do grupo (e não de formas pré-fixada e idealizada). A comunicação diz respeito não apenas à fala, mas à forma como alguém se faz presente no grupo. São sinais de uma boa comunicação: tratar de assuntos da tarefa externa de maneira contextualizada e operacional, expressar sentimentos e pensamentos, relatar experiências dentro do contexto de discussão do grupo, mostrar-se disponível para ouvir com atenção e respeito, trocar idéias, dar depoimentos, dialogar de forma contextualizada, dar e receber apoio, oferecer reflexões, ser criativo e operativo com a linguagem, buscar novas significações e ampliar o horizonte do diálogo, etc. São sinais de comunicação ruim: desatenção, desinteresse, conversas paralelas, agressividade na forma de se dirigir aos colegas, sarcasmo, estereotipia, reprodução de estigmas, etc.

Nos grupos do tipo “operativo” a comunicação está articulada com os processos de significação e decisão sobre os objetivos, as estratégias e as ações do grupo no contexto. Assim a participação dos sujeitos depende em muito da criação de um contexto democrático e dialógico de comunicação.

A comunicação não se limita ao raciocínio lógico, ou à linguagem da reflexão, mas inclui a afetividade, o que é fundamental para o vínculo grupal. Uma pessoa que fala pouco pode, mesmo assim, ter papel importante no grupo ao dar apoio e promover a solidariedade através de posturas e gestos que “comunicam” trocas simbólicas e afetivas. Assim, o trabalho com a comunicação no grupo visa uma melhor compreensão e apoio ao processo grupal. A abordagem das dificuldades de comunicação deve ser feita de maneira integrada ao seu processo, através de intervenções diversas e respeitando o ritmo e a linguagem do grupo.

Nesse sentido, é interessante ressaltar a ocorrência de situações que podem revelar a angústia do grupo diante de sua tarefa, tais como os fenômenos aparentemente opostos do silêncio e da algazarra (a “bagunça”). Diante de tais fenômenos, a coordenação sempre deve se perguntar pelo sentido que têm dentro do processo do grupo. Trata-se de um silêncio de compartilhamento de sentidos que, por alguns momentos, dispensa as palavras? Trata-se de um silêncio que evidencia um vazio de investimentos dos participantes? A cada situação de dificuldade de comunicação, a coordenação deve refletir sobre os seus possíveis sentidos no processo do grupo, buscando contribuir para a sua compreensão e elaboração.

Refletindo sobre a comunicação, nas UPs, podemos sugerir:

- Podem aparecer diversas dificuldades de comunicação relacionadas ao sentimento ainda muito frágil dos participantes de ter (ou não) legitimidade para participar e contribuir - a “falta coragem” para falar. Para “evitar conflitos”, muitos preferem não confrontar participantes agressivos ou lideranças centralizadoras. A suscetibilidade diante destes conflitos de comunicação parece bastante ligada à fragilidade das formas de simbolização da experiência social e das novas experiências que surgem com a constituição das UPs, que não são formas de organização usuais em nossa sociedade. Assim, o diálogo muitas vezes fica travado ou restrito à expressão de emoções ou queixas dentro de uma perspectiva imediatista e individualista. A superação desse individualismo e imediatismo é um desafio para o grupo e para construção de outra comunicação não apenas eficaz, mas também solidária e não-violenta.

- As dificuldades de comunicação não vêm apenas das características individuais mas, também, dos valores presentes no contexto cultural. Ou seja, é preciso investir na formação de uma cultura grupal (Pichon-Rivière, 1994) para expandir e diversificar a matriz discursiva do grupo, potencializar as capacidades para o diálogo, construindo contextos e regras para tal. Na medida em que as possibilidades de trocas e comunicação são realizadas, as competências comunicativas (tais como de expressão, interpretação, argumentação, negociação) dos sujeitos também são promovidas e desenvolvidas.



Cooperação: Necessidade e desejo de cooperar para construir um projeto em comum Versus Relações de competição no interior do projeto coletivo

Nos grupos, as relações de cooperação e competição expressam uma forma de organização das relações de poder e conhecimento. Muitas vezes, no grupo, a cooperação já acontece com a troca de experiências, reflexões, sugestões, apoio mútuo e reconhecimento, não envolvendo necessariamente ações. A cooperação implica em empenhar-se em atividades conjuntas no grupo, colaborar para que os colegas consigam desempenhar a sua parte, facilitar a participação de todos e abrir-se para sugestões. Em processos de tomada de decisões, a postura de cooperação é visível na busca de consenso, ainda que consensos sejam sempre (conceitualmente falando) provisórios e instáveis. A competição não é necessariamente negativa. Pode ser equilibrada com formas de cooperação e ser negociada dentro das regras aceitas pelo grupo. Um aspecto importante da cooperação é relativo ao papel que o participante tem no grupo (na maior parte do tempo), podendo ser de liderança, participante ou alguém que não está bem integrado, podendo mesmo ser tomado como bode-expiatório pelo grupo, isto é, sendo estigmatizado ou rejeitado.

Nas UPs, existe a indicação de uma coordenação e, muitas vezes, de uma vice-coordenação, que dividirão com o grupo uma série de responsabilidades, criando assim um conjunto de regras que enfatizam a cooperação ou a centralização de poder e decisões. Faz parte do processo do grupo, na conquista de sua autonomia, refletir e decidir sobre a relação entre a coordenação e o grupo e sobre as suas formas de cooperação, tomada de decisões e participação.

- O vínculo de cada participante com a coordenação expressa pelo menos duas dimensões: a relação de transferência e a relação de poder. Pela relação de transferência, percebemos se o participante construiu um vínculo de confiança com a coordenação, se lhe traz demandas, se mostra ambivalência, passividade ou agressividade, etc. Na relação com a coordenação, os indivíduos podem mostrar dependência, disputa, paixão, desconfiança e diversos outros sentimentos e posturas. Para a elaboração deste processo, a participação no grupo deve ser potencializada, através dos vetores do processo grupal.

- As práticas de cooperação não dependem apenas da psicologia individual mas se apóiam, em larga escala, nas matrizes oferecidas pela cultura e pela sociedade. Há, entre os grupos, uma disputa pelos recursos existentes no Projeto, tais como espaço na loja onde os produtos são comercializados, em eventos, etc.

- Às vezes, nas UPs, especialmente no início da construção de seu processo grupal, as lideranças podem apresentar postura centralizadora e autoritária, onde falam pelo grupo e decidem por ele (e às vezes até fazem por ele). Podem, por exemplo, se recusar a compartilhar informações e decisões com o grupo ou simplesmente não lograr sucesso em criar um contexto onde esse compartilhamento seja possível. O contexto sociocultural brasileiro, com a nossa história de autoritarismo político, social e institucional, pode estar contribuindo em muito para esta falta de saber promover comunicação e participação. Para estabelecer práticas cooperativas, a UP precisa estabelecer também uma relação democrática e participativa entre a coordenação e o grupo.

- A cooperação como suporte para a autonomia do grupo é uma conquista do ponto de vista social, cultural e subjetivo. Por exemplo, as UPs às vezes sentem-se despreparadas para colocar preço em suas mercadorias. Diante desta dificuldade, muitas vezes, delegam a responsabilidade aos seus coordenadores e depois se queixam de falta de valorização do seu produto quando comparado a outros. A necessidade de se organizar para enfrentar o mercado (como produzir, como colocar preço e vender, etc.), e de fazer isto coletivamente, vai gerando, aos poucos, uma aprendizagem sobre práticas de cooperação.
Aprendizagem: Interesse e o desejo de aprender tanto assuntos técnicos quanto vivenciais Versus Dificuldades para aprender e dificuldades para se posicionar como alguém que tem o direito a aprender e a capacidade de aprender.

Como explica Pichon-Rivière (1994), a aprendizagem no Grupo Operativo é considerada em três dimensões cuja articulação depende da direção que o processo grupal toma. São elas: (1) absorção de novas informações com o raciocínio lógico; (2) insight sobre a experiência, usando o conjunto de saberes aprendidos, e (3) mudanças de postura diante do mundo, a partir dos avanços conseguidos e da reflexão promovida.

Pensando sobre a aprendizagem, nas UPs, podemos sugerir:

- O desenvolvimento de uma UP implica na expansão e no fortalecimento das competências técnicas dos participantes de forma a possibilitar a qualidade e a quantidade da produção bem como a sua colocação no mercado. Mas, além disso, a participação, em todos os seus aspectos grupais, sociais e culturais (e não apenas na produção de mercadorias), causa a necessidade de maiores informações e de novas reflexões sobre conteúdos e habilidades no contexto de vida dos participantes, o que chamamos de competências psicossociais.

- O grupo se constitui como campo e fonte de informações e de reflexão sobre a experiência. O envolvimento dos participantes pode ser pequeno ou grande, disto dependendo em muito o sucesso do empreendimento. Pela sua proposta de inclusão social e cooperação, o desenvolvimento de uma UP requer que os processos de aprendizagem não se limitem à absorção de informação e à aquisição de novas técnicas. Devem incluir as dimensões de insight, reflexão e transformação, sendo que esta última se refere tanto às atitudes dos sujeitos quanto às suas ações no e sobre o seu contexto sócio-cultural.

- Em cursos de capacitação deve-se cuidar de adequar à linguagem e as formas de comunicação, buscando tornar o conteúdo acessível sem perder a qualidade da formação, pois existe heterogeneidade de nível de educação formal bem como de acesso aos bens simbólicos que facilitam a interpretação e operacionalização das informações. Na relação de aprendizagem (educador-educando), deve-se buscar aumentar a capacidade de compreensão e interpretação da informação transmitida bem como a percepção de suas possíveis aplicações práticas no processo da UP.

- A construção de contextos de interação, diálogo e argumentação facilita o desenvolvimento das capacidades de interpretar, negociar, argumentar, decidir e operacionalizar. Os recursos lúdicos e pedagógicos podem auxiliar nessa tarefa. Nesse sentido, há ampliação e fortalecimento das competências psicossociais dos sujeitos e do capital social das UPs
Tele: Disposição para agir em conjunto Versus Falta de confiança no vínculo e no projeto grupal.

Na teoria do Grupo Operativo, o conceito “tele” expressa o vínculo de confiança entre os participantes e como se mostram disponíveis para trabalhar em conjunto14. Os participantes precisam acreditar que vale a pena investir no grupo e que os parceiros são confiáveis, pelo menos no que diz respeito às dimensões da interação envolvidas na tarefa externa.

Refletindo sobre a tele, nas UPs, podemos sugerir:

- No caso das UPs, a confiança envolve também o respeito às regras, à forma de se lidar com os recursos do grupo, incluindo o dinheiro, à abertura para negociar conflitos, entre outros aspectos. A racionalidade envolvida no estabelecimento da confiança mútua não está imune às influências de outros fatores tais como as relações pessoais, a capacidade de diálogo, os aspectos implícitos da vida grupal. Muitas vezes, a demanda que os participantes fazem ao grupo extrapola o pacto de trabalho e traz expectativas de confiança mútua para tratar de outras questões, tais como questões familiares, de história de vida, etc.

- É interessante notar que em algumas comunidades, antes de uma UP ser formada, o grupo já existia como “Grupo de Convivência”, constituindo um campo de apoio mútuo e sociabilidade. Ao se transformar em UP, esses grupos expressam a dificuldade em diferenciar seus diferentes papéis, funções e interações em um e outro modo de funcionamento. Então, a demanda de se reorganizar o grupo para obter tanto convivência quanto trabalho pode ser desestruturante para o acordo previamente existente. Contudo, quando se logra conservar a convivência ao mesmo tempo em que são criadas novas relações de trabalho, o vínculo grupal se fortalece e a UP se desenvolve. Mesmo o grupo que não teve a experiência anterior de convivência precisa desenvolver um mínimo de interação nesta dimensão para alcançar sucesso na sua auto-organização, na escolha de suas decisões, no compartilhamento de seus ganhos, na relação de lideranças-grupo, no acolhimento e desenvolvimento de seus participantes.
Pertinência: Construção de autonomia e protagonismo Versus Conformismo.

A pertinência diz respeito às formas como os participantes constroem saídas para as suas dificuldades, de maneira criativa e contextualizada, manejando limites e possibilidades nas situações enfrentadas. Longe do conformismo, o grupo desenvolve uma atitude protagonista em seu contexto.

Refletindo sobre a Pertinência, nas UPs, podemos sugerir:

- A pertinência muitas vezes é expressa, nas UPs, com um termo próprio: “capacidade de viração”. O grupo precisa ir além das idéias prontas e cristalizadas e abrir-se para novas idéias. É importante refletir o que é a “capacidade de viração”, como a desenvolvem e como superam dificuldades.

- O protagonismo é construído em um percurso que, de um lado, é vivencial e reflexivo e, de outro, exige condições sociais, culturais e políticas que lhe dêem sustentabilidade e condições de defesa de sua cidadania. Os participantes precisam problematizar a sua situação e buscar respostas possíveis dentro do seu contexto. Mas é igualmente fundamental que encontrem apoio para levar a cabo as ações necessárias ao seu desenvolvimento.

Assim, pensar a pertinência das ações de um grupo é sempre avaliar a sua relação com o contexto social, cultural e político. São ações resultantes apenas da pressão do contexto? Ou são ações que buscam afirmar o grupo apesar destas pressões? São respostas conformadas às demandas sociais? Ou são respostas criativas capazes de contribuir para a mudança do grupo e da comunidade?

Como o contexto é sempre o resultado de uma dada organização da cultura e da sociedade, na qual a política social ajuda a compor um “campo de possibilidades”, a inserção de um grupo dentro de uma política social traz conseqüências diretas para a sua criatividade e para a pertinência de suas ações. Ou seja, o seu pertencimento a uma política social coloca limites mas também inaugura possibilidades. As UPs precisam se conscientizar e se apropriar dessas possibilidades.


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volume4 n1 -> Cultura Organizacional, Identidade e Qualidade de Vida no Trabalho: Articulações e Sugestões de Pesquisas em Organizações Organizational Culture, Identity and Life Quality at Work
volume4 n1 -> Do Vínculo à Transferência: uma Contribuição da Psicanálise à Prática de Acompanhamento de Famílias From Bond to Transference: a Contribution from Psychoanalysis to the Practices of Family Follow-up
revistalapip -> Palavras-chave: família; saúde mental; portador de transtorno mental; Centro de Atenção Psicossocial; cuidado. Abstract
revistalapip -> 1 Social Representations about Homicides of Teenagers: Research on Documents
revistalapip -> Resenha do livro: venturi, G.; RecamáN, M.; Oliveira, S. (Orgs.). A mulher brasileira nos espaços público e privado
revistalapip -> The laboratory of psychology of faculdade dom bosco and the psychology of education in brazil
revistalapip -> Mendes, C. M. Conhecimento científico
revistalapip -> Remanescentes: Uma História de Exclusão Remnant Group: a history of Exclusion
revistalapip -> Play it again, Sam!” -verdades e Mentiras dos Jogos de Verdade em História Oral


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