Meu nome é Vermelho



Baixar 1.84 Mb.
Página10/45
Encontro29.07.2016
Tamanho1.84 Mb.
1   ...   6   7   8   9   10   11   12   13   ...   45

“Diga a ela que, se quisermos, podemos ir lá com um juiz e trazê-la de volta para casa.”

“Quer mesmo que eu diga isso a ela?”

Ele não respondeu logo. “Não, não diga.” A luz do lampião iluminou brutalmente seu rosto, e vi que baixava a cabeça como uma criança apanha­da fazendo arte. E por isso que apesar dos pesares respeito sua paixão e trans­mito suas cartas — e ele acha que é pelos trocados que desembolsa.

Já ia saindo da casa, mas ele me deteve na soleira da porta.

“Vai dizer a Shekure quanto eu a amo?”, perguntou-me com um ar emo­cionado e bobo. E eu respondi:

“Ora, não está escrito nas suas cartas?”

“Diga-me, o que devo fazer para convencê-la, e ao pai dela também?”

“É só se comportar como um bom moço”, falei, já me afastando.

“Na minha idade, já é tarde...”, ainda deixou escapar, com um ar since­ramente triste.

“Meu caro Hassan Efêndi, o senhor começa a ganhar muito dinheiro na alfândega... Isso faz qualquer um ser um bom moço”, disparei-lhe, saindo dali.

Havia naquela casa algo de sombrio e opressivo, que achei quase quen­te o ar da rua. O sol batia em meus olhos e eu disse comigo mesma: “Quero muito que Shekure seja feliz. Mas também tenho certa estima por esse coi­tado, em sua casa escura, úmida e fria”. Um impulso me fez passar pelo Mer­cado de Especiarias da avenida das Tulipas. Achava que o aroma da canela, do açafrão e da pimenta-do-reino me daria novo ânimo. Enganava-me.

Shekure pegou as cartas e quis logo saber do Negro. Respondi que ele se consumia cruelmente nas chamas da paixão. A resposta não pareceu de­sagradar-lhe.

Depois mudei de assunto: “Todas as comadres só comentam um assun­to, mesmo as que vivem enclausuradas, com suas tapeçarias, que são a única companhia delas: por que teriam matado o coitado do Elegante Efêndi?”.

“Hayriye!”, Shekure gritou. “Trate de preparar uma halvah e leve a Kalbiye, a mulher do pobre Elegante Efêndi.”

“Dizem que todos os seguidores do hodja de Erzurum são esperados no enterro”, falei. “E que a família teria dito que vai lavar sua morte no sangue!”

Mas Shekure já havia mergulhado na carta do Negro. Examinei atenta­mente seu rosto e fiquei muito ressabiada ao ver que a moça era tão matreira que conseguia ocultar até o mais tênue reflexo dos seus sentimentos. Senti porém que meu silêncio, enquanto ela lia, lhe era agradável e que ela via ne­le uma forma de aprovar a atenção que ela prestava ao conteúdo daquela car­ta. Foi portanto só para lhe agradar (porque ela se dignou de me dirigir um sorriso, uma vez terminada a leitura) que resolvi perguntar:

“O que ele diz?”

“A mesma coisa que quando era criança... Ele me ama!”

“E você, o que acha?”

“Eu? Eu sou casada. E espero meu marido.”

Ao contrário do que vocês devem imaginar, essa mentira, vinda com a confiança que ela depositava em mim para me encarregar do seu caso, não me irritou. Na verdade, até me tranqüilizou. Se todo mundo tivesse para co­migo a mesma deferência de Shekure — e, tenho de reconhecer, de um gran­de número das moças de quem levo as cartas e a quem dou meus bons con­selhos —, as coisas seriam muito menos complicadas e mais de uma teria arranjado melhor partido.

“E a outra carta, o que diz?”

“Não tenho vontade de ler a carta de Hassan agora. Ele sabe que o Ne­gro voltou para Istambul?”

“Hassan nem sabe que ele existe.”

“Quer dizer que você conversa com Hassan?”, perguntou minha bela Shekure arregalando seus olhos negros.

“É o que você me pede.”

“Eu?”

“Ele está sofrendo. Ele te ama muito. Mesmo se você se enrabichasse por outro, não se livraria dele. Aceitando receber as cartas de Hassan, você despertou novamente todas as esperanças dele. Cuidado com ele! Porque ele não só deseja levar você de volta para casa, como está pronto para confirmar a morte do irmão para poder se casar com você.” Para compensar a ameaça que parecia pesar nas palavras do pobre Hassan e para não me ver reduzida a relatá-las tais quais, sorri a Shekure.



“E o outro, o que ele diz disso?”, perguntou, sem que ela mesma pare­cesse saber do que falava.

“O pintor?”

“Estou tão desorientada”, suspirou, sem dúvida assustada com seus pró­prios pensamentos. (Ela está totalmente perdida, disse eu com os meus bo­tões.) “Meu pai está ficando velho. Quem vai proteger a mim e a meus fi­lhos órfãos? Algo me diz que uma desgraça nos espreita e que o Diabo vai tentar nos fazer mal. Ester, diga alguma coisa que me deixe feliz.”

“Não se preocupe, querida”, respondi, apesar de tremer como uma vara verde em meu foro interior. “Você é inteligente, bonita. Um dia estará na mesma cama de um homem bonito e forte, e nos braços dele esquecerá to­das as suas desgraças e será feliz. Dá para ler em seus lindos olhos.”

Eu me sentia tão cheia de amor por ela que meus olhos marejavam.

“Sim, mas qual é o que me convém?”

“Seu coração, sempre tão sábio, não diz qual?”

“Mas se sou infeliz é justamente porque não consigo compreender o que meu coração tenta me dizer!”

Durante o silêncio que se seguiu, pensei que Shekure, na verdade, não confiava em mim, que dissimulava habilmente sua desconfiança a fim de me fazer falar e, sobretudo, para que eu tivesse dó dela. Quando percebi que ela não iria escrever já as respostas para as cartas que eu trouxera, peguei mi­nha trouxa e fui embora, despedindo-me com uma dessas fórmulas que gos­to de dirigir às moças casadouras, inclusive às vesgas:

“Abra seus belos olhos, querida, e não se preocupe que nada de errado vai lhe acontecer.”

16. Eu, Shekure

Antes, quando recebia a visita de Ester, a vendedora ambulante, eu ima­ginava que ela me trazia a carta que um apaixonado, bonito, inteligente e bem criado como eu, digno de fazer bater o coração de uma jovem e, no en­tanto, honorabilíssima viúva, tinha finalmente resolvido me enviar; e ao ver chegar as cartas dos mesmos pretendentes de sempre, eu me sentia ainda mais firme em meu propósito de esperar pacientemente a volta do meu espo­so. Mas agora, cada vez que Ester vai embora, sinto-me confusa e miserável.

Fixei minha atenção nos ruídos à minha volta. Chegava-me da cozinha, com o cheiro de limão e cebola, o crepitar das abobrinhas que Hayriye aca­bava de pôr para fritar no azeite fervendo. No pátio, os gritos de Shevket e Orhan que lutavam espada e brincavam junto do pé de romã. Meu pai esta­va em silêncio no quarto. Abri a carta de Hassan para relê-la e constatei mais uma vez que não havia mesmo nada de interessante nela. Mas percebi que sentia um pouco mais de medo dele agora e congratulei-me por ter sabido resistir a todas as suas tentativas para se deitar comigo, na época em que mo­rávamos sob o mesmo teto. Depois, peguei com delicadeza, como se fosse uma criaturinha frágil que corre o risco de se machucar, a carta do Negro e, lendo-a, fiquei abalada. Não precisei reler as duas cartas. O sol tinha aparecido entre as nuvens, e eu pensei: “Se tivesse ido uma noite para a cama com Hassan, ninguém teria sabido. Somente Alá. Ele se parece tanto com meu marido que teria sido a mesma coisa. E engraçado como às vezes me ocor­rem essas idéias disparatadas”. O sol esquentava rápido, seu calor acariciava meu corpo: minha pele, meu pescoço e até o bico dos meus seios. Seus raios caíam direto sobre mim pela porta aberta, quando Orhan entrou no quarto.

“Está lendo o quê, mamãe?”

Bom, lembram-se que eu disse a vocês que não reli as cartas que Ester acabava de me trazer? Eu menti. Eram elas que eu relia. Desta vez estou di­zendo a verdade: dobrei-as e enfiei-as dentro da minha blusa.

“Venha sentar aqui no meu colo”, disse a Orhan. “Puxa, como você es­tá pesado! Já é um garotão, que Alá o proteja”, disse-lhe cobrindo-o de bei­jos. “Como você está gelado, menino!”

“E você, mamãe, está tão quentinha!”, ele replicou, apertando-se con­tra o meu peito.

Abraçamo-nos bem forte. Ele gosta tanto de ficar sentado assim comi­go, em silêncio! Eu sentia seu cheiro beijando-o no pescoço. Apertamo-nos mais ainda e ficamos um bom tempo abraçados, sem falar nada.

“Estou sentindo cócegas”, disse ele por fim.

“Vamos ver”, falei com um ar sério. “Se o sultão dos djins aparecesse e dissesse que satisfaria qualquer desejo seu, o que você ia querer mais que tu­do neste mundo?”

“Que Shevket não morasse com a gente.”

“E o que mais você ia querer? Não gostaria de ter um papai?”

“Não. Quando eu crescer, eu é que vou me casar com você.”

A maior calamidade não é envelhecer e ficar feia, nem mesmo ficar sem marido nem recursos. É não ter ninguém que tenha ciúme da gente, pensei. Agora que Orhan tinha se aquecido, eu o fiz descer do meu colo. Preciso en­contrar um marido que seja bom como eu e tenha o mesmo caráter difícil que eu, dizia comigo mesma indo ver meu pai em seu quarto.

“Quando o senhor terminar seu livro, Nosso Sultão o recompensará”, disse a ele, “e o senhor voltará a Veneza.”

“Não sei, não”, disse meu pai. “Esse assassinato me perturba. Nossos ini­migos devem ser poderosos.”

“E eu, do meu lado, sei que minha situação pessoal tornou-os mais au­daciosos, causou mal-entendidos e esperanças infundadas.”

“De que está falando?”

“Acho que seria melhor eu me casar o mais cedo possível.”

“O quê? E com quem?”, perguntou. “Além do mais você já é casada... Que idéia é essa? E quem te pediu em casamento? Ele pode ser o mais es­perto e obstinado dos pretendentes”, disse meu pai com malícia, “mas duvi­do que caia facilmente nas minhas boas graças.” Depois ele resumiu com frieza a dificuldade da minha situação: “Antes de poder casar de novo, como você sabe, há vários problemas complicados a resolver”. Ao fim de um longo silêncio, acabou por me dizer: “Está querendo me deixar, filha querida?”.

“Esta noite sonhei que meu marido tinha morrido”, disse, “mas não cho­rei, como teria feito outra esposa que tivesse o mesmo sonho.”

“Interpretar os sonhos é uma ciência, como também é a interpretação de uma miniatura.”

“O senhor acharia inconveniente eu lhe contar o meu sonho?”

Houve uma pausa: sorrimos um ao outro, como duas pessoas que in­tuem, no mesmo instante, aonde a conversa vai levá-las.

“A interpretação do seu sonho pode até me levar a crer na morte dele, mas seu sogro, seu cunhado e o juiz, que forçosamente os ouvirá, reclama­rão outras provas.”

“Já faz dois anos que voltei a morar nesta casa com meus filhos, e meu cunhado e meu sogro não vieram me buscar.”

“É que eles estão em falta com você, e reconhecem isso”, retrucou meu pai. “Mas isso não quer dizer que estão dispostos a deixar você entrar com um pedido de divórcio.”

“Se fôssemos das seitas malekita ou hanbalita, o juiz poderia pronun­ciar a separação, com pensão alimentícia, ao fim de quatro anos de ausência. Mas como somos hanafitas, com a graça de Alá, é impossível.”

“Não venha me falar daquele juiz substituto de Uskudar, que parece que é xafiita. Não quero saber de falcatruas.”

“Todas as mulheres de Istambul que perderam o marido na guerra vão vê-lo, com testemunhas, para poderem se divorciar. Como é xafiita, ele se contenta com lhes perguntar desde quando o marido desapareceu, se estão com problemas materiais, se há testemunhas, e pronto: pronuncia a separa­ção de corpos na hora.”

“Quem foi que meteu essa idéia na sua cabeça, minha filha? Quem fez você perder o juízo a esse ponto?”

“Depois que eu obtiver meu divórcio, se houver de fato um homem ca­paz de me fazer perder o juízo, quem vai me dizer quem é ele, está claro, se­rá o senhor, e eu jamais questionarei esta sua decisão.”

Meu astuto pai, que sabe que sua filha é tão esperta quanto ele, semi­cerrou lentamente os olhos.

Em geral, ele só deixa os olhos assim semicerrados em três circunstân­cias: 1. quando precisa pensar depressa numa artimanha para se safar de um embaraço; 2. quando está à beira das lágrimas, de tão triste e desesperança­do; 3. quando as duas se misturam um pouco e ele, tendo encontrado sua ar­timanha, dá a impressão de que está prestes a chorar de tristeza.

“Você vai embora com seus filhos, deixando seu velho pai sozinho? Sa­be, eu tinha medo de que me matassem por causa do nosso livro” — ele dis­se assim mesmo, nosso livro — “mas agora que você quer ir embora com seus filhos, a morte é bem-vinda.”

“Meu paizinho querido, será que o senhor não entende que preciso me proteger o mais depressa possível do meu ignóbil cunhado, se necessário por um divórcio?”

“Não quero que você me abandone. Seu marido pode voltar. E, se não voltar, você não necessita de outro lar. Minha casa te basta e você pode ficar nela.”

“Meu único desejo é ficar morando aqui com o senhor.”

“Mas, minha querida, você não acabou de me dizer que contava fundar um novo lar?”

É sempre assim, quando a gente discute com um pai: ele sempre acaba nos fazendo admitir que estamos erradas.

“E verdade, eu disse.”

Depois, para ter alguma coisa a dizer e não chorar, resolvi jogar uma úl­tima cartada, tanto mais que, no fundo, eu me sentia no meu direito.

“Quer dizer então que nunca mais vou poder me casar?”

“Há no meu coração um lugar especial para um genro que não te levas-se para longe de mim. Quem é esse novo pretendente? Ele estaria disposto a viver aqui conosco?”

Não respondi. Nenhum de nós dois se deixava iludir. Meu pai não teria respeitado um genro de têmpera tão fraca que aceitaria viver na casa do pai da esposa: ele o esmagaria pouco a pouco, sorrateiramente, logo o reduziria a nada, um nada a ponto de eu mesma não querer mais saber dele.

“Você sabe perfeitamente que, na sua situação, você não pode se casar de novo sem a autorização do seu pai. Não quero que você se case e não te­nho a menor intenção de te dar a minha autorização...”

“Não é me casar que eu quero, mas me divorciar.”

“... porque um homem que só tivesse olhos para os seus interesses po­deria te fazer mal, até sem querer. Você sabe muito bem quanto eu te amo, minha filha querida! E depois precisamos terminar esse livro.”

Mais uma vez eu me calei, temendo que, se continuasse a argumentar, incitada pelo Diabo que sabia da minha raiva, eu acabasse lhe dizendo na cara que eu sabia muito bem que ele levava Hayriye para a cama, à noite. Mas corno uma mulher como eu poderia dizer ao seu velho pai que sabe que ele dorme com a criada?

“Quem quer se casar com você?”

Olhei para o vazio, sem responder, mais por raiva do que por pudor, po­rém. O pior é que o fato de não poder responder só atiçava a minha raiva e eu acabava imaginando meu pai com Hayriye na cama, em posições grotes­cas e repugnantes. Quando minhas lágrimas estavam a ponto de cair, acabei dizendo, sem olhar para ele:

“As abobrinhas estão no fogo. Vão se queimar.”

Enfiei-me no quarto junto da escada, aquele que dá para o poço e cuja janela está sempre fechada. Procurei na escuridão, tateando, o colchão en­rolado, estendi-o no chão e me deitei. Ah, como é bom, quando a gente é pequena e faz uma bobagem, jogar-se na cama e chorar até cair no sono! E quando choro assim no meu canto, dizendo-me que sou a única que me ama e que sou tão infeliz por estar sozinha, saber que vocês me ouvem gemer e soluçar me ajuda muito.

Dei-me conta de que pouco depois Orhan viera se deitar ao meu lado. Ele pôs a cabeça entre meus seios e vi que suspirava, derramando copiosas lágrimas. Apertei-o forte contra mim. Ele disse:

“Não chore, mamãe. Papai vai voltar da guerra.”

“Como é que você sabe?”

Ele se calou. Mas eu o amava tanto, apertei-o com tanta força contra o meu peito, que me esqueci de todas as minhas penas. Antes de dormir abra­çada assim ao meu pequeno Orhan, de corpo tão frágil e magro, vou lhes confessar uma coisa: eu me arrependo de ter contado a vocês agora há pou­co, por pura raiva, sobre papai e Hayriye. Não, não foi mentira, mas estou tão envergonhada, que lhes peço, por favor, esqueçam o que eu contei, fa­çam como se eu não tivesse dito nada, como se não houvesse nada entre ela e ele.

17. Eu sou o vosso Tio

É difícil ter uma filha, difícil mesmo. Ela chorava silenciosamente. Eu sentia que ela chorava, mas não desviei os olhos da página do volume que ti­nha nas mãos. Numa das páginas desse livro que eu me esforçava para ler, Das circunstâncias da ressurreição final, evocava-se como a alma, três dias depois da morte, recebe a autorização de Alá para visitar, no túmulo, o cor­po em que vivia outrora. Ante o aspecto lamentável do seu corpo, fétido, pu­trefato, secretando seus humores, ela se aflige e se desespera: “Meu pobre corpo!”, exclama. “Oh, velhos despojos meus!” Logo me veio à mente o tris­te fim do Elegante Efêndi, e pensei em como sua alma deve ter se afligido quando veio visitá-lo e, em vez de encontrá-lo no seu túmulo, encontrou-o no fundo daquele poço.

Assim que as lágrimas de Shekure se acalmaram, deixei de lado meu li­vro sobre a morte, vesti mais uma camisa de baixo, de lã, apertei meu grosso cinto de feltro em torno da cintura para aquecer bem meu abdome, enfiei as perneiras forradas de pele de lebre e, quando ia saindo de casa, dei com Shev­ket entrando.

“Aonde vai, vovô?”

“Entre. Vou a um enterro.”

Andando pelas ruas desertas e nevadas, passei junto dos escombros das casas destruídas pelos últimos incêndios, com algumas das suas paredes ain­da precariamente de pé. Segui pelos bairros vizinhos, com as suas lojinhas de quinquilharias, ferragens, selas, arreios, artefatos de couro, jóias, e andei mais um bocado até chegar às muralhas, apesar de ter cortado caminho por hortas e jardins, que minhas pernas fracas de velho atravessavam a passo miú­do, para evitar um tombo no chão congelado.

Mas que idéia, essa de fazer a procissão fúnebre partir da mesquita de Mihrimah, perto da porta de Andrinopla! Na mesquita, abracei os irmãos do falecido, cuja cabeça grande lhes dá um ar constantemente furioso e incon­formado. Nós, pintores e copistas, nos abraçamos e choramos. Enquanto a prece era recitada, a bruma caía suavemente, envolvendo, esmagando tudo com sua luz de chumbo, e meus olhos não desgrudavam um só instante do esquife posto sobre a pedra. Senti tamanha raiva contra o canalha que tinha feito aquilo que até mesmo as orações misericordiosas se embaralhavam na minha mente.

Depois da prece, quando uns membros da corporação ergueram o cai­xão no ombro, fiquei junto dos outros pintores e calígrafos. Eu e Cegonha esquecemos nessa ocasião que, certa noite, quando ele ficou comigo até de manhã pintando à luz das velas e, sobretudo, tentando me convencer da vul­garidade do Elegante Efêndi no uso das cores — é verdade que, para “pare­cer rico”, ele punha azul em toda parte —, eu lhe dera razão, sobre a arte, se não sobre a pessoa, daquele iluminador. Depois trocamos um abraço, mais alguns soluços. Oliva, ao contrário, dirigiu-me um olhar amistoso e profun­damente respeitoso ao mesmo tempo, que me causou tamanha satisfação — para não falar naquela sua maneira tão particular, também, de me abraçar (um homem que sabe dar um abraço só pode ser bom) — a ponto de eu di­zer a mim mesmo que, de todos os pintores e calígrafos, quem mais sincera­mente acreditava no meu livro era ele.

Depois, na escadaria do átrio, encontrei-me lado a lado com o Grande Mestre Osman, e ficamos sem saber que palavras trocar entre nós. Foi um instante estranho e tenso, durante o qual os irmãos do falecido puseram-se a chorar ainda mais intensamente, um deles até chamou a atenção ao gritar alto demais: “Grande é Alá!”.

“Qual vai ser o cemitério?”, perguntou Mestre Osman, sem se dirigir verdadeiramente a mim.

Eu temia parecer hostil, se respondesse apenas: “Não sei”, e por isso per­guntei, sem tampouco prestar muita atenção, à primeira pessoa ao nosso la­do: “Qual vai ser o cemitério? O da Porta de Andrinopla?”.

“O de Ayub Ansari.” Eu me virei para o Grande Mestre a fim de lhe transmitir a resposta que vinha de um jovem barbudo e mal-encarado, mas, evidentemente, ele a ouvira e me disse: “Já ouvi”, acrescentando tal olhar, que dei por entendido que ele não tinha a menor intenção de levar a con­versa adiante.

Não havia dúvida de que Mestre Osman digeria mal o fato de Nosso Sultão ter confiado a mim a tarefa de supervisionar a escrita, a ornamenta­ção e a ilustração do manuscrito iluminado, em que ia figurar o retrato im­perial, tarefa essa que, como eu já disse, supunha-se envolta em total sigilo. Por minha influência, nosso soberano manifesta agora verdadeiro entusias­mo pela maneira de pintar do Ocidente. Certa vez, chegou até a pedir a Mes­tre Osman que copiasse um retrato seu feito por um artista italiano. E Mes­tre Osman, que atendeu ao pedido com a mais extrema repugnância e qualificou como uma “tortura” a tarefa que lhe fora imposta, acredita ter si­do eu o responsável por essa idéia. E não se engana.

Parei no meio da escada por um instante e pus-me a olhar para o céu. Quando tive certeza de ter ficado bem para trás, continuei a descer devaga­rinho os degraus cobertos de gelo. Não havia descido dois, e a duras penas, quando senti me agarrarem firmemente pelo braço: o Negro.

“Que frio! O senhor está bem agasalhado?”, perguntou-me.

Eu já não tinha a menor dúvida de que era ele que estava fazendo mi­nha filha perder o juízo. A segurança com que ele me pegara pelo braço era o melhor indício. Sua atitude, de certa maneira, significava: “Durante esses doze anos, trabalhei e virei homem”. Chegando ao fim da escada, disse-lhe que gostaria que ele me contasse mais tarde o que vira no Grande Ateliê.

“Vamos, filho, passe na frente”, disse a ele, “vá juntar-se aos outros.”

Ele se espantou, mas não deixou transparecer. A maneira grave e refletida com que soltou meu braço e afastou-se de mim até me agradou. Se eu lhe desse Shekure, será que viria morar conosco?

Quando saímos da cidade pela porta de Andrinopla, pude ver, mais abaixo, meio perdidos na bruma, a multidão dos pintores, calígrafos e aprendizes que desciam a ladeira rapidamente, em direção ao Chifre de Ouro, levando o caixão nos ombros. Iam tão depressa que já tinham percorrido mais da me­tade do caminho lamacento que leva ao cemitério de Ayub pelo vale, todo branco de neve. No silêncio e na bruma, as chaminés da fábrica de velas da fundação beneficente Sultana-Mãe, à esquerda, fumegavam mansamente. Ao pé das muralhas, era grande a movimentação nos matadouros, que abas­teciam os curtidores e os açougueiros gregos instalados no bairro. Emanava de lá um cheiro de abate e de carniça que se espalhava no vale até os cipres­tes do cemitério e as cúpulas da mesquita, que mal dava para discernir na bruma. Mais alguns passos e pude ouvir os gritos das crianças do novo bairro judeu de Balat, que brincavam mais abaixo.

Quando chegamos à esplanada diante do cemitério, Borboleta veio pou­sar ao meu lado. Sempre febril e agitado, foi direto ao assunto:

“Oliva e Cegonha é que são os responsáveis por tudo”, disse. “Como to­do mundo, eles sabiam muito bem que eu não me entendia com o Elegan­te, e tinham certeza de que todos sabiam disso. Éramos, por assim dizer, ad­versários na sucessão de Mestre Osman à frente do Grande Ateliê, o que desenvolveu entre nós certa inveja e sentimentos de franca hostilidade, até. Agora eles jogam com isso para me verem acusado do crime ou, pelo me­nos, para me afastar, quero dizer, para nos afastar do Tesoureiro-Mor e, com ele, do Nosso Sultão.”

“Quem é esse ‘nós’ a que você se refere?”

“Os que acreditam que a antiga tradição tem de perdurar no Grande Ateliê. Todos os que acreditam, como eu, que devemos seguir o caminho tra­çado pelos mestres persas e que não se pode desenhar qualquer coisa apenas por dinheiro. Nós declaramos em alto e bom som que, em vez de armas e de guerras, de prisioneiros vencidos e conquistadores vitoriosos, o que se deve pôr nos livros são as belas lendas antigas, a poesia, as fábulas; que os verda­deiros pintores não têm o direito de se afastar dos modelos, nem de se rebai­xar a pintar, numa lojinha do bazar, coisas vergonhosas para um cliente qual­quer que se disponha a lhes pagar quatro ou cinco moedas de prata. Sua Excelência Nosso Sultão nos dará razão.”




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   6   7   8   9   10   11   12   13   ...   45


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal