Meu nome é Vermelho



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“Você está pintando as coisas mais negras do que são”, disse-lhe eu, a fim de encurtar a conversa. “Estou convencido de que o Grande Ateliê não abriga nenhum indivíduo tão corrupto a ponto de se dedicar a esse tipo de torpeza. Vocês são todos irmãos! Dois ou três temas pintados sem o aval da tradição não justificam tanta animosidade.”

Na mesma hora, como da primeira vez que a notícia do assassinato che­gou aos meus ouvidos, tive a convicção de que o assassino do Elegante Efêndi era um dos principais mestres do ateliê imperial e de que ele se encontra­va naquele instante diante dos meus olhos, entre a multidão que subia a ladeira do cemitério. Compreendi também, naquele momento, que aquele criminoso diabólico ia prosseguir sua obra de morte, que ele era hostil ao projeto do meu livro e que era bem provável que fizesse parte dos pintores que eu contratara para vir fazer as miniaturas na minha casa. Será que Bor­boleta também tinha se apaixonado por Shekure, como a maioria dos artis­tas que freqüentam a minha casa? Deixando-se empolgar com suas afirma­ções peremptórias, teria esquecido que eu também lhe havia encomendado obras totalmente contrárias aos seus princípios? Ou estaria apenas me alfi­netando sutilmente?

Não, disse a mim mesmo após uma breve hesitação, não se trata de alfi­netada. Tanto quanto os outros três, Borboleta tinha para comigo uma irresgatável dívida de gratidão: com o dinheiro e os presentes do tesouro imperial mirrando, em conseqüência das guerras ou da indiferença do Nosso Sultão, a única fonte significativa de renda extra que eles possuíam era o trabalho para o meu livro. Eu sabia que a atenção que dava a cada um provocava mui­ta ciumeira entre eles, daí a razão — embora não seja essa a única — de eu os receber em casa sempre separadamente. Não há, pois, motivo algum para me quererem mal. Todos esses pintores são pessoas suficientemente madu­ras para se comportar de maneira inteligente e admirar com sinceridade um homem a quem tanto devem em seu benefício próprio.

Para quebrar o silêncio e evitar a volta àquela penosa conversa, falei: “De que prodígios Alá é capaz! Eles carregam o caixão na subida quase tão depressa quanto na descida!”.

Borboleta respondeu com um sorriso enternecedor, que me descobriu todos os seus dentes: “É que estão com frio”.

Seria ele capaz de matar alguém? perguntei-me. Por inveja, por exemplo? E de me matar, em seguida? O pretexto estava dado: sua vítima blasfe­mava contra a religião. Mas não, por que um grande artista como ele, com tanto talento, assassinaria alguém? Ser velho significa não apenas se esfalfar para subir uma ladeira, mas também, pelo menos assim deveria ser, já não ter tanto medo da morte — e ir para a cama com a criada menos por excita­ção do que por costume. Cedendo a um impulso da intuição, comuniquei-lhe em cima da bucha a decisão que eu acabara de tomar:

“Não vou continuar o livro.”

“Como?”, reagiu Borboleta, perplexo.

“Há nesse projeto algo de sinistro. E além do mais Nosso Sultão não o financia mais. Diga isso a Oliva e a Cegonha.”

Ele ia fazer outra pergunta, mas havíamos chegado de repente ao lugar em que ficava a cova, entre as outras pedras sepulcrais, em meio aos cipres­tes e altos fetos. Da maneira como as primeiras fileiras se acotovelavam e pe­las exclamações de piedade — bismillahi, ala milleti Resulullah — acompa­nhadas de soluços mais fortes do que antes, compreendi que já iam baixar o caixão.

“Mostrem o rosto dele”, disse alguém, “mostrem bem!”

Alguém puxou a parte de cima da mortalha, a fim de oferecer, à vista de todos, os olhos, ou melhor, o único olho que restava no rosto esmigalhado do cadáver. Eu estava longe demais para ver alguma coisa e, mesmo assim, não esperava estar à beira de um túmulo para olhar nos olhos da Morte.

Uma lembrança: trinta anos antes, quando o avô do Nosso Sultão me­teu na cabeça tomar de volta dos venezianos a ilha de Chipre, o Grão-Mufti de então promulgou com esse fim uma fatwa que, lembrando que outrora o bloqueio da ilha pelos sultões do Egito havia comprometido o fornecimento de trigo a Meca e Medina, declarava inaceitável deixar nas mãos dos infiéis um território que alimentava os Lugares Sagrados. Assim, minha primeira missão como embaixador consistira nessa tarefa — tão inesperada para os se­nadores venezianos quanto difícil para mim — de intimá-los a nos devolver a ilha. Foi assim que pude conhecer Veneza. Embora suas catedrais, suas pontes e seus palácios tivessem me maravilhado, o que mais me encantou foram as pinturas que ornam suas moradias. E, no meio de todo esse deslumbramento, confiando na hospitalidade que eles tinham sabido me dispensar, tive de entregar a carta ameaçadora, de uma arrogância incrível, que dava a conhecer as pretensões de Nosso Sultão em relação a Chipre. O efeito dela foi tão devastador que o Senado, imediatamente reunido, decretou que não cabia nem sequer debater uma missiva como aquela. O populacho furioso me imobilizou dentro do palácio do Doge, e os maltrapilhos, forçando a guarda, teriam me linchado, se dois guarda-costas do próprio doge não me tivessem retirado dali, através dos escuros corredores do palácio, por uma porta secreta que dava para o canal. Lá, no nevoeiro, que não é menos den­so que o que daqui, cheguei a pensar por um instante que o gondoleiro alto e magro vestido de branco, que me pegou pelo braço para me levar à outra margem, era ninguém mais, ninguém menos que a Morte em pessoa e, du­rante a travessia, percebi meu reflexo em seus olhos.

Cheio de saudade, sonhava terminar meu livro em segredo e voltar a Veneza. Aproximei-me do túmulo, que tinha sido cuidadosamente coberto com terra. Neste momento, os anjos já devem ter começado seu interrogató­rio, perguntando-lhe sobre seu sexo, sua religião e quem ele reconhece co­mo seu profeta. E a possibilidade da minha morte veio-me à mente.

Um corvo levantou vôo não longe de mim. Olhei para o Negro com ter­nura, no fundo dos olhos, e pedi-lhe para me dar o braço e me acompanhar de volta para casa. Disse ao Negro que o esperaria no dia seguinte, de ma­nhã cedo, para começar a trabalhar no livro, porque, ao pensar na minha morte, compreendi que precisava terminá-lo a qualquer preço.

18. Serei chamado Assassino

Quando começaram a jogar as pás de terra gelada sobre a pobre carca­ça destroçada do Elegante Efêndi, chorei mais que todo mundo. “Quero mor­rer também, enterrem-me aqui, com ele!”, gritava desesperadamente, pron­to a me deixar cair na cova, enquanto me seguravam pela cintura. Eu fingia me sufocar, e eles puxaram minha cabeça para trás, esfregaram minhas têm­poras para me ajudar a respirar. Meus soluços e minhas lágrimas alcançaram proporções que corriam o risco de parecer exageradas, mas notei, a tempo de me controlar, os olhares espantados da parentela. Sem contar que já via antecipadamente todos os mexeriqueiros do ateliê concluírem, de todo esse meu pranto, que eu e o Elegante Efêndi tínhamos sido amantes.

Assim, para não chamar mais a atenção sobre mim, preferi passar o res­to do enterro dissimulado atrás do tronco de um plátano. Mas um parente mais estúpido que o estúpido que eu havia mandado para o Inferno veio ao meu encontro atrás do plátano e me encarou, com um ar que ele acreditava ser bastante expressivo. Levei um tempão para me livrar dele. O paspalho acabou me dizendo: “Você era Sábado ou Quarta-Feira?”. Respondi-lhe que Quarta-Feira era o outro nome de Elegante. Ele pareceu surpreso.

A história desses apelidos de ateliê, que ainda nos ligam mutuamente como num pacto secreto, é bastante simples. Durante nossos anos de apren­dizado, Osman, que acabara de ser promovido de mestre assistente a mestre miniaturista, era o mais respeitado, o mais admirado e o mais amado dos nos­sos mentores. Era um grande artista, que Alá abençoou com um notável ta­lento artístico e o intelecto de um djim. Foi ele que nos ensinou tudo. Co­mo é normal entre os discípulos e seu mestre, ele combinava que um de nós fosse buscá-lo em casa, depois o acompanhasse ao ateliê levando seu estojo, seu alforje e todos os seus papéis numa pasta. Tanta vontade tínhamos de es­tar perto do Mestre, que sempre discutíamos e brigávamos para determinar quem ia acompanhá-lo naquele dia.

Mestre Osman tinha um favorito, mas se convocasse sempre este para acompanhá-lo, o ateliê seria inevitavelmente tomado por mexericos e chaco­tas sem fim, de modo que o Grande Mestre decidiu que cada um de nós o acompanharia num dia da semana. Ele trabalhava sexta-feira, mas sábado fi­cava em casa. Seu filho, a quem amava ternamente e que também era apren­diz conosco (alguns anos depois, abandonou a pintura e, ao traí-la, nos traiu), acompanhava-o toda segunda-feira. Havia também nosso irmão Quinta-Feira, o mais talentoso de nós, que era grande e magro e que morreu moço, de uma febre de origem desconhecida. O Elegante Efêndi, descanse em paz, ia às quartas-feiras, daí ser chamado de Quarta-Feira. Mais tarde Mestre Osman mudou novamente nossos nomes: Terça-Feira virou Oliva; Sexta-Feira, Cego­nha; e Domingo, Borboleta. Havia nessa escolha tanto amor quanto sentido: o Elegante, por exemplo, era o mais requintado dos iluminadores. O Grande Mestre cumprimentava o falecido Elegante com um apropriado: “Bem-vin­do, Quarta-Feira, como está hoje?”. E assim fazia com cada um de nós.

Lembrando-me de como ele me chamava, sinto meus olhos se enche­rem de lágrimas. Mestre Osman nos admirava, seus olhos ficavam mareja­dos quando ele contemplava a beleza do nosso trabalho; ele beijava nossas mãos e nossos braços, e nosso talento desabrochava com tanto amor. A des­peito das bastonadas na planta dos pés, nós, aprendizes de Mestre Osman, nos sentíamos como numa espécie de Paraíso. A própria inveja, que projeta sua sombra sobre aqueles nossos anos felizes, tinha, na época, uma intensi­dade diferente.

Agora, estou dividido, como esses personagens de que um pintor faz as mãos e o rosto, enquanto outro pintor se encarrega de desenhar e colorir o corpo e as roupas. Quem teme Alá, como é o meu caso, não se acostuma de um dia para o outro com sua nova condição de assassino, principalmente se ela não é premeditada. Para poder continuar a me comportar como se mi­nha vida não houvesse mudado, criei uma segunda voz, em harmonia com essa nova personalidade. E com essa segunda voz, galhofeira e irônica, sem nenhuma relação com minha vida antiga, que me exprimo neste momento. De quando em quando, é claro, vocês também ouvirão minha voz familiar, de outrora, que teria continuado a ser minha única voz, não houvesse eu co­metido esse crime. Mas quando eu falar com meu costumeiro apelido de ateliê, nunca vou admitir ser um assassino. Não adianta vocês tentarem asso­ciar essas duas vozes, porque não tenho um vezo característico ou uma ma­nia que me traiam. A meu ver, um estilo nada mais é que um defeito que permite, em cada objeto, distinguir entre todos os outros quem o pintou, e não uma característica individual, como alguns arrogantemente proclamam.

Reconheço que, na minha situação, há um problema. Pelo seguinte: eu posso perfeitamente falar com o apelido que me deu amorosamente Mestre Osman e que o Tio Efêndi também gosta de empregar, mas não gostaria na­da que vocês descobrissem se sou Borboleta, Oliva ou Cegonha, porque, se descobrissem, aposto que não hesitariam em me entregar aos carrascos do Jardineiro-Mor.

Por isso preciso tomar muito cuidado com o que penso e digo. Pois sei muito bem que, mesmo quando matutando comigo mesmo, vocês estão me ouvindo. Não posso me permitir falar livremente das minhas frustrações nem dos detalhes incriminadores da minha vida. Mesmo quando contei as três histórias — Alif, Ba e Djim —, tinha sempre presente o olhar de vocês.

É verdade que em todas as minhas miniaturas os guerreiros, amantes, os príncipes e os heróis lendários, pintados por mim dezenas de milhares de vezes, o personagem está voltado em parte para o que figura na ilustração — por exemplo, os inimigos que estão combatendo, os dragões que estão ma­tando ou as lindas mulheres pelas quais eles choram — e em parte também para o olhar esclarecido do amante dos belos livros que estiver observando a minha magnífica pintura. Se tenho um estilo próprio, ele não está escondi­do apenas na minha pintura, mas também no meu crime e em cada uma das minhas palavras! Estou curioso por saber quem, pela cor das minhas pala­vras, será capaz de me desmascarar.

Sei também que, se um de vocês me pegar, isso fará repousar a pobre alma do infortunado Elegante Efêndi. Enquanto sob as árvores, entre os gorjeios dos passarinhos, contemplo encantado as cúpulas de Istambul, as águas cintilantes do Chifre de Ouro, dizendo-me mais uma vez que esta vida é de­cididamente bela, jogam sobre ele as últimas pás de terra. Patético Elegante Efêndi! Nos últimos tempos — principalmente desde que passou a se rela­cionar com o grupo do carrancudo pregador de Erzurum —, não me tinha mais em seu coração; mas nos vinte e cinco anos em que passamos lado a la­do, ilustrando os manuscritos do Nosso Sultão, muitos momentos houve em que fomos bastante próximos. Ficamos amigos de fato vinte anos atrás, quan­do nós dois colaborávamos para o Livro dos reis encomendado pelo pai do Nosso Sultão atual; mas nunca estivemos tão próximos quando trabalhamos nas oito miniaturas para o Divã, de Fuzuli. Um dia, naquele verão, ao anoi­tecer, quando o vôo das andorinhas acima da nossa cabeça parecia um delí­rio, eu o ouvia — com uma paciência que somente o amor pode dar — de­clamar para mim os poemas que tínhamos de ilustrar. Daquela tarde, retive um verso: “Não sou mais que tu, tu és tudo o que era eu”. Sempre me perguntei como se poderia ilustrar esse verso.

Quando soube que haviam encontrado seu cadáver, corri para sua casa. O jardim, como todos os jardins que a gente revê após muitos anos, pareceu-me menor do que na minha lembrança — havíamos passado ali, em outros tempos, horas e horas lendo poesia. Tudo estava coberto pela neve. A casa também parecia menor. Numa sala contígua, ouviam-se os gritos das mulhe­res, seus concursos de lamentações, enquanto na sala dos homens eu ouvia um grandalhão, irmão mais velho do defunto, explicar que tinham encon­trado seu pobre irmão Elegante com o crânio esmagado, o rosto deformado c que, depois dos quatro dias passados no fundo daquele poço, o corpo esta­va irreconhecível, até mesmo para seus irmãos; que ele mandara chamar a esposa, a pobre Kalbyie, que, de noite, na penumbra, só foi capaz de identificar as roupas no corpo dilacerado do marido. Parecia-me ver um quadro: José, salvo do poço onde seus irmãos invejosos o haviam atirado, pelos mer­cadores de Madian. Gosto muito dessa cena de José e Zuleykha, que nos re­corda que a inveja entre irmãos é o sentimento essencial que nos move.

Fez-se um silêncio e senti os olhares pousarem em mim. Será que eu devia chorar? Mas meu olhar encontrou o do Negro. Esse pobre coitado vigia todo o mundo, como se tivesse sido enviado pelo seu Tio especialmente para pôr essa história em pratos limpos.

“Quem pode ter cometido uma coisa dessas?”, pôs-se a gritar o irmão mais velho. “Quem é tão sem coração para trucidar desse modo meu irmão­zinho, que era incapaz de fazer mal a uma mosca?”

Deu suas lágrimas como resposta a essa grave pergunta e eu, com toda sinceridade, chorei com os outros, fingindo também me perguntar: quem era inimigo do Elegante Efêndi? Quem o teria matado, se eu não me tivesse encarregado de fazê-lo? Lembrei-me que, há alguns anos — trabalhávamos, creio, no Livro dos talentos —, ele estava o tempo todo atrás de confusão, não me lembro direito com quem, sob os mais diversos pretextos — trans­gressões, liberdades tomadas para com a tradição —, dizendo que, por falta de gosto no uso das cores, por douraduras apressadas e baratas, estávamos massacrando o trabalho e os esforços dos artistas como ele. Houve também aquela história de uma paixão, que dera muito o que falar na época, que ele teria nutrido por um belo aprendiz de encadernador do andar debaixo. Mas não havia nisso nenhum motivo para ter arranjado inimigos e, além do mais, já faz muito tempo. É verdade também que a delicadeza do Elegante Efên­di, quero dizer seu lado refinado, seus ares de grande dama, enervava muita gente. Porém, o que mais irritava mesmo era aquela sua maneira servil de venerar os clássicos, sua cisma com a combinação das cores das iluminuras e das ilustrações, sua mania de ir ver Mestre Osman para falar mal de todo o mundo — principalmente de mim — e apontar, num tom discretamente sentencioso, defeitos que não existiam. A última altercação girava em torno de um tema a que Mestre Osman é particularmente sensível: as encomen­das furtivamente aceitas, fora do Palácio, por pintores normalmente vincula­dos ao Palácio. Dado o relativo desinteresse do Nosso Sultão e, por conse­guinte, a redução das remunerações pelo Tesoureiro-Mor, nestes últimos anos todos os pintores tinham passado a freqüentar na calada da noite as man­sões de certos paxás de gosto grosseiro, e os mais talentosos iam à casa do Tio, para não citar outros nomes.

Não que eu tenha ficado com raiva do Tio por ter ele resolvido suspen­der, pretextando um pressentimento funesto, a confecção do seu livro, me­lhor dizendo, do nosso livro. Ele sem dúvida alguma desconfia que esse bo­boca do Elegante Efêndi foi eliminado justamente por um dos que participam da ilustração do seu livro; no lugar dele, vocês continuariam a receber o as­sassino cada quinze dias em sua casa para trabalharem noite adentro numas ilustrações? A intenção dele, tenho certeza, é dar em breve prosseguimento aos trabalhos, mas apenas com aquele que ele avaliar como o mais talentoso dos três, pelas cores e a douradura, as margens e o desenho, os rostos e a com­posição da página. Então, continuará a trabalhar somente comigo. Porque não posso imaginar que ele seja tão fútil a ponto de me tomar por um vulgar assassino, em vez do miniaturista verdadeiramente talentoso que sou.

Não paro de observar com o canto do olho esse idiota do Negro Efêndi, que o Tio trouxe consigo. Quando os dois se apartaram da multidão que vie­ra ao enterro e agora se dispersava, segui-os de longe. Desceram até o embarcadouro e entraram num quadrirreme; tomei, por minha vez, uma em­barcação um pouco maior, de seis remos, junto com uns jovens aprendizes que riam entre si, já nem lembrando mais do falecido ou do seu enterro. Na altura da Porta do Farol, quando nossos barcos aproximaram-se tanto que quase íamos bordo contra bordo, vejo o Negro conversando com seu Tio em voz baixa. Digo a mim mesmo, mais uma vez, que decididamente não há nada mais fácil do que tirar a vida de alguém. Meu bom Alá, vós, que nos concedestes esse poder incrível, nos inspirastes também o medo de usá-lo!

Mas, quando vencemos esse medo, quando passamos ao ato, que meta­morfose! Antes, eu me aterrorizava não só com o Demônio, mas até com o menor indício de maldade que percebia dentro de mim. Agora, tenho a sen­sação de que esse mal pode ser suportado, mais ainda, que ele é indispensá­vel para um artista. Descontado o leve tremor das mãos que me afetou por uns dias, desde que matei aquele miserável arremedo de homem passei a de­senhar muito melhor, minhas cores são mais ousadas e mais vivas, e consta­to, acima de tudo, que minha imaginação dá à luz maravilhas. Mas quantas pessoas, em Istambul, são capazes de apreciá-las?

Ao chegar no meio do Chifre de Ouro, na altura de Djibali, enquanto os últimos raios de sol que reapareceu furtivamente entre as nuvens fazem cintilar a neve que cobre as cúpulas, lanço sobre Istambul um longo olhar cheio de ressentimento. Quanto mais vasta e colorida uma cidade, digo a mim mesmo, mais ela acobertará o crime e a luxúria; quanto mais numeroso o povo, mais os pecados de um só serão confundidos na massa. O gênio das grandes cidades não se mede pelo número de bibliotecas, escolas, sábios, pintores e calígrafos que nela encontram abrigo, mas pela acumulação dos crimes não desvendados, cometidos século após século no escuro das vielas. Desse ponto de vista, Istambul é, com toda certeza, a cidade mais genial do mundo.

O barco parou no cais de Unkapa, e desembarquei para seguir o Negro e seu Tio, que subiam a rua, apoiados um no outro. Segui-os até a parte re­centemente incendiada, atrás da grande mesquita de Mehmet II; pararam ali um instante, depois cada qual foi para o seu lado. O Tio Efêndi ficou só e me pareceu de repente um indefeso velhote. Por um instante, senti ganas de correr até ele, contar-lhe que havia cometido aquele crime para proteger a nós todos, para evitar as ignóbeis calúnias daquele que acabávamos de enter­rar. Gostaria de lhe perguntar: “É verdade o que dizia o Elegante Efêndi, que as miniaturas que o senhor nos manda fazer abusam da confiança do Sultão, traem as regras sagradas da nossa arte e atentam contra a religião? E a última miniatura foi concluída?”.

Cai a noite. Estou parado no meio da rua coberta de neve e observo-a de cabo a rabo. Os pais já foram buscar os filhos na escola e voltam para ca­sa, deixando a rua escura entregue à sua melancolia, aos djins, às fadas, aos bandidos e assaltantes, à tristeza das árvores nevadas, a mim. Lá no fim, sob o teto da casa do Tio Efêndi, imponente com seus dois andares, que entre­vejo através dos galhos nus dos castanheiros, reside a mais linda mulher do mundo. Mas trato de não perder a cabeça por ela.

19. Eu, o Dinheiro

Vejam! Sou um escudo otomano, de ouro de vinte e dois quilates, arvo­rando emblemas de Sua Gloriosa Majestade, Protetor do Mundo. Noite al­ta, aqui neste fino café, abalado pela tristeza do funeral desta manhã, Cego­nha, um dos mestres pintores do Nosso Sultão, acaba de me desenhar, apesar de não ter a tinta dourada para me embelezar — mas deixo esse detalhe por conta da imaginação de vocês. Minha imagem está pendurada na parede, mas eu estou na bolsa do querido irmão de vocês, Cegonha, o ilustre minia­turista. Ele se levanta, me tira e me exibe, orgulhoso, a cada um dos aqui presentes. Olá, boa noite a todos! Os olhos de vocês se arregalam, refletem meu brilho. Vocês admiram essa luminosidade que a luz das lâmpadas me empresta e sentem crescer no seu íntimo a inveja do meu possuidor, Mestre Cegonha! E têm razão, pois que sou o árbitro, a medida do talento.

Nestes três últimos meses, Mestre Cegonha amealhou exatamente qua­renta e sete escudos de ouro, iguaizinhos a mim. Estamos todos aqui, nesta bolsa, e Mestre Cegonha, como vocês podem constatar, não esconde esse fato e sabe perfeitamente que nenhum dos seus colegas, aqui em Istambul, ganha tanto. Tenho muito orgulho de ser reconhecido como o juiz inconteste do talento dos artistas e de dirimir as desnecessárias desavenças que surgem entre vocês. Antigamente, antes que o consumo do café viesse ilumi­nar-lhes as mentes, aqueles pintores obtusos passavam a noite discutindo aca­loradamente quem era o mais talentoso, quem tinha o melhor senso das co­res, quem desenhava melhor as árvores ou reproduzia com maior perícia os céus nublados; e muitas vezes chegavam às vias de fato, a ponto de voarem dentes arrancados a soco. Agora que entrei em circulação, mantenho a or­dem e, sob o meu juízo, reina no ateliê uma doce paz, uma harmoniosa con­córdia, numa atmosfera digna dos antigos mestres de Herat.

Isso, para não falar de todos os outros bens que podem adquirir comigo, além dessa harmonia, desse ambiente ameno: o lindo pé de uma jovem es­crava, pois que, para comprá-la inteira, é preciso contar com cinqüenta ve­zes mais; um espelho de barbeiro de boa feitura, com o fundo de nogueira e a moldura de marfim; uma cômoda pintada, ornada de rosáceas e ramagens de prata folhada, que só elas valem noventa moedas de prata; cento e vinte fôrmas grandes de pão; uma sepultura no cemitério para três pessoas, com os respectivos caixões; um bracelete de prata; um décimo de um cavalo; as coxas grossas e gordas de uma velha concubina; um bezerro de búfala; dois pratos chineses de boa qualidade; o salário mensal do pintor de Tabriz, Meh­met, o Dervixe, assim como da maioria dos estrangeiros requisitados, como ele, para servir ao Nosso Sultão; um bom falcão caçador com sua gaiola; dez garrafas do melhor vinho resinado; uma hora paradisíaca com Mahmut, por exemplo — um desses jovens, célebres em todo o mundo por sua beleza —; além de outras opções mais insólitas, é claro.




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