Meu nome é Vermelho



Baixar 1.84 Mb.
Página12/45
Encontro29.07.2016
Tamanho1.84 Mb.
1   ...   8   9   10   11   12   13   14   15   ...   45

Mas antes de chegar aqui, passei dez dias na meia suja de um miserável aprendiz de sapateiro. Todas as noites o coitado dormia enumerando, em sua cama, todo o sem-fim de coisas que compraria comigo. Esse seu verdadeiro poema épico, suave como uma canção de ninar, persuadiu-me de que não há lugar neste mundo em que uma moeda não possa ir parar.

Dizendo isso, percebo que, se precisasse detalhar todas as minhas tribu­lações até o dia de hoje, haveria matéria para muitos volumes. Mas como não há estranhos entre nós, como somos todos amigos, se vocês me prome­terem não contar nada a ninguém, vou lhes revelar, somente a vocês — e se Cegonha Efêndi não tiver nada contra —, um segredo. Prometem?

Pois bem, confesso: não sou um autêntico escudo de ouro de vinte e dois quilates, estampado com a efígie do Nosso Sultão em sua fundição da Coluna Queimada. Sou falso. Sou de proveniência obscura, cunhado em Veneza com raspas de outras moedas e introduzido fraudulentamente aqui, como es­cudo otomano. Conto com a indulgência de vocês e desde já agradeço.

Pelo que fiquei sabendo em Veneza, na oficina em que fui cunhado, es­se tráfico de moedas falsas vem de longe. Até pouco tempo atrás, as moedas adulteradas que os infiéis punham em circulação no Oriente eram ducados de Veneza, cunhados no mesmo molde dos ducados autênticos. E nós, oto­manos, que sempre demonstramos um respeito reverenciai por tudo o que está escrito, nem cogitamos de verificar a porcentagem de ouro contida nes­sas moedas — pois que a porcentagem que vinha gravada era sempre a mesma —, e esses falsos ducados inundaram Istambul. Mais tarde, quando des­cobriram que as moedas falsas, por terem menos ouro e mais cobre, são mais duras que as verdadeiras, começamos a verificá-las com os dentes. Por exem­plo, louco de amor, você corre em busca dos favores do sublime Mahmud, o amante universal; a primeira coisa que ele vai pôr na boca vai ser a sua moeda — e não a outra coisa — e, cravando nela seus belos dentes, vai de­clarar que é falsa. E dirá que, por esse valor, vai levar você ao Paraíso por ape­nas meia hora, em vez de uma! Esses infiéis de Veneza, ao verem que suas moedas estavam assim desacreditadas, decidiram que o melhor a fazer era falsificar moedas otomanas, com o que iam novamente tapear os otomanos.

Deixem-me chamar-lhes a atenção para uma coisa muito esquisita: quan­do esses infiéis venezianos pintam, é como se não estivessem fazendo uma pintura, mas na verdade produzindo o objeto que pintam! Já quando se trata de moeda, em vez de produzirem moeda verdadeira, produzem moeda falsa.

Fomos despejados em arcas de ferro, depois embarcaram-nos e, jogados de um navio a outro, desembarcaram-nos em Istambul. Foi assim que me encontrei na boca de um cambista que fedia terrivelmente a alho. Ainda bem que não demorou a aparecer um camponês, um boboca que queria trocar a moeda de ouro verdadeira que ele possuía. O cambista, um escroque de pri­meira, disse que tinha de morder aquela moeda, para verificar se por acaso não era falsa, e meteu-a na boca.

Quando nós dois nos encontramos nessa boca, cara a cara, se ouso dizer, vi que o outro era um verdadeiro escudo de ouro otomano, autêntico como o camponês, seu dono. Ele me vê naquele fedor de alho e me diz: “Você é falso!”. Era verdade, mas como aquele pretensioso só queria implicar gratuitamente comigo, menti respondendo-lhe: “De jeito nenhum, o falso aqui é você!”.

Enquanto isso, o camponês esbravejava: “Falsa, minha moeda? Eu a es­condi num buraco, na minha terra, vinte anos atrás! E lá havia dessas trapa­ças, vinte anos atrás?”.

O que iria acontecer? Mas eis que meu cambista me tira da boca, no lu­gar do escudo daquele labrego, e diz: “Tome sua moeda de volta! Não aceito essas moedas falsas que os infiéis de Veneza querem que passemos adiante!”. E para zombar ainda mais do coitado, acrescenta: “Você não tem vergonha na cara?”. O outro responde alguma coisa cheia de ressentimento e vai-se embora comigo. Mas, ao ver que os demais cambistas davam o mesmo vere­dicto, acabou, em desespero de causa, me cedendo por apenas noventa moe­das de prata. Era o começo de sete anos de vagabundagem.

Permitam-me dizer que posso me gabar de, moeda sabida que sou — pois valho duas —, ter circulado a maior parte do tempo em Istambul, pas­sando de bolso em bolso e de bolsa em bolsa. Meu maior pesadelo era o de dormir por lustros e mais lustros numa enxovia, gelar numa talha, debaixo de uma pedra de jardim — não é que não tenha passado por isso, mas foi sempre por pouco tempo. A maioria das pessoas, assim que percebia que eu não era autêntica, tratava de me passar logo pra frente. Mas nunca encontrei ninguém que avisasse a um receptor ingênuo que sou falsa. Se um cambista é bobo o bastante para pagar por mim cento e vinte moedas de prata, é a si mesmo que ele culpa, arranca os próprios cabelos por ter se deixado enganar desse jeito, e só uma idéia lhe ocupa a cabeça: tapear outro. Mas a raiva e a pressa farão que suas tentativas de passar a perna em outro fracassem um sem-número de vezes, e cada vez ele xinga furioso o “indecente” que o tapeou.

Assim, nos últimos sete anos, mudei de mãos quinhentas e sessenta ve­zes, e não há casa, loja, mercado, bazar, mesquita, igreja ou sinagoga nesta cidade em que eu não tenha estado. Em todo esse trajeto, vi e ouvi a meu respeito mexericos e histórias muito mais graves do que eu imaginava. O tem­po todo esfregam-me na cara que eu passei a ser a única coisa de valor, que não tenho piedade, que sou cega a tudo o que não sou eu, o Dinheiro, que só gosto de mim, que o mundo de hoje repousa unicamente em mim e que, comigo, pode-se agora comprar e vender tudo, apesar de eu ser vil, vulgar e repugnante. Os que descobrem que sou falsa ficam furiosos e me amaldiçoam a não mais poder. Sem dúvida, devo me consolar com o fato de que meu valor simbólico não pára de subir, enquanto meu valor real despenca sem cessar.

Porque, a despeito das calúnias gratuitas, de todas essas farpas dolorosas, vejo que a maioria das pessoas olha para mim com uma afeição profunda e sincera. Nesses tempos de maldade, creio que todas nós deveríamos nos re­gozijar com esse afeto sincero e até apaixonado.

Passei, pois, por todas as mãos, de judeus e árabes, de mingrelianos e abkhazes, conheci cada ruela, cada bairro, cada polegada de Istambul, antes de sair da cidade na bagagem de um hodja, que vinha de Andrinopla e ia pa­ra Manisa. Na estrada, é atacado por salteadores. Um deles grita: “A bolsa ou a vida?”. Apavorado, o pobre hodja me esconde onde imagina que eu es­taria mais segura: dentro do cu! Esse lugar fedia mais que a boca do aprecia­dor de alho, além de ser nitidamente menos sossegado, porque a situação azedou quando, em vez de “a bolsa ou a vida?”, os bandoleiros passaram a dizer: “a honra ou a vida?”. Puseram-se em fila e entraram em meu escon­derijo, um depois do outro. Prefiro não contar os ultrajes que sofri, metida naquele buraco apertado. E por isso que detesto sair de Istambul.

Porque, em Istambul, sempre fui muito bem tratada: as moças casadou­ras me cobrem de beijos, como se eu fosse o partido com que sonham, guar­dam-me na seda dos seus porta-moedas, sob seus travesseiros, entre seus seios volumosos e até na roupa de baixo. Elas me apalpam, dormindo, para se cer­tificar da minha presença. Já me esconderam perto da estufa de um hamam, numa bota, no fundo de um frasco, na cheirosa loja de um perfumista ou na bolsinha secreta que um cozinheiro costurou no fundo do seu saco de lenti­lhas. Percorri toda Istambul escondida em cintos de couro de camelo, em forros de jaqueta feitos de tecido xadrez do Egito, no pano grosso de uma pantufa ou nas dobras multicores de um chalvar. O relojoeiro Pietro encafurnou-me num relógio de pêndulo, e um merceeiro grego meteu-me numa grossa fôrma de queijo. Dividi o mesmo esconderijo com jóias, sinetes e chaves: éramos enrolados num pano espesso, depois metidos no fundo de uma estufa, de um cano de chaminé ou sob um parapeito de janela; em travessei­ros cheios de palha, num alçapão no assoalho, em baús com fundo falso. Conheci pais de família que se levantavam bruscamente da mesa para verificar se eu continuava onde tinham me posto, mulheres que, sem mais nem menos, me chupavam como se eu fosse açúcar-cande, crianças que me cheira­vam e me enfiavam no nariz, velhotes com o pé na cova que não ficavam sossegados se não me tiravam da bolsa de pele de carneiro sete vezes por dia no mínimo. Houve uma circassiana tão maníaca que, depois de passar o dia lavando e lustrando sua casa, tinha de nos tirar da bolsa para nos esfregar, uma a uma, com uma escova de pau. Lembro-me do cambista caolho que passava o tempo nos empilhando em pequenos bastiões; do porteiro que re­cendia a madressilva e que ficava nos contemplando, com toda a família, co­mo se fôssemos uma linda paisagem; e do dourador, aquele que acaba de nos deixar — inútil dizer mais, creio —, que passava suas noites nos arrumando de todas as formas possíveis e imagináveis. Viajei em grandes barcaças de acaju; percorri todo o Grande Serralho; fui introduzida nas encadernações de manuscritos costurados em Herat, nos tacões de borzeguins perfumados com rosa, nas tampas dos sacos de correio, e manipulada por centenas de mãos: sujas, peludas, gorduchas, pegajosas, velhas e trêmulas; recolhi o chei­ro e o suor de Istambul, dos fumadouros de ópio às fábricas de vela e às barricas de arenque. Depois de tantas emoções e de tanta tensão, um assaltante horrível que acabava de degolar sua vítima num canto escuro me embolsou e, de volta a seu antro infame, cuspiu em mim, dizendo: “Maldita, tudo por sua causa!”. Eu me senti tão mal que me deu vontade de desaparecer.

Mas, se eu não existisse, ninguém distinguiria um bom pintor de um mau pintor, e os miniaturistas acabariam se massacrando. Foi por isso que não desapareci, fui simplesmente me meter no bolso do mais sabido, do mais talentoso entre eles. E cá estou.

Se vocês se acham melhores pintores do que Cegonha, dêem um jeito de vir me pegar.

20. Meu nome é Negro

Eu me pergunto se o pai de Shekure estava a par das nossas cartas. Se eu considerasse o tom que adotava nas dela, de mocinha tímida, amedronta­da com seu pai, deveria concluir que não deve ter sido trocada nenhuma pa­lavra entre eles a meu respeito. Mas eu sentia o contrário. Os olhares mali­ciosos de Ester, a ambulante, a misteriosa aparição de Shekure à janela, a decisão com que meu Tio me mandou à casa dos pintores e a aflição com que ele tinha mandado que eu viesse vê-lo esta manhã, tudo isso me causa­va certa apreensão.

Esta manhã portanto, meu Tio mandou-me sentar à sua frente e desa­tou a me falar dos retratos que tinha visto em Veneza. Como embaixador do Nosso Sultão, Protetor do Mundo, pôde entrar em grande número de palá­cios, ricas residências e igrejas. Passou dias inteiros diante dos milhares de retratos, em tela e madeira, emoldurados ou pintados diretamente na pare­de, viu rostos humanos aos milhares, mas “os rostos eram todos diferentes uns dos outros, únicos, sem nenhuma parecença”, disse. Sua variedade, suas cores, sua luz suave, sua afabilidade ou rudeza, enfim a expressividade dos seus olhares o haviam literalmente inebriado.

“Como se atacados por uma virulenta epidemia, todo o mundo mandava fazer seu retrato”, contou. “Em toda a Veneza, os homens ricos e influen­tes queriam ter seu retrato, como memória e testemunho de sua vida, mas também como símbolo da sua fortuna, do seu poder e do seu prestígio, de modo que parecessem continuar presentes, diante de nós, proclamando sua existência, ou melhor, sua individualidade e sua distinção.”

Suas palavras eram desdenhosas, como se ele estigmatizasse a inveja, a cobiça ou a cupidez. Mas, ao evocar aqueles retratos que ele tinha visto em Veneza, seu rosto se iluminava por instantes com uma luz quase infantil.

Fazendo-se retratar em todas as ocasiões, os ricos amantes da arte, os príncipes e as grandes famílias que patrocinavam a pintura fizeram disso uma moda contagiosa e, quando encomendavam para uma igreja certa cena dos Evangelhos ou das Escrituras, esses infiéis impunham a condição de esta­rem seus rostos representados nelas. Por exemplo, em certo quadro figuran­do as exéquias de Santo Estevão, você encontrará, entre as pessoas que cho­ram em torno do túmulo, o próprio príncipe que, cheio de orgulho, alegria e entusiasmo, lhe mostra agora os quadros que ornam as paredes do seu pa­lácio. Depois, no canto de um afresco em que São Pedro socorre os enfer­mos, um detalhe deixa você perplexo com seu delicado anfitrião: um dos in­felizes que sofre pavorosamente ali é o próprio irmão dele, que na verdade vai muito bem de saúde. No dia seguinte, outra vez, desta vez num quadro que representa a ressurreição dos mortos, você identifica num cadáver o vi­zinho de mesa que, no almoço, se empanturrava ao seu lado.

“Alguns chegaram a tal ponto”, prosseguiu meu Tio num tom temero­so, como se estivéssemos falando de alguma tentação do Diabo, “que, para figurar na multidão dos personagens de um quadro, se rebaixam até a ser re­tratados como um simples escanção servindo vinho aos convidados, ou co­mo um dos sanhosos que lapidam a mulher adúltera, quando não como um assassino com as mãos tintas de sangue.”

“É como nos livros que contam as velhas lendas persas”, comento, fin­gindo não ter entendido nada, “em que vemos Ismail Xá subindo no trono em grande pompa. Ou quando encontramos, na história de Khosrow e Shi­rin, uma imagem de Tamerlão, que no entanto reinou muitíssimo depois.”

Terei ouvido nesse momento um barulho estranho na casa?

“É como se, com essas pinturas, os europeus quisessem nos impressio­nar”, disse em seguida meu Tio. “Não só realçando a riqueza e o poder dos homens que encomendam essas obras, mas também tentando nos fazer crer que a vida e o mundo deles têm algo de especial e de fascinante. Com aque­les rostos, aqueles olhares e aquelas atitudes sempre distintos, aquelas som­bras que definem as dobras das suas roupas, eles pretendem nos intimidar, aparecendo como criaturas fabulosas.”

Ele me contou como, certa vez, num rico palácio às margens do lago de Como, tinha se perdido numa galeria em que um excêntrico aficionado da pintura havia reunido cem retratos oficiais de todos os personagens céle­bres da história da Europa, soberanos e cardeais, generais e poetas. “Nosso amável anfitrião, depois de me mostrar orgulhosamente sua casa, deu-me a liberdade de visitar à vontade seus aposentos. Vi então todas aquelas perso­nalidades infiéis, algumas das quais me olhavam fixo nos olhos, transforma­vam-se em pessoas de certo modo vastas demais para este mundo, pelo sim­ples fato de estarem pintadas em retratos, de parecerem reais e, portanto, tão importantes. Emanava daqueles retratos uma espécie de magia que os torna­va incomparáveis e que me fez sentir de repente, no meio de todas aquelas pinturas, incompleto e impotente. Era como se, estivesse eu pintado daque­la maneira, poderia compreender melhor minha razão de ser neste mundo.”

Esse desejo amedrontou-o, porque ele logo percebeu que a paixão pelo retrato acarretaria o fim da pintura do islã, a pintura cujos modelos, perfeitos e irretocáveis, haviam sido estabelecidos pelos antigos mestres de Herat. “Era como se eu tivesse o desejo de me distinguir dos outros, de ser diferente de todos, de me sentir único”, disse-me. Meu Tio sentia-se irresistivelmente atraí­do por aquilo mesmo que o aterrorizava, como se o Diabo o acicatasse. “Era, como dizer, um desejo criminoso de se valorizar diante de Alá, de se acredi­tar importante, de se colocar, em poucas palavras, no centro do mundo.”

A partir daquele instante, uma idéia começou a tomar forma em sua mente: aqueles métodos que, nas mãos dos artistas europeus, eram aplicados numa espécie de brincadeira infantil e arrogante, podiam ser muito mais do que uma simples magia, se postos a serviço do Nosso Glorioso Sultão — podiam tornar-se uma força legítima a serviço da nossa religião, capaz de impor a ascendência desta a quantos contemplassem as obras assim realizadas.

Foi assim que surgiu o projeto do manuscrito iluminado. Ao voltar para Istambul da sua missão a Veneza, meu Tio sugeriu a Nosso Sultão a idéia de retratá-lo à maneira européia. O retrato faria parte de um livro que traria imagens de Sua Excelência e dos objetos e personagens que melhor a represen­tassem. A proposta do meu Tio acabou sendo aceita, mas não sem antes en­frentar uma séria objeção do Nosso Sábio e Glorioso Sultão.

“O essencial é a história”, dissera ele. “Uma bela imagem completa gra­ciosamente uma história. Se tento imaginar uma imagem que não seja a ilus­tração de uma história, percebo que, ao fim, ela se tornará um falso ídolo. Porque como não é possível acreditar numa história ausente, acabaremos na­turalmente acreditando na imagem mesma. É como aquele culto dos ídolos da Caaba, antes de serem quebrados por Nosso Profeta, que a paz e as gra­ças estejam com ele. Como você poderia representar este cravo vermelho, por exemplo, ou um anão cheio de soberba, se eles não forem parte de uma história?”

“Mostrando a beleza do cravo e que ele é diferente de todos os outros.”

“E na composição da sua cena, você situaria a flor no centro preciso da página?”

“Fiquei com medo”, confessou-me então meu Tio. “A direção a que os pensamentos do Nosso Sultão me conduziam deixou-me momentaneamen­te em pânico.”

Quanto a mim, senti que o medo do meu Tio era o de que outra coisa, que não Alá, pudesse ser bela o suficiente para ser posta no centro da página e, por conseguinte, do mundo.

“Depois, você vai querer pendurar na parede o quadro no centro do qual terá posto um anão qualquer”, dissera o Sultão. Como eu havia intuído, era essa conseqüência que meu Tio temia. “Mas uma imagem não pode ser ex­posta assim. Porque uma imagem pendurada na parede, qualquer que seja nossa primeira intenção, sempre acaba convidando à adoração. Se — não queira Alá! — eu acreditasse, como os infiéis, que o profeta Jesus é ao mes­mo tempo o próprio Senhor Deus, então eu concordaria com que Alá pu­desse ser visto neste mundo e até aparecer sob a forma humana. Só então eu poderia aceitar que fossem pintadas e exibidas imagens representando pes­soas com todos os seus detalhes. Você certamente há de convir que, mesmo sem termos consciência, acabamos adorando qualquer imagem assim expos­ta, não é?”

“Tanto eu convinha”, disse-me meu Tio, “que tremia por pensar no que nós dois pensávamos.”

“É por isso que não posso admitir que exponham meu retrato”, obser­vou Nosso Sultão.

“Mas ele bem que gostaria”, acrescentou meu Tio, com um sorriso dia­bólico.

Foi então a minha vez de ter medo.

“No entanto”, prosseguiu Nosso Sultão, “é meu desejo que esse retrato à maneira européia seja executado: é só dissimulá-lo nas páginas de um li­vro. Diga-me como será esse livro.”

“Surpreso e assustado, pensei demoradamente no que ele me dissera”, contou-me meu Tio, exibindo aquele sorriso digno de ser tachado de demo­níaco, e tive a impressão de ver produzir-se nele uma espécie de metamorfose.

“Sua Excelência, Nosso Sultão, deu-me a ordem de começar sem mais tardar a confecção do livro. Eu estava tonto de felicidade. Acrescentou que o preparasse como um presente para o doge, que eu deveria visitar novamen­te em Veneza. Ele deseja que a data da conclusão da obra coincida com o primeiro milênio da Hégira, de modo a se tornar um símbolo do vitorioso poder do Califa do islã, Nosso Glorioso Sultão. Mas, para não divulgar sua intenção de negociar com Veneza e não atiçar as rivalidades entre os pinto­res do seu Ateliê, ordenou-me também que preparasse o livro no mais rigo­roso segredo. Jurando absoluto segredo, embarquei exultante nesta extraor­dinária aventura.”

21. Eu sou o vosso Tio

Foi portanto na sexta-feira de manhã que comecei a lhe explicar que gê­nero de obra ia ser o livro destinado a conter o retrato do Nosso Sultão à ma­neira européia. Meu ponto de partida foi a mesma história que contei a Nos­so Sultão, depois a forma como eu o persuadi a encomendar a confecção desse livro. Mais secretamente, meu objetivo era conseguir fazer que o Ne­gro escrevesse as histórias que acompanhariam as miniaturas, cuja redação eu mesmo não conseguia iniciar.

Eu lhe disse que havia terminado a maioria das miniaturas do livro e que a última estava a ponto de ser concluída. “Há no meu livro”, contei-lhe, “uma imagem da Morte, o desenho de uma árvore, que encomendei ao su­til Cegonha, representando a tranqüilidade do reino terreno do Nosso Sul­tão. Há uma imagem do Diabo, uma imagem de um cavalo, que nos convi­da a ir bem longe. Há um cachorro, astuto e sábio, há o dinheiro... Fiz os mestres do Grande Ateliê pintarem tudo isso com tanta beleza que, mesmo se você as vir uma só vez, logo saberá dizer qual deve ser o texto correspon­dente. A poesia e o desenho são irmã e irmão, como você sabe, assim como as palavras e as cores.”

Por um instante, pensei se devia lhe dizer que poderia lhe dar minha filha em casamento. Será que ele viria morar conosco nesta casa? Disse a mim mesmo que não me deixasse enganar por aquela sua embevecida atenção nem por aquele ar infantil estampado no seu rosto. Eu sabia perfeitamente que ele só esperava obter a mão de Shekure para levá-la daqui. Mas não ha­via ninguém mais, além do meu querido Negro, em quem eu pudesse con­fiar para terminar meu livro.

Voltávamos da prece da sexta-feira quando abordei a questão das som­bras, a maior invenção dos mestres italianos. Se fizéssemos nossos quadros inspirando-nos no mundo tal como o vemos nas ruas por onde passamos, em que paramos para conversar todos os dias, teríamos de aprender a pôr neles também, como fazem os pintores da Europa, a coisa mais freqüente que se pode encontrar na rua, a sombra.

“Como se pode representar a sombra?”, perguntou o Negro.

Eu percebia de vez em quando que meu sobrinho me ouvia com certa impaciência. Suas mãos brincavam com o pesado tinteiro mongol que me trouxera de presente, ou então ele avivava o fogo da estufa com o atiçador. Às vezes eu tinha a impressão de que ele ia erguer o atiçador acima da mi­nha cabeça, e me matar. Porque eu ousava afastar a pintura do ponto de vis­ta de Alá, porque eu traía a tradição e todas as obras nascidas dos sonhos dos mestres de Herat. Porque eu havia seduzido Nosso Sultão a fazê-lo. Às vezes ele ficava sem se mexer e me olhava fixamente no fundo dos olhos. Podia até imaginar o que ele pensava: que estava disposto a se submeter totalmente a mim, até eu lhe conceder a mão da minha filha. Então, como quando ele era pequeno, levei-o ao jardim, para tentar, como um pai, lhe explicar as ár­vores, o jogo dos raios do sol nas folhas, a neve que derrete e a razão pela qual, em nossa rua, quanto mais distantes as casas, menores parecem ser. Foi um erro. Mas esse erro me bastou para eu entender que todo tipo de relação paterna e filial estava extinto entre nós havia muito tempo. No lugar da curio­sidade da criança, de um desejo qualquer de saber, ele demonstrava simples­mente paciência com as elucubrações de um velhote gagá, em cuja filha ele estava de olho. Os sofrimentos daqueles doze anos, a poeira de todas aquelas cidades e de todos aqueles países que ele percorrera tinham se incrustado em sua alma. Eu apenas aumentava seu cansaço, ele me dava dó. Pensei que ele devia estar furioso, não tanto porque eu não lhe dera, doze anos antes, a mão de Shekure — era impossível —, mas pelo fato de que eu teimava em lhe explicar minhas idéias fixas, meus sonhos de pintura fora das regras da tradição do islã e da lendária Escola de Herat. Foi assim que cheguei a ima­ginar que minha morte viria das suas mãos.

Mas ele não me metia medo; ao contrário, eu é que tratei de amedron­tá-lo, porque sentia que o medo seria uma boa coisa para a história que eu queria que ele escrevesse. “Precisamos ser capazes de também nos colocar no centro do mundo, como nos quadros deles”, disse eu. “E, aliás”, acrescen­tei, “um dos meus pintores fez um belíssimo retrato da Morte. Quer vê-lo?”

Foi assim que comecei a lhe mostrar as miniaturas realizadas pelos mes­tres que emprego em segredo há um ano. De início ele manifestou alguma reticência e até certo temor. Mas quando entendeu que a miniatura da Mor­te se inspira nas cenas de morte que podemos ver em toda uma série de ma­nuscritos do Livro dos reis, como Siyavush decapitado por Afrasyab ou Rus­tam matando Suhrab sem saber que é seu próprio filho, logo se interessou pelo que eu lhe mostrava. Dentre as pinturas figurando os funerais do sultão Suleyman, o Magnífico, estava uma que pintei com minhas próprias mãos, em cores ousadas mas tristes, combinando um senso da composição inspira­do nos europeus com minhas tentativas de representar as sombras — que acrescentei posteriormente. Chamei sua atenção para a profundidade demo­níaca sugerida pela interação entre as circunvoluções do céu nebuloso e a linha do horizonte. Evoquei os retratos da Morte que eu vira nos palácios de Veneza, como ela é representada sempre com traços únicos, à maneira de todos aqueles grandes personagens ímpios que anseiam ser representados em toda a sua distinção: “Fazem tanta questão de ser únicos e diferentes, têm ta­manha obsessão por isso que olhe”, digo-lhe, “olhe a Morte nos olhos: não é dela que temos medo, mas da intensidade desse desejo de ser o único, o sem igual, o excepcional. Olhe bem este desenho e escreva a história que o acom­panhará. Faça a Morte falar. Aqui estão o papel e as penas. Passarei imedia­tamente o que você escrever ao calígrafo.”




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   8   9   10   11   12   13   14   15   ...   45


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal