Meu nome é Vermelho



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Ele olhou um instante para a imagem, em silêncio, depois perguntou: “Quem pintou isto?”

“Borboleta. É o mais talentoso. Mestre Osman esteve perdido de amor e de admiração por ele anos a fio.”

“Vi um desenho de cachorro parecido com este, só que menos bem-acabado, num café onde um satirista se apresentava”, disse-me o Negro.

“A maioria dos meus pintores está ligada especialmente a Mestre Os­man e ao Grande Ateliê. Não dão crédito aos quadros que lhes encomendo para o meu livro. Ao saírem daqui no meio da noite, posso imaginar que vão ao café debochar descaradamente de mim e destes desenhos que eles fazem por dinheiro. Uma vez, Nosso Sultão, por insistência minha, encomendou seu retrato a óleo a um jovem artista que havíamos chamado à embaixada de Veneza. Depois pediu a Mestre Osman que copiasse o quadro. Mestre Os­man foi obrigado a imitar esse pintor veneziano e me considera responsável por essa indecente coação e por essa obra, que ele se envergonha de ter pro­duzido. Não se equivocava.”

Passei o dia todo mostrando a ele o conjunto dos desenhos, à parte o úl­timo, que não está acabado, e instei-o a escrever a história, falando-lhe com­placentemente dos caprichos que suporto desses pintores e da dinheirama que gasto com eles. Até conversamos sobre a perspectiva e abordamos a ques­tão de saber se o fato de em Veneza pintarem os objetos do fundo em tama­nho menor é uma impiedade. Também evocamos a possibilidade de o Ele­gante Efêndi ter sido assassinado por questões de dinheiro e de ambição pessoal.

Quando o Negro foi para casa, eu tinha certeza de que voltaria, como tinha me prometido no primeiro dia, para me ouvir de novo lhe falar das his­tórias para o meu livro. Mas enquanto o ruído dos seus passos se distanciava além do portão ainda aberto, havia alguma coisa na noite gelada que parecia deixar o insone e desvairado assassino mais forte e mais diabólico do que eu e meu livro.

Fechei cuidadosamente o portão às suas costas e tranquei-o bem. Co­mo todas as noites, empurrei contra a porta a velha talha de barro que uso agora para cultivar manjericão, cobri de cinzas as brasas da lareira e subi pa­ra me deitar. Foi então que vi Shekure, com sua camisola branca na escuri­dão, parecendo um fantasma.

“Você está mesmo decidida a se casar com esse homem?”, perguntei-lhe.

“Claro que não, papai. Faz muito tempo que renunciei a me casar. Além do mais, ainda estou casada.”

“Se você ainda quer se casar com ele, eu poderia dar meu consentimento agora.”

“Não quero me casar com ele.”

“Por quê?”

“Porque o senhor não quer. Eu não poderia querer alguém que o senhor não quer.”

Na sombra, seus olhos refletiram as brasas da lareira. A raiva molhava seus olhos — ou seria o desespero? —, mas sua voz era firme.

“O Negro está apaixonado por você”, sussurrei, como se revelasse um segredo.

“Eu sei.”

“Não é por amor à pintura, mas por amor a você que ele passou o dia inteiro me ouvindo.”

“Ele vai terminar o livro, é o que importa, não é?”

“Seu marido vai acabar voltando.”

“Não sei por que, na certa por causa do silêncio, mas acabo de com­preender esta noite que meu marido nunca mais vai voltar. Meu sonho cer­tamente era verdadeiro: deve ter sido morto. Faz tempo que ele foi comido pelos corvos e pelos vermes.” Ela cochichava, como se as crianças, que dor­miam, pudessem ouvir sua conclusão, mas sua voz estava estranhamente ir­ritada.

“Se me matarem”, prossegui, “quero que você cuide para que esse li­vro, ao qual eu tudo dei, seja terminado. Jure.”

“Eu juro”, ela afirmou, “mas quem vai terminá-lo?”

“O Negro. Você pode arrancar essa promessa dele.”

“Mas o senhor já arrancou, papai. Não precisa de mim para isso.”

“É verdade, mas ele só vai fazê-lo por sua causa. Se me matassem, ele poderia abandonar o livro, por medo.”

“Nesse caso, ele terá de renunciar a se casar comigo”, disse minha filha, sorrindo, esperta.

O que me leva a dizer que ela sorriu? Ao longo dessa conversa, só vi duas ou três vezes um brilho iluminar seus olhos. Estávamos os dois de pé, um diante do outro, no meio da sala. Não podendo me conter, perguntei-lhe:

“Como é que vocês se comunicam, por mensagens ou por sinais?”

“Como pode o senhor pensar uma coisa dessas?”

Fez-se um longo e doloroso silêncio. Lá longe, um cachorro latia. Eu sentia um pouco de frio, estremeci. Estava tão escuro agora naquela sala que não nos enxergávamos mais, somente sentíamos a presença um do outro, cara a cara. Depois, de repente, nós nos abraçamos fortemente. Ela pôs-se a chorar, disse-me que sentia falta da mãe. Beijei seus cabelos, que tinham o mesmo cheiro dos cabelos da mãe dela, acariciei-a. Levei-a para o seu quar­to e deitei-a ao lado dos dois filhos que dormiam. Pensando nos dois dias que acabavam de passar, não tive mais a menor dúvida de que Shekure se comu­nicava com o Negro.

22. Meu nome é Negro

Quando voltei para casa naquela noite e assim que consegui me livrar da minha senhoria, que não perdeu tempo para se fazer de minha mãe, tran­quei-me no meu quarto e deitei-me no chão, pensando em Shekure.

Comecemos pelos ruídos que, como uma espécie de jogo entre mim e ela, tinham chamado minha atenção durante a visita. Porque nesta segunda vez que fui à sua casa, após doze anos de ausência, apesar de não ter apare­cido, ela conseguiu me envolver numa espécie de círculo mágico e eu tinha certeza de que ela me havia observado o tempo todo, medido e avaliado co­mo aquele que se tornaria seu próximo esposo, divertindo-se como se fosse um jogo de adivinhas. Aliás, eu tinha a impressão de eu mesmo observá-la. Foi então que compreendi plenamente as palavras de Ibn Arabi, que diz que o amor é o dom de tornar visível o invisível e o desejo de sempre sentir o in­visível próximo de si.

Pelos ruídos que vinham do interior da casa e pelo ranger das tábuas do assoalho, deduzi que Shekure me espiava o tempo todo. A certa altura, che­guei a ter a certeza de que ela estava com os filhos na peça contígua, que dá para o mesmo corredor — porque as crianças estavam brincando, brigando e, de repente, baixaram a voz, certamente ante o olhar colérico da mãe que lhes ordenava por um sinal que não gritassem tanto. Outra vez, ouvi-os reci­tar a prece, não num tom de recolhimento, mas de forma ostensiva e tão pou­co natural que o balbucio afetado logo se transformou num riso sufocado.

Outra vez, quando o avô deles me falava dos admiráveis efeitos da som­bra e da luz, os dois garotos, Shevket e Orhan, entraram com a bandeja de café e serviram-nos com tanta cerimônia, que cada um dos seus gestos pare­cia ensaiado. Claro, aquele serviço cabia a Hayriye, a criada, mas a mãe de­les deve ter achado aquilo um ótimo pretexto para que eles vissem mais de perto o homem que ia se tornar pai deles e ter um motivo para, em seguida, falar de mim com eles. Elogiei Shevket por seus lindos olhos e, como perce­bi que Orhan ficou com ciúme, logo acrescentei que ele também tinha olhos belíssimos. E, pondo na bandeja uma pétala seca de cravo vermelho que eu trazia no bolso, beijei os dois em ambas as faces. Mais tarde, ouvi de novo ri­sadas, vindas de algum ponto da casa.

Às vezes, curioso por saber em que lugar da parede, da porta ou até do teto, estava o buraco, a fresta pela qual seus olhos me observavam. Vendo certo nó na madeira, certo interstício entre os painéis, eu imaginava Sheku­re atrás deles, depois minha suspeita se concentrava em outro canto escuro e, para tirar a limpo, a risco de faltar ao respeito para com meu Tio, que pros­seguia com suas explicações, eu me levantava e, tomando um ar meditativo, atento e admirado com as histórias que ele contava, eu me punha a percor­rer a sala, fingindo me concentrar, mas só agia assim para me aproximar um pouco mais daquele canto suspeito, daquele ponto escuro na parede.

Mas não conseguia encontrar o olho de Shekure aninhado no que eu havia pensado ser um buraco, e então um forte desapontamento me invadia, seguido por uma estranha sensação de solidão e por aquela impaciência que toma conta de nós quando ficamos sem saber o que fazer.

As vezes, eu tinha subitamente a nítida impressão de que Shekure esta­va ali, me observando, e era tão forte a sensação de estar sob a mira do seu olhar, que chegava a estudar minhas expressões, como quando a gente faz Pose tentando mostrar-se mais inteligente, mais forte e mais capaz do que realmente é, a fim de causar a melhor impressão possível na amada. Depois, eu me dizia que Shekure e seus filhos estavam me comparando com aquele marido que não voltava da guerra — o pai desaparecido dos garotos —, mas logo me vinha à mente aquele tipo de pintor veneziano sobre cujas técnicas meu Tio filosofava nesse instante. Eu sonhava ser como aqueles pintores al­çados recentemente à fama, só porque Shekure tinha ouvido seu pai falar tanto deles — uma fama que não haviam adquirido à força de mortificações, como os santos em suas celas, nem, como seu marido desaparecido, cortan­do as cabeças inimigas com seu braço forte e sua cimitarra afiada, mas gra­ças a um livro que transcreveram ou a uma página que iluminaram. Confor­me explicava meu Tio, esses célebres pintores procuravam esboçar este mundo como ele é, com suas sombras e seus mistérios. Tanto me esforcei para imaginar essas magníficas obras-primas que meu Tio vira e tentava ago­ra descrever para mim, que nunca tinha posto os olhos nelas, que, quando minha imaginação por fim se deu por vencida, só me senti mais desanima­do e diminuído.

A certa altura, dei com Shevket novamente diante de mim. Como ele se aproximava com um passo decidido, achei que ia me beijar a mão — por­que, entre os árabes nômades da Transoxânia ou nas tribos circassianas do Cáucaso, manda o costume que o filho mais velho assim faça, não apenas para receber o convidado da casa, mas também quando ele próprio sai de casa — e estendi-lhe a minha, que não estava ocupada, para que ele a levas­se aos seus lábios e à sua testa. Nesse mesmo instante, ouvi o riso de Sheku­re, não muito longe de nós. Será que ria de mim? Senti-me um pouco inco­modado, mas me recuperei fazendo o que achei que ela esperava de mim: peguei Shevket e beijei-o dos dois lados do rosto. Ao mesmo tempo, sorri pa­ra o avô dele, a fim de mostrar que, se o interrompia, não era minha inten­ção faltar-lhe com o respeito — eu tinha me demorado um instante para pro­curar, no garoto, um eventual vestígio do perfume da sua mãe. Quando percebi que Shevket tinha enfiado um bilhete na minha mão, ele já estava longe, quase de volta de onde viera.

Apertei como uma jóia aquele pedacinho de papel oculto na minha pal­ma. Tomando consciência de que era certamente uma carta que Shekure me mandava, minha perturbação, minha felicidade por pouco não me ar­rancavam um sorriso diante do seu pai. Não estava ali a prova material, por menor que fosse, de que sua filha me desejava apaixonadamente? Tive a sú­bita visão de Shekure e eu fazendo amor. E esse sonho incrível pareceu-me tão iminente que minha masculinidade de pronto se ergueu — o que era de­veras embaraçoso na frente do meu Tio! Será que Shekure também viu? Para aplacar minha agitação, forcei-me a reatar o fio das longas explicações de­senvolvidas por meu Tio.

Muito mais tarde, aproveitando que meu Tio tinha se afastado para ir buscar outra folha que queria me mostrar, abri o bilhete, perfumado com madressilva, e vi que não havia nada escrito nele. Incrédulo, virei-me para todos os lados...

“... uma janela”, ia dizendo meu Tio. “Meu método da perspectiva con­siste em olhar o mundo como de uma janela. Que papel é esse?”

“Nada, Tio Efêndi.” Porém, pouco depois, tornei a aspirar profunda­mente seu aroma.

Depois do almoço, como eu não queria utilizar o penico do meu Tio, pedi licença para ir à casinha no fundo do jardim. Fazia um frio glacial lá, mas resolvi meu problema sem congelar as nádegas. Estava saindo quando vi Shevket chegar com uma cara meio marota — ele parecia procurar não fazer barulho para melhor me pegar de surpresa. Na verdade, trazia o peni­co ainda fumegante do avô, que foi esvaziar na casinha atrás de mim. Ao sair, olhou-me nos olhos e me disse, com uma careta:

“Já viu um gato morto?” O nariz dele era igualzinho ao da mãe. Sheku­re estaria nos observando, naquele preciso instante? Ergui os olhos para aque­la janela do primeiro andar onde ela tinha reaparecido a mim pela primeira vez depois de tantos anos. O contravento estava fechado.

“Não”, respondi a Shevket.

“Quer que eu te mostre um, na casa do judeu enforcado?”

Ele saiu à minha frente, sem esperar minha resposta. Segui-o. Não tí­nhamos dado cinqüenta passos na rua enlameada e nevada, quando chega­mos a um jardim abandonado, que exalava um vago cheiro de húmus e mo­fo. Uma casinhola amarela parecia esconder-se num canto, atrás de uma figueira e de uma amendoeira tristes. Shevket, conhecedor do local, precedia-me com um passo seguro e sonoro. Entramos na casa.

Embora estivesse totalmente vazia, dentro dela estava seco e agradável, como se ainda fosse habitada.

“De quem é esta casa?”, indaguei.

“De uns judeus. Quando o marido dela morreu, a mulher mudou-se para o outro lado do Cais das Frutas, para o bairro judeu, com os filhos. Ester é que vai vender a casa.” Ele se afastou um momento até um canto do cômodo e me disse, voltando na minha direção: “O gato foi embora, não está mais aqui”.

“Para onde você quer que um gato morto vá?”

“Meu avô disse que os mortos passeiam.”

“Não são eles, mas o espírito deles”, observei.

“Como você sabe?”, replicou Shevket com um ar sério, apertando o pe­nico contra a barriga.

“Sabendo. Você costuma vir sempre aqui?”

“Mamãe é que vem, com Ester. De noite, tem fantasmas também, mas eu não tenho medo. Você já matou algum homem?”

“Já.”


“Quantos?”

“Poucos. Dois.”

“Com uma espada?”

“É.”


“E o espírito deles passeia?”

“Não sei. Os livros dizem que sim.”

“Meu tio Hassan tem uma espada vermelha, que corta tudo que toca. Ele também tem uma adaga, com esmeraldas no cabo. Foi você que matou meu pai?”

Fiz com a cabeça um sinal que não queria dizer nem sim nem não.

“Como é que você sabe que seu pai está morto?”

“Foi minha mãe que disse. Ontem. Ele não vai voltar nunca mais. Ela sonhou.”

Se somos capazes de fazer, quando a ocasião se apresenta, as coisas mais absurdas em nome de nossos miseráveis lucros, do desejo que nos devora ou de um amor que dilacera nosso coração, com maior razão não nos recusa­mos a levá-las a cabo por um objetivo sublime. Como também ajo assim, to­mei mais uma vez a firme decisão de ser o novo pai daqueles orfãozinhos. Por isso, ao voltar para a casa deles, tratei de ouvir com uma atenção redo­brada as explicações do avô sobre o texto que eu tinha de escrever para com­pletar as miniaturas.

Tomemos uma das que meu Tio me mostrava, a do cavalo, por exem­plo. Embora não houvesse figura humana e a área em torno do animal esti­vesse vazia, eu não podia dizer que se tratava pura e simplesmente da imagem de um cavalo. Sim, havia um cavalo nela, mas era igualmente claro que havia um cavaleiro em algum lugar fora de cena, ou quem sabe ele não ia surgir de repente do mato desenhado à maneira de Kazvin. Essa interpreta­ção era imposta pela manta do cavalo, cuja rica ornamentação aparecia sob a sela. Talvez um homem de espada em punho estivesse a ponto de apare­cer junto do garanhão.

Era igualmente claro que meu Tio tinha encomendado esse cavalo a um pintor do Grande Ateliê, contratado em segredo. Como esse pintor só podia desenhar o cavalo, na calada da noite, de acordo com o modelo grava­do profundamente em seu cérebro como parte de uma história, foi exata­mente assim que começou: desenhando de cor. Mas, quando desenhava o cavalo, que já vira milhares de vezes em cenas de amor ou de guerra, meu Tio, inspirando-se nos métodos dos mestres venezianos, sem dúvida inter­veio, dando instruções assim: “Não desenhe o cavaleiro. Acrescente uma ár­vore. Mas lá atrás, e em tamanho menor”.

O pintor, sentado ao lado do meu Tio, havia pintado zelosamente à luz de vela a estranha e inusitada miniatura, que não se parecia com nenhuma das cenas a que ele estava habituado e que memorizara. Claro, se fazia o que meu Tio pedia era porque ele o pagava bem, mas também porque aquele método de pintar o seduzia por sua bizarrice. Porque, como meu Tio, o pin­tor era perfeitamente incapaz de dizer que história aquele cavalo ornamen­tava e ilustrava. O que meu Tio esperava de mim, num prazo mais ou me­nos longo, era que eu examinasse bem aquelas miniaturas, feitas metade no estilo veneziano, metade à maneira persa, e escrevesse a história para acom­panhá-las na página em face. Se eu quisesse me casar com Shekure, tinha de escrever essas histórias. Mas nada me vinha à mente, salvo as sátiras que o contador de histórias apresentava no café dos artistas.

23. Serei chamado Assassino

Com seu tique-taque, meu relógio me dizia que já era noite. O chama­do para a prece ainda não tinha sido feito, mas a vela ardia fazia um bom tempo ao lado da minha mesa. Eu acabava de executar com rapidez, fazen­do o nanquim escorrer vivamente do meu cálamo para a folha — uma bela folha brilhante de papel glacê à albumina —, a silhueta do meu opiômano, quando ouvi a voz que me chama todas as noites. Resisti. Estava tão firme­mente decidido a ficar em casa trabalhando, a não sair naquela noite, que até pensei em pregar minha porta para mantê-la fechada.

O álbum cujas ilustrações eu acabava às pressas tinha sido encomenda­do naquela manhã mesma, quando ninguém ainda tinha se levantado, por um armênio, que viera a pé de Gálata até aqui. Apesar de gago, é guia e in­térprete. Uns turistas vindos da Europa e da Itália desejavam adquirir um “li­vro de costumes pitorescos”, e ele veio correndo ter comigo, para negociar o preço. Depois de muita barganha, tínhamos acertado em cento e vinte moe­das de prata para uma coletânea de vinte personagens, e naquela noite eu já havia terminado doze, com todos os detalhes e particularidades dos seus tra­jes: um grão-mufti, um porteiro-mor, um imã, um janízaro, um dervixe, um sipaio, um juiz, um vendedor de fígado grelhado, um carrasco — muito requisitado, principalmente em pleno trabalho —, um mendigo, uma mulher indo ao hamam e um fumante de ópio. Para reduzir o tédio que me dão es­sas figuras impostas, que já realizei tantas vezes, demasiadas vezes, pelas três ou quatro miseráveis moedas que esse gênero de obra me rende, divirto-me desenhando o juiz com um só traço, sem tirar o cálamo da folha, e o mendi­go, de olhos fechados.

Todos os bandidos, poetas e homens vítimas da melancolia conhecem esse chamado, logo depois do da prece: os djins e os demônios põem-se de repente a sapatear dentro de nós, todos juntos, coligados para nos tirar do bom caminho: “Saia, saia”, insiste essa voz interior, “vá buscar a companhia dos outros, vá buscar a escuridão, a sordidez e a desgraça!”. Passei minha vi­da acalmando esses demônios e esses djins. Quantas obras que minha mão produziu, destas que todos concordam em achar maravilhosas, foram feitas precisamente com a ajuda deles? Mas, de uma semana para cá, desde que dei cabo daquele canalha, não consigo mais, caída a noite, manter meus de­mônios sob controle. Tanto eles se agitam que acabo me dizendo: “Born, vamos sair, que eles se acalmam”.

Como todas as vezes que pronuncio essas palavras, quando dou por mim estou, não sei como, bem no meio de uma rua. Andava depressa, avançando na neve das travessas, na lama das ruelas, subindo as ladeiras cobertas de ge­lo escorregadio, percorrendo as calçadas desertas como se nunca mais fosse parar. Enquanto eu caminhava assim, penetrando nas trevas da noite, pelas vielas estreitas, nos recantos mais sombrios e desolados da cidade, deixava pouco a pouco para trás a minha alma, e o eco solitário dos meus passos re-verberando nas paredes de pedra das estalagens, das escolas e das mesquitas aplacava minha angústia.

Meus pés me levaram, como todas as noites desde então, às ruelas mais retiradas daquele subúrbio solitário, em que os fantasmas e os próprios djins não entram sem se arrepiar de medo. Ouvi dizer que metade dos homens do bairro teria morrido na guerra contra a Pérsia e que os outros moradores fu­giram por acharem que morar ali dava azar, mas não acredito nessas superstições. A única calamidade que a guerra com os safávidas trouxe a este bairro, outrora tão bonito, foi a invasão e o fechamento do convento de dervixes, quarenta anos atrás, a pretexto de que dava guarida aos inimigos.

Insinuei-me por entre as amoreiras e as espirradeiras, que insistem em perfumar o ar mesmo nas noites mais geladas, depois por uma janela da tor­re em ruína, pondo como sempre seus batentes cuidadosamente de volta no lugar. Um século de fumaça acre e de mofo sufocavam-me. Eu me sentia tão feliz por estar ali que senti vontade de chorar.

Não temo nada nem ninguém neste mundo infame (faço questão de di­zer isso agora, se já não disse), só o castigo de Alá. Meu temor são os tormen­tos, evocados muito claramente e várias vezes no Venerável Corão — por exemplo, na surata do Discernimento —, que padecerão no Juízo Final os assassinos da minha espécie. Quando, nos antigos manuscritos árabes em ve­lino ou nas coletâneas de miniaturas mongóis ou chinesas que chegam às minhas mãos, bem raramente é verdade, vejo se animar diante dos meus olhos aquelas representações tão ingênuas quanto assustadoras do Inferno, aquelas cenas de torturas infligidas por todos aqueles demônios, não posso me impedir de interpretá-las num sentido alegórico e de aplicá-lo a mim. De fato, o que diz a surata da Viagem noturna no trigésimo terceiro versículo? “Não matai sem justa causa aquele que Alá proíbe matar.” Pois bem, justa­mente, o pilantra que mandei para o Inferno não era um verdadeiro crente, como os que Alá proíbe matar! E eu tinha, além disso, excelentes motivos pessoais para lhe arrebentar o crânio.

Esse canalha derramou-se em calúnias contra todos os que, como eu, trabalhavam em segredo para a confecção do livro para Nosso Sultão. Se eu não lhe tivesse calado a boca, ele teria delatado como incréus não apenas o Tio Efêndi, mas todos os pintores, inclusive Mestre Osman. Pois é só alguém sugerir que os miniaturistas estão cometendo heresias, para que os sequazes do hodja de Erzurum — que só esperam um pretexto para exercitar a sua força —, além de acertar as contas com todos os mestres miniaturistas, des­truam o próprio ateliê, e nem mesmo Nosso Sultão poderá fazer o que quer que seja, a não ser assistir calado aos danos perpetrados por eles.

Como todas as vezes que venho aqui, peguei a vassoura e o pano de chão, que deixo guardados num canto, e fiz a faxina. Isso me reconfortou o coração e me fez sentir novamente como um bom servo de Alá. Orei demo­radamente para que ele mantivesse vivos em mim tão bons sentimentos. Mas um frio de fazer raposa cagar cobre mortificava meu corpo e, quando come­çava a sentir uma dor cruel bem aqui, no fundo da garganta, saí.

Logo depois, senti mais uma vez aquele estranho estado de inconsciência e dei por mim num bairro completamente diferente. Como cheguei lá, como percorri aquela distância, do convento abandonado a aquelas alame­das margeadas de ciprestes, não tenho a mais remota idéia.

Mas qualquer que fosse essa distância, um pensamento, de que eu não conseguia me livrar, continuava a me atormentar. Se eu lhes contar qual é, talvez ele se torne menos pesado para mim. Quer eu o chame de vil calu­niador, quer o chame por seu nome — Elegante Efêndi —, tanto faz, o fato é que, pouco antes de passar desta para melhor, nosso falecido iluminador acusava veementemente o Tio Efêndi de estar empregando as técnicas de perspectiva dos infiéis e, ao perceber que suas deblaterações não me afeta­vam muito, o canalha disse: “Há um último desenho. E nesse desenho o Tio profana tudo aquilo em que nós acreditamos. É mais que um insulto à reli­gião, é blasfêmia pura e simples”. Aliás, três semanas antes dessas acusações, o Tio Efêndi tinha me pedido para pintar uma série de imagens sem nenhu­ma relação entre si — um cavalo, uma moeda, a Morte —, em diferentes cantos da página e em escalas totalmente descabidas, como as da pintura à européia. O Tio sempre se dava ao trabalho de cobrir boa parte da página que ele me pedia para ilustrar, bem como as partes que o falecido Elegante Efêndi havia iluminado, como se quisesse esconder alguma coisa de mim e dos outros pintores.




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