Meu nome é Vermelho



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Tenho a intenção de perguntar ao Tio Efêndi o que esse último dese­nho representa, ainda que eu também tenha boas razões para evitar essa per­gunta. Se eu o interrogar, ele certamente vai suspeitar que sou eu o assassi­no do Elegante Efêndi, e divulgará suas suspeitas. A outra coisa que me inquieta é que a resposta do Tio possa dar razão ao Elegante Efêndi. Eu me dizia, sem conseguir me convencer, que talvez pudesse apresentar minha pergunta como uma idéia que me passou pela cabeça, e não como uma sus­peita que o Elegante Efêndi me transmitira. A heresia não é tão terrível, quan­do ainda não se tem plena consciência dela. Mas agora estou plenamente consciente, e tenho medo.

Sempre antecipando-se ao meu espírito, minhas pernas me levaram à rua onde mora o Tio Efêndi. Escondi-me num canto escuro para examinar sossegado a casa, pelo menos tanto quanto a escuridão permitia. Cercada de árvores, com dois andares, é uma grande e rica residência! Não sei de que lado ficam os aposentos de Shekure. Como em certas miniaturas feitas em Tabriz na época de Tahmasp, xá do Irã, a construção parecia talhada à faca e eu tentava pintar, imaginariamente, o aparecimento de Shekure na mol­dura de uma janela.

A porta se abriu, vi o Negro sair na sombra. O Tio olhava com afeto pa­ra ele detrás do portão, tardando um instante para fechá-lo.

Ao ver aquilo, minha pobre cabeça, que se lançava em alucinadas fan­tasias, tirou rapidamente estas três dolorosas conclusões:

Um: como o Negro é mais barato e menos perigoso que a gente, o Tio Efêndi vai dar nossa obra para ele terminar.

Dois: a bela Shekure vai se casar com o Negro.

Três: o que o infeliz do Elegante Efêndi dizia sobre o Tio era verdade; logo, eu o matei à toa.

Nesse gênero de situação em que nosso espírito implacável chega mais depressa à conclusão que, para nosso coração, continua sendo inadmissível, todo o nosso corpo se revolta contra ele. Num primeiro tempo, metade do meu espírito insurgiu-se vigorosamente contra essa terceira conclusão, que fazia de mim o mais ignóbil dos assassinos. Nesse meio-tempo, minhas per­nas, mais velozes e despachadas, já tinham me posto ao encalço do Negro Efêndi.

Já tínhamos passado por algumas ruelas quando pensei como seria fácil matar também o Negro, que ia à minha frente com um ar tão satisfeito — de si e da sua sorte —, e como esse crime me evitaria ter de suportar as duas primeiras conclusões estabelecidas por meu espírito. Além do mais, eu não teria estourado o crânio do Elegante Efêndi à toa. Eu só precisava dar seis ou oito passadas para alcançar o Negro e acertar-lhe, com toda a minha for­ça, um golpe igual na cabeça — tudo entraria de novo nos eixos, e o Tio me chamaria para retomar o trabalho do nosso livro. Porém a metade mais pru­dente e mais honesta do meu espírito (aliás, não é a honestidade, em geral, uma característica dos espíritos temerosos?) me dizia que o canalha que eu havia matado só derramara sobre o Tio calúnias que justificavam plenamen­te tê-lo mandado terminar seus dias no fundo de um poço e que, por conse­guinte, o Tio, não tendo nada a me esconder, não ia tardar a me chamar de novo à sua casa.

De repente, observando o andar do Negro, compreendi que era tudo uma ilusão, que nada daquilo ia se realizar, que o Negro Efêndi era mais que eu. Acontece com todo o mundo: por semanas, anos a fio acalentamos sonhos, até que um dia alguma coisa, um rosto, uma roupa, uma pessoa fe­liz que avistamos, nos dá a consciência de que nosso sonho — por exemplo, ganhar a mão da amada ou um cargo importante — jamais se realizará.

Vendo o Negro sacolejar os ombros, mexer o pescoço daquele jeito irri­tante, como se agradecesse a todo o mundo ao redor pela sua existência, sen­ti um ódio avassalador encher as profundezas do meu coração. Longe dos debates de consciência, as pessoas a quem o futuro sorri, as pessoas felizes como o Negro acham que o mundo é delas, entram em todas as casas como um rei na sua estrebaria e desprezam a nós, que aí encontram, como se fôs­semos seus cavalariços. Estive a um dedo de catar uma pedra para enterrá-la no seu crânio. Não foi fácil resistir.

Nós dois amávamos a mesma mulher, ele ia na frente, totalmente alheio à minha presença, seguíamos pelo dédalo de ruelas sinuosas que, àquelas ho­ras, até as matilhas belicosas dos cachorros vadios desertam, por aquela Is­tambul silenciosa em que os djins estão emboscados entre as ruínas calcina­das, em que no pátio das grandes mesquitas os anjos se encolhem no vão das cúpulas; passávamos pelos ciprestes que murmuram para as almas dos mor­tos, ao longo dos muros nevados dos cemitérios formigantes de espectros, apenas despercebidos dos salteadores prestes a trucidar suas vítimas; margeá­vamos um sem-número de lojas, estábulos e conventos, fábricas de velas, cur­tumes, e enquanto assim íamos senti que eu não mais o perseguia, que eu apenas o imitava e que ambos éramos irmãos.

24. Meu nome é Morte

Eu sou a Morte, como vocês estão vendo, mas não precisam ter medo de mim, porque não passo de um desenho. Mesmo assim, ainda leio o terror nos olhos de vocês. E me delicio vendo vocês assustados como criancinhas envolvidas numa brincadeira, apesar de eu não ser a Morte de verdade. Só de olhar para mim, já sentem aquele medo que se apossa de vocês quando chega o inevitável momento. Não estou brincando: diante da morte, a gran­de maioria dos homens, principalmente os valentes, simplesmente se aco­varda. Motivo pelo qual os campos de batalha cobertos de cadáveres, que vo­cês viram pintados às centenas, têm menos cheiro de sangue, pólvora e armaduras fumegantes do que de carne podre e de merda.

Sei que é essa a primeira vez que vocês vêem um desenho da Morte.

Um ano atrás, um velhote alto, magro e misterioso convidou à sua casa o jovem miniaturista que me pintou. No andar de cima, porque era uma ca­sa de dois andares, na penumbra do ateliê, esse homem clareou a mente do jovem pintor servindo-lhe um delicioso café, suave como uma seda e com o aroma marcante do âmbar. Depois, naquele quarto da porta azul envolto na penumbra, o ancião entusiasmou o mestre miniaturista mostrando-lhe o me­lhor papel do Hindustão, pincéis de pêlo de esquilo, folhas de ouro, toda uma variedade de cálamos e faquinhas de cabo de coral, dando a entender que podia lhe pagar bem, e por fim disse a ele:

“Faça-me o desenho da Morte”.

“Como nunca vi um desenho da Morte, eu não saberia desenhá-la”, res­pondeu o artista de mão maravilhosa que, na verdade, acabaria fazendo o desenho.

“Para pintar uma coisa, nem sempre você precisa tê-la visto em pintura, ora essa!”, rebateu com paixão o velhote magro e ambicioso.

“É verdade”, anuiu aquele que ia me desenhar. “Mas para que o dese­nho tenha a perfeição dos quadros dos mestres, o artista tem de ter se exerci­tado milhares de vezes. Qualquer que seja a mestria do pintor, sempre que ele pintar um tema novo, sua imagem parecerá a obra de um principiante, e a isso eu não posso me permitir. Ao desenhar a Morte, não posso pôr de lado toda a mestria que adquiri, seria como matar a mim mesmo.”

“Com o que você entraria no tema”, comentou o velhote.

“Não é da experiência com o tema que vem nossa mestria, mas de nun­ca tê-lo experimentado.”

“Então essa mestria precisa encontrar a Morte.”

A conversa deles adquiriu desse modo o tom divertido e elevado que tanto convém aos pintores respeitosos dos velhos mestres e conscientes da sua arte, valendo-se ambos de todos os recursos do duplo sentido e da alu­são, do simples piscar de olhos à metáfora laboriosamente tecida. Como se tratava da minha pessoa, eu estava atenta à conversa, cuja integralidade se­ria, tenho certeza, aborrecida ao extremo para os distintos pintores que estão conosco neste café. Vou relatar apenas um ponto da conversa, quando o bri­lhante ilustrador de lindos olhos e mão firme perguntou, de maneira assaz pertinente:

“Como se mede o talento de um miniaturista? Pela sua capacidade de pintar qualquer tema com a mesma perfeição que os antigos mestres ou de pintar o nunca antes visto?” Manifestadamente, ele deixava reservada consi­go a resposta que conhecia.

“Para os venezianos, a força de um artista se mede pela sua faculdade de descobrir temas nunca antes representados e utilizar novas técnicas”, sen­tenciou o velho com arrogância.

“Os venezianos morrem como venezianos”, disse o pintor que me pintou.

“A morte de uns é exatamente igual à morte dos outros”, replicou o velho.

“As lendas e as pinturas atestam o fato de que todos os homens são dife­rentes, e não que todos se parecem”, insistiu o arguto pintor, “e o miniaturis­ta adquire sua mestria representando histórias cada vez mais originais, como se nos fossem familiares.”

Assim, foram chegando pouco a pouco às diferentes maneiras que os ve­nezianos e os muçulmanos tinham de encarar a Morte, ao Anjo da Morte e aos outros anjos de Alá, e à incapacidade que têm os infiéis de representá-la nos seus quadros. O jovem pintor, meu criador, que está neste momento me observando do fundo da sala do nosso querido café com seus magníficos olhos, começava a se entediar seriamente, impaciente que estava para deixar sua mão correr à vontade pela folha, apesar de ainda ignorar que tipo de en­tidade eu era.

O manhoso e hábil velhote percebia nitidamente a impaciência do ra­paz, que convinha às mil maravilhas ao seu plano de persuasão. Em meio às sombras que povoavam o aposento, fixou de repente seus olhos, brilhando com a tênue luz da vela, no jovem miniaturista de mão miraculosa.

“A Morte, a quem os venezianos dão uma forma humana, é para nós um anjo, como Azrail. Sim, com aparência humana, como Gabriel ao en­tregar o Corão ao nosso Profeta. Você me entende?”

Quanto a mim, eu entendia que aquele jovem pintor, a quem Alá con­cedeu a graça de um incrível talento, começava a se impacientar de verdade e queria pôr logo mãos à obra. O diabólico velhote tinha conseguido infil­trar esta diabólica idéia nele: o que ansiamos essencialmente é pintar o que nos é desconhecido em toda a sua obscuridade, e não o que já conhecemos em toda a sua iluminação.

“Da Morte, não conheço absolutamente nada”, disse o pintor pouco an­tes de começar a me desenhar.

“Todos nós a conhecemos”, respondeu o velho.

“Temos medo dela, mas sem conhecê-la.”

“Desenhe então esse Medo”, concluiu o velhote.

Um momento antes de começar a fazer este desenho, senti a espinha do jovem talento ser percorrida por um arrepio, os músculos dos seus braços se contraírem e seus dedos buscarem o cálamo. No entanto, por ser um verdadeiro mestre, ele se conteve, sabendo que aquele momento de extrema tensão tornava mais profunda em sua alma a paixão pela pintura.

O esperto velhote estava seguro de si e pôs-se a ler, para inspirar o rapaz que ia me representar, umas passagens sobre a morte escolhidas nos livros abertos diante dele: O livro da alma, de Al-Jawziyya, Das circunstâncias da ressurreição final, de Al-Gazali e o Suyuti.

Então, enquanto iniciava meu retrato, que vocês estão agora contem­plando com tanto pavor, nosso jovem virtuose ouvia como, no Dia do Juízo, o Anjo da Morte abriria seus milhares de asas, abarcando o Céu e a Terra, dos confins do Oriente aos misteriosos extremos do mundo ocidental. Ele ouviu dizer quanto reconforto essas asas protetoras trarão aos crentes e aos humildes, e que horríveis dardos elas serão na carne dos incréus e dos revol­tados. Como a maioria dos seus colegas miniaturistas aqui presentes está des­tinada ao Inferno, ele me pintou eriçado desses dardos. Ouviu também que o anjo enviado por Alá para se apossar da alma de vocês traria um caderno em que estará escrito o nome de vocês todos e que alguns desses nomes es­tarão sublinhados com um traço negro! Mas somente Alá sabe a hora da mor­te de cada um e, quando ela chega, cai uma folha da Grande Jujubeira loca­lizada atrás do Seu trono, e quem puder ler o que está escrito na folha caída dessa árvore saberá de quem é a vez. E por isso que o pintor me pintou as­sustadora e pensativa ao mesmo tempo, como alguém versado em acertos de contas. O velho louco conta-lhe depois que o Anjo, aparecendo em sua for­ma humana, estica a mão para se apoderar da alma daquele cujo prazo ven­ceu e que um brilho parecido com o do sol põe-se a refulgir. Por isso, o pin­tor envolveu-me em luz, sem ignorar que essa luz não é visível aos que rodeiam o defunto. E assim, enquanto aquele velho maníaco continuava a ler como os saqueadores de túmulos tinham encontrado corpos varados de dardos e, até, cavando os túmulos frescos, chamas no lugar dos cadáveres e os crânios destes cheios de chumbo derretido, o maravilhoso ilustrador continuava a pintar, atento, de maneira a inspirar seu terror em vocês todos.

Mais tarde, esse grande artista se arrependeu da obra da sua mão mági­ca. Não por causa do terror de que impregnou em seu desenho, mas por ter ousado me pintar. E eu me sinto como um filho para o qual o pai olha com um ar incomodado e arrependido. Por que esse artista imenso lamenta me haver pintado?

1. Porque eu, a pintura da Morte, não fui pintada com suficiente mes­tria. Como vocês podem ver, não tenho nem a perfeição das obras dos pin­tores venezianos, nem a dos pintores de Herat. E o fato de o mestre que me pintou não ter sabido pôr em sua obra toda a gravidade que me caberia, é uma vergonha que também me pesa.

2. Esse pintor, que o velhote, valendo-se dos mais diabólicos subterfú­gios, conseguiu persuadir a me pintar, deu-se conta de que estava, sem que­rer, imitando os métodos e as perspectivas dos mestres venezianos. O que muito o perturbou, porque sentiu que, de certo modo, desrespeitava com is­so os velhos mestres e desonrava a si mesmo.

3. Como tantos imbecis que, sentindo-se confiantes, zombaram atrevi­damente de mim, teve de acabar se dando conta de que com a Morte não se brinca.

E agora, esse pintor do meu retrato percorre sem descanso todas as noi­tes as ruas desta cidade, atormentado por seus escrúpulos. Como certos mes­tres chineses, ele imagina ter se tornado aquilo que representou.

25. Meu nome é Ester

De manhã cedinho, pus na minha trouxa as encomendas que minhas clientes do Minarete Branco e do Gato Preto tinham feito: tecidos verme­lhos e lilás de Biledjik, ótimos para fazer colchas. Não pus junto a seda chi­nesa verde que o barco dos portugueses tinha trazido havia pouco, levei a azul. Com aquela neve e aquele inverno que não acabava mais, aproveitei para acrescentar alguns pares de grossas meias de lã, umas cintas tricotadas em malha dupla, xales e echarpes espessos de todas as cores, tudo isso bem arrumado e bem dobrado, de maneira a deslumbrar a mais indiferente, mal abrisse meu embrulho. E para as que me chamam menos para comprar do que para dois dedos de prosa, enfiei também uns lencinhos de seda, caríssi­mos a bem da verdade, mais uns porta-moedas e toalhas de banho bordadas, Tanto pus que, quando quis levantar aquilo tudo, achei que a trouxa ia me arrebentar o lombo. Larguei-a de novo no chão e estava abrindo para ver o que eu podia tirar, quando Nessim me chamou da porta, que ele tinha ido abrir: “Tem alguém te procurando!”.

De fato, lá estava Hayriye, rubra e roxa, com uma carta na mão.

“Da parte de Shekure”, cochichou-me, com um ar tão inquieto que pa­recia ser ela a enamorada que queria se casar.

Pego a carta gravemente, aconselhando a essa pobre idiota que não dei­xe ninguém vê-la ao voltar para casa. Nessim me observava com um ar in­terrogador. Pegando a trouxa enorme que levo para salvar as aparências quan­do tenho uma carta para entregar, expliquei-lhe: “A filha do Tio Efêndi, Shekure, está se consumindo nas chamas do amor. Perdeu completamente a cabeça, Coitadinha”.

E saí, soltando uma gargalhada, mas logo me envergonhei, porque, no fundo, eu tinha muito mais vontade de derramar uma lágrima pela triste vi­da daquela moça tão bonita do que de rir dos seus casos de amor. Como é linda a minha pobre Shekure, com seus grandes olhos negros!

Passei rapidamente pelas casas decrépitas do nosso bairro judeu, que, no frio da manhã, pareciam ainda mais miseráveis e abandonadas. Bem mais tarde, ao avistar na esquina da rua em que mora o senhor Hassan o mendigo cego que espiona todas as idas e vindas, pus-me a gritar a plenos pulmões: “Roupa nova!”.

“Não grite tanto, sua gorda tagarelai Eu já tinha te reconhecido pelo barulhão que você faz ao andar!”

“Seu tártaro desgraçado! Os cegos são calamidades toleradas por Alá. Que ele te envie um monte delas!”

Não adianta. Não consigo deixar de me irritar em situações assim! Foi o pai de Hassan quem abriu a porta. Esse aí era um tipo de caucasiano des­denhoso como já não existe.

“Vejamos o que você traz desta vez.”

“O preguiçoso do seu filho ainda está dormindo?”

“Como quer que ele durma, se está esperando aflito por você e pelas fal­sas notícias que lhe traz?”

Aquela casa é tão escura que cada vez tenho a impressão de entrar num túmulo. Shekure nunca me pergunta nada sobre eles, mas, como quer que seja, o que eu lhe digo sobre aquela casa não é para entusiasmá-la a voltar para lá. Aliás, nem consigo imaginar como a bela Shekure pode ter sido um dia a mulher desta casa, e vivido sob esse teto, com seus dois diabretes. É uma casa que só tem um cheiro: de sono e de morte. Fui até a outra sala, completamente às escuras.

Não dava para enxergar nada. Mal tirei fora a carta, Hassan, surgindo da escuridão, agarrou-a. Eu ia, como sempre, deixá-lo saciar sua curiosidade dando-lhe todo o tempo para lê-la, mas ele ergueu imediatamente a cabeça.

“Só isso?”, fez ele, sabendo perfeitamente que não havia mais nada. “É muito pouco para uma carta!” E leu:

Negro Efêndi,

Você vem à nossa casa e passa aqui o dia inteiro. Mas sei por meu pai que você ainda não escreveu uma só linha para o livro que ele prepara. Saiba que você nada tem a esperar enquanto o livro do meu pai não estiver ter­minado.

Hassan me olhava nos olhos com um ar acusador, como se eu fosse a culpada pelo mau rumo que os acontecimentos tomavam. Detesto o silên­cio que reina naquela casa.

“Nenhuma palavra dizendo que é casada e que seu marido vai voltar da guerra. Como é possível?”

“Como posso saber? Não sou eu que escrevo essas cartas”, repliquei.

“Às vezes desconfio que sim”, respondeu, devolvendo-me a carta com quinze moedas de prata.

“Tem gente que, quanto mais ganha, mais pão-duro é. Não é seu caso”, comentei.

Aquele homem tem um lado tão diabólico e astuto que dá para com­preender por que Shekure ainda aceita receber as cartas dele, mau e sinistro como ele é.

“Que livro é esse do pai de Shekure?”

“Você sabe muito bem! Parece que é financiado pelo Sultão.”

“E por causa das miniaturas desse livro os pintores se matam uns aos outros”, ele disse. “Se não é por dinheiro, não seria porque os desenhos ofendem nossa religião? Parece que quem os vê fica cego.”

Dizendo isso, abriu um sorriso, me dando a entender que não era para eu levar aquilo a sério. Mesmo se fosse, eu levar ou deixar de levar a sério alguma coisa dava na mesma para ele. Hassan era como muitos desses homens que necessitam da minha intermediação para entregar suas cartas: quando se sentem humilhados, permitem-se me desprezar. Para lisonjeá-lo, faço como se me sentisse magoada. Faz parte do jogo. Já as moças, quando se sen­tem feridas em seu orgulho, caem nos meus braços aos prantos.

“Você é uma mulher inteligente”, disse-me Hassan para me agradar achando que tinha me ofendido. “Leve rápido esta carta. Preciso saber da resposta daquele idiota.”

Por um instante, tive a tentação de lhe dizer: “O Negro não é tão bobo assim”. Uma alcoviteira pode ganhar muito, se souber tirar partido desse ti­po de rivalidade entre homens, atiçando o ciúme deles. Mas, temendo um brusco acesso de cólera de sua parte, contentei-me em lhe dizer ao sair:

“Conhece o mendigo tártaro que fica na esquina da sua rua? Que grosseirão ele é!”

Para não dar de novo com ele, desviei pela outra esquina e, como ainda era cedo, passei pelo mercado das aves. Por que será que os muçulmanos não comem a cabeça nem os pés das galinhas? Mais uma mania deles! Minha falecida avó materna, descanse em paz, contava que, quando chegaram de Portugal, ela sempre fazia grandes sopas com pé de galinha, porque saía qua­se de graça.

No Cinturão Vermelho, uma mulher que passava, empertigada e altiva no seu cavalo, como um homem, arrancou-me um suspiro: estava rodeada de escravos. Na certa era esposa de um paxá ou uma rica herdeira... Se o pai de Shekure não tivesse tido a imprudência de desperdiçar sua inteligência com os livros, ou se seu marido tivesse voltado vencedor da guerra contra os safávidas, era assim que ela seria hoje. E teria merecido mais que ninguém.

Entrando na rua onde mora o Negro, senti meu coração disparar. Será que eu queria mesmo que Shekure se casasse com ele? Porque se, no caso de Hassan, não tenho dificuldade para manter a distância entre os dois e, ao mesmo tempo, mantê-los envolvidos, entre o Negro e ela a história é dife­rente, pois ele tem de fato todas as qualidades para merecer Shekure, sem falar no seu amor por ela.

“Roupa nova!”

Eu não trocaria nada deste mundo pelo prazer de entregar em mãos uma carta da pessoa amada a quem, no fundo da sua solidão, anseia por es­posá-la. Todos, mesmo quando têm certeza de que vão receber as piores no­tícias, quando começam a ler são percorridos subitamente por um calafrio de esperança.

O fato de Shekure não dizer nada sobre a volta do marido e aquele “vo­cê nada tem a esperar enquanto” estabelecer uma condição apenas eram in­dícios que podiam legitimamente alimentar as esperanças do Negro. Obser­vo-o enquanto lê a carta: sua felicidade parece desconcertá-lo e até assustá-lo. Ele se retira para escrever a resposta e eu aproveito, “entregadora” esperta que sou, para tirar da minha trouxa um porta-moedas preto, que ofereço à sua senhoria:

“Brocado da Pérsia. Coisa de primeira”.

“Meu filho morreu na guerra contra a Pérsia. De quem é essa carta que você trouxe para o Negro?”

Eu podia ler na feia cara de leoa frustrada todas as artimanhas que ela urdia secretamente para ligar sua filha ao seu inquilino.

“De alguém. Um parente pobre dele, do bairro de Bayrampasha, que está à beira da morte e lhe pede dinheiro.”

“Oh, que tristeza!”, lamentou-se, sem convicção. “E quem é esse infeliz?”

“Como foi que seu filho morreu?”, perguntei em resposta.

Trocamos olhares hostis. Ela era viúva e sozinha como uma velha rata­zana! Que vida de cão a dela! Se vocês fossem ambulantes de roupas e de informações como eu, logo descobririam que as pessoas só se interessam pe­la vida dos ricos e poderosos, ou pelos que têm histórias de amor maravilho­sas, que parecem sair direto das lendas persas. Já as preocupações, as brigas, os ciúmes, a solidão, os ódios, as lágrimas, as maledicências e as misérias in­finitas acabam todas por se parecer, como os móveis e utensílios que vocês encontram em qualquer casa. Como aqueles ali, justamente: um velho ki­lim, gasto e desbotado, uma colher de sopa e uma panela de cobre em cima da bandeja de assar pão vazia, tenazes para a lenha e um balde de cinzas ao lado da lareira, dois baús quebrados, um grande e um pequeno, um porta-turbante para indicar que a viúva ainda não se resignou definitivamente à solidão e uma espada enferrujada na parede, para meter medo nos ladrões.

O Negro reapareceu, todo excitado, trazendo na mão uma bolsa cheia que me entregou, dizendo, menos para mim mesma do que para sua senhoria, que nos espiava de orelha em pé: “Tome, leve isso ao nosso pobre doente. Eu espero um pouco, para ver se tem resposta. Depois estarei em casa do mestre meu Tio, o dia todo”.

Essa encenação toda não era indispensável: não há nada de vergonhoso, para um bonito e vigoroso rapaz como o Negro, em escolher uma moça procurar saber notícias suas e lhe fazer chegar um lenço ou uma carta. A não ser que ele também tenha interesse pela filha da sua senhoria. Às vezes che­go a desconfiar desse Negro e a temer que minha bela Shekure seja vítima de alguma velhacaria dele. Ele, que passa o dia inteiro na mesma casa que ela, como é que não arranja um jeito de lhe passar um bilhetinho?




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