Meu nome é Vermelho



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Uma vez na rua, abri a bolsa e encontrei doze moedas de prata e urna carta. Estava tão curiosa a respeito do conteúdo daquela carta que quase cor­ri de volta para a casa de Hassan. Era a hora em que os verdureiros expõem nas suas bancas repolhos e cenouras, mas, apesar de alguns bonitos alhos-porós que pareciam me convidar a apalpá-los, passei sem parar, porque minha cabeça estava longe dali.

Ao entrar na ruela, avistei o tártaro, que com certeza ia me xingar de novo. “Pff!”, contentei-me em lhe fazer, junto com o gesto de lhe dar uma cuspa­rada. O frio de gelar os ossos bem que podia nos livrar de todos aqueles men­digos cegos!

Mal conseguia dominar minha impaciência enquanto esperava Hassan terminar de ler a carta. Por fim, não agüentei mais e perguntei: “E então?”. Ele me leu a carta em voz alta:



Querida Shekure Hanim,

Você me pede para terminar o livro do seu pai. Saiba que não tenho ou­tra aspiração. Como já disse, é por esse motivo, e não para incomodá-la, que volto a freqüentar a casa de vocês. Tenho consciência de que meu amor por você só a mim diz respeito, mas também é verdade que esse amor me impede totalmente de pegar a pena para executar a tarefa de escrever o livro do meu Tio. Cada vez que adivinho sua presença nessa casa, fico petrificado e incapaz de ajudá-lo nesse projeto. Pensei bem: a causa de tudo isso é que, passados doze anos, só vi você uma vez, quando apareceu para mim à sua janela. Agora, temo voltar a perder essa visão furtiva. Se eu pudesse revê-la de novo uma só vez, só uma, eu não temeria mais es­quecer sua imagem e acabaria sem dificuldade a tarefa confiada por seu pai. Ontem, Shevket me levou à casa do judeu enforcado. Essa casa está vazia, ninguém pode nos surpreender lá. Espero-a lá dentro hoje, na hora que você quiser. Ontem, Shevket me disse que você sonhou que seu mari­do tinha morrido.

Hassan, que lia a carta do Negro dando à sua voz grosseira uma infle­xão afeminada, ressaltando certas passagens com um tom suplicante e trê­mulo, acabou rebentando de rir. Debochou da expressão persa “uma só vez, só uma”, que comentou assim: “O Negro mal recebeu de Shekure algumas razões para ter esperança, e já começa a pechinchar. Esse gênero de cálculo de quitandeira não é digno de um verdadeiro amante”.

“Mas o caso é que ele está de fato apaixonado por ela”, disse eu na maior inocência.

“Dizendo isso você só me prova que está do lado do Negro”, rebateu, e observou: “Se ela disse que viu meu irmão morto em sonho, isso quer dizer que ela aceita a idéia de que meu irmão morreu...”.

“É só um sonho”, repliquei com meu ar mais ingênuo.

“Conheço Shevket. Ele é inteligente, esperto. Moramos tanto tempo sob o mesmo teto, aqui mesmo! Se a mãe dele não o houvesse autorizado e até mandado, ele não teria levado o Negro à casa do judeu enforcado. Mas se Shekure imagina que vai se livrar assim do meu irmão e de nós, está mui­to enganada! Meu irmão está vivo e vai voltar da guerra.”

Sem nem sequer terminar essas palavras, entrou no quarto, onde quis acender uma vela no fogo da lareira. Mas soltou um grito: queimou a mão. Lambendo-a, pôs a vela finalmente acesa ao lado da mesa. Tirou do estojo uma pena já pronta, mergulhou-a no tinteiro e pôs-se a encher uma peque­na folha com sua escrita rápida. Sinto que ele gosta que eu fique olhando, mas para lhe mostrar que não me intimido, faço um esforço e consigo sorrir.

“Sabe quem é esse judeu enforcado?”, pergunta-me.

“Há uma casa amarela mais ou menos atrás da deles. Moshe Hamon, o riquíssimo médico do Sultão anterior, escondia nela, segundo dizem, sua amante, uma judia de Amasya, e o irmão desta. Muitos anos atrás, na véspera da Páscoa, correu o boato de que um jovem grego tinha desaparecido no bairro judeu dessa cidade, teria sido raptado para ser estrangulado e fazerem pão ázimo com seu sangue. Arranjaram falsas testemunhas, puseram-se a matar judeus e essa mulher refugiou-se com o irmão em Istambul, na casa do amante, com a permissão do Sultão. Quando o Sultão morreu, seus inimigos não encontraram a mulher, mas puderam enforcar o irmão, que vivia so­zinho lá.”

“Se Shekure não esperar a volta do meu irmão, ela também será casti­gada”, disse Hassan entregando-me sua carta.

No seu rosto eu só lia, em lugar da irritação e da cólera, aquele ar contrito e perdido que vemos nos apaixonados sinceros. De repente vi naquele olhar quão depressa o amor o envelhecera. É verdade que todo aquele di­nheiro que ele ganha agora, no seu cargo na alfândega; não contribui para rejuvenescê-lo. Depois de todas aquelas ameaças e caretas ofendidas, eu me disse que ele ia me perguntar novamente qual o meio de persuadir Shekure. Mas ele estava agora tão próximo de encarnar o homem mau que não podia mais formular sua pergunta. Basta um homem aceitar esse papel de malva­do—e um amor não correspondido não é uma má ocasião para representá-lo —, que logo se torna totalmente selvagem. Pensando nas crianças, de que ele falara, e naquela terrível espada rubra e afiada, vi-me tomada por um sú­bito pânico e saí fugida daquela casa.

E não é que, na rua, dou novamente de cara com o cego tártaro e seus insultos! Não perdi tempo: catei uma pedra no chão e, antes de colocá-la no lenço do mendigo, disparei-lhe: “Tome isto, seu tártaro piolhento!”.

Contendo o riso, vi-o pegar a pedra, achando que se tratava de uma moe­da e, sem ouvir suas imprecações, fui visitar uma dessas boas moças a quem arranjei um excelente marido.

A doce “filha” primeiro me fez a honra de um resto de torta de espinafre, ainda bem crocante. Depois, como ela estava preparando para o almoço um guisado de cordeiro com ovos e ameixas azedas, uma verdadeira iguaria, não quis magoá-la e esperei para provar duas boas colheradas, que comi com pão fresco. Como ela também fazia uma compota de uvas, não me fiz de rogada e, para rematar a comilança, fartei-me dessa delícia a que misturei uma bela porção de geléia de rosas. E fui levar as cartas à minha melancólica Shekure.

26. Eu, Shekure

Quando Hayriye veio me dizer que Ester estava aqui, eu estava arruman­do as roupas lavadas na véspera. Bem, era isso que eu havia planejado dizer a vocês, mas para que mentir? Sim, é verdade, quando Ester chegou, eu es­tava dentro do armário embutido espiando o Negro e meu pai pelo buraco na parede e, como esperava ansiosa a próxima carta de Hassan ou do Negro, era justamente nela, Ester, que eu pensava. Porque, do mesmo modo que o pressentimento da morte que obcecava meu pai me parecia justificado, eu também sabia que o interesse que o Negro manifestava por mim não duraria a vida toda. O Negro desejava se casar porque estava apaixonado e, porque desejava se casar, se apaixonou. Se não fosse comigo, teria se casado com ou­tra e, naturalmente, teria se apaixonado por ela antes de se casar.

Na cozinha, depois de convidar Ester a sentar-se num canto, oferecen­do-lhe um copo de sorvete de rosas, Hayriye olhou para mim com um ar des­confiado. Eu disse a mim mesma: “Receio que essa aí conte ao meu pai tu­do o que vê, desde o dia em que ele a pôs para dormir na sua cama”.

“Minha bela infeliz de olhos negros, minha sublime bela entre as belas! Estou atrasada porque aquele porco do Nessim, que me serve de marido, não me queria deixar sair de casa. Acredite, saiba que é uma felicidade não ter sempre um marido atrás de você!”

Com essas palavras, ela tirou fora duas cartas, que arranquei das suas mãos. Hayriye tinha se posto num canto à parte, de onde podia ouvir tudo sem estar grudada na gente. Dando as costas para Ester, comecei a ler a car­ta do Negro. Estremeci ao pensar naquela casa do judeu enforcado. Calma disse a mim mesma, vai dar tudo certo, Shekure. Depois passei à carta de Hassan, que parecia decididamente furioso.

Shekure Hanim,

Ardo de desejo e sei que para você isso não tem a menor importância. De noite, sonho que corro, perseguindo sua aparição pelas montanhas deser­tas. Cada carta minha que você lê sem respondê-la é como uma flecha que me atinge em pleno coração. Escrevo esta esperando uma resposta. O boato, o boca-a-boca, diz que seus filhos teriam ouvido você dizer que, tendo visto em sonho seu marido morto, não seria mais uma mulher casa­da. Não sei se essa história é verdadeira. O que sei é que você ainda é a mulher do meu irmão mais velho e que ainda pertence à nossa casa. Meu pai é da mesma opinião. Iremos hoje ao juiz e, depois, vamos buscá-la. Pode dizer a seu pai que irei com meus homens. Arrume suas coisas, você volta para nossa casa. E faça sua resposta chegar rapidamente por Ester.

Li a carta uma segunda vez, depois, tratando de me controlar, interro­guei Ester com o olhar. Mas ela não me contou mais nada, nem sobre Has­san, nem sobre o Negro.

Então fui buscar um cálamo na caixa ao lado do guarda-louça, pus uma folha de papel na tábua de cortar pão, porém, mal comecei a escrever mi­nha resposta ao Negro, parei, congelada...

Uma coisa me viera à cabeça. Virei-me para Ester. Vendo-a encantada como uma criança por poder se entupir à vontade com sorvete de rosas, dis­se a mim mesma que seria ridículo fazer-lhe confidências. Guardei o papel e o cálamo e disparei-lhe meu sorriso mais sedutor.

“Minha linda, como você está sorrindo bonito”, disse ela. “Não há dú­vida, você vai ver: tudo vai se arranjar! Com essa sua beleza, e dona-de-casa incomparável ainda por cima! Istambul está cheia de ricos senhores e valo­rosos paxás que sonham em encontrar uma esposa como você.”

Às vezes a gente diz o que pensa, porém mal as palavras saem da sua bo­ca você se pergunta: por que foi que eu disse isso, se não é o que penso? Foi o que aconteceu quando respondi assim a seus elogios:

“Por Alá, minha boa Ester, quem pode querer uma viúva como eu, com dois filhos para criar?”

“Há muita gente que procura uma viúva como você, acredite”, concluiu ela, juntando o gesto à palavra.

Olhei-a nos olhos. E disse a mim mesma que não gostava dela. Meu si­lêncio a fez entender que eu não lhe confiaria a resposta a levar e que era melhor ela ir embora já. Depois que ela se foi, era como se eu pudesse sen­tir esse meu silêncio, como dizer, soar na minha alma. Subi então para me refugiar no meu quartinho, onde fiquei um bom tempo, no escuro, de pé, encostada na parede. Pensava em mim, no que eu poderia fazer agora, no medo que crescia dentro de mim. E o tempo todo, metade de mim podia ou­vir meus filhos brigando:

“Você parece menina, só ataca pelas costas!”, reclamava Shevket.

E Orhan: “Meu dente está mole!”.

A outra metade estava atenta ao que meu pai dizia ao Negro.

A porta do seu gabinete — a porta azul — tinha ficado entreaberta, de modo que eu podia ouvir toda a conversa dos dois: “Depois de ver os retratos da escola italiana, a gente compreende horrorizado”, dizia meu pai, “que, na pintura, os olhos não podem ser simplesmente dois buracos redondos nu­ma cara, iguais para todo mundo, mas têm de ser qual nossos próprios olhos, que refletem a luz como um espelho e a absorvem como um poço. Do mes­mo modo, os lábios não se resumem a uma fresta reta, traçada num rosto pla­no como o papel, mas têm de ser pontos de expressão — para cada qual, um diferente matiz de vermelho —, transmitindo plenamente nossa alegria, nos­sa tristeza e nosso estado de espírito, mediante uma sutil contração ou um suave relaxamento. Também o nariz não pode ser mais uma espécie de pa­rede separando as duas metades do rosto, mas sim um instrumento vivo e curioso, com uma forma única para cada um de nós”.

Ouvindo meu pai dizer “nós” a propósito daqueles grandes personagens ímpios que se fazem retratar, eu me perguntei se o Negro compartilhava a minha estupefação. Espiei-o pelo buraco na parede e a palidez do seu rosto me apavorou: meu belo moreno, meu cavaleiro melancólico, será a insônia, será o fato de pensar em mim sem parar que te dá esse ar tão triste?

Ah, talvez vocês não saibam que o Negro é um homem alto, esbelto e bonito. Tem uma testa larga, olhos amendoados, um nariz viril, reto e ele­gante. Conservou as mãos longas e finas, com dedos ágeis e nervosos, que já tinha em criança. De pé, é desempenado, sempre ereto, ombros largos mas não tanto quanto os de um carregador. Quando era pequeno, não parava sos­segado: o rosto e o corpo sempre irrequietos, sempre mutáveis. Desde a pri­meira vez que o revi, doze anos depois, do fundo do meu esconderijo, com­preendi que estava agora diante de um homem, de um homem de verdade.

Sempre com o olho grudado no buraco, reconheci, em seus traços for­tes, a mesma expressão de antigamente, triste e preocupada. Ao pensar que era eu a causa daquela melancolia, senti-me um pouco culpada e, ao mes­mo tempo, orgulhosíssima. O Negro ouvia atentamente as explicações do meu pai, olhando um dos desenhos feitos para o livro, com um ar enterne­cedor de criança inocente. Foi então que, ao ver sua boca rosada se abrir co­mo um bebê teria feito, senti de repente como se estivesse lhe oferecendo o meu peito, segurando delicadamente sua cabeça sob a nuca e passando os dedos pelos seus cabelos. Ele teria encostado a cabeça no vão entre meus seios e, como meus filhos mesmos faziam quando eram bebês, rolado os olhos de prazer, enquanto chupava o bico do meu seio; e, compreendendo enfim que somente graças à minha compaixão ele encontraria a paz, ficaria com­pletamente ligado a mim.

Esses pensamentos agradáveis me deixavam ligeiramente febril, e ima­ginei por um instante que não era a miniatura do Diabo, que meu pai lhe mostrava agora, o que maravilhava tão intensamente o Negro, mas sim meus seios, o tamanho dos meus seios. E não só meus seios: como se estivesse ébrio de me ver, ele contemplava, cheio de surpresa, meus cabelos, meu pescoço; a mim, toda. Sua atração por mim era tanta que em seu rosto eu lia agora to­das as palavras doces que, mais moço, ele não soubera dizer; e, em seus olhos, pude perceber toda a admiração que lhe causaram minha altivez, meus bons modos, minha educação, a paciência e a coragem com que esperei meu ma­rido, e a elegância da carta que lhe escrevi.

Eu sentia, outra vez, uma violenta irritação com os estratagemas que meu pai inventava para impedir que eu me casasse de novo. E também me sentia farta das suas intermináveis lembranças de Veneza, daquelas ilustrações que ele estava fazendo os miniaturistas pintarem imitando os mestres europeus.

Fechando novamente os olhos, pensei — juro por Alá que esse pensa­mento foi involuntário — no Negro se aproximando devagarinho no escuro, e até podia senti-lo junto de mim. Senti-o chegar por trás, ele beijava a mi­nha nuca, as minhas orelhas, e eu sentia como ele era forte, era sólido, gran­de duro até, podia me apoiar nele confiante. Minha nuca estava arrepiada, o bico dos meus seios, duros. Eu chegava a sentir, ali no escuro, olhos fecha­dos, grudado em mim, seu membro volumoso por trás. Minha cabeça pôs-se a girar. Como será o coiso do Negro, eu me perguntava.

Às vezes, nos meus sonhos, vejo meu falecido marido me mostrar o de­le, em sua agonia. Noto que ele se esforça para continuar de pé, apesar das lanças e das flechas safávidas que o trespassaram, mas seu corpo sanguino­lenta não consegue se aproximar de mim, seu caminho está obstruído por um rio. Ele me chama da outra margem, sofrendo terrivelmente, coberto de ferimentos, pede-me para olhar aquela coisa enorme que ele mantém rígida diante de si... Se o que dizem as georgianas e as velhas do meu hamam é ver­dade — “Sim, garanto que fica deste tamanho” —, o do meu marido não é tão grande assim. E se o do Negro for maior, se aquela coisa enorme que vi ontem logo abaixo do seu cinto, quando Shevket foi lhe entregar a folha em branco, for mesmo a coisa dele (e era, tenho certeza!), tenho medo que me machuque, se é que vai conseguir entrar!

“Mamãe, Shevket está implicando comigo!”

Saí do escuro do armário, sem fazer barulho, e fui pegar meu lenço ver­melho no baú do quarto ao lado. Eles tinham puxado meu colchão e pula­vam em cima dele, empurrando-se aos gritos.

“Quantas vezes eu já disse a vocês para não gritar quando o Negro Efên­di estiver aqui em casa!”

“Mamãe, por que você botou seu lenço vermelho?”, perguntou Shevket.

“Mamãe! Shevket está implicando comigo!”, gritava Orhan.

“Pare de implicar com ele, ouviu? Que porcaria é aquela?”, perguntei, vendo uma espécie de pele de bicho num canto.

“Está morto”, respondeu Orhan. “Foi Shevket que encontrou na rua.”

“Vão jogar isso de volta onde acharam!”

“Quem tem de jogar é Shevket!”

“Os dois, já disse!”

Quando me viram fazer cara feia — mordo os lábios com raiva, como se estivesse a ponto de lhes dar uns safanões —, eles saíram em disparada, sem discutir. Tomara que voltem logo e não se resfriem!

De todos os pintores, o Negro é meu preferido. Porque é ele que mais me ama e porque conheço seu caráter. Peguei uma folha e um cálamo e, de um só fôlego, escrevi sem nem sequer pensar:



Está bem. Vou me encontrar com você logo antes da prece da noite, na casa do judeu enforcado. Trate de terminar logo o livro do meu pai.

A Hassan eu não respondi. Mesmo se ele e o pai forem realmente falar com o juiz hoje, não creio que venham logo em seguida me tirar daqui com os valentões que estão reunindo. Se fosse essa, de fato, a intenção deles, Has­san viria direto para cá, em vez de me escrever e ficar esperando uma respos­ta. Por enquanto, ele vai ficar esperando minha carta, e sempre pode, se a espera o enlouquecer, ir recrutar uns brutamontes para me raptar. Não é que eu não tenha medo dele. Mas a verdade é que confio no Negro para nos pro­teger. Aliás, é melhor eu lhes contar logo o seguinte: no fundo, não tenho tanto medo assim de Hassan, porque amo a ele também!

Digo “amar”, e admito que vocês têm razão para se irritar. Isso apesar de eu ter tido tempo de sobra para constatar que vil e covarde aproveitador ele é durante os longos anos passados sob o mesmo teto à espera do meu ma­rido. Mas Ester diz que, agora, ele ganha muito dinheiro e vejo, pela sua ca­ra, que ela diz a verdade. Assim, como o dinheiro lhe dá agora muito mais segurança, parece-me que toda aquela maldade que o animava transformou-se num lado sombrio, estranho, fascinante. Descobri esse seu lado à força de receber e ler suas cartas.

Porque Hassan, assim como o Negro, sentiu por mim uma paixão ar­dente. Mas enquanto o Negro ficou longe, desaparecido por doze anos, por­que estava zangado, Hassan me mandava cartas todos os dias, com desenhos de passarinhos, de gazelas. No início, eu me apavorava ao ler aquelas cartas. Depois elas passaram a me intrigar...

Sabendo que Hassan se interessa muito por tudo o que me diz respeito, não me espantei ao descobrir que ele estava a par do meu sonho sobre a morte do meu marido. O que desconfio é que Ester lhe mostra as minhas cartas ao Negro. E essa a razão pela qual não confiei minha resposta a Ester desta vez. Vocês devem saber se essas precauções valem a pena.

“Onde é que vocês andavam?”, ralhei com os meninos, quando vol­taram.

Mas eles viram que eu não estava com raiva de verdade. Peguei Shev­ket comigo para voltar ao armário, sem que Orhan nos visse. Botei-o em meus joelhos e comecei, no escuro, a beijá-lo, nos cabelos, no pescoço, pelo cor­po todo.

“Está com frio, amor? Me dê aqui suas mãozinhas para mamãe esquen­tá-las.”

Suas mãozinhas lindas fediam a carniça, mas não lhe disse isso. Ao con­trário, mantive-o demoradamente contra mim, apertando sua cabeça contra os meus seios. Uma vez bem aquecido, ele pôs-se a ronronar de prazer, bai­xinho, como um gatinho.

“Você gosta muito da sua mamãe?”

“Hum-hum.”

“De verdade?”

“Sim.”

“Gosta dela mais que tudo no mundo?”



“Sim.”

“Então eu vou te contar uma coisa. Um segredo. Que você não pode contar a ninguém, está bem?” E disse-lhe no ouvido: “Eu também te amo mais que tudo no mundo, você sabia disso?”

“Mais que Orhan até?”

“Mais que Orhan. Ele é pequeno, é como um canarinho: não entende nada. Você entende, porque você é inteligente.” Eu o beijava, cheirando seus cabelos. “É por isso que vou te pedir uma coisa. Ontem você já levou um pa­pel para o Negro, sem nada escrito. Você leva outro para ele hoje?”

“Foi ele que matou meu pai.”

“O que?”


“Foi ele que matou meu pai. Ele me disse isso ontem, na casa do judeu enforcado. ‘Fui eu que matei seu pai. Matei uma porção de gente’, ele disse.”

Houve um gesto repentino. Pronto, ele pulou do meu colo e pôs-se a chorar. Por que será que esse menino está chorando? Tudo bem, confesso, não consegui me controlar e sapequei-lhe um tabefe. Não pensem que te­nho um coração de pedra. E que fiquei irritada ao ouvi-lo falar assim — só porque convém a ele — do homem que tenho a intenção de desposar.

Mas ouvindo meu orfãozinho querido chorar, também fiquei à beira das lágrimas. Tornamos a nos abraçar, e ele chorava de soluçar. Mas um tapinha como aquele não era motivo para tanta choradeira! Afaguei-lhe os cabelos.

Foi assim que tudo começou: vocês sabem que ontem falei com meu pai do sonho que tive, em que meu marido estava morto. Mas, na verdade, como tem acontecido com freqüência durante esses quatro anos desde o fim da guerra contra o Irã e os safávidas, eu apenas tive um sonho fugaz com ele, e no sonho também havia um morto. Se esse morto era ele, não ficou claro.

Os sonhos sempre têm uma utilidade. Em Portugal, de onde veio a avó de Ester, dizem que os católicos usavam os sonhos dos heréticos como prova de que eles se encontravam com o Diabo e fornicavam com ele. Assim, por exemplo, quando os antepassados judeus de Ester se viram obrigados a con­verter-se ao catolicismo, os carrascos jesuítas da Igreja portuguesa, não acre­ditando na sinceridade da conversão, submeteram-nos à tortura para forçá-los a confessar que seus sonhos eram povoados de toda sorte de djins e demônios, além de arrancar-lhes sonhos que eles nunca haviam sonhado. Era desse modo que obtinham o pretexto para mandar os judeus para a fo­gueira.

Os sonhos servem para três coisas:



Alif — quando você deseja alguma coisa mas não tem o direito de dese­já-la. Então você diz: vi em sonho, e assim pede o que deseja sem pedir dire­tamente.

Ba — quando você quer prejudicar alguém, por exemplo caluniando essa pessoa. Você diz: vi em sonho Fulana Hanim se divertindo, e não era com o marido; ou o paxá Beltrano esvaziando não sei quantas garrafas. Mes­mo se ninguém acreditar, essa simples menção sempre deixa um vestígio na cabeça das pessoas.

Djim — quando você quer alguma coisa mas não sabe direito o que é. Você conta o sonho, um sonho bem complicado. As pessoas interpretam o sonho e dizem o que você quer ou o que pode ajudar você a conseguir. Um marido, por exemplo, um filho, uma casa...

Todos esses sonhos, naturalmente, não têm nada a ver com os que temos em nosso sono. Em geral a gente conta os sonhos diurnos como se fos­sem sonhos noturnos por interesse. Só os idiotas contam seus verdadeiros so­nhos, os que eles têm dormindo. Então todo o mundo zomba deles ou lhes atribui um sentido nefasto. Os verdadeiros sonhos só são levados a sério por quem os tem. Ou será que vocês levam?

Quando evoquei, diante do meu pai, a possibilidade de que meu mari­do estivesse morto, como no meu sonho, ele nem esperou que eu terminas­se de falar para me dizer que, a seu ver, esse sonho não era um indício da realidade. Mas, ao voltar do enterro, ele tinha chegado à conclusão inversa: que meu marido estava sem dúvida nenhuma morto. Assim, bastou um so­nho para que meu marido, que nestes quatro anos era considerado vivo, seja agora considerado morto e que sua morte, agora anunciada, até se torne qua­se oficial. Os meninos compreenderam que tinham ficado órfãos, é por isso que estão tristes.

“Você costuma sonhar?”, perguntei a Shevket.

“Costumo”, ele respondeu sorrindo. “Meu pai não volta, mas no fim eu é que sou seu marido.”

Com seu nariz estreito, seus olhos negros e seus ombros quadrados, ele se parece mais comigo do que com o pai. E, quando vejo que não dei a testa alta e larga do meu marido aos meus filhos, que têm, todos os dois, o cabelo implantado bem baixo, sinto-me um pouco culpada, às vezes.




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