Meu nome é Vermelho



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“Bom, vá brincar de espada com seu irmão!”

“Com a espada velha do meu pai?”

“É.”

Os olhos fixos no teto do quarto, eu ouvia, não sem certa inquietação, os gritos dos dois e o barulho da espada. Mas eu me disse que não havia por que me preocupar. Depois, como não agüentava mais, acabei descendo à cozinha, para dizer a Hayriye:



“Faz uma eternidade que meu pai pede uma sopa de peixe. Vá ao mer­cado do Galeão, mas antes pegue uns tabletes de geléia de frutas no escon­derijo e dê às crianças.”

Enquanto Shevket se entupia de doce na cozinha, subi ao segundo andar com Orhan. Peguei-o no colo e beijei-o no pescoço.

“Você está ensopado! E isso aqui, o que foi?”

“Foi Shevket, que me bateu com a espada vermelha do tio Hassan.”

“Vai ficar roxo!”, suspirei esfregando-o. “Está doendo? Que maluco, es­se Shevket. Escute bem o que vou te dizer. Você é um menino bonzinho e esperto, eu sei. Então vou te pedir uma coisa. Se você fizer o que vou te pe­dir, eu te conto um segredo, só para você, para mais ninguém, nem para Shevket.”

“É o quê?”

“Está vendo este papel? Vá ver o vovô e, sem que ele veja, ponha o pa­pel na mão do Negro. Entendeu?”

“Entendi.”

“Vai fazer o que te pedi?”

“Qual é o segredo?”

“Primeiro leve o papel.” Beijei de novo seu pescocinho cheiroso. Quer dizer, cheiroso é um modo de falar. Quantas vezes tenho de dizer a Hayriye para levá-los ao hamam? Ela não os leva, acho eu, desde que Shevket come­çou a ter ereções na frente das mulheres nuas. “Depois eu te digo o segre­do.” Mais um beijinho. “Você é um menino muito bonito, muito inteligen­te. Shevket é um bobo. Ele bate até na mamãe dele!”

“Não vou levar. Tenho medo do Negro, ele matou meu pai.”

“Foi Shevket que te disse isso? Vá já buscá-lo lá embaixo. Diga que es­tou chamando.” Vendo minha cara brava, saiu sem que eu tivesse de repetir a ordem, tanto mais que na certa não lhe desagradava nem um pouco a idéia de ver seu irmão em maus lençóis. Eles chegaram logo depois, vermelhos como pimentões, Shevket trazendo numa mão um tablete de geléia de fruta e, na outra, a espada.

“Você disse ao seu irmão que o Negro Efêndi matou o pai de vocês. Nun­ca mais diga isso nesta casa! Vocês têm de respeitar e querer bem ao Negro Efêndi, ouviram? Não vão passar a vida toda sem um pai, afinal!”

“Não quero saber dele. Quero voltar para a casa do tio Hassan, para es­perar meu pai”, respondeu Shevket, com insolência.

Aquilo me deixou furiosa, e dei-lhe outro tabefe. Ele deixou a espada cair no chão.

“Quero meu pai”, ele recomeçou a chorar.

Mas eu chorava ainda mais que ele.

“O pai de vocês não vai voltar mais. Ele morreu”, dizia eu chorando. “Vocês não têm mais um papai, será que não entendem, seus bastardos.” Eu chorava tão alto que receei que nos ouvissem.

“A gente não é bastardo”, gemia Shevket.

Choramos os três um tempão, todas as nossas lágrimas. O choro aliviou meu coração e senti que chorava porque o pranto nos torna mais compassivos. Ainda chorávamos quando nos deitamos no colchão. Shevket aconche­gou-se bem a mim, o nariz enfiado na minha blusa. Sinto que, quando está grudado assim em mim, ele na verdade não dorme. Eu também devia estar dormindo, mas meu espírito estava no andar de baixo. Um cheirinho gosto­so de doce de cidra subia da cozinha. Levantei-me de um pulo e fiz barulho para acordá-los, dizendo:

“Vão depressa lá embaixo provar o que Hayriye preparou para vocês.”

Fiquei sozinha no quarto. A neve começara a cair. Implorei a ajuda de Alá e abri o Corão na surata A família de Imran e, lendo que os mártires do islã, os que morrem na guerra santa, se reunirão junto de Alá, senti-me tran­qüila por meu falecido marido. Será que meu pai já tinha mostrado ao Ne­gro o retrato, inacabado, do Nosso Sultão? Meu pai diz que a pintura ficou tão parecida que, quem a olha face a face, fica com medo e acaba desviando os olhos.

Chamei Orhan e, sem pegá-lo no colo, dei-lhe de novo uma porção de beijos, na cabeça e no rosto. “Bom, agora que você não está mais com me­do, vá levar, sem que vovô veja, este papel para o Negro Efêndi. Está bem?”

“Meu dente está mole.”

“Se quiser, quando você voltar eu arranco. É só chegar perto dele, ele vai ficar intrigado e te abraçar. Nesse instante, enfie o papel na mão dele. Está bem?”

“Estou com medo.”

“Não precisa ter medo. Se não for o Negro, sabe quem será seu pai? O tio Hassan! Você quer que o tio Hassan seja seu pai?”

“Não, não quero.”

“Então vá, meu Orhan querido, meu menino lindo e inteligente. Bom... vou acabar me zangando... E, se você chorar, vou me zangar mais ainda.”

Enfiei o papel dobrado em oito na palma da sua mãozinha resignada. Meu bom Alá, ajude-me para que meus dois orfãozinhos não fiquem sem pai por muito tempo! Levei-o pela mão até a porta do nosso quarto. No cor­redor, vi-o virar-se para mim uma derradeira vez, todo desconcertado.

Voltei ao meu posto de observação e lá, pelo buraco no fundo do armá­rio, vi-o aproximar-se indeciso do Negro e de meu pai. Hesitou um instante virou-se, desamparado, buscando em vão meu olhar atrás da parede em que eu estava escondida. Depois, juntando toda a sua coragem, conseguiu lan­çar-se nos braços do Negro. O Negro, que mostrou, nessa ocasião, uma pre­sença de espírito digna do futuro pai dos meus filhos, longe de se perturbar ao ver Orhan em lágrimas no seu colo, imediatamente tomou-lhe o papel das mãos, com toda discrição.

Ante o olhar espantado do meu pai, Orhan veio correndo se jogar nos meus braços, e eu o cobri de beijos, antes de levá-lo embaixo, na cozinha, e pôr-lhe na boca um punhado de passas, que ele adora.

“Hayriye”, ordenei, “leve as crianças ao Cais do Galeão e compre na banca do Kosta peixe para a sopa. Tome vinte moedas de prata. Com o tro­co, compre na volta figos e cerejas secos para Orhan. Para Shevket, compre um pouco de grão-de-bico tostado e uma porção de confeitos com nozes, co­mo ele gosta. Podem passear quanto quiserem até a noite, mas tome cuidado para que eles não se resfriem.”

Eles se vestiram e saíram, e eu fiquei contente ao me ver sozinha em casa. Subi para pegar, na bolsa de seda acolchoada e perfumada com lavan­da, onde o guardo, o espelho feito por meu sogro, que meu marido me deu de presente. Pendurei-o a boa distância, de modo que pudesse ver, virando-me, cada detalhe da minha silhueta refletir-se nele. Esse lenço vermelho combina com a cor da minha pele, não há dúvida... Mas eu queria usar tam­bém a blusa lilás, aquela que minha mãe já tinha no seu enxoval e que eu acabava de encontrar no baú. Tirei também do baú um xale florido, cor de pistache, mas não combinava com o resto. Vestindo a blusa, senti frio, tremi, e a chama da vela também tremeu, suavemente. Eu ia pôr também meu ca­saquinho vermelho com forro de raposa, mas na última hora mudei de idéia e fui pegar no corredor o casaco azul-claro de lã da minha mãe, mais com­prido e mais pesado. Nesse instante, ouvi vozes junto da porta da entrada e disse a mim mesma: o Negro está indo embora! Tirei então o casaco grande da minha mãe e pus de novo o vermelho. Está apertado no peito, mas eu o adoro. Ajeitei os cabelos e baixei o véu de crepe sobre os meus olhos.

O Negro ainda não tinha saído, é claro. Devo ter me enganado, por cau­sa da emoção. Como quer que seja, se me perguntassem aonde eu ia, era só dizer que ia me encontrar com Hayriye e as crianças para fazer compras com eles. Desci a escada como um gato.

Clique! Como um fantasma, fechei a porta às minhas costas. Não ha­via nenhum ruído no pátio e, uma vez na rua, virei-me um instante para dar uma olhada na casa, através do meu véu. Tive a impressão de não morar lá.

Não havia vivalma nas ruas. Os flocos de neve turbilhonavam no ar. En­trei arrepiando-me toda naquele jardim abandonado, que a luz do sol jamais visita. Ele recendia a húmus e a morte, mas, uma vez dentro da casa do ju­deu enforcado, senti-me como se estivesse em casa. Dizem que os djins se encontram lá de noite, em volta da lareira, para realizarem seu conciliábulo. O ruído dos meus passos naquela casa tinha um quê de apavorante. Es­perei imóvel como uma pedra. Ouvi um estalido no jardim, depois nada. Não longe dali, um cachorro latiu. Acho que sou capaz de reconhecer o la­tido de todos os cachorros do nosso bairro, mas aquele me era totalmente desconhecido.

No silêncio que sepultava pouco a pouco a casa, senti de repente outra presença e fiquei ainda mais imóvel, com medo de fazer algum barulho se me mexesse. Na rua, passaram umas pessoas conversando; pensei em Hayri­ye e nas crianças. Tomara que não se resfriem! Depois, no profundo silêncio que voltara a se instalar, fui tomada de arrependimentos, de remorsos! O Ne­gro não viria, claro, eu tinha cometido um erro, melhor seria voltar já para casa, sem me expor a uma vergonha maior. Também fiquei com medo de que Hassan tivesse me seguido até ali, quando ouvi a porta ranger.

Mudei rapidamente de lugar. Não sei por que fiz isso, mas assim eu me encontrava à luz da janela, à minha direita; e senti que aquela luz do jardim, incidindo sobre mim, me ofereceria aos olhos do Negro “dentro dos misté­rios da sombra”, como meu pai dizia. Ajustei meu véu e esperei, atenta ao barulho dos seus passos.

Assim que me notou, da moldura da porta, o Negro veio em minha direção. Parou e nós nos observamos a alguns passos de distância. Ele era mais forte, mais robusto do que eu percebera pelo buraco da parede. Após um ins­tante de silêncio, ele me disse:

“Levante o véu. Por favor.”

“Sou uma mulher casada. Espero meu marido.”

“Levante o véu. Ele nunca mais vai voltar.”

“Foi para me dizer isso que você me fez vir aqui?”

“Não, foi para te ver. Faz doze anos que penso em você. Levante o véu para que eu possa te ver.”

Ergui o véu. A maneira como ele me contemplou, longamente, sem di­zer nada, me agradou muito.

“O casamento e a maternidade só te embelezaram. Seu rosto é bem di­ferente daquele da minha lembrança.”

“Como era o da sua lembrança?”

“Como uma dor. Porque não era propriamente de você que eu me lem­brava, mas sim de um sonho. Lembra que sempre costumávamos conversar, em nossa infância, sobre a história de Shirin que se apaixona por Khosrow ao ver o seu retrato? Eu perguntava por que Shirin não tinha se apaixonado pelo belo Khosrow da primeira vez que viu sua imagem pendurada no galho de uma árvore, mas só depois de ver a imagem três vezes. Você costumava responder que era porque nas lendas tudo tem de se repetir três vezes. Já eu dizia que seu amor devia ter desabrochado desde a primeira vez. Quanto a saber quem pode ter pintado Khosrow de maneira tão realista que ela se apai­xona por sua imagem e tão precisa que ela logo o reconhece, sobre isso nun­ca conversamos. Se, durante esses doze anos, eu tivesse ao meu lado um re­trato do seu rosto, não teria sofrido tanto.”

Ele continuou falando sobre esse mesmo tema, sobre as histórias de re­tratos que despertam o amor, dizendo lindas palavras sobre o quanto sofreu por minha causa. Percebi que ele se aproximava lentamente de mim, e suas palavras passavam pela minha consciência para aninhar-se em algum canto da minha memória. Mais tarde eu meditaria longamente sobre cada urna daquelas palavras. Mas naquela hora suas palavras exerciam sobre mim urna espécie de magia, enfeitiçando-me e prendendo-me visceralmente a ele. Eu me sentia culpada por seus doze anos de sofrimento. Como ele falava bem, que homem bom ele era! Parecia uma criança inocente. Eu podia ler isso em seus olhos. E ele me amar tanto assim, levava-me a depositar nele a mi­nha confiança.

Beijamo-nos. Aquilo me deu tamanho prazer que me senti culpada. Aquela doçura de mel subia à minha cabeça, beijei-o de novo. Ofereci-lhe meus lábios, retribuí a seus beijos, e nossos beijos mergulhavam o mundo à nossa volta numa espécie de crepúsculo. Desejo que todos um dia se beijem como nós nos beijamos. Fez-me lembrar o amor tal como um dia eu o so­nhei. Ele enfiou a língua na minha boca, o que me deu tamanho prazer que em torno de nós o mundo pôs-se a cintilar e o mal não mais existia.

Se um dia minha trágica história fosse contada num livro e minhas aven­turas ilustradas à maneira maravilhosa dos iluminadores de Herat, nosso bei­jo seria representado como nas páginas mais requintadas que meu pai me mostrava, cheio de admiração. Nelas, as linhas da escrita eram como o on­dular das folhas infladas pelo sopro do vento; à ornamentação das paredes fazia eco o desenho das bordas douradas; a vivacidade das asas sinuosas das andorinhas varando a margem da pintura sugeria o regozijo dos amantes. Es­tes, de olhos amendoados, se olham de longe, através das suas pálpebras semicerradas, parecem repreender-se um ao outro, e são pintados tão peque­nos, tão distantes nessas miniaturas que às vezes nos fazem pensar que a história não fala deles, mas da noite estrelada, daquelas árvores sombrias, do magnífico palácio em que eles se encontram, com seu vasto átrio e seu des­lumbrante jardim, cujas folhas foram pintadas uma a uma com todo amor. Mas se um observador cuidadoso prestar atenção à harmonia secreta das co­res, que o miniaturista só consegue transmitir com a mais absoluta entrega à sua arte, e se apreender a luz misteriosa que impregna toda a pintura, verá imediatamente que o segredo dessas ilustrações é que elas são criadas pelo próprio amor — é como se essa luz emanasse dos próprios amantes, das mais recônditas profundezas da pintura. E quando eu e o Negro nos beijamos, nosso êxtase inundou o mundo dessa mesma maneira.

Felizmente, a vida me ensinou que esse gênero de felicidade nunca du­ra muito. O Negro começou pegando, delicadamente, meu peito nas suas mãos. Isso me agradou tanto que, esquecendo tudo, eu estive a ponto de lhe pedir que os chupasse. Mas ele não fez isso, não sabia direito o que fazer. Em todo caso, queria cada vez mais. Então, bem no meio desse abraço, a vergonha e o medo de repente se insinuaram. Eu encontrara, contra meu baixo-ventre, a rigidez daquele membro enorme, que ele premia contra mim agarrando-me pelas cadeiras. De início, aquilo me agradou. Eu estava curiosa, nem um pouco envergonhada, dizia comigo mesma que quanto mais a gente se beija apaixonadamente, maior aquilo fica. Até me orgulhava daquele feito. Depois, de repente, quando ele tirou a coisa para fora, virei a cabeça para o outro lado, mas não pude impedir meus olhos de olharem e se arre­galarem à medida que a coisa crescia.

Depois, quando ele quis me forçar a fazer coisas que nem mesmo aque­las mulheres desavergonhadas que contam obscenidades no hamam fariam — nem mesmo as kiptchaks como eu! —, fiquei um longo momento estu­pefata e sem reação.

“Não franza suas lindas sobrancelhas, meu amor!”, ele suplicou.

Mas eu me levantei e afastei-o do meu caminho com um empurrão, gri­tando o mais que pude com ele, sem ligar para o seu desapontamento.

27. Meu nome é Negro

Na escura casa do judeu enforcado, Shekure me incendiava com o olhar, dizendo-me que eu podia muito bem, com as circassianas que eu arranjara em Tiflis, as kiptchaks sem-vergonhas, as pobres coitadas que eu acharia à venda nas estalagens, as viúvas persas ou turcomanas, ou uma dessas putas que a gen­te vê se multiplicarem em Istambul, uma mingreliana fácil, uma abaza sem pudor, uma velha armênia, uma genovesa ou uma síria meio bruxa, ou então um desses infames atores de papéis femininos e outros mocinhos insaciáveis, eu podia muito bem, dizia ela, enfiar-lhes na boca a coisa que ela tinha diante dos olhos, mas com ela não! Segundo ela, que a raiva levava a me acusar de ter cometido tudo o que ela podia imaginar de mais desonesto e degradante nas minhas andanças da Mesopotâmia ao Irã, das aldeias escaldantes da Ará­bia às areias do mar Cáspio, eu tinha perdido toda compostura e, sem dúvida, esquecido que existem mulheres ciosas da sua virtude. Em conclusão, ela me lançou no rosto que minhas declarações de amor não podiam ser sinceras.

Eu escutava com todo respeito aquela explosão veemente e colorida, que tinha por efeito fazer empalidecer de vergonha, na minha mão, o objeto incriminado, cujo aspecto lamentável teria me deixado embaraçadíssimo, não tivesse eu dois bons motivos para me regozijar:

1. Ao contrário de como costumava agir nesse gênero de situação corri outras mulheres, eu não havia respondido à raiva com raiva, como um selva­gem, e à rudeza das suas palavras com argumentos de igual calibre.

2. Essa preocupação que ela possuía com o que eu pudesse ter feito du­rante as minhas viagens dava a entender que ela havia pensado em mim mais do que eu imaginava.

E, ao ver que eu estava melancólico por não ter chegado aonde queria ela até se preocupou, justificando-se:

“Se essa loucura é de fato um efeito do seu amor, você tem de dominá-la, como todo homem honesto, e não tentar vencer a honestidade de uma mulher que alimenta apenas as mais louváveis intenções. Se você quer real­mente se casar comigo, não pode querer me comprometer. Alguém nos viu entrar aqui?”

“Ninguém”, respondi.

Como se tivesse ouvido barulhos de passos na neve do jardim, em que a noite já caíra, ela virou para a porta aquele rosto que por doze anos eu não fora capaz de me lembrar, oferecendo-me seu perfil. Um estalo nos fez con­ter a respiração, mas ninguém entrou. A sensação de desconforto que ela já me dava quando tinha doze anos e parecia ser muito mais velha do que eu voltou-me à memória, ao ouvi-la dizer:

“É o fantasma do judeu enforcado passeando.”

“Você costuma vir aqui?”, perguntei-lhe.

“Os djins, os demônios e os fantasmas são trazidos pelo vento. Eles se insinuam dentro das coisas, dão a elas uma voz e, no silêncio, tudo fala. Não preciso vir aqui para ouvi-los.”

“Shevket me trouxe aqui para me mostrar um gato morto, mas ele já ti­nha sumido.”

“Você disse a Shevket que tinha matado o pai dele?”

“Não foi o que eu disse. Foi o que ele entendeu? Eu não disse que ha­via matado o pai dele, mas que queria ser um pai para ele.”

“Por que você disse que tinha matado o pai dele?”

“Eu não disse! Ele me perguntou se eu já tinha matado alguém, e eu lhe respondi a verdade, que tinha matado dois.”

“Para se gabar?”

“Sim, para me gabar e impressionar o filho da mulher que amo. Porque entendi que a linda mãe desses dois bandidinhos, que exibe em casa as pre­sas de guerra do valente pai deles, tem a tendência de exagerar suas façanhas guerreiras.”

“Pode continuar a tentar se valorizar, porque eles não gostam de você.”

“Shevket não gosta de mim, mas Orhan gosta”, repliquei, satisfeito por pegá-la uma vez no contrapé. “Mas vou ser o pai dos dois.”

Algo como uma sombra, invisível na penumbra, passou entre nós, arrepiando-nos. Enquanto eu arrumava minha roupa, Shekure soluçava baixinho.

“Meu falecido marido tem um irmão, Hassan. Quando eu esperava a volta do meu marido, moramos dois anos com ele, na casa do meu sogro. Ele se apaixonou por mim. De uns tempos para cá, desconfia de alguma coi­sa, imagina que estou a ponto de me casar novamente — com você, claro. Até me fizeram saber que quer me levar de volta para a casa deles à força. Dizem que vão me buscar em nome do meu marido, porque diante do juiz não sou viúva. Podem vir me pegar de um momento para o outro. Meu pai também não quer que eu seja declarada viúva pelo juiz, porque acha que então eu iria arranjar outro marido e o deixaria sozinho em casa. Ficou mui­to contente por eu ter voltado para a casa dele com as crianças, porque, des­de a morte da minha mãe, a solidão era difícil de suportar. Você viria morar conosco?”

“Como assim?”

“Você se casaria comigo e viria se instalar conosco na casa do meu pai.”

“Não sei.”

“É bom se decidir rápido, porque não temos muito tempo. Meu pai sen­te a desgraça se aproximar dele, e acho que tem razão. Se Hassan e seus ho­mens vierem me buscar com os janízaros e me levarem à força para a casa dele, você irá dizer ao juiz que viu o cadáver do meu marido? Você veio do Irã, vão acreditar no que diz.”

“Irei. Mas não fui eu quem o matou.”

“Claro. Quer dizer que, para que eu possa ser declarada viúva, você está disposto a ir, com outra testemunha, declarar ao juiz que viu o corpo ensangüentado dele num campo de batalha do Irã?”

“Eu não vi, meu amor, mas posso afirmar que sim, por você.”

“Gosta dos meus filhos?”

“Sim.”

“De que gosta neles?”



“Shevket é forte, decidido, franco, inteligente e obstinado. Orhan é mei­go, frágil e muito esperto. E disso que gosto nos seus filhos.”

Minha amada sorriu levemente e umas lágrimas molharam seus lindos olhos negros. Depois, com o ar apressado de quem retoma o controle da si­tuação e não quer deixar as coisas se arrastarem:

“É preciso terminar a obra que Nosso Sultão confiou ao meu pai”, dis­se. “Todos esses acontecimentos sinistros que nos flagelam têm por origem esse livro.”

“Que outra arte diabólica nos flagela, além do assassinato do Elegante Efêndi?”

A princípio, ela pareceu contrariada com a minha pergunta. Depois, afetando um ar sincero que apenas ressaltava quão pouco convencida esta­va, retorquiu:

“Os partidários do hodja de Erzurum fazem correr o boato de que o li­vro do meu pai contém profanações e sinais da infidelidade européia. E se todos esses pintores que freqüentam nossa casa tivessem montado um com­plô, por inveja uns dos outros? Você, que visitou todos eles, é quem está em melhor posição para saber.”

“O irmão do seu falecido marido tem alguma coisa a ver com esses pin­tores, com o livro do seu pai e com os partidários de Nusret Hodja?”, per­guntei. “Ou ele é do gênero solitário?”

“Ele não tem nada a ver com isso tudo, nem é do gênero solitário”, ela respondeu.

Fez-se um estranho e misterioso silêncio.

“Quando você morava na mesma casa de Hassan, ficava distante dele?”

“Tanto quanto possível numa casa de dois cômodos.”

Em algum lugar, não muito longe dali, dois cachorros começaram a la­tir excitados.

Por que o marido dela, um homem que saiu vitorioso de tantas batalhas e recebeu um feudo em recompensa por seu valor, deixou sua esposa viver acotovelada com seu irmão numa casa tão pequena? Não me atrevi a fazer essa pergunta brutal e, em seu lugar, perguntei-lhe:

“Por que você se casou com seu marido?”

“Eu tinha que me casar com alguém”, respondeu. Era verdade, e com sua fineza habitual ela justificou seu casamento, elogiando o marido, mas brevemente, como para não me mortificar. “Você tinha ido embora e não voltava. Zangar-se pode ser um sinal de amor, mas um amante irascível aca­ba sendo cansativo e não deixa entrever um bom futuro.” Estava novamente certa, mas não era um motivo para se casar com uma espécie de bandoleiro. Simplesmente pelo seu olhar baixo, não era difícil adivinhar que, como to­do o mundo, ela tinha me esquecido totalmente, logo após minha ida para Istambul. Mas eu me dizia em meu foro íntimo que essas mentiras grossei­ras pelo menos manifestavam a louvável intenção de reparar um pouquinho o coração que ela havia partido e que eu devia acolhê-las com gratidão. Tra­tei de lhe contar então que naqueles anos todos nunca pude apagá-la do meu espírito, que sua imagem, qual um fantasma, continuara assombrando mi­nhas noites. Esse tinha sido meu maior sofrimento, um sofrimento tão ínti­mo que eu não me achava capaz de contá-lo a ninguém, a não ser a ela. Mas, se todo o meu relato era verdadeiro, também continha, para meu grande es­panto, boa dose de insinceridade.

Para que ninguém se equivoque sobre os meus desejos e os meus senti­mentos naquele preciso instante, devo explicar sem mais tardar o sentido dessa distinção entre verdade e sinceridade, de que acabo de tomar consciên­cia; isto é, como a maneira de exprimirmos nossa realidade em palavras, por mais escrupulosa e verdadeira que possa ser, nos põe no caminho da insin­ceridade. O melhor exemplo, aliás, é dado pela arte dos miniaturistas, que tão agitados estávamos ultimamente por causa da presença, entre nós, de um assassino. Tomemos uma miniatura perfeita — a imagem de um cavalo, por exemplo; por melhor que ela represente um cavalo verdadeiro, o cavalo tal como é visto por Alá ou cujo modelo os grandes mestres miniaturistas impu­seram, isso não quer dizer que ela exprima toda a sinceridade do miniaturista. De fato, a sinceridade do pintor, e a de nós todos, humildes servos de Alá, não aparece nos momentos de graça em que sua arte se revela mais perfeita. Ao contrário, ela se vê em seus erros, em seus lapsos, quando ele está cansado ou decepcionado. Digo isso em atenção àquelas moças que porventura ficarem chocadas ao verem que não havia diferença entre o violento desejo que eu sentia por Shekure naquele momento — como ela também poderia dizer — e, digamos, a vertiginosa atração que eu sentia pelos traços delicados, a pele cobreada, os lábios violáceos de uma rameira de Kazvin, durante as minhas viagens. Com o bom senso que Alá lhe deu e a intuição de um djim, Shekure compreendia que eu era capaz de, ao mesmo tempo, suportar doze anos de torturas por amor a ela e me comportar como um vulgar de­pravado, prestes a me aproveitar dela para satisfazer meus desejos mais som­brios, da primeira vez que estivemos a sós. Nizami compara a boca da subli­me Shirin com um tinteiro carmesim transbordante de pérolas...




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