Meu nome é Vermelho



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Os cachorros excitados tornaram a latir com renovado fervor e Shekure inquieta, disse: “Tenho de ir embora”. Foi só nesse instante, embora a noite já houvesse caído havia algum tempo sobre a casa do judeu fantasma, que tomamos consciência da escuridão. Fiz o gesto involuntário de estreitá-la de novo em meus braços, mas, como um pardalzinho ferido, ela me evitou perguntando-me:

“Diga rápido: ainda sou bonita?”

Ela ouvia avidamente e parecia satisfeita com a minha resposta, sem precisar fazer força para acreditar nas minhas palavras, e acrescentou:

“E minha roupa, o que acha?”

Disse-lhe o que eu achava.

“E meu cheiro?”

Shekure sabia porém que o tabuleiro do amor de que Nizami fala não se limita a essas amabilidades, mas implica jogadas e manobras que os aman­tes executam em profundezas de alma muito mais cavas que aquela.

“E como você conta ganhar o dinheiro para sustentar a casa? Será ca­paz de cuidar dos meus filhos sem pai?”, indagou.

Eu lhe falei, apertando-a contra mim, dos meus doze anos a serviço dos Grandes e do Estado, da vasta experiência adquirida nos campos de batalha, testemunhando a morte, e por fim dos meus projetos para o nosso futuro.

“Ainda há pouco, era tão bom estarmos assim abraçados. Agora, toda a magia se foi”, ela comentou.

Para lhe fazer sentir minha sinceridade, apertei-a com mais força e per­guntei por que ela tinha me devolvido, por intermédio de Ester, aquele de­senho que eu havia feito para ela doze anos antes. Li em seus olhos que mi­nha ingenuidade a espantava e, também, a enternecia. Beijamo-nos. Mas desta vez não me vi paralisado pelo jugo inebriante do prazer; nós dois está­vamos atordoados pelo esvoaçar — como o de um bando de pardais — de um poderoso amor que invadia nossos corações, nosso peito, nosso ventre. Fazer amor não é o melhor meio de aplacar o amor?

Quando acariciei seus enormes seios, Shekure me repeliu com mais ter­nura e determinação do que antes. Eu não era maroto a ponto de compro­meter minha futura esposa só para facilitar meu casamento, por mais difícil de negociar que ele fosse. Mas eu estava tão perturbado que me esquecia que o Demônio era capaz de se aproveitar de qualquer precipitação, e na minha inexperiência eu ainda não sabia quanta paciência e quanta resignação um casamento feliz requer. Tendo escapado do meu abraço, ela se dirigiu para a porta, seu véu de linho ainda nos ombros. Ao ver que, lá fora, as ruas já esta­vam escuras e que a neve as cobria lentamente, esqueci-me de cochichar, como havíamos feito até então — sem dúvida para não incomodar o fantas­ma do judeu — e perguntei-lhe com uma voz que rasgou o silêncio:

“O que vamos fazer agora?”

“Não sei”, respondeu, mostrando que não se esquecera das regras do xa­drez do amor.

E se foi silenciosamente pelo velho jardim abandonado, deixando na neve as marcas dos seus pés, que a brancura logo apagaria.

28. Serei chamado Assassino

Tenho certeza que a mesma coisa acontece com vocês. Às vezes, andan­do pelo tortuoso labirinto das ruelas de Istambul, ou comendo um prato de guisado numa taverna de bairro, ou acompanhando com os olhos a guirlan­da em forma de ramos entrelaçados de uma margem de iluminura, tenho a impressão de viver o presente como se fosse o passado. E basta estar descen­do passo a passo uma rua coberta de neve, que já sinto ganas de dizer: “Des­ci esta rua”.

As coisas inauditas que eu ia contar ocorreram ao mesmo tempo no pas­sado e no presente. Anoitecia, o crepúsculo cedia a vez à escuridão e uma neve finíssima salpicava a rua em que eu andava, a rua do Tio Efêndi.

Mas, ao contrário das outras noites, sei o que venho fazer aqui, e estou decidido. Nas outras noites, eu me deixava levar até lá pelas minhas pernas, enquanto meus pensamentos ausentavam-se em outras coisas: nas suntuosas encadernações da época de Tamerlão, com rosáceas mas sem douraduras; em como contei à minha mãe que certo livro me rendera setecentas moedas de prata; em meus vícios e em minhas obsessões. Desta vez, eu sei o que fa­ço, e é nisso que penso.

O portão do pátio, que eu temia ninguém viesse abrir, se abre por si só na hora em que eu ia bater, o que me conforta, pois confirma que Alá está comigo. As pedras do estreito caminho do pátio, que eu já pisara tantas vezes nas noites em que eu vinha acrescentar minhas miniaturas ao livro do Tio Efêndi, estão vazias e brilham. A direita, perto do poço, empoleirado na beirada de um balde, o pardal não parece se incomodar com o frio; mais lon­ge a saliência de pedra do forno da cozinha que, por algum motivo, ainda não parecia aceso àquela hora tardia; à esquerda, a estrebaria para os convi­dados de passagem, que se integra ao térreo da casa. Tudo está em seu lugar. A porta ao lado da estrebaria está aberta, entro, depois subo a escada fazen­do a madeira dos degraus ranger o mais possível sob meus pés e tossindo alto.

Nada disso produz uma resposta. Nem o barulho pesado dos meus sa­patos cobertos de lama, quando os tirei colocando-os ruidosamente ao lado dos outros pares, no corredor, perto da porta azul. Como não vi, entre os cal­çados da casa, os dois sapatos de um verde delicado que noto a cada visita — os sapatos de Shekure —, disse-me que talvez não houvesse ninguém. Vou espiar primeiro o quarto da direita, o que suponho ser de Shekure e dos fi­lhos, que com certeza dormem aconchegados a ela. Exploro às apalpadelas os colchões, as cobertas, o baú ao lado e um grande armário, cuja porta se abre com a leveza de uma pena.

Distraído com o pensamento de que aquele suave aroma de amêndoas que paira no quarto deve ser o de Shekure, quando vou saindo uma almofa­da, que devia estar enfiada no armário, cai na minha cabeça confusa e, de­pois, bate num jarro de cobre e nuns copos, derrubando-os. Vocês ouviram o barulho desses objetos e devem ter compreendido que a casa estava imersa na mais completa escuridão. Quanto a mim, percebo que faz frio.

“Hayriye?”, chama o Tio Efêndi do outro quarto. “Shekure? Qual das duas está aí?”

Num piscar de olhos, saio do quarto, atravesso o corredor na diagonal e chego rapidamente à porta azul daquele cômodo em que passei o inverno trabalhando com o Tio Efêndi no seu livro.

“Sou eu, Tio Efêndi, sou eu.”

“Eu quem?”

Percebo naquele momento que os apelidos que Mestre Osman nos havia atribuído quando éramos crianças eram, para o Tio Efêndi, um bom motivo de sutil zombaria.

Assim como os copistas que inscrevem, orgulhosos, seus nomes no cólo­fon da última página, aproveito a ocasião para recitar pomposamente meu nome, meu sobrenome, minha origem e o aposto “vosso miserável e peca­minoso servidor”.

“Ora vejam!”, diz, surpreso. E repete: “Ora vejam!”.

Como o ancião que encontra a Morte naquela fábula assíria que me contavam quando eu era criança, o Tio Efêndi submerge num breve silên­cio que parece durar para sempre.

Como venho de evocar a Morte, se por acaso há algum de vocês que imagina que vim aqui por causa dela, é que estão entendendo esse livro de través. Vir aqui com tal intenção e bater na porta, tirar os sapatos, sem nem sequer trazer uma faca?

“Então você veio?”, diz ele, como o velhote do conto. Depois, mudan­do completamente de tom: “E que bons ventos o trazem?”.



Já é quase noite. No entanto, o encerado sobre aquela espécie de setei­ra que, na primavera, dá para a dupla folhagem do plátano e do pé de romã, ainda deixa passar uma claridade suficiente para que se possa apreciar os con­tornos dos objetos presentes — uma luz que agradaria a um mestre chinês e que cai diretamente na mesa a que o Tio Efêndi, cuja fisionomia não consi­go distinguir direito, está sentado, como de costume. Tento desesperadamen­te voltar a ter a sensação de intimidade que tínhamos antes, quando conver­sávamos à luz de vela até a madrugada, sobre desenho e miniaturas, entre pincéis, tinteiros, cálamos e brunidores. Não sei direito se é por causa dessa sensação de alienação ou por embaraço, mas o fato é que de repente sinto vergonha de querer expor abertamente minhas apreensões, esses acessos de fanatismo que se apossam do meu espírito quando começo a temer que mi­nhas obras possam ser irreligiosas. Decido pois abrir-lhe meu coração por meio de uma história.

Vocês talvez já tenham ouvido essa história, a do sheik Muhammad, o grande miniaturista de Isfahan. Na escolha das cores e da composição, no desenhar os personagens, os animais ou os rostos, no combinar numa ima­gem a emoção da poesia e o rigor oculto de uma construção geométrica, es­se pintor era sem-par. Tendo chegado bem jovem ao nível de mestre, duran­te os trinta anos que sua mão divina atuou, esse virtuose se mostrou, tanto pela escolha dos temas como na execução e no estilo, o mais irreverente, o mais audacioso de todos os pintores. Trabalhando no estilo chinês a nanquim, que os mongóis nos trouxeram, ele introduziu na Escola de Herat aqueles demônios aterrorizantes, aqueles djins chifrudos, aqueles garanhões de culhões enormes, aquelas criaturas meio gente, meio monstro. Ele foi o primeiro a manifestar interesse e a exibir a influência dos retratos recente­mente desembarcados com as primeiras naus flamengas e portuguesas. Ele encontrou em velhos livros de magia desmantelados antigos modelos desa­parecidos, esquecidos desde os tempos de Gêngis Cã, e os fez reviver; ele, antes de todos, teve a audácia de alinhar na página as beldades nuas nadan­do perto da ilha das Mulheres, ante os olhos concupiscentes de Alexandre, sem falar em temas francamente licenciosos, como Shirin banhando-se ao luar; ao mesmo tempo que o vôo noturno de Burak, o garanhão cavalgado por nosso Profeta em sua ascensão ao céu, pintou cachorros copulando, reis se coçando, mulás cumprimentando-se, e tudo isso se tornou, para a comu­nidade dos pintores que vieram depois dele, novos temas permitidos. Após trinta anos, ao longo dos quais usou e abusou tanto do álcool como do ópio, exercendo sua atividade com ardor, com entusiasmo, ao envelhecer, tornan­do-se discípulo de um sufi, inverteu em pouco tempo sua conduta e, tendo chegado à conclusão de que sua produção artística durante aqueles trinta anos havia sido profana e ímpia, ele a renegou em bloco. Mais que isso, vol­tou aos lugares — cidades, palácios, bibliotecas — que visitara naqueles trin­ta anos para procurar, reaver — nos tesouros reais, nas coleções particulares — cada um dos livros que havia iluminado e destruí-los. Se pudesse, anos mais tarde, localizar determinada obra sua entre os volumes de determinado soberano, valia-se de todos os meios, da doçura, da astúcia, burlava a aten­ção dos guardas para arrancar a página incriminada, aguardava o instante propício para jogar água em suas próprias obras-primas, arruinando-as. Eu disse ao Tio Efêndi que, contando aquela história, eu desejava ilustrar os tor­mentos a que se expõe um pintor cuja paixão de pintar o leva a desviar-se da religião. Por fim, evoco o incêndio da grande biblioteca de Kazvin, na época em que a cidade tinha como governador o príncipe herdeiro Abbas Mirzam, que o sheik Muhammad ateou ao perder a esperança de encontrar, entre centenas de outros volumes, os que ele pintara do próprio punho. Sem temer o exagero, evoco, como se fosse a minha, a morte do pintor no meio das chamas, comparando essas chamas com aquelas, mais ardentes e mais terrí­veis, do remorso e da má consciência.

“Está com medo, meu filho, por causa das miniaturas que fizemos?” pergunta-me o Tio Efêndi com um ar enternecido.

O cômodo tinha ficado tão escuro que não consigo enxergar, tenho de adivinhar seu sorriso.

“Nosso livro não tem mais nada de secreto”, digo-lhe. “Isso talvez não seja grave em si. Mas há muitos boatos correndo. Dizem que, de uma ma­neira velada, blasfemamos contra a religião, produzimos um livro que, lon­ge de responder aos desejos e às ordens do Nosso Sultão, só satisfaz aos nos­sos vis apetites. Um livro que chega a ridicularizar nosso Profeta e imita odiosamente as imagens dos mestres infiéis. Há quem chegue ao ponto de dizer que o Diabo está pintado nele de forma favorável e que, em todo caso, é um grave pecado ter desenhado, do ponto de vista de um cachorro vadio chafurdando no lixo, uma mutuca do tamanho de uma mesquita, a pretexto de que a mesquita está mais longe que ela, e que isso atenta contra a digni­dade dos crentes que oram no pátio dessa mesquita. Isso tudo não me deixa dormir à noite.”

“Fizemos essas imagens juntos”, responde o Tio Efêndi. “Sem conside­rar se de fato cometemos tais impiedades, em algum instante quisemos por­ventura cometê-las?”

“Nunca na vida!”, exclamo um pouco alto demais. “Mas, como quer que seja, pouco importa o que eles ouviram dizer, o caso é que repetem em toda parte que há uma última imagem, que completa tudo e cuja impieda­de, segundo eles, já não é disfarçada, mas flagrante.”

“Você já viu essa última imagem.”

“Não, eu pintei tudo que o senhor pediu, o Dinheiro, o Diabo, numa folha grande, que deveria fazer uma página dupla, mas nunca vi a imagem completa”, replico com cuidado, pesando bem minhas palavras, esperando que a resposta agradaria ao Tio Efêndi. “Se tivesse visto o conjunto do qua­dro, poderia sem dúvida negar, com total tranqüilidade de espírito, todas es­sas ignóbeis calúnias.”

“Por que você se sente culpado?”, ele insiste. “O que tanto remói a sua alma e faz você duvidar de si mesmo?”

“Viver na desconfiança de que pudemos atentar contra as coisas que reconhecemos serem as mais sagradas, simplesmente ilustrando um livro, du­rante longos meses de aparente felicidade, é sofrer em vida os tormentos do Inferno. Se eu pelo menos pudesse ver essa última miniatura...”

“É só isso que te perturba? Foi por isso que veio me ver?”

De repente tive uma suspeita horrível: será que ele estava pensando que cometi alguma coisa horrenda, como ter matado o Elegante Efêndi?

“Os que querem derrubar Nosso Sultão e pôr no trono o príncipe her­deiro servem-se dessas calúnias sustentando que Nosso Sultão aprova esse li­vro às escondidas.”

“E quantos são os que assim pensam?”, ele responde num tom entediado.

“O senhor sabe, todo pregador ambicioso, se lhe dão ouvidos e se ele se esquenta, sempre começa dizendo que a religião está em declínio. E o ne­gócio deles.”

Será que ele acha que só vim aqui para pô-lo a par de uns mexericos?

“Dizem também”, prossegui com um tremor na voz, “que nós é que as­sassinamos o falecido Elegante Efêndi, porque, ao ver a última miniatura, ele teria percebido que era uma blasfêmia contra o islã. Foi um chefe de se­ção do Grande Ateliê que me contou. O senhor conhece os novatos e os aprendizes: não param de espalhar intrigas por aí.”

Seguindo essa linha de raciocínio e arrebatando-me cada vez mais, dali a pouco já não consigo distinguir o que de fato ouvi dizer, o que o medo me fez imaginar depois que dei cabo daquele delator infame e o que invento agora, à medida que falo. Creio que, após todos esses preâmbulos, o Tio Efên­di vai resolver me mostrar a última miniatura, nem que seja só para me acal­mar. Ele deve perceber, afinal, que é a única maneira de me tranqüilizar e aliviar minha alma da angústia de ter cometido um grande pecado.

A fim de espicaçá-lo um pouco, pergunto com ousadia: “Pode-se dese­nhar, sem saber, uma imagem ímpia?”.

A guisa de resposta, ele faz um gesto da mão, muito delicado, como se avisasse que um bebê dorme naquele quarto, e eu me calo. Ele quebra o silêncio quase cochichando: “Está escuro. Vou acender uma vela”.

Enquanto ele inflama a mecha nas brasas da estufa, percebo em sua fisionomia uma expressão de orgulho que não conhecia nele e que me desa­grada muito. Ou se trata de piedade? Será que ele compreendeu tudo e me considera um vulgar criminoso? Ou tem medo de mim? Eu me lembro de ter sentido naquele instante meus pensamentos escaparem de repente do meu controle e eu ter começado a segui-los como se fossem os pensamentos de outro. E como é que eu não havia notado antes, naquele canto do tapete em que estamos sentados, aquela forma estranha, como a de um lobo em­boscado?

“Todos os nossos reis — chamem-se cãs, xás ou padixás —, quando se interessam pela pintura, quando apreciam as belas miniaturas e os belos ma­nuscritos, conhecem três estações nesse seu gosto”, diz o Tio Efêndi. “Co­meçam sendo curiosos, ousados e complacentes. Querem obras de prestígio, atraentes, destinadas antes de mais nada à admiração do público. Depois des­sa estação, por assim dizer, de aprendizado, vem aquela em que encomen­dam livros de acordo com seu gosto pessoal; e, como aprenderam a apreciar sinceramente a pintura, acumulam prestígio ao mesmo tempo que colecio­nam livros, os quais, depois que morrerem, garantirão a sobrevivência do seu renome neste mundo, dizem eles. Mas, quando vem o outono da sua vida, todos se afastam dessa forma terrestre de imortalidade. Entendo por ‘imorta­lidade terrestre’ o fato de viver, após a morte, na memória dos seus descen­dentes e das gerações futuras. Os grandes soberanos amantes dos livros e da pintura já conquistaram uma imortalidade graças aos manuscritos que nos encomendam e em cujas páginas inscrevem seu nome e, às vezes, até mes­mo a história da sua vida. Mais tarde, porém, essa imortalidade aos olhos do mundo mortal já não os satisfaz. O que eles querem, como todo o mundo, naturalmente, é garantir um lugar no Além, e chegam à conclusão de que a pintura é um obstáculo a esse anseio. Isso é o que mais me incomoda e me intimida. O xá Tahmasp, que, além de ilustre soberano, foi um grande pin­tor ele próprio e passou toda a juventude no seu Grande Ateliê, fechou-o brutalmente ao sentir a morte se aproximar, baniu os pintores de Tabriz e destruiu as obras da sua biblioteca, acossado que era por intermináveis crises de remorso. Por que eles crêem que uma pintura pode lhes fechar as portas do Paraíso?”

“O senhor sabe por quê! É porque eles se lembram que nosso Profeta disse que, no Dia do Juízo, os pintores serão condenados por Alá da forma mais severa.”

“Os pintores não”, replica o Tio Efêndi, “os escultores de ídolos. É um dito compilado por Al-Bukhari.”

“No Dia do Juízo, será pedido aos escultores que insuflem vida a suas criaturas”, rebato com circunspecção. “E como nenhuma delas se animará, sofrerão os tormentos do Inferno. Não esqueçamos que, no Venerável Co­rão Alá é qualificado de ‘escultor’. Alá cria, faz existir o que não existe, ani­ma o inanimado, e ninguém pode rivalizar com ele. A pretensão dos pinto­res de fazer o que ele fez, de ser criadores como ele, é o maior de todos os pecados.”

Pronunciei estas últimas palavras com a gravidade de um promotor for­mulando sua acusação. Ele me fitava nos olhos.

“Na sua opinião, foi o que fizemos?”

“De forma alguma!”, respondo sorrindo. “Mas foi o que o falecido Ele­gante Efêndi passou a crer, depois que viu a última miniatura acabada. Ele dizia que o emprego da perspectiva e dos métodos dos pintores europeus eram tentações do Demônio. Nesse último desenho, nós teríamos represen­tado o rosto de um mortal de acordo com as regras do Ocidente, isto é, dan­do a impressão, não de uma imagem, mas da realidade, de modo que essa obra estimula os que a contemplam a se prosternar diante dela, como diante dos ícones numa igreja. Na opinião dele, isso é uma obra do Demo não ape­nas porque a arte da perspectiva desloca a pintura do ponto de vista de Alá para rebaixá-la ao nível de um cachorro vadio, mas porque a familiaridade com as regras do Ocidente infiel nos levará a confundi-las com as que nós praticamos, a misturar a arte deles com a nossa, a nos submeter a ela, em de­trimento da nossa pureza.”

“Nada é puro”, objeta o Tio Efêndi. “Crie-se o que for em desenho ou em pintura, cada vez que meus olhos se banham de lágrimas e que me arre­pio de emoção diante de uma imagem maravilhosa, sei que se trata da união inédita de duas belezas que criam uma terceira. Desde Bihzad, e isso vale para toda a pintura persa, estamos em débito com os chineses, por intermé­dio dos mongóis, e com os árabes. As melhores miniaturas da época do xá Tahmasp aliam o estilo persa a uma sensibilidade turcomana. Se hoje só se fala da produção dos ateliês de Akbar Cã, sultão do Hindustão, é porque ele estimula seus artistas a adotar o estilo europeu. Ora, ‘Alá possui o Oriente tanto quanto o Ocidente’, diz o Corão. Que Ele nos guarde de aspirar ao pu­ro e ao autêntico!”

Não obstante a clareza e a doçura que emanam da sua figura à luz da vela, a sombra que ela projeta na parede não deixa de ser aterradora. E quais­quer que possam ser a justeza e a pertinência das suas palavras, não consigo confiar nele. Como suponho que ele desconfia de mim, também desconfio dele. E adivinho que ele aguça o ouvido, esperando perceber, vindo do por­tão, o ruído de alguém chegando para socorrê-lo.

“Você me contou como o sheik Muhammad, o mestre de Isfahan, foi devorado pelas chamas da sua consciência tanto quanto pelas da Grande Bi­blioteca em que se encontravam os livros que ele havia renegado. Agora sou eu que vou contar outra história relacionada a essa mesma lenda. De fato esse mestre dedicou os últimos trinta anos da sua vida à procura das suas pró­prias obras. No entanto, nas páginas que virava de cada livro que abria, no mais das vezes eram imitações, obras inspiradas por suas criações, e não obras suas, o que ele descobria. Naqueles anos todos, duas novas gerações de pin­tores haviam tomado as obras que ele havia renegado como modelo, tinham gravado indelevelmente suas imagens no espírito — melhor dizendo, ha­viam-nas transformado numa parte da alma deles. E compreendeu que, en­quanto ele tentava encontrar suas pinturas para destruí-las, os jovens minia­turistas as reproduziam com entusiasmo em tantos livros, reutilizavam-nas para ilustrar tantas outras histórias, retransmitiam-nas a tantos outros pinto­res, que elas se difundiam irresistivelmente mundo afora. O que compreen­demos ao cabo de muitos anos, de um livro a outro, de uma imagem a ou­tra, é que um grande pintor nada mais faz que impor suas obras ao nosso espírito e, com isso, acaba mudando toda a nossa paisagem interior. Cada imagem produzida por sua arte e reproduzida por nossa alma passa a ser pou­co a pouco, para nós, a medida da beleza do mundo. O sheik Muhammad de Isfahan, no fim da sua vida, além de queimar e destruir todas as suas obras, foi também testemunha da proliferação destas, fazendo que todo o mundo visse o mundo como outrora ele o vira, e tudo o que não se parecia com o que ele pintara em sua juventude passara a ser tido como feio.”

Incapaz de refrear meu entusiasmo ao ouvir esse discurso do Tio Efên­di e de controlar meu desejo de agradá-lo, lancei-me, sem mais nenhuma contenção, sobre sua velha mão cheia de pintas, que cobri de lágrimas e de beijos, consciente de que ele tomava naquele instante, em meu coração, o lugar do meu caro Mestre Osman.

“Um pintor”, prossegue ele, com um ar satisfeito, “faz suas miniaturas ouvindo sua consciência, seguindo as regras em que ele crê e sem ter medo de nada. Não se preocupa com o que seus inimigos, o fanatismo ou a inveja possam ter a criticar.”

Levando mais uma vez suas mãos mosqueadas a meus lábios úmidos de lágrimas, vem-me à mente que o Tio Efêndi não é, ele próprio, pintor, e es­se pensamento me incomoda profundamente. Era como se alguém houves­se diabolicamente insinuado essa vergonhosa idéia na minha cabeça. E no entanto vocês também sabem que é a pura verdade.

“Não tenho medo deles”, continua, “porque não tenho medo da mor­te.” De que estará falando? Sacudo a cabeça, simulando compreender. Mas começo a me sentir irritado. Percebo que ele tem, ali a seu lado, o Livro da alma, de Al-Jawziyya. Todos os velhos gagás à espera da sua hora comparti­lham a mesma veneração por essa obra, que relata as aventuras da alma de­pois da morte. Fora isso, desde a minha última visita, o único objeto novo, no meio das bandejas com caixas, pranchas para apontar os cálamos, tintas e pincéis, é um tinteiro de bronze.

“Provemos a eles que não nos assustam”, digo, arriscando tudo. “Pegue a última miniatura, mostre-a a eles.”

“Isso não seria, ao contrário, mostrar-lhes que as calúnias deles nos atin­gem, que nós as levamos a sério? Não fizemos nada de errado, nada de que possamos ter medo. Que mais, na sua opinião, justifica esse medo?”




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