Meu nome é Vermelho



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Ele me acariciou os cabelos, como um pai. Temi deixar minhas lágri­mas jorrarem e atirei-me em seus braços.

“Sei por que o Elegante Efêndi, nosso pobre iluminador, foi assassina­do”, declarei com emoção. “O Elegante Efêndi estava a ponto de denunciar o senhor, seu livro e nós todos, e despachar contra nós os asseclas de Nusret Hodja de Erzurum. Ele havia decretado que éramos uns ímpios dominados por Satanás, estava decidido a gritar isso aos quatro ventos e a insuflar contra nos os outros pintores que o senhor havia contratado para fazer seu livro. Co­mo chegou a tal ponto, eu não sei. Talvez por inveja ou pelo efeito de uma alucinação diabólica. Os outros pintores que o senhor contratou compreen­deram que o Elegante Efêndi estava firmemente decidido a causar a perda deles. A perda de todos nós. Eles tinham medo de ser atingidos pelas acusa­ções dele. Eu também. Certa noite, um desses artistas sentiu-se acuado pelo Elegante Efêndi — que o instigava contra o senhor, contra nós, contra nossos livros, nossas miniaturas e tudo o mais em que acreditamos —, entrou em pânico, matou aquele traidor e jogou seu corpo num poço.”

“Traidor?”

“O Elegante Efêndi era um desnaturado, um traidor grosseiro!”, berrei como se ele estivesse diante de mim.

Fez-se um silêncio. Teria o Tio Efêndi medo de mim? Eu, sim, tinha medo de mim mesmo, porque me sentia como que dominado por uma inte­ligência e uma vontade exteriores às minhas.

“Quem é esse pintor que entrou em pânico, como o sheik Muhammad e você? Quem é o assassino?”

“Não sei.”

Mas torço para que ele possa ler no meu rosto que estou mentindo. Com­preendo que minha visita é um grave erro, mas não estava disposto a me dei­xar dominar pelo remorso e pela culpa. E perceber que o Tio Efêndi descon­fia de mim me dá, ao contrário, uma sensação de força e de prazer. De repente, digo a mim mesmo que, se de fato compreendeu que era eu o assassino e que isso enchia sua alma de medo, ele não ousaria se recusar a que eu visse a úl­tima pintura. Agora ela só desperta em mim curiosidade, e não mais a ne­cessidade de verificar se é ímpia ou não — sinceramente, eu só queria ver como ela era.

“Que importância tem saber quem matou aquele inútil? Não foi uma boa ação nos livrar dele?”, pergunto.

Ele não me olha mais nos olhos, o que me estimula a ir mais longe. As pessoas de bem, as que se crêem melhores e mais virtuosas que você são in­capazes de sustentar seu olhar quando se envergonham por sua causa. Tal­vez porque já pensem em te entregar aos suplícios e aos torturadores.

Do lado de fora do portão do pátio, uns cachorros puseram-se a latir fre­neticamente.

“A neve voltou a cair”, comento. “Aonde foram todos? Como é que dei­xaram o senhor sozinho, sem nem mesmo uma vela acesa lá embaixo?”

“De fato, é estranho. Muito estranho. Também não entendo.”

Ele parecia tão sincero que acreditei piamente. E, embora eu tivesse o costume de caçoar dele, tanto como dos pintores que contrata, sinto de no­vo uma profunda afeição por ele. Como será que intuiu essa ternura filial que transborda do meu coração nesse instante, para começar a acariciar assim meus cabelos, com um ar paterno e preocupado? Não sei. Mas começo a perceber que o estilo de pintura de Mestre Osman e o legado dos antigos mestres de Herat não têm nenhum futuro. Esse pensamento abominável vol­ta a me aterrorizar.

Depois de uma catástrofe, todos nós agimos assim: num derradeiro ras­go de esperança, sem nos preocupar com quão tolos e ridículos possamos pa­recer, oramos para que tudo volte a ser como sempre foi.

“Continuemos a pintar nosso livro como antes”, eu disse, “como se na­da houvesse acontecido.”

“Há um criminoso entre os pintores. Vou continuar o trabalho iniciado, mas com o Negro.”

Será que ele está me provocando, para ver se eu seria capaz de matá-lo?

“Onde está o Negro agora? E sua filha? E as crianças?” Sinto que essas palavras são postas na minha boca por uma força externa, mas não posso me impedir de dizê-las. A felicidade e a esperança parecem vedadas para sem­pre. Só consigo ser brilhante e sarcástico, e acima desses dois djins sempre tão sedutores — inteligência e espirituosidade —, sinto insinuar-se a presen­ça de seu amo: o Diabo. No mesmo instante, os sinistros latidos do lado de fora do portão acentuam-se, como se os cachorros houvessem farejado o chei­ro de sangue.

Já não vivi essa cena? Numa cidade distante, numa época que agora me parecia tão remota, quando caía uma neve que eu não podia ver, eu tentava em lágrimas, à luz de uma vela, persuadir da minha inocência um velho so­vina e gagá que me acusava de ter roubado umas tintas. Tal qual agora, os cachorros puseram-se a latir como se sentissem cheiro de sangue. Compreen­do, ao ver o velho queixo enrugado e comprido, sinal de maldade, e o olhar do Tio Efêndi, que ele por fim consegue fixar sem dó nem piedade nos meus olhos, que está decidido a me esmagar. Volta-me então à memória a vaga lembrança de quando eu era um aprendiz de dez anos de idade, como se fosse uma imagem de contornos nítidos mas de cores desbotadas. Vivo assim o presente como se ele fosse uma recordação distinta mas esmaecida.

Levanto-me, passo por trás do Tio Efêndi e pego na sua mesa de trabalho o novo tinteiro de bronze, pesado e grande, misturado aos outros que eu já conhecia, de vidro, de porcelana, de cristal de rocha. E o miniaturista ardente que existe dentro de mim — que Mestre Osman instilou em cada um de nós — pinta na sua imaginação o que eu faço e o que eu vejo em cores distintas, apesar de esmaecidas, não como um acontecimento que estou vi­vendo agora, mas como uma lembrança muito remota. Assim como nos so­nhos ficamos arrepiados ao ver a nós mesmos de fora, arrepio-me agora ao brandir aquele volumoso tinteiro de bronze, bojudo e de gargalo estreito, di­zendo:

“Quando eu tinha dez anos, quando era aprendiz, vi um tinteiro como este.”

“E um tinteiro mongol, tem no mínimo trezentos anos”, diz o Tio Efên­di. “Foi o Negro que me trouxe de Tabriz. É para o vermelho.”

A súbita vontade que sinto então, de vibrar com toda a minha força o tinteiro no crânio daquele velho estúpido e satisfeito de si, é uma tentação demasiado evidente do Diabo para que eu ceda a ela. Contenho-me pois e, num derradeiro rasgo de esperança, digo-lhe tolamente:

“Fui eu que matei o Elegante Efêndi.”

Vocês entendem por que eu disse isso cheio de esperança, não é? Con­fiei que o Tio também entenderia e, então, me perdoaria — que teria medo de mim e me ajudaria.

29. Eu sou o vosso Tio

Quando ele me disse que era o assassino do Elegante Efêndi, um longo silêncio se abateu sobre o quarto. Pensei que ia me matar também. Meu cora­ção batia disparado. Ele veio me assassinar, se confessar ou simplesmente me­ter medo em mim? Saberia ele próprio por que tinha vindo? Ao me dar conta de que não fazia idéia do que era o mundo interior daquele artista magnífico, cujo desenho esplêndido e cujo uso mágico da cor me eram, há anos, tão fa­miliares, tive medo, sim. Eu o sentia ali, bem atrás de mim, brandindo meu tinteiro reservado à tinta vermelha na altura da minha nuca. Mas não me vi­rei para encará-lo. Sabendo que o silêncio poderia vir a excitá-lo, comentei:

“Esses cachorros não calam a boca!”

Depois ficamos mais um instante em silêncio. Dessa vez, compreendi que morrer ou sair ileso daquele lance só dependia de mim, do que eu dis­sesse. Fora suas obras, a única coisa que eu conhecia dele é que era muito inteligente. Se você é dos que acham que um pintor não deve revelar nada de si próprio em suas obras, ele poderia perfeitamente se gabar de ser um destes. Mas como ele conseguiu me pegar sozinho na minha casa? Minha velha cabeça girava vertiginosamente por esse labirinto de reflexões, sem conseguir encontrar a saída. Onde estaria Shekure?

“O senhor já sabia que era eu, não é?”, ele perguntou.

Não, não sabia. Aliás, agora, num canto do meu espírito, eu me pergun­tava se, assassinando o Elegante Efêndi, ele na verdade não tinha agido bem e se nosso falecido iluminador, engolfado por seus terrores, não esteve de fa­to a ponto de causar a ruína de todos nós.

Eu até sentia nascer dentro de mim uma espécie de confusa gratidão para com esse assassino, com quem eu estava a sós na minha casa deserta.

“Não me espanta que você o tenha matado”, comecei. “Para gente co­mo nós, que vive no meio dos livros e sonha o tempo todo apenas com as mi­niaturas, o mundo real sempre encerra algo de apavorante. Nós vivemos e trabalhamos para o que há de mais proibido, de mais perigoso numa cidade do islã: a pintura. Todo pintor, como o sheik Muhammad de Isfahan, sente dentro de si o aguilhão pungente do remorso, que o leva a se acusar a si mes­mo antes de a todos os outros, a fazer ato de contrição, a pedir perdão a Alá e à comunidade dos crentes. Fazemos nossos livros em segredo, como se fôs­semos culpados, e quase sempre nos desculpando de antemão. Sei muito bem que esse inesgotável sentimento de culpa, esse costume de curvar a ca­beça ante os ataques dos hodjas, dos pregadores, dos juizes e dos religiosos em geral, que nos acusam de blasfêmia, é ao mesmo tempo o que alimenta e o que mata a imaginação dos nossos pintores.”

“O senhor então não está com raiva de mim por ter eliminado aquele imbecil do Elegante Efêndi?”

“O que nos atrai na caligrafia, na pintura ou no desenho faz parte desse medo que temos de ser punidos. Se nos debruçamos sobre o nosso trabalho de sol a sol, continuando noite adentro à luz de vela, a ponto de ficarmos ce­gos, se nos sacrificamos assim pela pintura e pelos livros, é menos por causa dos favores ou do dinheiro, do que para escapar da comunidade e dos seus rumores. Mas, paradoxalmente, também desejamos o reconhecimento, por esses mesmos homens que evitamos, das nossas criações mais inspiradas. E se eles nos acusam de blasfêmia... Ah, que sofrimento isso traz ao artista ver­dadeiramente talentoso! Mas a verdadeira pintura está oculta na angústia que não se vê e muito menos se cria, está contida na imagem que, à primeira vista, vão dizer que é ruim, incompleta, ímpia ou herética. O verdadeiro miniaturista sabe que tem de chegar a esse ponto, mas ao mesmo tempo te­me a solidão que lá estará à sua espera. Quem pode aceitar uma vida tão atroz, tão angustiante como essa? Daí todos esses intermináveis terrores. Acu­sando a si mesmo antes que outros o façam, o artista pensa que escapará des­ses terrores que o atormentaram anos e anos. Ouvem-no e acreditam nessa sua confissão espontânea, e ele é assim condenado a arder no Inferno. O pin­tor de Isfahan acendeu ele próprio esse fogo infernal.”

“Mas o senhor não é pintor”, disse ele. “Não foi por ter medo dele que o matei.”

“Você o matou porque queria pintar à vontade, sem ser incomodado.”

Meu assassino em potencial fez nesse instante uma observação altamen­te sagaz, a primeira desde há muito tempo, para dizer a verdade: “Eu sei, o senhor aprova tudo o que digo, finge concordar com minhas idéias simples­mente para se safar. Mas”, acrescentou, “o que o senhor acaba de dizer não está errado. E como quero que o senhor compreenda direito, ouça-me.”

Encarei-o. Falando assim comigo, ele parecia ter abandonado toda poli­dez de fachada, parecia estar longe dali... Mas onde?

“Não se ofenda. Não é nada...”, balbuciou, antes de soltar uma garga­lhada passando por trás de mim, um riso que ecoava algo desvairado. “Acontece-me às vezes. Como agora. Faço uma coisa e, ao mesmo tempo, não sou eu. Ouço como um barulho dentro de mim, que me impulsiona, que me faz cometer o mal. E no entanto preciso disso. Quando pinto também é assim.”

“Essas histórias de demônio são invenções de mulher velha.”

“Acha então que estou mentindo?”

Eu sentia que ele não tinha coragem para me matar friamente e que, por esse motivo, queria me forçar a irritá-lo. “Não se trata de mentira. E que você não está entendendo o que sente.”

“Ao contrário. Percebo muito bem. Sofro todos os horrores do túmulo antes de morrer. Sem perceber, o senhor nos mergulhou no pecado até o pescoço. E acaba de me dizer para eu ser mais ousado. Foi o senhor que fez de mim um assassino. Agora a horda raivosa de Nusret Hodja vai matar to­dos nós.”

Ele gritava para melhor convencer a si mesmo, apertando convulsiva­mente o tinteiro na mão. Se seus gritos chamassem a atenção de algum pas­sante na rua... Mas com aquela neve toda!

“Como você o matou?”, perguntei, menos por curiosidade do que para ganhar tempo. “Como foi que vocês foram parar na beira daquele poço?”

“Foi o Elegante Efêndi que veio me ver naquela noite, ao sair da sua ca­sa”, ele começa, espantosamente disposto a contar a continuação, ao que pa­recia. “Ele me disse que acabava de ver a última miniatura, em página du­pla. Depois tentei dissuadi-lo do seu projeto, quer dizer, tentei impedi-lo de fazer um escândalo. Levei-o àquele terreno baldio, dizendo que tinha enter­rado um dinheiro perto do poço de uma casa destruída pelo último grande incêndio. Ouvindo a palavra dinheiro, ganhou confiança em mim. Há me­lhor prova de que ele era um pintor venal? Mas não era isso que me inco­modava: ele era como os outros, nem mais nem menos talentoso, e disposto a cavar a terra gelada com as próprias unhas. Aliás, tivesse eu de fato enterra­do umas moedas de ouro perto daquele poço, não teria sido necessário ma­tá-lo. O senhor escolheu um personagem bem vil para fazer suas iluminu­ras. Ele tinha um traço preciso, mas suas douraduras, coitado, sem falar do seu modo de escolher e empregar as cores, eram muito vulgares. Não deixei nenhum vestígio. Por falar nisso, diga-me: o que se deve entender pelo que chamamos estilo? Hoje em dia, os europeus como os chineses falam da cor de um pintor, do seu estilo. Um bom pintor tem de ter um estilo que o dis­tinga de todos os outros?”

“De uma coisa pode estar certo: que um novo estilo nunca procede de uma vontade pessoal do pintor”, respondi. “Um príncipe morre, um xá é ven­cido, uma época que parecia eterna termina e um grande ateliê de pintura é fechado; os pintores se dispersam por vários países, em busca de outros ho­mens e de outros bibliófilos que os patrocinem. Um dia, um sultão compas­sivo reúne em seu palácio ou na sua tenda esses desterrados, esses refugiados sem rumo mas talentosos, pintores e calígrafos oriundos de Alepo ou de He­rat, trata-os com bondade e funda com eles um novo ateliê de livros de arte. Esses artistas, que não se conhecem, no começo continuam a praticar cada um o estilo de pintura que têm como tradicional, mas, como aqueles meni­nos que depois de muito brigar na rua pouco a pouco se tornam amigos, eles também, com o tempo, altercam, se unem, brigam e se entendem. O surgi­mento de um novo estilo é o resultado de anos de desentendimento, inveja, rivalidade e estudo das diferentes maneiras de pintar e de empregar as cores. Geralmente, o pai dessa nova forma é o artista mais hábil e talentoso do ate­liê. Eu diria até: o de maior sorte. Aos outros, menos felizes, resta a imita­ção, a tarefa de aperfeiçoar e burilar infinitamente o estilo que triunfou.”

Evitando encontrar meus olhos, com uma voz surpreendentemente do­ce e trêmula, que parecia implorar, quase a voz de uma mocinha, ele me perguntou:

“E eu, tenho um estilo próprio?”

Achei que eu ia chorar. Com toda a ternura, gentileza e simpatia que pude reunir, apressei-me a lhe dizer o que eu pensava a esse respeito:

“Em sessenta anos de uma vida pecadora, nunca vi pintor mais talento­so mais extraordinário, com uma pincelada mais mágica e um olho mais apurado do que você. Se pusessem diante de mim uma pintura que fosse fru­to do trabalho conjunto de mil miniaturistas, eu seria capaz de reconhecer instantaneamente a maravilhosa pincelada de que Alá te fez dom.”

“Concordo. Mas o senhor não é suficientemente sutil para perceber to­do o meu talento”, disse ele. “O senhor mente, porque está com medo. Mas, azar, continue a falar do meu estilo.”

“Seu pincel parece escolher sozinho o traço certo, sem a intervenção da mão. E o que ele faz surgir não é nem real, nem frívolo. Quando você pinta uma cena com numerosos personagens, a tensão que emana dos olha­res trocados, da posição dos corpos na página e do sentido do texto em face transforma essa imagem num delicado murmúrio, que parece eterno. Gosto de voltar várias vezes às suas miniaturas para ouvir esse murmúrio e, cada vez, constato com um sorriso que o sentido mudou e, como poderia dizer, ponho-me a ler novamente a pintura. Juntando esses diferentes níveis de sen­tido, emerge uma profundidade que supera até mesmo a perspectiva dos pin­tores europeus.”

“Muito bem! Mas deixe de lado os europeus e continue o que dizia.”

“Sua linha é tão prodigiosa e forte que é no que você pintou que o ob­servador acredita, muito mais do que na própria realidade. E do mesmo mo­do que a arte pode desviar o melhor dos crentes, a sua seria capaz de trazer para a via de Alá o incréu mais empedernido e irremediável.”

“É verdade, mas não sei se se trata de um elogio. Continue.”

“Nenhum pintor possui a mestria das cores e conhece os segredos delas como você. E sempre você quem prepara e aplica as mais vivas, as mais cintilantes, as mais verdadeiras.”

“Certamente. E o que mais?”

“Você sabe muito bem que você é o maior pintor depois de Bihzad e de Mir Sayyid Ali.”

“É verdade, eu sei. Se o senhor também sabe, por que quer dar seu li­vro a essa nulidade do Negro, e não a mim?”

“Primeiro porque o trabalho que ele vai fazer não requer nenhum talen­to de pintor. Segundo porque, ao contrário de você, ele não é um assassino.”

Ele respondeu com um sorriso suave à gargalhada que soltei depois de todos aqueles belos elogios. Eu sentia, como quer que fosse, que era a única maneira — o único estilo? — que eu tinha para escapar daquele pesadelo. Iniciamos uma discussão, menos como um pai com seu filho do que como dois velhos calejados, a propósito daquele pesado tinteiro de bronze que con­tinuava na mão dele: o peso do metal, a forma do objeto, que lhe dava seu equilíbrio, o comprimento do gargalo, o comprimento da cana dos antigos calígrafos, os mistérios da tinta vermelha cuja consistência ele avaliava ba­lançando suavemente o tinteiro, de pé na minha frente... E que, se os mon­góis não tivessem trazido, via Khurasan, Bukhara e Herat, os segredos do fa­brico da tinta vermelha, que eles aprenderam com os mestres chineses, seríamos hoje, em Istambul, incapazes de produzir essas miniaturas. Enquan­to falávamos, a consistência do tempo, como da tinta que se espalha, parecia se modificar, tornar-se mais fluida. Num canto do meu espírito, eu continua­va a me perguntar como é que ninguém ainda havia voltado. Se pelo menos ele pusesse aquele tinteiro de volta na mesa!

“Quando seu livro estiver terminado, os que virem minhas miniaturas apreciarão meu talento?”, perguntou-me mais sereno, no tom costumeiro das nossas conversas de trabalho.

“Se Alá nos permitir terminar esse livro sem interferências, Nosso Sul­tão, quando o tiver nas mãos, começará sem dúvida correndo rapidamente os olhos por ele, para ver se não fomos avaros no uso das folhas de ouro. De­pois, como todo sultão, examinará seu retrato como se estivesse lendo uma descrição da sua pessoa, e a semelhança que achará consigo o encantará mais do que a beleza das nossas ilustrações. Se, em seguida, ele se dignar em exa­minar a obra, inspirada pelo Oriente e pelo Ocidente, que criamos com tan­to esmero e devoção à custa da luz dos nossos olhos, que benevolência a dele! Mas você sabe tão bem quanto eu que, a não ser que ocorra um milagre. mandará trancar o livro no Tesouro, sem nem sequer perguntar quem é o autor da moldura, das iluminuras, deste personagem ou daquele cavalo. E voltaremos a trabalhar, como bons artesãos, esperando que um dia nosso mé­rito seja reconhecido.”

“E quando esse milagre acontecerá?”, perguntou ele após um silêncio que parecia marcar mais a espera do que a impaciência por alguma coisa. “Quando essas miniaturas, pelas quais aceitamos ficar cegos, serão realmen­te compreendidas? Quando elas valerão, a mim, a nós todos, o respeito que merecemos?”

“Nunca.”

“Como é possível?”

“Nunca nos concederão o que você pede. E no futuro muito menos que hoje.”

“Mas os livros duram séculos!”, ele replica com orgulho mas sem muita convicção.

“Acredite, nenhum dos mestres venezianos possui a poesia, a fé, a sen­sibilidade que você tem, nem a pureza, o brilho das suas cores. Mas os qua­dros deles são muito mais persuasivos, se aproximam mais da verdadeira vi­da. Em vez de pintar como do alto do minarete, de uma altura suficiente para desdenhar o que chamam de perspectiva, eles, ao contrário, se põem no nível da rua ou dentro do quarto de um príncipe, para pintar sua cama, suas cobertas, a escrivaninha, o espelho, seu leopardo, sua filha, suas moe­das de ouro. Eles incluem tudo isso, como você sabe. Não fiquei seduzido, diga-se de passagem, com tudo o que eles fazem: essa maneira de querer re­produzir a qualquer preço o mundo tal como ele é me parece bastante mes­quinha e me incomoda. Mas há tamanha sedução no resultado que obtêm com esse método! Porque eles pintam o que o olho vê exatamente como o olho vê. Sim, eles pintam o que vêem, enquanto nós pintamos o que con­templamos. Vendo as obras deles, qualquer um compreende que é somente por meio do estilo deles que sua fisionomia pode ser imortalizada. E não são apenas os alfaiates, os açougueiros, os soldados, os padres e os quitandeiros de Veneza que ficam fascinados com essa idéia, mas os de toda a Europa... Todos encomendarão seu retrato nesse estilo. Basta um olhar para uma dessas pinturas, e você também vai querer se ver assim, vai querer acreditar que você é diferente de todos os outros, um ser humano único, especial e singular. Ora, pintar as pessoas, não como elas são percebidas pela mente, mas como são vistas pelo olho nu, pintar de acordo com o novo método proporcio­na essa possibilidade. Um dia, todo o mundo pintará como eles. Quando se falar em pintar, será esse sentido que a palavra terá. O palerma do alfaiate que não entende patavina da nossa arte também exigirá ser pintado assim, para poder acreditar, ao reconhecer a curva inconfundível do seu nariz, que ele não é um pobre coitado qualquer, mas um homem fora do comum.”

“Mas nós também podemos fazer o retrato dele!”, exclamou o assassino num tom jocoso.



“Não, não podemos! O falecido Elegante Efêndi, sua vítima, não te fa­lou do terror que a idéia de imitar os europeus desperta em seus colegas? Mesmo que superemos esse medo e que fizermos como eles, o resultado se­rá o mesmo: no fim, nossa arte se extinguirá e nossas cores esmaecerão. Nin­guém mais se interessará por nossos livros e por nossas pinturas. E os que se interessarem, não compreenderão mais nada e perguntarão com uma careta por que essa ausência da perspectiva — se é que poderão encontrar as pró­prias obras! A indiferença dos homens, o tempo e as catástrofes destruirão nossa arte. A cola das nossas encadernações, conforme a fórmula árabe, con­tém escama de peixe, osso, mel, e nossas páginas são lustradas com clara de ovo e amido. Os camundongos vorazes as comerão com despudorada gula. Os cupins, os carunchos e mil espécies de bichos roerão nossos preciosos ma­nuscritos até desaparecerem. As encadernações racharão, as páginas se solta­rão. Criados indiferentes, ladrões e crianças rasgarão, sem pensar, as páginas e as pinturas, donas-de-casa irão usá-las para acender o fogo. As princesinhas e os principezinhos rabiscarão nossas páginas com suas penas de brinquedo, espalharão nelas o muco das suas narinas, furarão os olhos dos personagens, desenharão nas margens. De tempo em tempo, algum censor religioso, fu­riosamente inspirado, declarará que tudo aquilo é pecado, cobrirá tudo com extrato de nogueira. Ou uma criança recortará as páginas para fazer carica­turas e se divertir, zombando delas. As mães arrancarão o que acharem obs­ceno, os pais ou os irmãos se masturbarão sobre as figuras femininas, e assim as páginas ficarão grudadas, não só por causa disso, mas também por obra da lama, da cola que transborda, da saliva adensada com todos os restos possí­veis de comida. Onde as páginas se grudaram, pontos de mofo e de sujeira desabrocharão como flores. A chuva, as intempéries, uma inundação, um simples telhado com goteira ou torrentes de lama arruinarão nossos livros. E, como quer que seja, ao lado das obras que as inundações, a umidade, os insetos já houverem reduzido a uma papa informe, ao lado de todas essas pá­ginas vazadas, furadas, perfuradas, apagadas e tornadas ilegíveis, o livro que vierem a tirar, por milagre, do fundo de uma mala, que também por milagre foi conservada seca, acabará apesar de tudo devorado nas chamas de algum incêndio. Existe algum bairro de Istambul que não tenha sido reduzido a cinzas uma vez cada vinte anos, onde tal livro possa subsistir? Nesta cidade, em que a cada três anos desaparecem mais livros e bibliotecas do que os mon­góis queimaram e saquearam em Bagdá, que pintor ousará sonhar que suas obras-primas durarão mais de um século ou que um dia sua arte poderá ser admirada, e ele reverenciado como Bihzad? E não são apenas nossas obras, mas tudo o que nosso mundo produziu ao longo dos séculos, que as chamas, a incúria ou os vermes acabarão por destruir: Shirin observando orgulhosa­mente Khosrow de uma alta janela; Khosrow contemplando Shirin banhan­do-se ao luar; e todos os delicados olhares de todos os amantes delicados; Rustam no fundo do poço matando o demônio branco; abandonado pela amada, Majnun sofre no deserto, convivendo com o tigre branco e os cabritos-monteses; o cão pastor traiçoeiro, desmascarado e enforcado por ter ofe­recido à loba com que ele se acasalava todas as noites um carneiro do reba­nho que guardava; os ornatos de flores e de anjos, de galhos e pássaros, de folhagens e ramagens, que tantas lágrimas fizeram derramar; os alaudistas que ilustram os enigmáticos versos de Hafiz; as ornamentações de paredes em que milhares, ou melhor, dezenas de milhares de aprendizes e mestres arruinaram sua vista; as placas escritas, penduradas na parede, acima das por­tas; todos aqueles dísticos dissimulados na feitura complicada das molduras; as humildes assinaturas, escondidas nos rochedos, sob os arbustos, ao pé dos muros, sob os telhados, no canto das fachadas, sob a sola de um sapato; as flores que cobrem aos milhares os lençóis dos amantes; as cabeças cortadas dos infiéis, aguardando pacientemente o assalto, pelo ancestral do Nosso Sul-tão, de uma cidade que ele derrotou; as tendas, os canhões e os fuzis que você ajudou a ilustrar quando jovem e que aparecem ao fundo, quando os embaixadores dos infiéis vêm beijar os pés do bisavô do Nosso Sultão; os diabos, com ou sem rabo, com ou sem chifres, de dentes e unhas pontudos; os milhares de passarinhos, entre os quais a poupa sábia, o pardal saltitante, o milhafre estúpido e o rouxinol poeta; os gatos que se comportam bem, os cachorros que se comportam mal; as nuvens que galopam; os adoráveis rami­nhos de relva, idênticos em mil imagens; as sombras ingênuas projetando-se nos rochedos e as dezenas de milhares de ciprestes, romãzeiras e plátanos com suas folhas traçadas uma a uma com uma paciência de Jó; os palácios com suas centenas de milhares de tijolos, que têm por modelo os palácios do xá Tahmasp ou de Tamerlão, mas que ilustram histórias de épocas muito mais antigas; os milhares de príncipes melancólicos, que escutam no campo a música tocada para eles por mulheres e efebos, sentados em tapetes à som­bra de árvores em flor, na primavera; os maravilhosos motivos desses tapetes e dos azulejos, que, no último século e meio, custaram às mãozinhas dos aprendizes de Samarcanda ou de nossa terra tantas lágrimas e tantas surras; os maravilhosos jardins, os milhafres negros planando acima dos campos de batalha coalhados de mortos; as caçadas dos nossos soberanos, perseguindo delicadamente gazelas igualmente delicadas, que fogem, trêmulas, diante deles; os inimigos na servidão, a morte dos xás, os galeões infiéis, as cidades rivais e a sombria claridade que cai das estrelas, aquelas noites que os cipres­tes assombram e que brilham como se a própria noite escorresse e brilhasse na tinta do seu pincel, todas as suas cenas de amor ou de morte, tingidas de vermelho, tudo, tudo desaparecerá.”

Ele ergueu o tinteiro de bronze e me bateu com toda a força na cabeça.




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