Meu nome é Vermelho



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Sob a violência do choque, caí de cara no chão. Senti uma dor atroz, absolutamente indescritível. Por um instante, minha dor parece respingar no mundo: tudo é amarelo. A maior parte do meu espírito compreendia que era de propósito, mas uma pequena parte, apesar do golpe dado, ou a parte que, justamente, esse golpe fazia funcionar menos bem me induzia lamen­tavelmente a perguntar àquele louco que queria me assassinar se ele, na ver­dade, não estava me agredindo por equívoco!

Ergueu mais uma vez o tinteiro e abateu-o sobre a minha cabeça.

Entendi dessa vez, inclusive com aquela parte do meu espírito que fun­cionava arrevesadamente, que não havia equívoco possível, que sua loucura, sua raiva estavam ali, e com elas a morte, o fim. Fiquei tão aterrorizado com esse estado de coisas que elevei minha voz, berrando com toda a minha for­ça e com toda a minha dor. Se meus gritos fossem uma cor teriam banhado tudo de verde; mas, na escuridão daquela noite de inverno, essa cor não podia ser percebida nas ruas desertas. Eu estava só.

O grito assustou-o, ele hesitou. Nossos olhos se encontraram. Li nas suas pupilas que, apesar do horror, apesar da vergonha, ele aceitava seu ato, en­trava rapidamente no papel de assassino. Não era mais o pintor que eu co­nhecia, mas um estranho distante, mau, que não falava minha língua, e essa sensação prolongou minha momentânea solidão por séculos. Quis agarrar sua mão, como para me segurar no mundo. Em vão. Supliquei, creio: “Meu filho, meu filho, não me mate!”. Como num sonho, ele parecia não me ouvir.

Bateu mais uma vez o tinteiro de bronze na minha cabeça.

Meus pensamentos, minhas lembranças, meus olhos e o que eu via, tu­do se misturou para se transformar em medo. Eu não via mais as cores, e per­cebi que todas as cores tinham se transformado em vermelho. O que pensei ser meu sangue era tinta vermelha; o que pensei ser tinta nas minhas mãos era meu sangue que se derramava.

Como achei injusto, cruel, impiedoso morrer naquele instante! Mas era o que ia mesmo acontecer um dia ou outro, vistos meus cabelos brancos que o sangue avermelhava. Foi então que vi: minhas lembranças estavam todas brancas, como a neve que caía lá fora em silêncio. E eu ouvia meu sangue pulsar na minha cabeça, na minha boca.

Vou lhes contar minha morte. Vocês talvez já tenham compreendido há muito: a morte não é o fim de todas as coisas, disso não há dúvida. Mas é verdade também, como dizem todos os livros, que a morte é uma dor inima­ginável. Não era apenas minha cabeça e meu cérebro que sofriam, eram to­das as partes do meu ser, confundidas e mescladas numa dor atroz, infinita. Era tão insuportável que uma parte do meu espírito reagiu esquecendo a ago­nia e — como se fosse a única alternativa possível — procurando mergulhar num sono suave.

Antes de morrer, lembrei-me daquele conto assírio que eu ouvira ao en­trar na adolescência. Um velho que vivia sozinho levanta-se no meio da noi­te, para tomar um copo de água. Põe o copo na mesa e constata que a vela desapareceu. Um tênue raio de luz vem do quarto, ele o segue, tornando so­bre seus passos, e encontra na cama outra pessoa, com a vela na mão. “Quem é você?” O estranho responde: “A Morte”. O velho franze a testa, não fala nada, mas por fim responde: “Então você veio”. “Sim”, responde a Morte, arrogantemente. “Não”, replica o ancião, “você é o sonho que não terminei.” Sopra a vela na mão do estranho e tudo mergulha na escuridão. O velho vol­ta para a cama, adormece e vive mais vinte anos.

Eu sabia que, no meu caso, não seria assim. Ele batera outra vez com o tinteiro na minha cabeça. A dor era tão intensa que dessa vez senti o choque apenas vagamente. Ele, o tinteiro, o quarto mal iluminado pela vela, tudo parecia se distanciar e desbotar pouco a pouco.

Mas eu ainda vivia, e sabia disso, pois que me agarrava, pois que deseja­va fugir, pois que me debatia, com as mãos, com os pés, para proteger minha cabeça, meu rosto cheio de sangue, pois que, a certa altura, creio ter-lhe mor­dido a canela, antes de ele me acertar em cheio, no rosto, com o tinteiro.

Lutamos, portanto, se é que ainda se pode falar de luta. Ele era forte e estava tremendamente agitado. Imobilizou-me de costas, fincando os joe­lhos em meus ombros e, enquanto me mantinha assim, pregado no chão, contou-me sem o menor respeito por um ancião moribundo, uma porção de coisas, e num tom! E, mais uma vez, na certa porque eu não podia nem com­preender, nem ouvir, nem olhar direto em seus olhos injetados de sangue, tornou a me bater com o tinteiro. Seu rosto e todo seu corpo tinham ficado vermelho vivo, o vermelho da tinta que jorrava do tinteiro e o vermelho do sangue que jorrava de mim.

Fechei os olhos, não querendo que a derradeira imagem que eu teria do mundo fosse a triste visão de um rosto hostil... Logo depois, percebi uma luz suave e agradável como o sono, tão suave e reparadora que achei ter chega­do ao fim dos meus sofrimentos. Vi alguém na luz e lhe perguntei, como uma criança: “Quem é você?”.

“Sou Azrail, o Anjo da Morte”, respondeu. “Anuncio aos filhos de Adão o fim da viagem deles neste mundo. Separo os filhos das mães, os esposos das esposas, os pais das filhas, os amantes um do outro. Neste mundo, não há uma só alma que não encontre seu caminho.”

Ao compreender que a morte era inelutável, pus-me a soluçar.

Meus soluços me davam uma sede tremenda, e havia a dor atordoante e lancinante, havia, de um lado, aquele lugar cruel e frenético, em que eu jazia, cabeça e rosto empapados de sangue; e havia, de outro lado, um lugar em que a crueldade e o frenesi cessavam, mas ele era estranho e assustador. Eu sabia que aquele mundo aureolado de luz, a que o anjo Azrail acabava de me convidar, era o território dos mortos, e eu tinha muito medo de entrar lá. Mas entendia também que não poderia mais ficar muito tempo neste mundo que se obstinava em me torturar tão brutalmente e onde eu não po­dia mais ter descanso. Para ficar aqui, teria sido necessário suportar esses so­frimentos e, na minha idade, isso já não era possível.

Assim, pouco antes de morrer, desejei morrer. E encontrei nesse mo­mento a resposta àquela questão sobre a qual eu havia meditado a vida toda, a resposta que não pudera encontrar em nenhum livro: por que todos os ho­mens, sem exceção, acabam morrendo um dia ou outro? Simplesmente por­que todos eles acabavam desejando morrer. Também descobri que a morte ia me tornar um homem mais sábio.

Mas, antes de partir para a longa viagem, hesitei o suficiente para não refrear um derradeiro olhar para o quarto e a mobília. A inquietude e, já, a saudade me faziam desejar rever minha filha, pela última vez. Cheguei a pensar em esperar, tanto quanto preciso fosse, resistindo à dor e à sede cada vez maiores.

A luz suave e mortiça se atenua um pouco, e meu espírito se abre de novo aos ruídos do mundo à minha volta, enquanto agonizo. Ouço meu as­sassino. Ele se movimenta no quarto, abre o armário, remexe nos papéis: pro­cura a última miniatura. Não a encontrando, põe-se a derrubar as tintas, os baús, as caixas, os tinteiros e as mesas de trabalho a violentos pontapés. O que eu percebia de longe em longe eram meus próprios gemidos, as convul­sões bizarras dos meus velhos braços, das minhas pernas cansadas. Esperei.

A dor não diminuía. Pouco a pouco, eu me calei, parei de lutar. Mes­mo assim, ainda esperei.

Ocorreu-me então que, se minha filha voltasse, ela podia se ver face a face com meu assassino. Não quis mais pensar nisso, depois senti que aquele celerado tinha saído do quarto. Certamente havia encontrado a última mi­niatura.

Minha sede tornava-se insuportável, mas ainda esperei. Venha, minha linda Shekure, chegue logo.

Ela não chegou a tempo.

Faltavam-me forças para agüentar todo aquele sofrimento. Soube que morreria sem voltar a vê-la. Foi uma dor a mais e quis morrer, dessa vez, de tristeza. Então, naquele momento, apareceu à minha esquerda um rosto cheio de bondade, que eu nunca havia visto e que me sorria, oferecendo um copo d’água.

Esquecendo todo o resto, faço com avidez o gesto de pegá-lo. Mas ele retira o copo: “Diga: o profeta Muhammad mentiu. Renegue tudo o que ele disse”.

Era o Diabo. Não respondi. Não tinha medo dele. Como nunca acredi­tei que fazer pintura significasse ser seduzido por ele, continuei esperando confiante. Eu já sonhava com o futuro, com a longa viagem que me esperava.

Depois o anjo de luz que eu vira antes voltou, e Satanás desapareceu. Uma parte do meu espírito sabia que esse anjo luminoso que punha o Dia­bo para correr era o próprio Azrail. Mas outra parte, sempre pronta a se re­belar, me lembrava o que está escrito no Livro das circunstâncias da ressur­reição final: que Azrail é um anjo que tem o mundo inteiro nas mãos, cujas asas, imensas, cobrem com sua envergadura o Oriente e o Ocidente.

Vendo minha perturbação e como para me tirar daquele embaraço, o anjo se aproximou e pronunciou, numa voz sublimemente suave, as mesmas palavras que são citadas por Gazali nas Pérolas da magnificência:

“Então, abra a boca, para que a sua alma possa sair.”

“Da minha boca não pode mais sair outro nome, que não o de Alá”, res­pondi.

Era meu derradeiro subterfúgio. Compreendi que não era mais tempo de resistir e que minha hora havia chegado. Não vou voltar a vê-la. E por um instante tive vergonha de deixar à minha filha meu corpo naquele estado pa­voroso, sujo, ensangüentado. Quis sair logo deste mundo exíguo, que me in­comodava como uma roupa apertada.

Abro a boca e, então, como nas descrições da Ascensão Noturna que o Profeta, em sonho, fez do Paraíso, tudo é invadido por uma luz preciosa, co­mo se estivesse generosamente pintado com folha de ouro. Outra lágrima de pesar rola dos meus olhos. Um sopro, vindo do fundo dos meus pulmões, abre passagem através da minha garganta. Tudo fica imerso num prodigioso silêncio.

Podia ver agora que minha alma tinha saído do meu corpo e Azrail a levava na mão. Ela era do tamanho de uma abelha, aureolada de luz, tremeu ao deixar meu corpo e continuava a tremer na palma daquele anjo, como uma gota de mercúrio. Mas meus pensamentos estavam longe deles, num mundo totalmente novo e desconhecido em que eu acabava de ingressar.

Depois de tanto sofrimento, a calma me subjugou. A morte não me cau­sava a dor que eu temia; ao contrário, logo relaxei, sabendo que minha situa­ção atual seria permanente e que as angústias da minha existência tinham sido passageiras apenas. Assim seria de agora em diante, até o fim do univer­so. Isso não me perturbava nem me alegrava. Os acontecimentos que antes se sucediam vertiginosamente agora se estendiam simultaneamente por um espaço infinito. Como numa dessas pinturas em folha dupla em que um mi­niaturista astuto pinta em cada canto certo número de elementos sem ne­nhuma relação recíproca, muitas coisas estavam acontecendo ao mesmo tempo.

30. Eu, Shekure

Nevava tanto que os flocos às vezes passavam pelo meu véu direto nos olhos. Tive dificuldade para atravessar o jardim cheio de lama, de vegetação apodrecida e de galhos, mas, uma vez na rua, pude acelerar o passo. Vocês devem estar se perguntando quais eram meus pensamentos naquele momen­to. Pois bem, eram estes: eu podia confiar no Negro? Vou ser sincera com vocês: eu mesma me pergunto agora quais eram meus pensamentos naquele momento. Vocês entendem, não é? Eu estava confusa. Mas de uma coisa eu tinha certeza: como sempre, toda vez que eu enfrentava um problema — co­mida, meus filhos, meu pai, os recados —, uma voz interior acabaria se fa­zendo ouvir e meu coração, sem nem mesmo precisar ser interrogado, me sopraria por conta própria a solução. Antes de amanhã ao meio-dia saberei o nome do meu próximo marido.

Há uma coisa de que eu gostaria de lhes falar, antes de voltar para casa. Não, por favor, não se trata mais uma vez das dimensões do formidável coiso que o Negro me mostrou — mais tarde falaremos nisso, se vocês fizerem questão. Do que quero lhes falar é da sua estranha precipitação. Não que, a meu ver, ele pense exclusivamente em satisfazer seus baixos instintos, o que aliás pouco me importaria; o que me surpreende é sua estupidez! Acho que nem lhe passou pela cabeça que sua conduta podia me assustar, me fazer fu­gir, e que brincar com a minha honra é arriscar-se a me perder! Sem falar nas conseqüências ainda mais graves... Dá para ver por seu ar confuso que ele me ama e me deseja perdidamente. Mas depois de ter esperado doze anos, por que ele não pode jogar o jogo de acordo com as regras e esperar mais do­ze dias?

O caso é que, sabem?, eu me sentia cada vez mais cativada pelo seu mau jeito, por seu olhar de garotinho triste. No momento em que mais deveria ter me zangado, ele simplesmente me deu dó, e ouvi minha voz interior di­zendo: “Coitadinho, ele continua apaixonado, e é tão desastrado!”. Senti ne­cessidade de protegê-lo e teria sido capaz até de um deslize: isso mesmo, es­tive a dois dedos de me entregar àquele malcriado.

Pensando de repente em meus pobres orfãozinhos, apertei o passo. Na noite já caída e na neve que me cegava, eu imaginava que um homem, um fantasma, ia se atirar sobre mim e encolhi a cabeça entre os ombros, como para evitá-lo.

Entrando no pátio de casa, vi que Hayriye e as crianças ainda não ha­viam voltado. Melhor assim, disse comigo mesma, e aliás era normal, pois ainda não se ouvira o chamado para a prece da noite. Subindo a escada, acre­ditei sentir um cheiro de laranja amarga. Não havia luz no quarto da porta azul, onde no entanto meu pai devia estar; meus pés estavam gelados; pe­guei uma lâmpada e, mal entrei no cômodo, percebi o armário aberto, as al­mofadas no chão e disse comigo mesma, ah, isso é coisa de Orhan e Shev­ket... Não havia o menor ruído. O silêncio habitual, ou melhor, um silêncio inabitual. Mudei de roupa e fui me sentar para mergulhar de novo nos meus sonhos, quando, do fundo da minha alma, percebi um ligeiro barulho. Vi­nha de baixo, não da cozinha mas bem abaixo de mim, do ateliê junto da es­trebaria, onde meu pai se instala no verão, porque lá é sempre fresco. Será que ele tinha descido para trabalhar lá, apesar do frio? Mas eu não me lem­brava de ter visto nenhuma luz de vela. De repente ouvi, dessa vez, ranger o portão e, em seguida, do outro lado do portão, aqueles malditos cachorros puseram-se a latir de maneira sinistra. Gritei:

“Hayriye? Shevket, Orhan!”

Senti uma corrente de ar. “A estufa do meu pai deve estar acesa”, pensei. “Seria melhor ir me aquecer junto dele.” Não pensava mais no Negro, mas em meus filhos. Peguei uma vela para ir ao cômodo ao lado.

No corredor, lembrei-me que precisava ir pôr a água para esquentar no fogão, para a sopa de peixe. Empurrando a porta azul e vendo aquela bagun­ça toda no quarto, perguntei-me vagamente o que meu pai podia ter aprontado.

Foi nesse instante que o vi, caído no chão. Tive medo, é claro, e soltei um grito, depois gritei mais uma vez. E aquela visão horrível do cadáver do meu pai silenciou-me.

Olhem, pelo silêncio de vocês e pelo sangue-frio com que vocês reagi­ram, sei que vocês já sabem há algum tempo o que aconteceu neste quarto. Talvez não tudo, mas quase tudo. O que lhes interessa agora é saber meus sentimentos, minha reação vendo o que vi. E como certas pessoas ao olhar para um quadro procuram reconstituir o fio dos acontecimentos que levam àquela cena atroz, àquele instante em que o personagem é captado em seu sofrimento, vocês imaginam, não meu sofrimento, mas o de vocês mesmos, aquele que vocês poderiam ter no meu lugar, se fosse o pai de vocês que hou­vesse sido assassinado. Eu sei que é isso que vocês estão tentando maliciosa­mente fazer.

Pois bem. Volto para casa já de noite e descubro que alguém matou meu pai. Sim, arranco os cabelos, berro tanto quanto posso, abraço-o respirando seu cheiro, como fazia quando era pequena. Sim, eu sofro, tenho medo, sin­to-me abandonada, e tremo sem poder parar, sem poder recobrar a respira­ção. Como não consigo acreditar no que meus olhos vêem, levanto-me im­plorando Alá: faça que meu pai ressuscite, que eu possa vê-lo de novo tranqüilamente sentado entre seus livros. “Levante”, digo a ele, “por favor, papai, não morra, levante-se.” Mas a cabeça dele está toda ensangüentada, quebrada em mil pedaços. Mais que os papéis e os livros rasgados, as mesas, os tinteiros, os potes de tinta quebrados e derramados, as almofadas, as me­sas de desenho e de escrever furiosamente saqueadas, mais que a própria có­lera selvagem daquele que matou meu pai, é o ódio expresso por tal devasta­ção que horroriza. Já não choro. Duas pessoas passam pela rua lá embaixo, falando animadamente, rindo na escuridão. E eu escuto o silêncio, um mun­do de silêncio dentro de mim, enquanto enxugo com a mão meu nariz que escorre e as lágrimas na minha face. Pensei demoradamente em meus filhos, na nossa vida.

Ouvi o silêncio, depois me apressei: peguei meu pai pelos pés e puxei-o para o corredor. Ali, estranhamente, ele parecia mais pesado, mas não fra­quejei, arrastei-o escada abaixo. Na metade dos degraus, sentei-me exausta, e ia voltar a chorar quando ouvi um barulho; como talvez fosse Hayriye que voltava com as crianças, agarrei de novo meu pai, prendendo suas canelas debaixo das minhas axilas, e cheguei embaixo, mais depressa dessa vez. Sua pobre cabeça estava tão arrebentada e ensangüentada que, batendo nos de­graus, fazia o barulho de um pano de chão sendo torcido. No térreo, virei-o no outro sentido — ele parecia mais leve agora — e de um só impulso, fa­zendo-o deslizar sobre as pedras do chão, consegui transportá-lo até o outro ateliê, aquele ao lado da estrebaria. Como não se enxergava nada, voltei cor­rendo para a cozinha, para buscar fogo na lareira. A luz da minha vela, o ate­liê também oferecia um espetáculo de devastação. Fiquei perplexa.

“Quem, por Alá, pode ter feito isso?... Qual deles?”

Minha cabeça fervia. Fechei cuidadosamente a porta daquele campo de batalha em que eu deixava o corpo de meu pai, voltei à cozinha para bus­car um balde, que fui encher no poço do jardim, e pus-me a lavar o sangue no corredor de cima e a limpar um a um os degraus da escada, até embaixo, tudo. Em seguida subi de novo para tirar minha roupa toda manchada de sangue e pôr uma limpa. Ia entrar pela porta azul com o balde e o pano de chão quando ouvi o portão do pátio se abrir. O chamado para a prece acaba­va de começar, juntei toda a minha coragem e postei-me, vela na mão, no alto da escada, à espera deles.

“Mamãe, chegamos!”

“Hayriye, onde vocês estavam?”, gritei o mais alto que pude, um grito que me pareceu não passar de um sussurro.

“Mas mamãe, o muezim ainda nem cantou!”, disse Shevket.

“Cale a boca, seu avô está dormindo, está doente.”

“Doente?...”, interveio Hayriye, que ainda estava embaixo. Mas pelo meu silêncio ela percebeu que não era hora e prosseguiu: “Shekure Hanim, tivemos de esperar Kosta. Quando conseguimos o peixe, viemos o mais depressa que pudemos, só passei para pegar um pouco de louro, também compramos figo e cereja secos para as crianças”.

Tive vontade de descer para falar com ela, mas, lembrando-me que mi­nha vela podia iluminar os degraus ainda úmidos e talvez alguma mancha de sangue que eu teria esquecido, mudei de idéia, e bem nesse instante meus dois filhos começaram a subir. Quando tiraram os sapatos, empurrei-os para o lado em que nós três ficávamos, fazendo sinal para que não acordassem meu pai no quarto em frente, da porta azul.

“Psiu!”


“Não queremos ir ao quarto do vovô, queremos ir para junto da estufa” disse Shevket.

“Mas é lá que ele está dormindo”, respondi cochichando.

Como eu via que mesmo assim eles hesitavam, acrescentei: “Não en­trem, não quero que os djins que deixaram o avô de vocês doente peguem vocês também. Andem, já para lá, para o nosso quarto”. Peguei os dois pelas mãos e os fiz entrar comigo no cômodo em que costumávamos dormir os três, apertados uns contra os outros. “Contem o que vocês fizeram esse tem­po todo na rua.” “Vimos uns mendigos árabes”, disse Shevket. “Onde? Eles levavam uma bandeira?” “Na subida do morro. Deram um limão para Hay­riye, ela deu para eles umas moedas. Tinham neve no corpo todo, da cabeça aos pés.” “E tinha também os arqueiros treinando na praça.” “Num tempo destes?” “Mamãe, estou com frio”, disse Shevket. “Vamos para o lado de lá?” “Vocês não vão sair daqui. Senão podem morrer! Vou buscar o braseiro.” “Por que a gente pode morrer”, perguntou Shevket. “Vou lhes dizer uma coisa, mas prometam não contar a ninguém!” Eles prometeram, e eu lhes disse: “Enquanto vocês estavam na rua, um homem todo branco da cabeça aos pés, descorado, como um morto, veio até aqui de um reino muito distante para falar com o vovô. Era na certa um djim.” Eles me perguntaram de onde vi­nham os djins. “Do outro lado dos rios”, respondi. “Onde está nosso pai?”, perguntou Shevket. “Isso mesmo. O djim veio ver as miniaturas do livro que o avô de vocês está fazendo. E quem olha para elas em estado de pecado, morre!”

Um silêncio.

“Bem, vou lá embaixo ver o que Hayriye está fazendo. Vou pegar o bra­seiro e trazê-lo para cá, com a bandeja do jantar. Mas não se atrevam a sair daqui, vocês morreriam. Porque o djim ainda está em casa.”

“Mamãe, mamãe, não desça!”, disse Orhan.

“Tome conta do seu irmãozinho”, ordenei em tom ameaçador a Shevket. “Se saírem e o djim não os pegar, quem vai acabar com vocês sou eu!”, disse com a cara assustadora que faço quando vou lhes dar um tabefe. “Ago­ra rezem para que o avô de vocês não morra da doença. Se vocês se compor­tarem, Alá ouvirá suas preces e ninguém lhes fará mal.”

Desci, enquanto eles se punham a rezar, sem grande convicção.

“Alguém derramou o pote de geléia de laranja”, disse-me Hayriye. “Não pode ser o gato, ele não tem tanta força, e um cachorro não teria entrado em casa...”

Mas ela se interrompeu ao perceber minha fisionomia decomposta.

“O que foi? Aconteceu alguma coisa com o senhor seu pai?”

“Ele está morto.”

Dando um grito, ela deixou cair com tanta força na mesa a mão que se­gurava a faca com a qual cortava a cebola que o peixe até pulou. Notei ime­diatamente, e ela também, que o sangue na sua mão esquerda era o dela, e não o do peixe. Tinha se cortado. Subi correndo para pegar um pano no quarto ao lado do que estavam as crianças. Ouvindo barulhos de briga, fui ver enquanto rasgava o pano: Shevket estava a cavalo sobre o irmão, pren­dendo os ombros dele no chão com os joelhos para começar a estrangulá-lo.

“O que vocês estão fazendo?”, berrei.

“Orhan quis sair do quarto”, respondeu Shevket.

“Mentira!”, protestou Orhan. “Foi Shevket que abriu a porta e eu disse para ele não sair.”

“Se vocês não ficarem quietinhos aqui, mato os dois.”

“Mamãe, não vá embora!”, disse Orhan.

Uma vez embaixo, fiz uma atadura em Hayriye para deter o sangramento. Disse-lhe que meu pai não tinha morrido de morte natural, e ela pôs-se a balbuciar umas preces, completamente aterrorizada. Ela chorava olhando fixamente para seu dedo ferido. Terá ela amado meu pai tanto quanto suas lágrimas e seus soluços faziam pensar?

Hayriye quis subir para vê-lo no quarto de cima.

“Ele não está lá”, disse-lhe. “Está no quarto atrás de nós.”

Ela me lançou então um olhar carregado de desconfiança, depois, ven­do que eu não me sentia capaz de ir até lá, cedeu à curiosidade, pegou a lâmpada e saiu. Deu quatro ou cinco passos além da porta da cozinha, onde eu ficara, abriu vagarosamente a porta do quarto, cheia de respeito e apreensão, e, à luz da lâmpada que empunhava, espiou lá dentro. Não podendo de início ver meu pai, ergueu a lâmpada mais um pouco, tentando iluminar os cantos do grande cômodo retangular.

“Aaah!”, gritou, ao avistar meu pai onde eu o havia deixado, bem atrás da porta. Enquanto olhava para ele, sua sombra no chão e na parede da es­trebaria parecia petrificada. Eu imaginava o espetáculo que ela contempla­va. De volta, não chorava mais. Constatei com alívio que parecia de novo ca­paz de compreender e seguir as instruções que eu estava a ponto de lhe dar.




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