Meu nome é Vermelho



Baixar 1.84 Mb.
Página2/45
Encontro29.07.2016
Tamanho1.84 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   45

Alguns dos quarteirões e das ruas em que eu passeava na minha juven­tude tinham desaparecido, com os incêndios, em cinzas e fumaça, deixando em seu lugar terrenos baldios calcinados onde os cachorros vadios se congre­gam e uns loucos erradios metem medo nas crianças; outros bairros cobri­ram-se de opulentas mansões, que não deixam de causar um estranho efeito sobre as pessoas vindas de longe, como eu. As janelas de algumas delas são de cristal de Veneza. Vi várias assim na minha rua, dessas ricas moradias de dois andares construídas durante a minha ausência, com suas altas muralhas e suas clarabóias.

Como em muitas outras cidades, o dinheiro em Istambul perdeu quase todo o valor. Na época em que parti para o Leste, com uma moeda de prata obtinha-se um enorme pão de cem dracmas recém-saído do forno; hoje, pe­lo mesmo preço, dão a metade, com um gosto salobro que nada tem a ver com a lembrança do pão fresco da nossa infância. Se minha falecida mãe visse que se compra a dúzia de ovos com três moedas de prata, ela diria: “Va­mos embora deste lugar antes que as galinhas, estragadas com tantos mimos, nos caguem na cabeça em vez de cagarem no chão”, mas sei que a carestia é igual em toda parte. Disseram que os navios mercantes vindos de Flandres ou de Veneza estavam cheios dessas moedas, falsificadas. Enquanto, antigamente, para cunhar quinhentas moedas fundiam-se cem dracmas de prata, agora, com essa interminável guerra contra a Pérsia, cunham-se oitocentas. E quando os janízaros viram que as moedas com que são pagos, se alguém as deixa cair no Chifre de Ouro, bóiam como os grãos de feijão desembarca­dos no cais dos hortelãos, amotinaram-se e sitiaram o palácio do Nosso Sul­tão, como se ele fosse uma fortaleza inimiga.

Em meio a essa era de depravação, carestia, crimes e banditismo, um certo Nusret Ali, encarregado da pregação na mesquita de Bajazet e que se apresenta como descendente do Nosso Glorioso Profeta, conseguiu fazer re­nome. Esse pregador, originário de Erzurum, ao que se diz, explica todas as calamidades que vêm se abatendo sobre Istambul nos últimos dez anos — o incêndio da Porta dos Jardins e do bairro dos Caldeireiros, a peste que leva dez mil habitantes a cada passagem sua, a guerra sem saída contra a Pérsia, com todos os seus mortos, e, a oeste, as pequenas fortalezas otomanas caídas nas mãos dos cristãos rebelados — pelos repetidos desvios em relação ao ca­minho do Profeta, o desrespeito aos mandamentos do Venerável Corão, a to­lerância para com os cristãos, o vinho em venda livre e a música nos conven­tos de dervixes.

O vendedor de pepinos em conserva que me dava essas informações fa­lava com o calor desse pregador de Erzurum; e, dizia ele, além de toda aque­la moeda falsa que inundava o bazar — os novos ducados, os florins com o emblema do leão, aquelas moedas cujo teor de prata caía dia a dia —, todos aqueles circassianos, abazas, mingrelianos, bósnios, georgianos e armênios que entupiam nossas ruas arrastavam o povo para o despenhadeiro abrupto e definitivo do vício. Ele também garantia, aliás, que os cabarés estavam cheios de depravados e de rebeldes, que passavam todas as suas noites a deblaterar. Esses indivíduos de caráter duvidoso e cabeça raspada, fumadores de ópio meio loucos, dervixes errantes como não existem mais — e note que eles cha­mam tudo isso de caminho de Alá, em seus conventos —, dançavam até o raiar do dia ao som da música, furavam com agulhas o corpo inteiro e, de­pois de se entregarem assim a toda sorte de desvarios, acabavam fornicando, entre eles e com uns garotos.

Foi então que ouvi os suaves acordes de um alaúde, e não sei se os se­gui por querer ouvir mais daquela música ou se ela me ofereceu o pretexto esperado para interromper a conversa com aquele venenoso vendedor de pe­pinos, cujas considerações eu não podia mais suportar, por se chocarem fron­talmente com minhas lembranças e meus desejos; constato em todo caso que, quando a gente ama uma cidade e passeia bastante por ela, não é ape­nas a razão mas também o corpo que, anos depois, num acesso de melanco­lia, reconhece as ruas por si mesmo: as pernas nos levam por si próprias para o alto da nossa colina preferida, em meio à neve que cai.

Foi assim que, afastando-me do Mercado dos Ferreiros, ao lado da mes­quita de Suleyman, dei comigo contemplando os flocos de neve que caíam no Chifre de Ouro. A neve já tinha começado a se acumular nos telhados voltados para o norte e na parte das cúpulas exposta ao vento do leste. As ve­las de um navio que retornava ao porto pareciam me saudar ao serem reco­lhidas. Elas tinham a mesma cor de chumbo e bruma da superfície da água. Os ciprestes e os plátanos, a vista dos telhados, a tristeza da noite que cai, as vozes que se elevam dos bairros lá embaixo, os gritos dos vendedores ambulantes ou das crianças brincando no pátio da mesquita, tudo isso se misturou na minha cabeça e anunciou enfaticamente que eu não poderia mais viver em outro lugar. Por um momento acreditei que o rosto da minha amada, de que eu me esquecera havia anos, ia aparecer de repente diante de mim.

Desci a ladeira e misturei-me à multidão. Depois do chamado para a prece da noite, fartei-me, numa cantina deserta, de fígado grelhado. Ouvia com atenção as palavras do dono, que me alimentava como teria alimenta­do seu gato, acompanhando amorosamente com os olhos os pedaços que eu devorava. Por sua sugestão e graças às suas indicações — porque as ruas esta­vam agora totalmente às escuras —, peguei um dos estreitos caminhos trans­versais, atrás do Mercado de Escravos, e consegui encontrar o tal cabaré.

Estava cheio de gente lá dentro e fazia um calorão. Um contador de his­tórias, desses como eu vira tantos em Tabriz e nas cidades do Irã e que eram conhecidos como satiristas, em vez de panegiristas, havia se instalado ao fun­do, do lado da lareira, num estrado não muito alto. Ele tinha pregado na pa­rede o desenho de um cachorro, esboçado apressadamente numa folha ordi­nária, mas com uma arte consumada. De quando em quando apontava para o cachorro e contava a história dele, emprestando sua voz ao animal.

3. Eu, o Cão

Como vocês vêem, meus caninos são tão compridos e pontudos que mal cabem na minha boca. Sei que isso me dá uma aparência assustadora, mas eu gosto assim. Uma vez um açougueiro atreveu-se a dizer, vendo meu focinho: “Caramba, isto não é um cachorro, é um javali!”.

Dei-lhe tal mordida na perna, que senti, na ponta dos meus dentes, após a gordura da carne, a dureza do fêmur. Para um cachorro, não há nada mais saboroso do que enfiar raivosa e ferozmente seus caninos na carne de um inimigo execrado. Quando tal ocasião se apresenta, quando uma vítima dig­na de ser mordida passa estupidamente diante de mim, minhas pupilas fi­cam negras de cobiça, meus dentes rangem a ponto de doerem e minha gar­ganta põe-se a emitir, involuntariamente, rosnados aterrorizantes.

Sou um cachorro, e como vocês, humanos, são animais menos racio­nais do que eu, devem estar se perguntando como é que eu posso falar. E no entanto vocês acreditam, parece, numa história em que os mortos falam e em que se empregam palavras que os protagonistas nem conhecem. Os cães falam para os que sabem ouvi-los.

Era uma vez, há muitos e muitos anos, num país distante, um hodja casca-grossa que acabava de chegar da sua província para pregar numa das maiores mesquitas da capital do reino — bem, vamos chamá-la de mesquita de Bajazet. Como é melhor lhe dar outro nome, vamos nos referir a ele como Husret Hodja. Podem acreditar no que eu digo: esse pregador era mesmo uma besta quadrada; mas sabia compensar a modéstia do seu intelecto com o prodigioso poder da sua língua, que Alá a abençoe. Ele inflamava literal­mente, todas as sextas-feiras, a assembléia dos crentes, precipitando-a primei­ro nas lágrimas do alvoroço, depois fazendo-a delirar até o desmaio. Mas não se enganem: ao contrário dos outros pregadores de verbo fácil, ele conserva­va os olhos bem secos. E, enquanto todo o mundo chorava, ele, impassível, intensificava sua pregação como se quisesse castigar a congregação inteira. Todos os que gostam de um bom açoite verbal, jardineiros, pajens reais, confeiteiros, a ralé em geral, para não falar em muitos pregadores como ele, to­dos tinham se tornado seus lacaios de corpo e alma. E como esse homem não era um cachorro, de jeito nenhum, ele era um ser humano — e ser hu­mano é errar —, ele perdeu de vez a compostura quando sentiu que meter medo naquelas multidões em delírio era tão prazeroso quanto arrancar-lhes lágrimas. E quando percebeu que tinha descoberto assim um filão muito mais proveitoso, foi além do imaginável e permitiu-se dizer coisas como esta:

“A causa única da carestia, das epidemias e das derrotas militares está em que caímos sob a influência de deturpações do islã e esquecemos o islã do tempo do nosso Glorioso Profeta. Acaso se via, na época de Maomé, es­sas recitações de preces? Essas orgias de halvah e bolinhos fritos para luto de quarenta dias? Acaso se cantava o Corão com música oriental, no tempo do Profeta? E essa mania de subir no minarete para chamar à prece com uma voz de castrado e uma dicção mais afetada que a própria dicção dos árabes? Vão aos cemitérios para implorar os mortos e pedir-lhes ajuda, fazem-se san­tuários para adorar pedras, como os idólatras, penduram-se trapos para fazer votos e praticam-se sacrifícios! E essas confrarias que dão conselhos, acaso existiam nos tempos de Maomé? Ibn Arabi, o insidioso inspirador de todas essas seitas sufistas, tornou-se um criminoso ao jurar que o faraó morreu cren­te. E essas seitas giróvagas, esses dervixes rodopiantes, reclusos, errantes, que recitam o Corão acompanhados de instrumentos, ou que justificam seu gos­to de dançar com garotos e efebos dizendo ‘qual o problema? afinal não re­zamos juntos?’, são todos uns infiéis! Os conventos dos dervixes têm de ser demolidos e, para que se possa voltar a orar nos lugares em que estão erigidos, suas fundações têm de ser escavadas até uma profundidade de sete varas e todo o entulho retirado deve ser jogado no mar.”

Husret Hodja teria então, pelo que ouvi dizer, levado a coisa mais lon­ge ainda e vocês, crentes, devem saber o que ele ousou dizer, espumando: que tomar café era um pecado absoluto e que, se nosso profeta não tomava, era por saber que o café era uma artimanha do Diabo, um excitante do cére­bro, que perfura o estômago, causa hérnias e torna estéril; que as casas em que se toma café, e que hoje proliferam, são um antro em que os depravados e os ricos voluptuosos sentam-se coxa a coxa, entregando-se a todo tipo de comportamento vulgar; que, na verdade, os cafés deveriam ser banidos antes até que os conventos dos dervixes.

Os pobres, disse ele, mal ganham uma moeda, vão para um café. O ca­fé embrutece quem freqüenta essas casas e os faz perderem o controle das suas faculdades mentais, a tal ponto que juram ouvir cachorros falarem e acreditam piamente no que eles dizem. E acrescenta que os que falam mal dele e da nossa religião, estes sim é que são uns cachorros!

Se vocês me permitem, gostaria de responder ao que o senhor pregador disse por último. Vocês certamente sabem que todos esses imãs, hodjas, hadjis e outros mercadores de preces têm sumo desprezo por nós, cachorros. Na minha opinião, essa má vontade remonta à atitude do nosso profeta Mao­mé, que cortou um pedaço da túnica para não acordar o gato que nela dor­mia. Fazendo valer esse carinho que o Profeta demonstrou para com os ga­tos, mas não, por acaso, também para conosco, cães, e dada a inimizade eterna que nos opõe a essas criaturas, cuja ingratidão é, de resto, reconheci­da até pelo último dos imbecis, alguns tentaram tirar a conclusão de que nos­so Profeta não gostava de cachorros. O resultado dessa interpretação, tão fa­laciosa quanto malevolente, é que nos vedam o acesso às mesquitas, a pretexto de não contaminar as abluções e que, desde há séculos, os bedéis que var­rem o pátio passam seu tempo nos escorraçando a vassouradas.

Permitam-me recordar-lhes uma das mais bonitas histórias do Livro, que está na surata da Caverna. Não é por desconfiar que entre os freqüentadores deste elegantíssimo café possa haver quem nunca leu o Corão que vou re­cordá-la, mas só para refrescar suas lembranças da escola corânica. A surata em questão conta a história de sete jovens cansados de viver entre os idóla­tras. Eles partem, pois, e em sua fuga entram numa caverna, onde caem no sono. Alá tapa-lhes os ouvidos e os faz dormirem trezentos e nove anos. Quan­do acordam, um deles, de volta entre os homens, compreende que todos aqueles anos passaram, porque, ao querer gastar uma moeda de prata que possui, descobre que ela não está mais em circulação. E os sete jovens ficam maravilhados ao saber do acontecido. Permitam-me humildemente recordar que essa admirável surata — a par de tecer as mais altas considerações sobre a milagrosa solicitude de Alá para com a espécie humana, sobre o tempo que passa e as delícias de um sono profundo — menciona um cão em seu versí­culo dezoito: ele estava deitado, de guarda, na entrada da caverna em que os jovens dormiam e que hoje se chama Gruta dos Sete Adormecidos. Nem to­do mundo pode se gabar de ser citado no Venerável Corão, mas os cães po­dem. Assim, os erzurumis, que vivem chamando seus desafetos de cachorros nojentos, fariam bem em se remeter, com a ajuda de Alá, a essa surata.

Então, qual a razão de tal animosidade para com os cães? Por que vocês nos relacionam à imundície, por que, quando um cão entra numa casa, vo­cês limpam meticulosamente tudo, do chão ao teto? Por que o contato co­nosco contamina as abluções rituais, por que, se alguma vez a ponta do man­to toca o pêlo de um cachorro molhado, é preciso lavá-lo sete vezes, como uma mulher histérica? Dizer que, “se um cachorro lambe uma panela, ou tem-se de jogá-la fora, ou tem-se de mandá-la estanhar de novo”, é uma imun­dície digna de um estanhador. Ou dos gatos, evidentemente.

Quando o homem renunciou a viver migrando na estepe para fixar-se nas cidades, os cães pastores permaneceram nas províncias, alimentando-se de carniça; foi então que as intrigas sobre a imundície dos cachorros come­çaram a se propagar. Antes do surgimento do islã, um dos doze meses era o mês do cão, mas agora o cão é de mau augúrio. Bem, meus caros amigos, como vocês vieram esta noite com o desejo de ouvir uma boa história e me­ditar sobre a sua moral, eu não gostaria de estragá-la aborrecendo-os com os meus problemas — aliás, para ser sincero, o que mais causa essa minha rai­va toda são os ataques que o estimado hodja desfere contra nossos cafés.

O que vocês pensariam se eu dissesse que Husret Hodja é um bastardo? Ah, já me responderam assim: “E você, o que é? Se você dá assim livre cur­so às suas cachorradas contra o pregador de Erzurum, é para proteger seu dono, o satirista, aquele que conta histórias a partir dos desenhos que prega no fundo de um café. Chispa! Fora!”. Mas, Alá me guarde, eu não estou denegrindo ninguém. Olhem, não me incomoda nem um pouco que o meu retrato tenha sido desenhado numa folha de papel barato como esta, nem que eu seja um pobre animal de quatro patas; o que eu lamento é não poder me sentar educadamente como um homem e tomar um café com vocês. Mesmo assim, nós, cães, estaríamos dispostos a morrer por essa bebida e por essas casas em que a servem... mas o que vejo? Não é que meu dono estende a cafeteira em minha direção e me oferece um café! Alguém já viu um dese­nho tomar café? Pois olhem! O cachorro está todo feliz bebendo café!

Ah, como faz bem! Aquece as tripas, aguça a vista, abre o espírito. Es­cutem só o que o café me fez lembrar: vocês sabem o que o doge de Veneza mandou à sultana Nurhayat, Luz da Vida de seu pai, nosso venerado Mes­tre, além de vários cortes de seda e um serviço de porcelana da China orna­da de flores azuis? Uma linda cadelinha francesa de pêlo mais macio do que a seda ou a zibelina! Parece que ela é tão delicada que precisa usar um coletinho de brocado vermelho. Soube disso por um dos meus amigos que a co­meu, e imaginem vocês que a safadinha nunca trepa nua! De resto, todos os cães, nesses países da Europa, usam indumentárias do mesmo tipo. Ouvi in­clusive dizer que, naquelas bandas, a mulher de um Grande de Veneza, ven­do um dia um cachorro sem roupa — vai ver que foi o troço dele que ela viu, não sei direito —, desmaiou exclamando: “Meu Deus, o cachorro está nu!”.

Nas terras dos francos infiéis, os tais de europeus, todos os cães têm do­no. Os coitados são acorrentados pelo pescoço como os mais vis escravos e levados a passear pelas ruas, sozinhos, um a um. Essa gente até força os po­bres bichos a entrar nas casas e os leva consigo para a cama. Os cachorros não podem andar uns com os outros, muito menos ainda cheirarem-se e se enrabarem. Quando se cruzam na rua, de coleira, o máximo que conseguem, em seu lamentável estado, é trocar um olhar de cachorro surrado. Que aqui, em Istambul, nossa trupe se divirta livremente em pequenos grupos, impe­çam a passagem ameaçando quem bem lhes parece, ou que cada um de nós role à vontade num canto mais ensolarado, deite à sombra para dormir co­mo um bem-aventurado, faça suas necessidades onde bem entender e morda quem quiser, são coisas da mais extrema estranheza para esses horríveis infiéis. Não consigo deixar de pensar que é talvez por isso que os partidários do hodja de Erzurum se insurgem contra a prática de jogar um pedaço de carne para os cães vadios, dizendo uma prece, em troca de um favor de Alá, e propõem em vez disso, à guisa de caridade eficaz, o estabelecimento de fundações pias. Se eles pretendem nos tratar como inimigos e fazer de nós uns infiéis, é bom lembrar-lhes que ser inimigo dos cachorros e ser infiel são uma só e mesma coisa. Aliás, quando esses pilantras subirem no cadafalso, espero que dentro em breve, conto firmemente com que nossos amigos car­rascos nos convidem a comer uns pedaços deles, como às vezes acontece pa­ra servir de exemplo.

Para terminar, gostaria de dizer uma coisa. Meu dono anterior era um homem muito justo. Quando saíamos de noite para assaltar, dividíamos o trabalho: eu latia, ele degolava a vítima. Assim, não dava para ouvir os gritos do sujeito. Em paga pela minha colaboração, depois de acertar as contas com o calhorda ele o cortava em pedaços, cozinhava, depois dava para eu comer. É que eu não gosto de carne crua. Queira Alá que o carrasco que se encarre­gar do pregador de Erzurum também leve esse meu gosto em conta, pois não quero arrebentar meu estômago com a carne crua desse pilantra.

4. Serei chamado Assassino

Se tivessem me dito, mesmo um segundo antes que eu acabasse com aquele imbecil, que um dia eu tiraria a vida de alguém, não teria acredita­do. E por isso que, sem dúvida, o ato que consumei parece se distanciar pou­co a pouco de mim, como um navio estrangeiro que desaparece além da li­nha do horizonte. Às vezes, até, parece-me não ter cometido crime algum. Faz quatro dias que, sem ter premeditado, tive de eliminar o pobre Elegan­te, que era um irmão para mim, e só agora começo a me acostumar, até cer­to ponto, com a situação.

Eu teria preferido resolver o espinhoso problema que se apresentou de repente sem precisar matar ninguém, mas logo vi que não havia alternativa. Resolvi rapidamente o assunto, portanto, e assumo a inteira responsabilida­de por isso. Não ia deixar aquele caluniador estúpido pôr toda a comunida­de dos pintores em maus lençóis.

Apesar disso, é difícil acostumar-se à condição de assassino. Não suporto ficar em casa. E, quando saio, não agüento ficar na minha rua, vou para outra, e para outra, sem parar; quando olho para os passantes, percebo muito bem que vários deles se crêem inocentes, mas pela simples razão de que a oportunidade de cometer um crime ainda não se apresentou. E difícil acreditar que a maioria das pessoas tem maior estofo moral ou mais bondade do que eu por causa dessa simples virada do destino. No máximo, o fato de ain­da não ter perpetrado um crime lhes proporciona um ar um pouco mais es­túpido e, como todos os estúpidos, eles parecem bem-intencionados. Basta­ram-me quatro dias perambulando pelas ruas de Istambul para compreender que todos aqueles cujos olhos refletem um brilho de inteligência ou que tra­zem no rosto a sombra da sua alma são assassinos em potencial. Só os idiotas são verdadeiramente inocentes.

Esta noite, por exemplo, enquanto eu me aquecia tomando um café atrás do Mercado de Escravos e gargalhava com os outros ao ouvir a história do cachorro cujo retrato víamos pendurado na parede do fundo, tive a sen­sação de que um dos homens sentados ao meu lado era um assassino como eu. Ele também ria das palavras do satirista, mas, seja por certa proximidade fraterna, estando seu braço encostado ao meu, seja por causa da agitação nervosa dos seus dedos apertando a xícara de café, decidi que ele devia ser da mesma espécie que eu e me virei para fitá-lo com atenção. Ele ficou ime­diatamente perturbado, vermelho. Quando o café ia fechar, outro que o co­nhecia agarrou-o pelo braço e lhe disse: “A gente do Nusret Hodja na certa vai acabar aparecendo por aqui”.

Meu vizinho de mesa fez-lhe sinal para calar-se, alteando as sobrance­lhas. O medo deles me contaminou. Ninguém confiava em ninguém, cada um esperava ser morto a qualquer momento pela pessoa que estava sentada ao seu lado.

Esfriou ainda mais, a neve se acumulava nas esquinas e ao pé das pare­des. Na cegueira da noite, meu corpo encontrava intuitivamente seu cami­nho pelas ruelas estreitas. Às vezes, a luz pálida de uma vela ainda acesa fil­trava-se pelas janelas às escuras, fechadas com pesados contraventos, e se refletia do lado de fora, nos montes de neve; mas a maior parte do tempo eu não via nada e só identificava meu caminho prestando atenção ao barulho das pedras batidas pelo bastão dos vigias noturnos, aos uivos dos bandos de cachorros furiosos e aos gemidos no interior das casas. Às vezes, no meio da noite, parecia que era a claridade sobrenatural da neve que iluminava os si­nistros bairros pobres da cidade e, na penumbra, eu acreditava perceber os fantasmas que assombram, há séculos, os terrenos baldios de Istambul, suas ruínas hirsutas e seus arbustos magros. Às vezes, ouvia também as queixas dos miseráveis, pobres coitados que tossem, que fungam, que choramingam e que berram em seu sono dominado por pesadelos; ou casais que se atiram um sobre o outro para se estrangular, os filhos soluçando a seus pés.

Para me divertir um pouco, para me lembrar da minha felicidade antes de me tornar um assassino, fui então a esse cabaré uma ou duas noites segui­das, para ouvir o satirista. A maioria dos meus irmãos artistas passa ali a me­lhor parte das suas noitadas. Mas desde que massacrei aquele idiota, com quem pintei lado a lado desde a nossa infância, não quero mais vê-los. Há muitas coisas que me incomodam na maneira de viver dos meus colegas, in­capazes de ficar um segundo sem fazer mexericos, e na atmosfera daquele lugar, saturada de uma alegria suspeita. Para que eles não me acusassem de arrogante e preconceituoso, também fiz um ou dois desenhos para o conta­dor de histórias, mas não creio que isso tenha bastado para aplacar a inveja que sentem de mim.

Devo confessar que eles têm o que invejar: na combinação das cores, nas molduras e margens traçadas à régua, na composição da página, na escolha do tema, no desenho dos rostos, na disposição das cenas de guerra ou caçada, na pintura dos bichos, dos sultões, dos navios, dos cavalos, dos guerreiros ou dos amantes, não tenho igual. Ninguém tampouco é capaz de reproduzir nas ilustrações, como eu, toda a alma da poesia, nem me supera nas iluminuras. Se lhes digo isso, não é para me gabar, mas simplesmente para que vocês en­tendam. Com o tempo, a inveja dos rivais se torna um elemento tão indispensável na vida de um mestre pintor quanto a própria pintura.

No meio das minhas errâncias, que se ampliam à medida que fico mais inquieto, às vezes dou de cara com um dos meus irmãos de religião, um des­ses que ainda é perfeitamente puro e inocente, e esta idéia terrível aflige a minha mente: se eu me puser a pensar que sou um assassino, a pessoa que está diante de mim lerá isso no meu rosto.

É por isso que me esforço em pensar em outras coisas; exatamente co­mo, adolescente, eu me proibia, com mais ou menos êxito, e cheio de ver­gonha, de pensar nas mulheres fazendo suas preces. Mas se na época daque­las obsessões juvenis eu não conseguia tirar a fornicação da cabeça, hoje até consigo esquecer o crime que cometi.




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   45


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal