Meu nome é Vermelho



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“Agora escute”, disse a Hayriye brandindo sem querer a faca de cortar peixe. “Esse demônio maldito também saqueou o ateliê de cima, que está no mesmo estado deste aqui. Tudo de pernas para o ar. Foi lá em cima que arrebentaram o rosto e o crânio do meu pai, que o assassinaram. Resolvi des­cê-lo aqui para que as crianças não o vissem e que você não se assustasse quando chegasse. Enquanto vocês estavam fora, eu também saí. Meu pai es­tava sozinho em casa.”

“Não diga”, fez ela com insolência. “E onde a senhora estava?”

Calei-me. Eu queria que ela percebesse nitidamente que eu marcava um silêncio. Depois prossegui: “Eu estava com o Negro. Fui encontrá-lo na casa do judeu enforcado. Mas você vai me fazer o favor de calar a boca a es­se respeito e sobre a morte do meu pai, por enquanto”.

“Quem o assassinou?”

Será que ela era tão idiota assim ou estava querendo me pôr contra a parede?

“Se eu soubesse, não esconderia a morte dele. Não tenho a menor idéia. E você?”

“Como eu poderia saber alguma coisa?”, replicou. “O que vamos fazer agora?”

“Vamos fazer como se nada houvesse acontecido”, respondi. Eu tinha vontade de chorar, de arrebentar em soluços, mas consegui me conter. Fica­mos um bom tempo silenciosas as duas, e por fim eu lhe disse:

“Esqueça o peixe por enquanto e prepare uma bandeja para as crianças.”

Ela disse que não se sentia capaz e desatou a chorar. Então eu a abracei e ficamos assim abraçadas. Nesse instante, eu a amava também, porque eu tinha dó de nós todos, não só de mim ou das crianças. Mas ao mesmo tem­po eu me sentia pouco a pouco roída pela dúvida. Vocês sabem onde eu es­tava na hora em que meu pai foi assassinado. Vocês sabem que fui eu que, tendo em vista meus interesses, fiz Hayriye e as crianças saírem de casa. Vo­cês sabem que o fato de meu pai ter ficado sozinho não passa de um golpe do destino. Mas e Hayriye, também sabe? Terá entendido direito minhas ex­plicações? Claro que sim, não só entendeu rapidamente como ficou descon­fiada. Apertei-a com mais força; mas eu sabia que em sua cabeça de criada ela devia pensar que eu estava fazendo aquilo para encobrir minhas maqui­nações, e não demorou muito para eu mesma me sentir como se estivesse tentando tapeá-la. Enquanto meu pai era assassinado aqui, eu e o Negro es­távamos namorando. Se fosse apenas Hayriye a saber disso, eu não me senti­ria tão culpada, mas desconfio que vocês também podem estar imaginando coisas. Vamos, reconheçam: vocês acham que estou escondendo algo! Ai, como sou infeliz! Comecei a chorar a minha sorte, Hayriye também pôs-se a chorar, e nos apertamos novamente uma contra a outra.

Levamos a comida para cima e fingi ter apetite. De vez em quando, a pretexto de “ir ver como estava o avô”, entrava no outro quarto para dar va­zão às minhas lágrimas. Mais tarde, com medo e muito agitadas, as crianças vieram para a cama, deitar-se bem juntinho de mim. Demoraram para dor­mir, por causa dos djins, diziam, e não paravam de ouvir barulhos suspeitos, de se virar para um lado e para o outro. Para acalmá-los, prometi contar-lhes uma história de amor. Como vocês sabem, as palavras criam asas no escuro.

“Mamãe, você não vai se casar de novo, não é?”, perguntou Shevket.

“Escutem. Era uma vez um príncipe que se apaixonou por uma bela princesa, de um país muito distante. Como isso pôde acontecer? Pois bem, foi assim: antes de vê-la, ele tinha visto o retrato dela!”

Como sempre, quando estou triste e inquieta, não contei a história de cor, mas improvisando de acordo com o que eu sentia. E como eu escolhia na paleta das minhas lembranças e das minhas preocupações as cores para a história que eu contava, ela acabava se tornando uma espécie de ilustração melancólica de tudo o que acontecia comigo. Quando meus dois meninos adormeceram, deixei-os na cama quentinha e fui com Hayriye consertar o estrago que aquele cão dos infernos tinha feito. Enquanto catávamos no chão os destroços de estojos, livros e roupas, os potes, os tinteiros, as vasilhas e os vasos quebrados; enquanto arrumávamos as mesas de trabalho, as caixas de pigmentos e todos aqueles papéis raivosamente rasgados, mal parávamos para chorar. Era como se o ateliê saqueado, todo o nosso interior selvagemente devastado nos doessem mais que a morte de meu pai. Posso dizer por expe­riência própria que a perda de um ente querido parece menos irreparável quando podemos encontrar, no seu lugar costumeiro, os objetos que lhe são associados. As mesmas cortinas, as mesmas colchas, a mesma luz dos dias que passam nos consolam e nos fazem esquecer os próximos que Azrail le­vou. Esta casa de que meu pai tanto cuidara, em que cada cantinho, cada porta fora objeto de uma atenção meticulosa, parecia agora um campo de ruínas. E não era apenas um espetáculo de absoluta desolação, sem nada pa­ra aliviar nossa tristeza, mas uma visão aterrorizante que deixava entrever, por trás daquele furor, uma crueldade infernal.

Tive de insistir para que descêssemos para buscar água no poço, a fim de praticar nossas abluções. Depois pegamos o Corão preferido do meu pai, encadernado em Herat, e recitamos juntas a surata da Família de Imran, de que ele tanto gostava porque fala da morte e da esperança. O portão do pá­tio rangeu nesse momento, o que nos fez sobressaltar de pavor. Não era na­da. Fomos pôr no lugar a barra do portão e empurrar contra ele o vaso de manjericão que, na primavera, meu pai costumava regar com a água que ele mesmo tirava do nosso poço. Ao voltarmos para casa, já era noite escura e achamos que as sombras projetadas na parede não eram as nossas. O mais aterrador era a sensação de irreparável: que não havia mais nada a fazer, já que meu pai estava de fato morto dessa vez, além de realizarmos, Hayriye e eu, nossos últimos deveres para com o defunto. Aplicamo-nos então, quase mudas — não fosse Hayriye murmurar “Passe esta manga por baixo” —, à horrível tarefa de lavar seu rosto e trocar suas roupas.

Quando tiramos seus trajes todo ensangüentados, depois sua roupa de baixo, o que nos impressionou e nos surpreendeu foi que, à luz da vela, na escuridão do quarto, meu pai tinha a pele branquíssima, clara, mas como que ainda viva. Apavoradas como estávamos as duas com tudo o que nos ameaçava, em nenhum momento nos sentimos constrangidas, embaraçadas com o cadáver nu de meu pai, coberto de cicatrizes e de pintas.

Enquanto Hayriye estava no andar de cima, buscando outra camisa, a verde de seda, e roupas de baixo, não pude me impedir de olhar para um ponto preciso do meu pobre pai, e me envergonhei do que fazia. Quando terminei de vesti-lo com roupas limpas e de lavar as manchas de sangue em seus cabelos, em seu pescoço, em seu rosto, abracei-o com toda a minha força e, enterrando meu nariz na sua barba, aspirei seu aroma e chorei longa­mente.

Para os que me acusassem de não ter coração ou de ser em parte culpa­da apresso-me a esclarecer que chorei mais duas vezes: a primeira quando, arrumando o quarto de cima para que as crianças não se dessem conta de nada, levei ao ouvido a concha que tenho desde pequena e percebi que ela só produzia um som rouco, em vez do ruído do mar; a segunda quando vi que a almofada de veludo vermelho, na qual meu pai sentou-se por mais de vinte anos, a ponto de ela se tornar como que uma parte das suas nádegas, estava toda rasgada.

À parte a esteira de junco, que tivemos de jogar fora, arrumei tudo co­mo antes. E quando Hayriye me perguntou se ela podia fazer, naquela noi­te, sua cama no mesmo quarto que eu e as crianças, recusei sem piedade, di­zendo que as crianças não podiam desconfiar do que quer que fosse. Na realidade, eu queria ficar a sós com eles e dar a ela uma lição. Deitei-me na cama, mas levei muito tempo para pregar os olhos. Mas não era por causa da horrível desgraça que acabava de me acontecer, e sim porque eu já cal­culava as conseqüências.

31. Meu nome é Vermelho

Eu estava em Ghazna, no cafetã do poeta Firdusi, autor do Livro dos reis, quando ele completou com a mais intrincada das rimas um epigrama de que tinham lhe dado os primeiros versos, calando assim a boca dos poe­tas da corte do xá Mahmud, que haviam debochado dele chamando-o de rús­tico; eu estava na aljava de Rustam, o valente herói do Livro dos reis, quan­do ele segue as pegadas do seu cavalo perdido até as terras mais distantes; tornei-me o sangue que esguicha do célebre demônio branco, quando Rus­tam o racha no meio com sua espada maravilhosa; e estava nas dobras dos lençóis entre os quais ele faz furiosamente amor com a filha do seu anfitrião, o rei de Turã. Sim, eu estava e estou em toda parte, sempre. Apareço quan­do Tur, o traidor, decapita seu irmão Iradj; quando os exércitos lendários, como num sonho, se enfrentam nas estepes; e no sangue que escorre cinti­lante do belo nariz de Alexandre, quando ele adoece de insolação. E quan­do xá Bahram, o rei-onagro sassânida que dormia cada noite da semana com uma das suas concubinas, ouvindo as histórias que elas contavam, num dos seus sete palácios pintados de cada uma das sete cores, visita a beldade das terças-feiras, por cujo retrato se apaixonara, lá estou nos trajes da bela, assim como apareço na coroa e no cafetã de Khosrow, que se apaixonara pelo retrato de Shirin; e nos estandartes dos exércitos que sitiam uma praça-forte; nas toalhas que cobrem as mesas dos banquetes, nos cafetãs de brocado, quan­do os embaixadores vêm beijar os pés dos nossos sultões, e onde quer que a espada, para alegria das crianças, irrompe no meio de uma história. Sim, es­tou no pincel dos formosos aprendizes de olhos amendoados, que me pas­sam, admirando-me, no grosso papel do Hindustão e de Bukhara; embelezo os tapetes indianos, a ornamentação das paredes, as túnicas das moças que se debruçam em suas sacadas sobre o espetáculo da rua, a crista dos galos bravios, as romãs e as frutas de países fabulosos, a boca de Satanás, os finos galões em torno das miniaturas, os motivos entrelaçados dos panos bordados das tendas, o emaranhado de flores minúsculas, apenas visíveis, em que o iluminador se deleitou, os olhos de cereja confeitada dos passarinhos de açú­car; e as perneiras dos pastores, as auroras narradas nas lendas, os ferimentos e os milhares, as dezenas de milhares de corpos de guerreiros, de namorados e de soberanos. Gosto de florir com flores de sangue a cena dos campos de batalha; aparecer no cafetã de um grande poeta quando ele sai, em compa­nhia de poetas e de belos efebos, para um passeio no campo, onde cantarão e tomarão vinho; nas asas dos anjos, nos lábios das mulheres, nas chagas dos cadáveres e nas cabeças cortadas.

Ouço a pergunta de vocês: o que é uma cor?

A cor é o toque do olho, a música do surdo, a palavra que vem das tre­vas. Como tenho ouvido há dezenas de milhares de anos as almas sussurra­rem, como o vento nas noites de tempestade, de livro em livro, de objeto em objeto, posso lhes dizer que meu toque se parece com o toque dos anjos. Uma parte minha, a parte séria, mobiliza a vossa visão, enquanto a parte brin­calhona voa nas alturas, seguida por vossos olhares.

Que sorte tenho de ser o Vermelho! Sou o fogo, sou a força! Todos me notam e me admiram, e ninguém resiste a mim.

Devo ser franco: para mim, o refinamento não se esconde na fraqueza nem na sutileza, mas reside na firmeza e na determinação. Eu me exponho, pois, aos olhares. Não tenho medo nem das cores nem das sombras; menos ainda da multidão ou da solidão. Que prazer tenho ao pegar uma superfície oferecida ao meu ardente triunfo: eu a encho, expando-me nela; os corações se embalam, o desejo aumenta, os olhos se arregalam e todos os olhares brilham! Olhem para mim: é bom viver! Vejam como é bom ver! Viver é ver. Podem me ver em toda parte, creiam: a vida começa e se acaba sempre co­migo.

Mas silêncio! Ouçam o relato do meu maravilhoso nascimento, a ori­gem do escarlate! Um mestre miniaturista, perito em pigmentos, esmagou bem miúdo com seu pilão, num almofariz, cochonilhas importadas de lon­gínquas e tórridas paragens do Hindustão. Para cinco dracmas desse pó ver­melho, preparou um dracma de saponária e meio — só meio! — de aventurina. Ferveu a saponária num pote com três okkas de água, depois dissolveu no líquido a aventurina. Deixou fervendo o tempo de tomar um bom café e enquanto o saboreava, eu me impacientava, como um bebê que vai vir à luz! O café clareou-lhe a mente, seus olhos cintilavam como os de um djim. Ele derramou então na panela o fino pó de cochonilha, mexendo regularmente com um pauzinho reservado para esse fim. Eu ia me tornar o autêntico vermelho-carmim, mas faltava-me ainda uma boa consistência, e a mistura não devia ferver nem de mais, nem de menos. Com a ponta do pauzinho, pôs uma gota na unha do polegar — qualquer outro dedo seria absolutamente inaceitável. Que êxtase ser o Vermelho! Pintei graciosamente sua unha, sem nenhum escorrido: a consistência estava perfeita, mas ainda restavam sedi­mentos. Ele tirou a panela do fogo e passou o conteúdo num pano bem fino e bem limpo para me purificar mais ainda. Levou-me novamente ao fogo para ferver mais duas vezes, depois acrescentou uma pitada de alúmen, an­tes de me pôr para esfriar.

Passaram-se alguns dias, e eu continuava descansando no fundo da pa­nela, sem ser misturado a nada mais. Ora, eu estava ansioso para que me pas­sassem em cada canto de página, em tudo e em toda parte. Ficar quieto as­sim doía no meu coração e no meu espírito. Foi durante esse período de profundo silêncio que meditei sobre o significado de ser vermelho.

Uma vez, na Ásia Central, quando um belo aprendiz me passava com seu pincel na sela de um cavalo que um velho pintor cego desenhara de me­mória, surpreendi a animada discussão que dois pintores, também cegos, tra­vavam a meu respeito:

“Embora, após toda uma vida de trabalho ardorosamente devotada a nossa arte, estejamos privados do sentido da visão, nós conhecemos o verme­lho e lembramos que tipo de cor e de sentimento ele é”, dizia o que havia desenhado o cavalo na folha de papel. “E se tivéssemos nascido cegos? Co­mo teríamos podido compreender esse vermelho que nosso formoso apren­diz está usando?”

“Belo tema”, disse o outro, “mas não se esqueça que as cores não são pa­ra ser compreendidas, e sim sentidas.”

“Caro mestre, procure então explicar o vermelho a quem nunca conhe­ceu o vermelho.”

“Se o tocarmos com a ponta dos dedos, sentiremos algo entre o cobre e o ferro. Se o puséssemos na palma da mão, ele queimaria. Se o provássemos, teria um gosto encorpado, como charque salgado. Se o colocássemos entre nossos lábios, ele encheria nossa boca. Se o cheirássemos, teria um cheiro de cavalo. Se fosse uma flor, teria um aroma que lembraria muito mais a margarida do que a rosa.”

Na época (cem anos atrás), a pintura dos europeus ainda não era uma verdadeira ameaça, salvo algum capricho excepcional e passageiro de um dos nossos sultões, e nossos mestres lendários acreditavam em seus métodos tão fervorosamente quanto em Alá, considerando um desrespeito e uma vul­garidade o uso idiota que aqueles bárbaros faziam das nuances de diversos vermelhos nas carnes e nos ferimentos à espada, e até num simples saco de pano, em suas pinturas de infiéis. Só mesmo um bárbaro medroso, fraco e volúvel podia reunir vários vermelhos num manto vermelho, diziam eles. E as sombras, acrescentavam, não passam de péssima desculpa. De resto, só acreditávamos num único vermelho.

“Qual o significado do vermelho?”, voltou a perguntar o pintor cego que havia desenhado o cavalo.

“O significado da cor é que ela está diante de nós e nós a vemos”, res­pondeu o outro. “O vermelho não pode ser explicado a quem não vê.”

“Para negar a existência de Alá, as vítimas de Satanás sustentam que Alá não é visível para nós”, replicou o miniaturista cego que havia desenhado o cavalo.

“Mas ele aparece para os que podem ver”, disse o outro mestre. “É por isso que o Corão diz que os cegos e os videntes não são iguais.”

Enquanto isso, o aprendiz tinha me aplicado suavemente nas compli­cadas volutas da manta do cavalo. Que maravilhosa sensação fixar minha plenitude, minha força e meu vigor no negro e no branco de uma ilustração bem-feita! O belo mancebo me espalhava pela página à minha espera, e seu pincel de pêlo de gato me fazia deliciosas cócegas. Transmitir minha cor à pintura era como se eu ordenasse: “Faça-se o mundo!”. E o mundo nascesse das minhas entranhas. Sim, os cegos me renegarão, mas a verdade é que es­tou em toda parte.
32. Eu, Shekure

As crianças ainda dormiam quando me levantei para escrever um bilhe­te ao Negro, pedindo-lhe que fosse depressa à casa do judeu enforcado; de­pois disse a Hayriye, apertando com força o papel na mão dela, que fosse cor­rendo levá-lo a Ester. Ao pegar a carta, Hayriye olhou-me nos olhos com mais ousadia que de costume, apesar de sem dúvida recear o que poderia nos acon­tecer; e eu, que não tinha mais meu pai a temer, respondi ao seu olhar com uma ousadia que acabava de redescobrir em mim. Essa troca de olhares de­terminaria o tom da nossa relação dali em diante. Devo dizer que nos últi­mos dois anos eu temia que Hayriye tivesse um filho com meu pai e que, en­tão, esquecendo-se de que não passava de uma serviçal, manobrasse para se tornar a dona da casa. Sem acordar as crianças, fui ver meu pobre pai e bei­jar sua mão, já rígida, mas que, estranhamente, ainda não havia perdido a maciez. Guardei seus sapatos, seu turbante, seu xale roxo e, quando fui acor­dar as crianças, disse-lhes que o avô estava melhor e que tinha saído cedinho para o bairro de Mustafá Paxá.

Hayriye voltou por fim da sua excursão matinal e, enquanto punha a mesa baixa para o café-da-manhã, botando no meio a geléia de laranja que ela havia misturado para ficar mais apresentável, eu me dizia que naquele instante Ester já devia estar batendo na porta do Negro. A neve tinha parado de cair e o sol brilhava.

O mesmo espetáculo me aguardava quando entrei no jardim da casa do judeu enforcado: os compridos pedaços de gelo pendurados na beira do te­lhado e das janelas derretiam à vista de olhos, e a terra do jardim, recenden­do a umidade e folhas em decomposição, parecia fartar-se voluptuosamente dos raios do sol. Encontrei o Negro no lugar em que eu o havia reencontra­do pela primeira vez, na véspera — mas era como se uma semana inteira houvesse passado —, e lhe disse, erguendo meu véu:

“Pode se alegrar, agora, se quiser. Não temos mais meu pai, com suas objeções e suspeitas permanentes para servir de obstáculo entre nós. Ontem à noite, na mesma hora em que você tentava se portar tão indignamente co­migo, alguém, na certa algum demônio, entrou lá em casa e assassinou-o.”

Mais que a reação do Negro, vocês sem dúvida estão curiosos por saber por que eu adotava com ele esse tom impassível e distante. Eu mesma não saberia lhes responder. Mas, se tivesse me debulhado em lágrimas, o Negro certamente teria me abraçado, o que teria nos aproximado mais depressa do que eu gostaria.

“A casa está de pernas para o ar, uma porção de coisas foram quebradas, dá para ver que se tratava de alguém que deu vazão a todo o seu ódio e rai­va. Aliás, não acredito que esse demônio tenha terminado sua obra e que ago­ra vá ficar sossegado no seu canto. Ele roubou a última miniatura do livro do meu pai. Eu queria que você nos protegesse, a mim, a nós, e ao livro do meu pai; mas a que título, com que direito, diga-me? É o que temos de re­solver.”

Ele fez menção de responder, mas eu o detive com um olhar, como se já tivesse feito isso um sem-número de vezes antes.

“Agora que meu pai morreu, torno a ficar dependente do meu marido e da família do meu marido. Aliás, era o que acontecia antes, porque, para o juiz, meu marido continua vivo. Não sendo oficialmente viúva, só pude vol­tar para a casa do meu pai porque meu cunhado tentou abusar de mim du­rante a ausência do irmão, e essa sua grosseria — ou desconsideração — dei­xou meu sogro numa situação constrangedora. Agora, dada a morte do meu pai e não tendo irmãos, vejo-me de fato sem tutor. Ou melhor, não, porque não há a menor dúvida de que meu cunhado e meu sogro são meus tutores. Você sabe, por sinal, que eles já tinham se decidido a fazer tudo para me levar de volta para a casa deles, se preciso fosse pressionando meu pai e me ameaçando. Assim que ficarem sabendo da morte do meu pai, não hesitarão em tomar alguma medida oficial. Aliás, talvez eu até me engane, se acredito escondê-la deles: podem ser perfeitamente eles os mandantes do assassinato.”

Nesse preciso instante, por entre as janelas caídas e os vidros quebrados da casa do judeu, um raio de sol veio se insinuar entre o Negro e eu, e ilu­minar delicadamente a antiga poeira daquele cômodo em que estávamos.

“Mas não é essa a única razão que tenho para manter oculta a morte do meu pai”, prossegui olhando-o nos olhos, o que me permitiu constatar com satisfação que ele estava mais atento às palavras da sua amante do que louca­mente apaixonado por ela, “porque temo não poder provar onde eu estava na hora em que o mataram. Temo também que Hayriye — embora seu de­poimento, criada que é, não tenha nenhum peso — faça parte de um com­plô dirigido, se não contra mim, contra o livro do meu pai. Embora o fato de eu não ter mais um tutor facilite as coisas para mim, de início — por exem­plo, eu mesma posso declarar que meu pai foi assassinado e fazer que o juiz reconheça o crime —, também pode causar minha desgraça, e não só pelos motivos de que já expus: e se Hayriye souber, por exemplo, que meu pai se opunha ao nosso casamento?”

“Seu pai não queria que você se casasse comigo?”, perguntou o Negro.

“Não, ele não queria, porque, como você sabe, temia que você me le­vasse para morar longe dele. Mas nessa nova situação, agora que você não pode mais fazer essa maldade com ele, podemos considerar que meu pobre paizinho não tem mais objeção nenhuma a fazer... E você, tem?”

“Não, querida, nenhuma.”

“Ótimo. Naturalmente, meu tutor não reclama de você nenhuma so­ma em dinheiro, pois não tenho mais tutor... Peço desculpas por essa manei­ra vulgar de estipular as condições desse casamento em meu próprio nome, mas é que existem de fato certas condições de cujos detalhes sou obrigada a tratar.”

“Sim?”, disse o Negro depois de me fazer esperar um bom momento, mas como se desculpando pela demora.

“Primeiro”, comecei, “você vai ter de prometer diante de duas testemunhas que, se alguma vez se comportar mal comigo, de uma maneira que eu achar insuportável, ou se você se casar com outra depois de mim, serei por esse simples fato considerada separada de corpo de você e receberei uma pensão alimentar. Segundo, se, qualquer que seja a razão, você se ausentar de casa por mais de seis meses consecutivos, também serei considerada se­parada de corpo e terei direito a uma pensão. Tudo isso, repito, será objeto de uma promessa feita diante de duas testemunhas. Terceiro, uma vez casa­dos, ficará estipulado que você virá morar na minha casa mas que, enquanto não descobrirem, ou enquanto você não descobrir, o assassino do meu pai — quisera eu torturá-lo com minhas próprias mãos! — e enquanto a obra encomendada por Nosso Sultão, que você tratará de concluir cuidadosamen­te, não tiver sido solenemente entregue a ele, dormiremos em quartos sepa­rados. Quarto, você terá de amar como se fossem seus os meus dois filhos que, enquanto isso, continuarão dormindo comigo.”

“Concordo.”

“Ótimo. Se todos os obstáculos ao nosso casamento puderem ser des­cartados sem demora, logo seremos marido e mulher.”

“Marido e mulher, mas não na mesma cama.”

“O essencial é nos casarmos”, respondi. “Tratemos primeiro disso. O amor vem depois do casamento. Não se esqueça do seguinte: quando o fogo do amor nos devora antes do casamento, o casamento vem apagá-lo e não deixa mais que um triste amontoado de cinzas, enquanto o amor que nasce depois do casamento também acaba se apagando, mas para ceder lugar à fe­licidade. Apesar disso, há uns imbecis que se apaixonam antes e que lançam em vão seu amor nas chamas. Isso tudo por quê? Porque imaginam que o amor é o que há de melhor na vida.”

“Se não é ele, o que é?”




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