Meu nome é Vermelho



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“A felicidade, ora! O amor, assim como o casamento, nos ajuda a alcan­çá-la: é para isso que servem um marido, uma casa, filhos, um livro. Você não vê que mesmo a minha situação, eu, que perdi um depois do outro, o marido e o pai, é preferível a essa sua solidão? Se eu não tivesse meus filhos, com os quais passo o dia rindo, brigando e mimando, eu me mataria já! Por fim, já que você me aceita com todas essas condições e que parece sincera­mente afeito à idéia de vir morar aqui, mesmo sem dormir na mesma cama que eu, mesmo sendo obrigado a compartilhar este teto com o cadáver do meu pai e meus dois diabinhos, peço que ouça com atenção o que vou dizer agora.”

“Estou ouvindo.”

“Há várias maneiras de obter o divórcio. Por exemplo, encontrar duas pessoas que prestem falso testemunho, jurando que antes de ir para a guerra meu marido teria afirmado que, se ele não voltasse em dois anos, eu não de­via mais ser tida como sua esposa. Ou, melhor ainda, testemunhas oculares que contassem ter visto seu cadáver no campo de batalha, dando detalhes abundantes e convincentes. Mas, levando-se em conta que já temos um ca­dáver aqui em casa e todas as objeções que meu sogro e meu cunhado não deixarão de fazer, um falso testemunho pode sair pior que a encomenda, por­que um juiz sensato e hábil não se arriscaria a lhe dar seu aval. A ausência comprovada do meu marido nestes quatro anos, sem me pagar pensão ali­mentar, não será o bastante para os juizes do rito hanafita, que nós observa­mos, me concederem a separação de corpo. Mas o juiz de Uskudar, com o consentimento tácito do Nosso Sultão — e o Grão-Mufti também fecha os olhos, parece —, para que o número crescente de mulheres na minha situa­ção possa obter a separação de corpo, de vez em quando cede seu lugar a um dos substitutos, do rito xafiita, que concede discretamente o divórcio, além da pensão alimentar. Se você arranjar dois homens dispostos a testemunhar, de forma perfeitamente sincera, sobre a minha situação atual e gratificá-los para que eles te acompanhem até o outro lado do Bósforo; se você obtiver as boas graças do juiz, para que ele ceda o lugar ao substituto pelo tempo ne­cessário deste pronunciar minha separação de corpo dando fé àqueles dois, e conseguir imediatamente um documento atestando a sentença, antes mes­mo que ele inscreva sua decisão no registro; se, logo em seguida, você provi­denciar também um certificado de não-consangüinidade que te permita ca­sar comigo e der um jeito de resolver tudo isso na mesma manhã, de modo a voltar de Uskudar antes do meio-dia, considerando que não vai ser difícil encontrar um imã que nos case nessa mesma tarde, de noite você já poderá morar comigo e meus filhos, como pai de família, e me poupará passar a noi­te sozinha, no meio dos barulhos assustadores desta casa, com medo da vol­ta desse assassino diabólico, e evitará ao mesmo tempo que, quando de ma­nhã dermos a notícia da morte do meu pai, eu me encontre diante de todo o mundo na miserável situação de uma mulher desamparada.”

“Sim”, respondeu-me então o Negro, com um ar meigo e quase infan­til. “Sim, eu te aceito como esposa.”

Eu disse, há pouco, que ignorava por que falava assim com o Negro nesse tom superior e distante. Agora já sei: sentia que só assumindo esse tom eu poderia convencer o Negro — que ainda precisava superar o caráter hesi­tante que tinha na infância — a cumprir todas essas condições que eu mes­ma tinha dificuldade de crer que pudessem se realizar.

“Ainda temos muito a fazer contra os que vão contestar a validade desse casamento, mesmo depois de celebrado, queira Alá, amanhã à noite, contra os malvados que tramam contra o livro do meu pai e contra nossos inimigos em geral, mas não quero perturbar seu espírito, porque ele está ainda mais confuso que o meu.”

“Seu espírito não está nada confuso”, replicou o Negro.

“Pode ser, mas não são idéias minhas, e sim coisas que aprendi com meu pai de tanto ouvi-lo falar nelas”, corrigi, para que ele não perdesse a confian­ça, pensando que aquilo tudo tinha saído da cabeça de uma mulher.

O Negro me disse então o que todos os homens dizem quando se en­contram diante de uma mulher cuja inteligência admiram:

“Você é linda.”

“Sim”, falei, “e gosto que elogiem minha inteligência. Quando eu era pequena, meu pai a elogiava o tempo todo.”

Ia acrescentar que, ao crescer e virar mulher, não havia mais ouvido de meu pai esse elogio, mas pus-me a chorar. E, ao chorar, sentia como se esti­vesse me separando de mim e tornando-me outra mulher, totalmente dife­rente. Como o leitor que fica perturbado com uma imagem triste que vê nas páginas de um livro, eu via como que de fora as páginas viradas da minha vi­da e o que eu via nelas me causava uma grande tristeza. Há, nas lágrimas que a gente derrama sobre nossos infortúnios, como se eles fossem os dos outros, algo tão inocente que, quando o Negro me beijou, uma profunda sensação de bem-estar tomou conta de nós dois. E, dessa vez, enquanto nos abraçáva­mos, essa sensação reconfortante permaneceu entre nós, sem se deixar afe­tar pelos inimigos que nos rodeavam.

33. Meu nome é Negro

Pé ante pé, Shekure havia saído do jardim da casa do judeu enforcado, triste, viúva e órfã, deixando-me ao partir impregnado de um aroma de amên­doa e cheio de sonhos de casamento. Minha cabeça estava alvoroçada e gi­rando tão depressa que chegava a doer! Incapaz de me afligir muito com a morte do meu Tio, voltei quase correndo para a casa da minha senhoria. Cla­ro, eu desconfiava estar sendo manipulado por Shekure, como um simples peão de um jogo muito mais amplo, mas isso não diminuía em nada as ima­gens de felicidade e de união que eu via a ponto de se realizar.

Assim que entrei no meu quarto, depois de enfrentar, ainda à porta, um interrogatório cerrado da minha senhoria sobre onde tinha ido e de onde vi­nha naquela hora matinal, tirei de dentro do meu colchão o cinto em que havia escondido, numa dobra, vinte e dois ducados venezianos de ouro e, com os dedos trêmulos, coloquei-os na minha bolsa. Ao sair, estava claro pa­ra mim que os lindos olhos tristes, úmidos e negros de Shekure não sairiam da minha mente o dia todo.

Comecei por trocar cinco das minhas moedas gravadas com o leão veneziano com um judeu de sorriso impávido. Depois voltei, pensativo, para aquele bairro de que eu ainda não lhes disse o nome, porque esse nome tornou-se desagradável para mim — mas vou dizê-lo agora, é o bairro dos Rubis, onde meu falecido Tio e Shekure, com as crianças, me esperavam em casa. Naquelas ruas em que eu ia depressa, quase correndo, um grande plá­tano austero me espiava das suas alturas, parecendo me censurar por estar tão radiante com meus sonhos e planos de casamento no mesmo dia em que meu Tio morrera. Ali perto, a fonte da rua, cujo gelo já derretera, sussurrava ao meu ouvido: “Não leve as coisas assim a sério, cuide bem dos seus assun­tos e da sua própria felicidade”. “Muito bem, muito bom”, parecia objetar como se arranhasse a porta da minha mente, um inquietante gato preto, do canto em que se lambia, “mas todo o mundo, até você, vai desconfiar que tem algo a ver com o assassinato do seu tio.”

O gato parou de se lamber para me sondar com um ar misterioso, olhos nos olhos: vocês conhecem esses gatos de Istambul, que os moradores do bairro tornam insolentes de tanto mimá-los.

Nosso imã de bairro tem grandes olhos negros de pálpebras caídas, que lhe dão um ar constantemente sonolento. Não foi na casa dele, mas no pá­tio da pequena mesquita que o encontrei, e lhe perguntei sem rodeios: “Em que caso, num processo, as testemunhas são obrigadas a depor e quando é facultativo?”. Ouvi, afetando o ar mais espantado do mundo, sua sentenciosa resposta a uma pergunta tão corriqueira: “Quando várias testemunhas se apresentam, o depoimento é facultativo”, explicou-me. “Mas, se a testemu­nha é uma só, Alá ordena que ela deponha.”

“É o caso em que estou agora”, disse eu, Prosseguindo a conversa. “Nu­ma situação em que todo o mundo sabe o que aconteceu, mas todas as teste­munhas eximiram-se das suas responsabilidades e evitaram comparecer dian­te do tribunal com a desculpa de que ‘é voluntário’, e o resultado é que os interesses prementes das pessoas que estou tentando ajudar são completa­mente negligenciados.”

“Bem”, disse o Imã Efêndi, “por que não afrouxa um pouco o cordão da sua bolsa?”

Abri minha bolsa e mostrei-lhe meus ducados de Veneza. O brilho do ouro pareceu iluminar subitamente o rosto do imã e o pátio inteiro. Ele me perguntou qual era o meu problema.

Disse-lhe quem era eu, que meu Tio estava muito mal e que queria deixar acertada antes de morrer a questão da separação por viuvez da sua filha, com a pensão prevista.

Nem foi preciso evocar o substituto do juiz de Uskudar. O Imã Efêndi, que havia entendido perfeitamente de que se tratava, até me disse que todo o bairro concordava com que a situação da coitada da Shekure já durava mui­to e a deplorava. Seria fácil encontrar na porta do tribunal a segunda teste­munha necessária para que se pronunciasse a separação, e para a primeira ele propunha levar seu irmão. Se eu desse uma moeda de ouro a este últi­mo — ele era do nosso bairro e se interessava muito pelas desditas de She­kure e dos seus pobres orfãozinhos —, seria uma boa ação a creditar a mim. Assim, pus dois escudos para ele na mesa; para seu irmão, saiu metade mais barato. Fechado o negócio, foi buscar o irmão.

O desenrolar daquele dia se pareceu, sob certos aspectos, com as histó­rias de perseguições de gato e rato que ouvi os contadores de história narra­rem nos cafés de Alepo. Mas por causa de tantas peripécias e velhacarias, es­sas histórias escritas e encadernadas como poemas narrativos nunca eram levadas a sério, nem se apresentadas em bela caligrafia; ou seja, nunca acha­vam quem as ilustrasse. Já eu, sim: deleitei-me em dividir nossas aventuras daquele dia em quatro cenas e imaginei cada uma delas ilustrada numa pá­gina da minha mente.

Na primeira, o pintor nos representará entre dois remadores de braços fortes e bastos bigodes, levando-nos do embarcadouro de Unkapa a Uskudar, na margem asiática, num comprido barco vermelho de quatro remos. O imã e seu irmão, um magrela de tez morena, todo feliz com o passeio inespera­do, conversam com os tripulantes, enquanto eu, imóvel na proa da miserá­vel embarcação, perdido em meus sonhos de casamento, fixo meus olhos nas águas do Bósforo, mais claras que de costume naquela manhã ensolarada de inverno, à espreita de algum sinal de mau agouro — temo, por exemplo, des­cobrir lá no fundo um navio pirata naufragado. Que o pintor pinte, se qui­ser, as nuvens e o mar com as cores mais alegres; mas, para passar ao leitor das minhas aventuras os meus temores, pelo menos tão intensos quanto as minhas esperanças, e para que este não imagine minha vida toda cor-de-rosa, deverá colocar alguma coisa aterrorizante, um monstro das profundezas, por exemplo.

No segundo desenho, que representará, nos menores detalhes e com a sutileza de um Bihzad, os palácios dos sultões, as reuniões do Divã, a recep­ção dos embaixadores europeus e toda a multidão da corte, o pintor terá a oportunidade de dar prova de humor e ironia. Por exemplo, num canto, o Cádi Efêndi fará com uma mão o gesto de me interromper, de recusar cate­goricamente o presente que lhe trago, enquanto com a outra embolsa lepi­damente meus ducados, e o resultado dessa cena poderia figurar no mesmo desenho: Shahap Efêndi, o substituto de rito xafiita, presidindo no lugar do juiz de Uskudar. Essa proeza de composição, consistente em representar acontecimentos sucessivos na mesma imagem, é um privilégio dos pintores mais hábeis e só pode ser realizada mediante alguns subterfúgios. Assim, ao ver num canto da imagem o juiz receber e embolsar meus dois ducados ve­nezianos e, noutro, um homem sentado de pernas cruzadas numa almofa­da, no lugar do juiz, o leitor compreenderá imediatamente que o honrado magistrado cedeu lugar ao seu substituto para que a separação de corpo pos­sa ser concedida a Shekure.

A terceira ilustração mostrará a mesma cena, mas desta vez a ornamen­tação da parede será em cores sombrias e em estilo chinês, com suas rama­gens encaracoladas mais densas, mais intrincadas e, acima do juiz substitu­to, nuvens de formas e cores estranhas como num cenário de teatro, para que o leitor saiba que se trata de uma cena de chicaneiros. Nela, embora na rea­lidade tenham comparecido separadamente, o imã e seu irmão serão repre­sentados juntos, explicando que, como o marido da coitada da Shekure não voltava da guerra fazia quatro anos, ela caiu na miséria por não contar mais com o apoio dele — seus dois órfãos vivem chorando, vivem com fome — e, como continua oficialmente casada, não pode ser pedida em casamento por outro, que se tornaria pai de seus dois orfãozinhos, nem tomar dinheiro emprestado, por não ter a autorização do esposo; enfim, fazendo um relato tão convincente que até um homem surdo como pedra lhe concederia o di­vórcio entre uma torrente de lágrimas. Mas o substituto, homem sem cora­ção, não se comove e pergunta quem era o responsável legal por ela agora. Após um instante de hesitação, eu intervenho e dou o nome do pai dela, ilus­tre servidor do Nosso Sultão, seu fiel embaixador, como se ele estivesse vivo.

“Não posso de maneira nenhuma declará-la viúva sem o compareci­mento deste!”, declara o substituto.

Então, num tom preocupado, explico que meu Tio Efêndi está acamado, muito mal, que seu derradeiro desejo diante de Alá é ver dissolvido o ca­samento da sua filha e que eu o represento.

“Ela não estaria mais casada. E depois?”, pergunta o substituto. “Como esse homem que vai morrer pode desejar tão ardentemente a dissolução do casamento da filha, cujo marido desapareceu na guerra, a não ser que — aí, sim, eu o compreenderia — ele tenha em vista um bom candidato a genro em quem, como não estará mais presente para zelar por ela, deposita toda a sua confiança?”

“É este o caso, senhor”, respondo.

“E quem é ele?”

“Eu!”

“Ora essa! Você, o representante legal do tutor? E o que faz na vida?”



“Nas províncias orientais, fui secretário, secretário-mor e assistente de tesouraria de vários paxás. Atualmente, termino uma história das guerras con­tra a Pérsia para oferecer ao Nosso Sultão. Também sou conhecedor de pin­turas e miniaturas. E ardo de amor por essa jovem faz vinte anos.”

“Vocês são parentes?”

Eu estava com tanta vergonha e tão incomodado por ter de desfiar as­sim, à queima-roupa, toda a minha vida e a minha intimidade para ganhar as boas graças de um simples substituto, que fiquei calado.

“Responda, homem, em vez de ficar vermelho como uma beterraba! Senão, não vou poder pronunciar essa separação.”

“Ela é filha da minha tia materna.”

“Hum, sei. E você poderá fazê-la feliz?”, perguntou ainda o substituto, fazendo um gesto obsceno com o dedo para apoiar a pergunta. O pintor po­derá omitir esse detalhe grosseiro e limitar-se a pôr em evidência meu rosto enrubescido.

“Disponho do necessário.”

“Como eu me atenho à jurisprudência xafiita, não há nada, em minhas convicções nem no Livro, que se oponha ao fato de desobrigar a infortunada Shekure do seu casamento, após quatro anos de ausência do esposo. Decla­ro que ela é livre e que, se o marido voltar da guerra, não poderá mais reclamar nenhum direito sobre ela.”

A ilustração seguinte, isto é, a quarta, deverá figurar o substituto me entregando a certidão timbrada — lavrada à tinta preta, em letras cambadas, como um batalhão de lanças alinhadas prontas para o ataque final —, declaran­do a minha Shekure, que vemos esperando em segundo plano, oficialmente viúva e que nada se opõe a que se case novamente. Nem a cor borra de vinho das paredes do tribunal, nem as bordas vermelho-sangue do quadro poderão expressar a iluminação interior que a alegria causa em mim nesse momento preciso. Saio correndo pela rua, em meio à multidão de testemunhas subor­nadas e dos outros homens que, numa situação análoga — para desobrigar do casamento a filha, a tia ou até uma irmã — se comprimem diante da porta do nosso juiz, e trato de voltar o mais rápido possível para casa.

Atravessado o Bósforo, fui pelo caminho mais curto para o bairro dos Rubis e despedi-me do imã, que exprimia seu desejo de também celebrar meu casamento com Shekure, e do seu irmão. Tinha um vivo pressentimen­to de que todas as pessoas com que eu cruzava na rua invejavam a incrível felicidade que eu quase alcançava e já tramavam contra nós. Por isso mes­mo, corri direto para a casa de Shekure. Como todos aqueles corvos agou­rentos no alto do telhado tinham descoberto que a casa abrigava uma carni­ça? Pareciam dançar nas telhas, como antes de um banquete. Eu me sentia seriamente culpado por não ter sido capaz de exprimir o menor luto, de der­ramar a menor lágrima por meu Tio até então. Mas também sentia, pelo sim­ples aspecto do pé de romã no jardim e pelo silêncio que envolvia a porta e as janelas hermeticamente fechadas, que tudo corria conforme o planejado.

Agia intuitivamente e com grande pressa. Catei uma pedra perto do por­tão, atirei-a, mas errei o alvo. A segunda foi cair no telhado. Acabei me irri­tando e joguei uma chuva de pedras na fachada. Uma janela se abriu. Era a janela do segundo andar, na qual, quatro dias antes, quarta-feira, eu tinha visto Shekure através dos galhos do pé de romã. Mas foi Orhan que apare­ceu e, do outro lado da janela, eu podia ouvir Shekure ralhando com ele. Depois ela se mostrou. Nós nos entreolhamos cheios de esperança, minha amada e eu. Estava tão linda, tão graciosa! Fez um gesto que podia significar “espere”, antes de fechar de novo a janela.

Ainda faltava muito tempo até o anoitecer. Aguardei no jardim, maravi­lhado pela beleza deste mundo, das árvores, das ruas lamacentas. Por fim veio Hayriye, vestida e com a cabeça coberta muito mais como a dona da ca­sa do que como a criada. Guardando certa distância, fomos nos pôr sob as figueiras.

“Tudo está correndo conforme o previsto”, disse a ela, mostrando o do­cumento lavrado pelo substituto. “Shekure está separada de corpo. Quanto a arranjar um imã de outro bairro para...” Perturbei-me por um instante. Em vez de dizer “ainda preciso cuidar disso”, afirmei: “Ele já vem. Shekure deve se aprontar”.

“Shekure insiste em que haja um cortejo para a noiva”, ela me respon­deu, “não precisa ser muito grande, e um banquete de casamento para os convidados do bairro. Preparamos arroz com amêndoas e damasco.”

Parecia que ela ia detalhar todo o menu que se orgulhava de ter cozi­nhado, mas não lhe dei oportunidade. “Se o casamento adquirir essas pro­porções, Hassan e seus capangas necessariamente vão ficar sabendo, virão criar caso, fazer um belo escândalo, o casamento será anulado e não podere­mos fazer nada. Tudo terá sido em vão. Temos de ser prudentes, e não ape­nas por causa de Hassan e do pai dele, mas também do demônio que assassi­nou o Tio Efêndi. Você não tem medo?”

“Como não teria?”, ela replicou, pondo-se a chorar.

“Não conte nada disso a ninguém. Ponha no meu Tio sua camisola, não como se veste um morto mas um doente, arrume a sua cama e deite-o no colchão. Coloque à sua cabeceira alguns vidros e frascos, e feche as janelas um pouco mais. Cuide que não haja nenhuma claridade por perto. Ele pre­cisa cumprir seu papel de tutor legal, como um pai simplesmente enfermo e acamado. Nem pensar em cortejo matrimonial. Convide alguns vizinhos na última hora, e basta. Ao ir buscá-los, diga claramente que é a derradeira von­tade expressa por meu Tio. Não vai ser uma boda alegre, claro, para dizer a verdade vai ser bem triste. Mas, se não passarmos por isso, estamos perdidos, e você também será castigada. Está me entendendo?”

Ela aquiesceu, choramingando. Disse-lhe também, montando no meu cavalo, que ia buscar as testemunhas, que voltaria rapidamente para ocupar meu lugar de dono da casa, que antes passaria no barbeiro e que, enquanto isso, Shekure tinha de estar pronta. Eu não tinha pensado em todas essas pa­lavras, que me vinham naturalmente, com todos os detalhes; e, como às vezes acontecia nos campos de batalha, eu tinha a certeza de que era um servo dileto de Alá, que ele me protegia e me apoiava, e que, por conseguinte, tudo ia correr bem. Quando você tem essa convicção, faça o que lhe vier à cabeça, aja de acordo com a sua intuição, e terá sucesso.

Seguindo na direção do Chifre de Ouro, passei os quatro quarteirões que separam o bairro dos Rubis do de Yasin Paxá. No pátio lamacento da mesqui­ta, nosso imã, sempre radiante com sua barba passa-piolho negra, estava escor­raçando os cachorros vadios com uma vassoura. Eu o pus a par da situação Queria Alá, expliquei-lhe, que meu Tio estivesse no fim e, de acordo com seus últimos desejos, eu ia me casar com sua filha, que acabava de obter do juiz de Uskudar a separação do marido desaparecido na guerra. Rejeitei a ob­jeção do imã, segundo a qual a lei islâmica estipula que uma mulher separa­da deve esperar um mês antes de se casar de novo, fazendo valer que seu ex-marido já estava ausente há quatro anos e que não havia nenhum risco de ela estar grávida. Apressei-me a apresentar que a separação tinha sido conce­dida naquela manhã pelo juiz de Uskudar, expressamente para permitir que o casamento ocorresse sem mais tardar, e mostrei o documento ao imã.

“Eminente Imã Efêndi, pode ter certeza de que não há nenhum obstá­culo a essa união”, disse-lhe eu. “Somos parentes, claro, mas os primos por parte de mãe não têm impedimento para se casar. O casamento precedente está anulado. Não há nenhuma diferença religiosa, social ou de fortuna en­tre nós dois.” Se ele se dignasse a aceitar as moedas de ouro que eu lhe con­fiava como adiantamento e viesse celebrar a cerimônia publicamente, na presença de toda a vizinhança, teria o privilégio de consumar com isso, dian­te de Alá, uma ação piedosa em benefício de uma viúva e de seus órfãos. E quem sabe nosso venerado imã não apreciava um bom arroz com amêndoas e damasco?

Quanto a isso não havia dúvida, mas ele estava por ora ocupado com aqueles cachorros, que precisava escorraçar do pátio. Entretanto, aceitou mi­nhas moedas de ouro, prometendo pôr sua indumentária de casamento, pre­parar-se adequadamente o mais depressa possível, com turbante e tudo, de maneira a chegar a tempo para oficiar a cerimônia. Pediu-me então o ende­reço, que eu dei.

Por mais urgente que fosse aquele casamento, com o qual o noivo não parara de sonhar nos últimos doze anos, havia algo mais natural do que es­quecer minhas angústias e meus sofrimentos, confiando-me às mãos afetuo­sas e à conversa afável de um barbeiro, para o cabelo e barba pré-nupcial? Aquele ao qual minhas pernas me levaram estava instalado no bairro do Pa­lácio Branco, na esquina da rua em que se erguia a casa que meu finado Tio, minha tia e minha bela Shekure tinham deixado anos depois da nossa infân­cia. Como eu já tinha ido lá cinco dias antes, mal chegara daqueles longos anos de ausência, ele me beijou e, como aliás teria feito qualquer outro bar­beiro de Istambul, em vez de procurar saber por onde eu tinha andado aque­le tempo todo, passou imediatamente aos mexericos do bairro, para chegar rapidamente à conclusão de que a vida é uma etapa muito instrutiva, mas que sempre acaba levando à morte.

Aliás, eu exageraria se dissesse que aqueles doze anos pareciam apenas uma dúzia de dias. O mestre barbeiro tinha envelhecido. A lâmina que tre­mia na sua mão coberta de pintas parecia executar uma dança do sabre ao longo das minhas faces. Aparentemente, ele dera de beber e havia arranjado um aprendiz, um rapazola de olhos verdes, pele cor de pêssego, boca carnuda, que acompanhava com inquietação as evoluções da navalha. Compara­da a doze anos antes, a barbearia estava mais arrumada, mais limpa. Depois de encher com água fervendo a tina pendurada no teto por uma corrente re­centemente trocada, lavou-me com cuidado, o rosto e a cabeça, com a água saída da torneira de bronze sob a tina. As velhas bacias tinham sido areadas havia pouco, não apresentavam nenhuma marca de ferrugem; o braseiro também estava limpo. Suas navalhas de cabo de ágata cortavam bem, e ele envergava um avental de seda branca, imaculado, detalhe com que não se preocuparia doze anos atrás. Supus que o belo aprendiz, grande para a sua idade e bem-feito de corpo, devia ter algo a ver com a melhora da sua apa­rência e do seu ambiente de trabalho. Entregando-me voluptuosamente ao prazer do sabão espumante, da água quente com aroma de rosa, não podia deixar de pensar que o casamento traz mais vida e frescor não só ao lar de um solteiro, mas também ao seu comércio e ao seu trabalho.




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