Meu nome é Vermelho



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Não sei quanto tempo posso ter passado no doce calor do braseiro, que parecia difundir-se não só através da loja mas até pelos dedos peritos do meu barbeiro. Depois de tantos sofrimentos, a profusão de satisfações com que a vida parecia de repente querer me gratificar inspirou-me o mais profundo reconhecimento para com o Altíssimo. Eu estava assombrado com o misterioso equilíbrio que o mundo subitamente me revelava, e senti tristeza e piedade por meu Tio, que jazia naquela casa cujas chaves em breve seriam minhas. Já me preparava a voltar para lá e dar seguimento àquele corre-corre, quando a calma da barbearia foi perturbada pela chegada à porta, que ficava sempre aberta, de ninguém menos que Shevket!

Com uma cara incomodada, mas sem perder a pose, estendeu-me um pedaço de papel. Sem ser capaz de pronunciar uma só palavra, a tal ponto eu esperava pelo pior, li-o e recebi em pleno coração o recado glacial:

Se não houver cortejo, não me caso.



Shekure

Pegando Shevket pelo braço, forcei-o a sentar-se no meu colo. Gostaria de ter respondido por escrito à minha amada, “como você quiser, meu amor!”, mas onde encontrar papel e lápis na loja de um barbeiro iletrado? Por isso, com uma hesitação calculada, contentei-me em cochichar no ouvido de Shevket: “Está bem”. Depois, sempre em voz baixa, perguntei pela saúde do avô. “Está dormindo”, respondeu o menino. Dei-me conta, naquele momen­to, de que Shevket, o barbeiro e vocês mesmos têm algumas desconfianças sobre a morte do meu Tio. O garoto, aliás, desconfia de muitas outras coi­sas. Que pena! Dei-lhe, à força, um beijo. Ele foi embora emburrado. E du­rante o casamento, vestindo sua roupa festiva, ficou o tempo todo num can­to, olhando para mim com um ar hostil.

Como Shekure não sairia da casa do pai para a minha e como era eu, o noivo, que ia me mudar para a casa do pai dela, o cortejo matrimonial tinha a sua importância. Claro, eu não estava em condições de alinhar à porta da minha amada um grupo de amigos importantes e parentes ricos montados em seus cavalos. Mesmo assim chamei dois amigos de infância, com quem já tivera ocasião de me encontrar nos meus seis primeiros dias em Istambul. Um tinha se tornado secretário, como eu, o outro, gerente de um hamam. Lá estava também meu querido barbeiro que, quando me barbeara, tinha me felicitado com lágrimas nos olhos. Montado no mesmo cavalo branco do primeiro dia, bati na porta de Shekure, como se tivesse vindo buscá-la e levá-la para outra moradia e uma vida nova.

Ofereci uma bela gorjeta a Hayriye, que veio me abrir o portão. Sheku­re, de vestido vermelho e, nos cabelos, fitas rosa-choque que caíam ate o tornozelos, apareceu em meio aos gritos, suspiros, choros (uma mãe ralhava com o filho) e exclamações de “que Alá a proteja”, e montou agilmente num segundo cavalo branco que eu havia arranjado. Um tocador de tambor e ou­tro de zurna, muito estridente, começaram a tocar para nós, e nossa pobre e melancólica comitiva pôs-se orgulhosamente em marcha.

Assim que nossos cavalos se moveram, compreendi que Shekure, com sua astúcia costumeira, tinha organizado aquele espetáculo para salvaguar­dar as nossas bodas. Anunciando-as a todo o bairro, ainda que no último mo­mento, nosso cortejo havia garantido a aprovação de todo o mundo, neutra­lizando assim qualquer objeção futura ao nosso casamento. Mas, por outro lado, esse anúncio do nosso casamento iminente podia passar por uma bra­vata, um desafio aos nossos inimigos, quero dizer, à família do ex-marido de Shekure, e revelar-se perigoso. Se tivesse dependido apenas de mim, teria feito uma cerimônia privada, em segredo, teria primeiro me tornado seu ma­rido e, depois, se fosse o caso, defendido nossa união.

Montado no meu arisco cavalo branco de conto de fadas, eu puxava o cortejo pelo bairro, mas o tempo todo à espreita, porque esperava, de uma hora para a outra, ver surgir Hassan e seus homens, que eu imaginava em­boscados em algum beco escuro ou atrás de um portão. Eu via os jovens, os velhos da vizinhança e uns desconhecidos pararem diante das portas para nos cumprimentar, acenando. Sem faltar verdadeiramente ao respeito, a maioria deles parecia intrigada, desconcertada com aquele casamento, um tanto inesperado. Foi ao desembocar sem querer na estreita praça do merca­do que compreendi quanto Shekure havia sabido brilhantemente mobilizar sua rede de informantes, e que seu divórcio e seu casamento comigo não se prestavam mais nem à dúvida nem à contestação do bairro. Prova disso era a alegria ingênua do vendedor de frutas e hortaliças que, para nos acompa­nhar, afastou-se por alguns passos da sua banca de marmelos, cenouras e maçãs gritando: “Alá seja louvado e proteja vocês dois!”; ou o sorriso melancóli­co do quitandeira, os olhares de aprovação do padeiro, cujo aprendiz estava ocupado em raspar o fundo queimado das fôrmas de bolo. Apesar disso, eu continuava alerta, à espera de um ataque repentino, de uma piada insolen­te, de um início de alvoroço. Mas, uma vez passado o bazar e não obstante a confusão criada pela garotada que pedia moedinhas e não parava de pular, gritar e gesticular, eu compreendia, ante todos aqueles sorrisos das mulheres que eu entrevia atrás das janelas, gelosias e contraventos, que aquela gente bonachã e a gritaria das crianças agora nos garantiam proteção e legitimidade.

Meus olhos estavam fixados no percurso sinuoso do cortejo, que final­mente voltava, Alá seja louvado, a seu ponto de partida, à porta de casa, mas durante todo esse tempo meu coração tinha ficado junto de Shekure, corri sua imensa dor. Para dizer a verdade, o que mais me entristecia não era ela ter de se casar no mesmo dia da morte do pai, mas suas núpcias serem assim apagadas e pífias. Minha amada merecia ricos cavalos com arreios de prata montados por cavaleiros vestidos de brocados, peles e sedas, escoltando um desfile a perder de vista de carros repletos de suntuosos presentes. Ela deve­ria estar à frente de um cortejo de verdade: filhas de paxás, sultanas, e a mul­tidão das velhas favoritas do harém imperial em suas carruagens, tagarelan­do sobre as extravagâncias das festas de outrora. Em vez disso, no casamento de Shekure não havia nem mesmo os quatro rapazes levando as varas do com­prido pálio de brocado vermelho que oculta as noivas ricas aos olhares indis­cretos. Nem um só daqueles serviçais que abrem os cortejos opulentos exi­bindo enormes círios e enfeites em forma de árvore, decorados com frutas, folhas de prata e de ouro, e pedras preciosas. Mais do que vergonha, o que eu sentia era uma tristeza que me enchia os olhos de lágrimas, cada vez que o tambor e a zurna, sem respeitar aquele arremedo de cerimônia, simples­mente paravam quando o cortejo, não tendo ninguém para abrir passagem nos cruzamentos aos gritos de “lá vem a noiva!”, era retido pela multidão que fazia suas compras ou pelos criados na fila da fonte.

Ao chegar às imediações da nossa casa, reuni coragem para me virar na sela e olhar para ela, e fui recompensado ao ver, através da sua mantilha e do seu véu rosa e vermelho, que, longe de se amofinar com toda aquela me­diocridade, parecia satisfeita com que o cortejo terminasse sem que houves­se a deplorar a menor contrariedade. Ajudei, pois, como todo noivo, minha noiva a descer da sela e, segurando seu braço, fiz chover na sua cabeça, dian­te da comitiva às gargalhadas, punhado após punhado, todo um saco de moe­das de prata. Enquanto a garotada que havia acompanhado nosso cortejo corria para catá-las, fiz Shekure entrar no pátio e seguir o caminho interno de pedra até a casa. Mal entramos, não foi só o calor que sentimos, mas o horrível cheiro de putrefação.

Enquanto os participantes do cortejo se acomodavam na casa, Shekure, guiando as mulheres, as crianças e os velhos (Orhan me espiava de longe com um ar desconfiado), simulava não sentir nada, e eu mesmo cheguei por um instante a duvidar dos meus sentidos. Mas eu conhecia muito bem aque­le cheiro, ele já havia invadido tantas vezes minha boca e meus pulmões que não havia como eu me enganar: era o mesmo fedor dos cadáveres abando­nados ao sol depois da batalha, com suas roupas esfarrapadas, despojados das botas e cintos, o rosto, os lábios, os olhos devorados pelos lobos e pelas aves.

Embaixo, na cozinha, questionei Hayriye sobre o corpo do Tio Efêndi, consciente de que estava falando pela primeira vez com ela como dono da casa.

“Como o senhor pediu, nós o pusemos no colchão com sua roupa de dormir, prendendo bem a colcha nos lados e dispondo frascos e poções em volta. Se está fedendo tanto”, disse a coitada entre lágrimas, “é na certa por causa do calor da estufa acesa no quarto.”

Uma ou duas lágrimas suas caíram, chiando, na panela em que doura­va os pedaços de carneiro. Vendo-a chorar assim, compreendi que o Tio Efên­di sem dúvida a levava para a cama consigo. Ester, que estava sentada hipo­critamente perto do fogão, engoliu o que mastigava e se levantou para me dizer:

“Zele acima de tudo pela felicidade dela. E saiba apreciar a sua.”

Eu ouvia os acordes do alaúde que acreditei escutar no primeiro dia do meu regresso a Istambul. A melodia era triste, mas vigorosa. E continuei a ouvi-la no aposento escuro em que meu Tio jazia, em sua comprida camiso­la branca, enquanto o imã celebrava nossa união.

Hayriye havia discretamente arejado o quarto pouco antes e colocado a lâmpada num vão do aposento para atenuar a iluminação, de modo que mal se podia perceber, na penumbra, que meu Tio estava doente, muito menos morto. Foi por isso que ele pôde fazer as vezes de tutor legal da filha durante a cerimônia. Meu amigo barbeiro e um inevitável velho do bairro serviram de testemunhas. Durante a cerimônia, que se encerrava com a bênção e os conselhos do imã e as preces dos presentes, um velhote obstinado, querendo ter uma idéia precisa do estado de saúde do meu Tio, fazia menção de que­rer se debruçar sobre ele. Mas, assim que o imã terminou, pulei do meu can­to, agarrei a mão do meu Tio e clamei o mais alto que pude:

“Fique tranqüilo, venerado Tio. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para que Shekure e seus filhos estejam sempre bem vestidos e bem alimentados, amados e protegidos.”

Depois, fiz como se meu Tio, no seu leito de morte, procurasse me dizer alguma coisa, baixinho, e apliquei respeitosamente meu ouvido à sua bo­ca, como para ouvir suas palavras com a maior atenção, aquela que os jovens devem dar às menores exortações destiladas, qual precioso elixir, por toda uma longa vida, quando nos encontramos à cabeceira de um ancião Venerá­vel na hora do seu passamento. Os olhares do Imã Efêndi e dos velhos do bairro diziam que a dedicação e a devoção filial que, com aquela atitude, eu demonstrava por meu sogro, recebiam a sua simpatia e aprovação. Ouso es­perar que ninguém mais possa pensar, agora, que tive algo a ver com o assas­sinato do meu Tio.

Disse aos convidados que ainda estavam no aposento que meu sogro, doente, desejava ficar a sós. Eles saíram imediatamente e foram para a sala, onde os outros homens já estavam reunidos, apreciando um grande prato de arroz com carneiro que Hayriye havia servido. Eu, que nesta altura já não podia distinguir o cheiro de cadáver do aroma de tomilho, cominho e car­neiro frito, subi ao corredor do andar de cima. Como um patriarca que vai para casa tão absorto em suas preocupações que até erra de porta, entrei no quarto em que as mulheres estavam reunidas e, fingindo não perceber quão horrorizadas ficaram com a intromissão de um homem entre elas, olhei com ternura para a minha Shekure, cujos olhos pareciam inundados de felicida­de, e lhe disse:

“Seu pai está chamando, Shekure. Quer que a noiva vá lhe beijar a mão.”

O punhado de vizinhas que Shekure tinha podido convidar de última hora, para garantir algumas testemunhas do nosso casamento improvisado, e as moças que eu identificava como suas parentas, pelo olhar franco com que me miravam, cobriram-se todas com o véu, em sinal de modéstia, sem parar porém de me esmiuçar de alto a baixo.

Só bem mais tarde, depois da prece da noite e de todos terem se empanturrado de nozes, amêndoas, frutas secas, confeitos e caramelos perfumados com cravo, é que os convivas se dispersaram. No quarto das mulheres, a ale­gria nunca conseguiu reinar, ante as lágrimas incessantes de Shekure e a gri­taria das crianças desordeiras. Entre os homens, meu semblante carregado, refratário a todas as alusões maliciosas que o uso consagrado inspirava em nossos vizinhos, era debitado à minha preocupação com a saúde do meu so­gro. Mas em meio a esses momentos sinistros, uma cena ficou nitidamente gravada na minha memória: eu levando Shekure ao quarto do Tio, depois do jantar. Estamos finalmente a sós. Depois de beijarmos, com sincero res­peito, a mão rígida e gelada do morto, nós nos retiramos para um canto es­curo do quarto e nos beijamos demoradamente, como para matar uma sede abrasadora. A língua da minha doce esposa, Shekure, que consegui prender na minha boca, tinha o gosto dos caramelos com que a criançada se entope gulosamente.
34. Eu, Shekure

Quando os últimos convidados daquela triste festa de casamento, de­pois de se calçarem, se pentearem e se agasalharem, atravessaram a porta do jardim, levando consigo suas crianças, que enfiavam um derradeiro punha­do de caramelos na boca, fez-se um silêncio penetrante. Estávamos no pátio e, fora um pardal que matava a sede perto do poço, na beirada do balde cheio pela metade, não se ouvia um só ruído. O pardal, por um breve instante, fez as penas da cabeça brilharem à luz vinda da estufa, depois desapareceu na noite, e eu de repente senti a insistente presença do meu pai, deitado na ca­ma, em nossa casa escura e vazia, agora engolida pela noite.

“Crianças”, chamei naquele tom que eles logo reconheceram como o que emprego quando tenho uma coisa importante a anunciar, “venham aqui, os dois.”

Eles obedeceram.

“Agora o Negro é o pai de vocês. Beijem a mão dele.”

Docilmente e sem fazer barulho, beijaram-lhe a mão. “Eles não sabem como obedecer a um pai, nem como olhar nos olhos do pai quando ele fa­lar, nem confiar nele, porque os coitados dos meus filhinhos cresceram sem ter pai”, eu disse ao Negro. “É por isso que, se eles te faltarem ao respeito, se fizerem bobagens e te perturbarem, seja indulgente com eles e debite isso ao fato de terem crescido sem nunca ter obedecido ao pai, do qual nem se lembram.”

“Eu me lembro do meu pai, sim”, replicou Shevket.

“Psiu... E ouça! A partir de agora, o que o Negro disser vale mais do que as minhas próprias palavras.” Virei-me para o Negro. “Se eles não te ouvi­rem, se te faltarem ao respeito, se forem insolentes, insuportáveis ou malcria­dos, pode ralhar com eles, mas seja um pouco condescendente no início.” Na última hora, segurei minha língua e não disse que também podia lhes aplicar um corretivo. “Eles devem ocupar no seu coração o mesmo espaço que eu.”

“Shekure, minha vida, não foi só para me tornar seu marido que me ca­sei com você, mas também para ser o pai destes orfãozinhos queridos.”

“Vocês ouviram?”

“Que Alá nos proteja e a sua luz nunca nos falte!”, exclamou Hayriye do seu canto.

“Vocês ouviram, não é? Vocês têm sorte, meus amores. Com um pai tão carinhoso, se vocês esquecerem o que ele mandou e o desobedecerem, mes­mo assim ele vai perdoá-los.”

“E voltarei a perdoar outra vez”, completou o Negro.

“Sim, mas se desobedecerem pela terceira vez, aí merecerão uma coça. Estamos entendidos? O novo pai de vocês, o Negro, é muito severo, esteve em guerras pavorosas e terríveis, das quais o primeiro pai de vocês não vol­tou. O avô deles mimou-os demais. Eles o levavam na conversa o tempo to­do. Agora vovô está muito doente.”

“Quero ir ver meu avô”, pediu Shevket.

“Se vocês não me ouvirem, o Negro vai mostrar para vocês o que é uma bela sova. Vovô não vai mais proteger vocês do Negro como protegia de mim. Então se não quiserem que o Negro fique bravo, tratem de não brigar, de di­vidir tudo direitinho, de não contar mentiras, de fazer bem as preces, de não ir para a cama antes de aprender a lição e de não implicar com Hayriye nem ser malcriados com ela. Estamos entendidos?”

O Negro se abaixou para pegar Orhan e o pôs no colo, mas Shevket esquivou-se. Aquilo me partiu o coração e me deu vontade de cobri-lo de beijos. Meu pobre orfãozinho, meu Shevket abandonado, como estava sozinho neste mundo tão grande! Eu mesma me senti uma criança sozinha no mun­do, como Shevket, e por um instante creio que confundi sua solidão, sua fra­gilidade de órfão, com a minha. Porque a lembrança da minha infância trou­xe-me de volta à memória que eu também subia no colo do meu pai, como Orhan no do Negro, mas, ao contrário de Orhan, que parecia estar ali como uma fruta numa árvore que não é a dela, gostava de ficar com ele, nos bra­ços do meu pai, cheirando-nos como os cachorrinhos. Como já ia desatan­do a chorar, disse, para conter as lágrimas e sem pensar direito no que falava:

“Vamos, quero ouvir vocês chamarem o Negro de ‘papai’.”

O silêncio que reinava no pátio fez-se tão penetrante quanto o frio. Bem longe, um bando de cachorros latia lúgubre e desesperadamente. Passaram-se mais alguns minutos, em que o silêncio, imperceptivelmente, desabro­chou como uma flor negra.

“Bem, vamos entrar, crianças”, eu disse, “senão todo o mundo vai se resfriar.”

Entramos com uma espécie de hesitação, não só o Negro e eu, como dois jovens recém-casados que têm medo de se encontrar a sós depois da fes­ta, mas as crianças e Hayriye também, entramos todos como quem explora uma casa estranha às escuras. Lá dentro, sentia-se o cheiro do cadáver do meu pai, mas ninguém deu mostras de notar. Ao subir silenciosamente a es­cada, era como se visse pela primeira vez o jogo de sombras que a luz da ve­la projetava no teto, ora imensas, ora minúsculas, emaranhando-se, rodo­piando. Chegando em cima, nós nos descalçamos e Shevket perguntou:

“Posso ir beijar a mão do meu avô?”

“Acabei de ir vê-lo”, disse Hayriye. “Seu avô está muito doente, não vai nada bem. Está com febre, os djins malvados tomaram conta dele. Por isso, vão para o quarto, que eu vou preparar a cama de vocês.”

Ela os empurrou para o quarto, depois, enquanto arrumava a cama, pôs-se a falar do colchão que estendia no assoalho, dos lençóis, das colchas e do edredom que desdobrava, como se fossem tesouros preciosos de um palácio encantado.

“Hayriye, conte uma história para a gente”, pediu Orhan sentado no seu penico.

“Era uma vez um homem todo azul, cujo melhor amigo era um djim.

“Por que ele era azul?”, quis saber Orhan.

“Hayriye, tenha dó!”, intervim. “Esta noite, nada de histórias de djins, nem de fadas, nem de fantasmas.”

“Por que ela não pode contar?”, perguntou Shevket. “Mamãe, quando a gente dormir, você vai ver vovô no outro quarto?”

“Vovô, que Alá o proteja, está muito doente”, respondi. “Claro que vou ver como ele está passando. Depois venho me deitar com vocês na nossa cama.”

“Por que Hayriye não vai?”, perguntou Shevket. “Ela é que costuma cui­dar dele de noite.”

“Acabou?”, Hayriye perguntou a Orhan já sonolento, enquanto o lim­pava, dando uma olhada no conteúdo do penico e franzindo o nariz, não por causa do cheiro, mas porque parecia achar que ele não fizera tudo.

“Hayriye, vá esvaziar o penico e traga-o de volta”, ordenei. “Não quero que Shevket saia do quarto esta noite.”

“Por que não posso sair? Por que ela não pode contar uma história de djins e de fadas?”

Orhan, sem ter medo, mas com aquele ar satisfeito que sempre tem de­pois de fazer cocô, respondeu afetuosamente ao irmão: “Porque a casa está cheia de djins, seu bobo”.

“É verdade, mamãe?”

“Se vocês saírem do quarto para ir ver seu avô, podem ter certeza de que os djins vão pegar vocês.”

“Onde é que o Negro vai dormir? Onde vai fazer a cama dele?”

“Não sei. Hayriye é que vai arrumar a cama dele.”

“Mamãe, você vai continuar a dormir com a gente?”, perguntou Shevket.

“Quantas vezes vou precisar dizer? Sim, vou dormir com vocês, como de costume.”

“Sempre?”

Hayriye saiu com o penico. Fui pegar no armário em que as tinha es­condido as nove miniaturas restantes, que o abominável assassino não tinha levado, e aproximei a vela da cama a fim de apreciá-las à vontade e tentar compreender seu segredo. As pinturas eram tão lindas que a gente se perdia nelas, como nessas lembranças que voltam depois de um longo período de esquecimento e que, como uma bela história, parecem falar com quem as contempla.

Enquanto eu estava absorta naquelas imagens, compreendi, pelo chei­ro dos cabelos de Orhan que me faziam cócegas no nariz, que ele também contemplava aquele Vermelho estranho e fascinante. Como ainda às vezes acontece, tive vontade de tirar meu seio para lhe dar de mamar. Mais tarde quando se assustou à vista da Morte, a respiração suave e ritmada que saía dos seus labiozinhos vermelhos me deu uma repentina vontade de comê-lo.

“Eu vou te comer, está me ouvindo?”

“Mãe, faz cócegas em mim?”, ele pediu se entregando.

“Ei, saia já daí, seu bichinho!”, exclamei, porque ele se espichava em cima das miniaturas. Examinei-as: não haviam sofrido nenhum estrago apa­rente, só a do cavalo ficou um pouquinho amarrotada, mal dava para ver.

Hayriye voltou com o penico vazio. Juntei as pinturas e já ia saindo quan­do Shevket me chamou com uma voz alterada:

“Mãe, aonde você vai?”

“Volto já.”

Atravessei o corredor gelado. O Negro estava sentado ao lado da almo­fada vermelha do meu pai, agora vazia, no lugar em que havia passado aque­les últimos quatro dias conversando com ele sobre desenho, pintura e pers­pectiva. Pus as miniaturas no leitoril dobrável, na almofada e no chão diante dele. De repente, as cores encheram o quarto iluminado pela luz da vela de uma vida quente e inesperada, como se tudo se houvesse posto em movi­mento.

Primeiro olhamos as imagens, demoradamente, num silêncio respeito­so. Quando fazíamos o mais ínfimo movimento, o ar parado, impregnado do cheiro de morte que vinha do outro lado do largo corredor, fazia a chama tremer, e as misteriosas ilustrações do meu pai pareciam se mexer também. Será que era o fato de terem causado a morte do meu pai que lhes dava ta­manho significado para mim? O que me fascinava tanto era a esquisitice do cavalo, a intensidade sem igual do Vermelho, a tristeza daquela árvore, a me­lancolia daqueles dois dervixes errantes, ou era que eu tinha medo do assassi­no que havia matado meu pai e talvez outras pessoas por causa daquelas ilus­trações? Passado um instante, o Negro e eu compreendemos que o silêncio no quarto não dependia só das miniaturas que contemplávamos, mas tam­bém da nossa condição de recém-casados que se encontram sozinhos no quarto nupcial. Nós dois sentimos necessidade de falar.

“Amanhã, quando nos levantarmos, vamos ter que contar a todo o mun­do que meu pai morreu durante o sono.” Embora o que eu dizia fosse verda­de, tinha a impressão de não estar sendo sincera.

“Amanhã de manhã tudo vai estar resolvido”, afirmou o Negro num tom estranho, como se ele também não conseguisse acreditar no que dizia.

Fez um movimento imperceptível para se aproximar de mim, e tive von­tade de beijá-lo pegando sua cabeça nas mãos, como eu fazia com as crianças.

No mesmo instante, ouvi a porta do quarto em que meu pai estava se abrir. Pulei de pé assustada, corri para a porta, abri-a, olhei para fora: estre­meci ao ver que a porta do quarto dele estava de fato entreaberta e saí no cor­redor gelado. O braseiro que aquecia o quarto do meu pai acentuava o chei­ro de cadáver. Será que Shevket tinha entrado lá, ou alguma outra pessoa? A luz ínfima das brasas, vi que o corpo do meu pai, vestido com seu camiso­lão, continuava deitado em paz. Tive vontade de dizer, como naquelas noi­tes em que eu ia vê-lo enquanto ele lia o Livro da alma: “Boa noite, papai”. Ele se endireitava um pouco para pegar o copo d’água que eu lhe levava e me dizia: “Que nada falte à aguadeira”, beijando-me no rosto, como quando eu era pequena e mergulhando seus olhos nos meus. Olhei para a cara hor­rível do meu pai e fiquei com medo. Eu não queria olhar para o seu rosto, mas era como que impelida pelo Diabo a observar o quanto tinha ficado ater­rador.




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