Meu nome é Vermelho



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36. Meu nome é Negro

Quando Shekure fechou-se em seu quarto com as crianças, pude pres­tar atenção nos incessantes estalos e barulhos daquela casa estranha. Shevket às vezes cochichava com a mãe e queria continuar a conversa com ela, mas Shekure fazia um “psiu!” abrupto. No mesmo momento, vindo do poço e do caminho de pedra, ouvi um pequeno ruído, que logo parou. Mais tarde, cha­maram a minha atenção os grasnidos de uma gaivota, que tinha pousado no telhado, mas o silêncio também acabou por envolvê-la. Depois ouvi, distante e fraco, um pequeno gemido do outro lado do corredor: eram os soluços de Hayriye em seu sono. Seus gemidos se transformaram numa tosse, que ecoou secamente antes de parar, cedendo lugar de novo àquele silêncio atroz, in­terminável. Às vezes a sensação, repentina, de que alguém andava no quarto em que repousava o cadáver do meu Tio me gelava de pavor.

Durante todos esses lapsos de silêncio, eu examinava as miniaturas es­palhadas diante de mim e imaginava o apaixonado Oliva, o belo Borboleta, com seus lindos olhos, e Elegante, o finado dourador, pintando-as na pági­na. Tinha vontade de confrontar cada uma das imagens exclamando “Sata­nás!” ou “Morte!”, como meu Tio costumava fazer certas noites, mas um te­mor supersticioso me retinha. Aquelas imagens já me haviam causado muita contrariedade quando, a despeito de toda a insistência do meu Tio, eu não me achara capaz de escrever as histórias dignas de acompanhar cada uma delas. E como eu estava cada vez mais certo de que a morte dele tinha uma relação com essas imagens, eu me sentia irritado e impaciente. Eu já havia contemplado demoradamente essas imagens enquanto ouvia as histórias do meu Tio, só para ter uma chance de estar próximo de Shekure. Mas agora que ela era minha legítima esposa, por que dar tanta atenção a elas? Uma voz interior me respondeu, implacável: “Porque mesmo com os filhos já dor­mindo, você percebe que Shekure não vem para a cama com você”. Fiquei acordado entretanto por um longo tempo, olhando as miniaturas à luz da ve­la, na esperança de que a minha bela de olhos negros viesse me encontrar.

Quando, de manhã, fui acordado pelos gritos de Hayriye, peguei o casti­çal e saí às pressas para o corredor. Achando que eram Hassan e seus asseclas que atacavam a casa, minha primeira idéia foi pôr as ilustrações a salvo. Mas logo me dei conta de que ela gritava assim para anunciar a morte do Tio Efên­di às crianças e à vizinhança, seguindo as instruções expressas de Shekure.

Encontrando-a no corredor, abracei-a e apertei-a com força contra mim. Mas os meninos, que tinham pulado sobressaltados da cama aos gritos da criada, nos interromperam em nossas efusões.

“O avô de vocês morreu”, disse Shekure. “Não quero que entrem na­quele quarto em hipótese alguma.”

Ela me deixou para ir chorar à cabeceira do pai.

Levei os meninos para o quarto deles. “Troquem de roupa e cubram a cabeça, senão vão pegar um resfriado, assim de pijama”, ordenei sentando na beira da cama.

“Meu avô não morreu hoje de manhã. Ele morreu ontem à noite”, dis­se Shevket.

Um fio comprido do cabelo de Shekure desenhava a letra vav no traves­seiro. O calor do seu corpo ainda não se havia dissipado sob as cobertas. Po­díamos ouvi-la chorando e gritando, com Hayriye. Sua maneira de chorar e gritar como se tivesse acabado de saber da morte do pai me parecia tão espantosa, tão incrível, que senti como se não a conhecesse, como se ela estivesse possuída por um estranho djim.

“Estou com medo”, disse Orhan, olhando para mim como se pedisse licença para chorar.

“Não fiquem com medo”, respondi. “A mãe de vocês chora assim para anunciar a morte do vovô aos vizinhos e para que estes venham em casa.”

“O que vai acontecer, se eles vierem?”

“Se eles vierem, também vão ficar tristes e chorar conosco a morte do vovô. Assim vamos dividir com eles uma parte da nossa dor.”

“Você matou meu avô?”, gritou Shevket.

“Se você perturbar ainda mais sua mãe, não espere nenhum afeto de mim!”, respondi gritando também.

Não gritávamos um com o outro como um padrasto e seu enteado, mas como dois homens trocando palavras das margens opostas de um rio de águas turbulentas. Shekure estava agora às voltas com as tábuas que trancavam o contravento da janela do corredor, querendo abri-la para que seus gritos fos­sem ouvidos com mais clareza pela vizinhança.

Saí do quarto para ir ajudá-la. Juntamos nossas forças para abrir a jane­la. Com nosso esforço conjunto, o contravento afinal cedeu e caiu lá embai­xo, no pátio. O frio e o sol bateram em nossos rostos, deixando-nos momen­taneamente atordoados. Mas Shekure logo voltou a gritar, a chorar todo o seu desespero.

A morte do Tio Efêndi, depois de anunciada por ela a todo o bairro, ad­quiriu para mim um tom mais trágico, muito mais doloroso do que antes. Sincero ou fingido, o pranto da minha esposa me atormentava. Inesperada­mente, pus-me a chorar. Eu nem sabia se estava chorando sinceramente de tristeza ou se apenas fingia, com medo de ser dado como responsável pela morte do meu Tio.

“Ele se foi, meu paizinho querido se foi!”, urrava Shekure.

Meus soluços e meus lamentos faziam eco aos dela, embora eu não sou­besse exatamente o que estava dizendo. Minha preocupação era proporcio­nar aos nossos vizinhos, que nos espiavam de casa, pelo vão das portas ou das janelas entreabertas, o espetáculo que eles esperavam e que tinha de ser per­feito. Além disso, chorando, eu me esquecia e me livrava das dúvidas quanto à minha sinceridade, do medo obsessivo de ser acusado pelo crime, do meu medo de Hassan e seus homens.

Shekure era minha agora e era como se eu comemorasse com lágrimas e gritos. Puxei minha jovem esposa soluçante para junto de mim e, sem me preocupar com os meninos que se aproximavam em prantos, beijei-a no rosto. A despeito das lágrimas, seu rosto, todo molhado, ainda tinha cheiro de flor de amendoeira, como na época da nossa infância.

Acompanhados pelos garotos, voltamos ao quarto onde jazia o corpo. Proclamei: “La ilahe illallah, Alá é o único Deus”, como se aquele velho ca­dáver, que já fedia bastante passados dois dias, ainda estivesse agonizando e eu sugerisse, como derradeiras palavras, que ele repetisse comigo a profissão de fé e, assim, merecesse o Paraíso. Fingimos que ele as tinha repetido, sor­rindo afetuosamente para aquele rosto quase desfigurado, para aquele crânio esmagado. Ergui as mãos para o céu e recitei a surata Ia Sin, enquanto os outros ouviam em silêncio. Amarrando com cuidado um bonito pedaço de pano limpo, que Shekure tinha ido escolher, fechamos a boca do meu Tio, depois seu olho todo dilacerado, antes de virá-lo, com toda precaução, do seu lado direito, o rosto voltado para Meca. Enfim Shekure estendeu sobre o pai um imaculado sudário branco.

Não sem satisfação, eu percebia que os meninos, de novo silenciosos, já não choravam e observavam tudo atentamente. Senti-me então como um homem com mulher e filhos, um pai de família em seu lar. E aquela doce sensação me fazia esquecer a imagem da morte.

Juntei todas as miniaturas para arrumá-las numa pasta. Vesti meu cafetã grosso e saí apressadamente de casa. Rumei direto para a mesquita do bair­ro, fingindo não ver um dos vizinhos — uma velhinha acompanhada do ne­to com nariz escorrendo, certamente atraída por nosso alarido e nitidamen­te excitada com a perspectiva de ir desfrutar um pouco da nossa dor.

O buraco de rato que servia de casa ao imã fazia triste figura ao pé da mesquita, novinha em folha e luxuosa como todas as de hoje em dia, com cúpula, átrio e tudo o mais. Mas o imã — eu observava ser esse ser um cos­tume cada vez mais freqüente — vinha ampliando os limites do seu buraco glacial e usurpando toda a mesquita, sem se preocupar nem um pouco com a roupa puída e descorada que sua mulher pendurava entre os dois casta­nheiros do pátio. Evitamos o ataque de dois cachorrões, que se apropriavam do pátio exatamente como o Imã Efêndi e sua família, e, depois que os fi­lhos dele espantaram aquelas feras a varadas, pedindo desculpas, nós dois nos retiramos para seu reduto.

Vi pela sua cara que o fato de não o termos chamado para o casamento, depois do que fez para o nosso divórcio na véspera, o deixara de péssimo hu­mor e que ele se perguntava o que mais eu podia querer dele agora.

“O Tio Efêndi faleceu esta manhã.”

“Que Alá seja misericordioso com ele e o receba no Paraíso!”, disse com benevolência.

Por que eu tive de me comprometer insensatamente precisando “esta manhã”? Pus-lhe uma moeda de ouro na mão, como as da véspera, pedin­do-lhe que viesse recitar a oração fúnebre, se possível antes da próxima cha­mada do muezim, e que mandasse seu irmão percorrer o bairro anunciando a triste notícia.

“Meu irmão tem um excelente amigo que é quase cego. Nós três somos peritos em matéria de abluções finais dos mortos”, respondeu.

E havia coisa melhor do que um cego e um meio idiota para lavar o cor­po do Tio Efêndi? Marquei a oração fúnebre para a tarde, mencionando a provável presença de grandes personagens, gente da corte, artistas, homens de lei. Não disse nada, no entanto, sobre o estado do corpo, em particular sobre o crânio esmigalhado, porque havia tempo que eu tomara a decisão de resolver esse problema dirigindo-me às mais altas esferas.

Como Nosso Sultão delegava a gestão da verba destinada aos manuscri­tos, inclusive o do meu Tio, a seu Tesoureiro-Mor, era este último que eu ti­nha de pôr prioritariamente a par desse novo assassinato. Com esse fim, re­corri a um tapeceiro, um parente do meu falecido pai, que, desde que eu era criança, trabalhava perto das alfaiatarias que se alinham diante da Porta da Fonte Fria. Encontrando-o, beijei sua mão enrugada com efusão, depois ex­pliquei-lhe numa voz suplicante que precisava da sua ajuda para falar com o Tesoureiro-Mor. Ele me fez esperar em meio aos seus aprendizes de cabeça rapada que costuravam umas cortinas, curvados sobre os cortes de seda multicoloridos estendidos no colo. Depois disse-me para seguir um aprendiz que, informou-me, ia ao palácio tirar umas medidas. Enquanto subíamos para a Esplanada dos Desfiles, pela Porta da Fonte Fria, percebi que indo por esse caminho evitaria passar pelo Grande Ateliê, em frente a Santa Sofia e me pouparia a penosa tarefa de entrar para anunciar aquele segundo crime.

A esplanada estava animadíssima agora, quando normalmente me pare­cia um lugar sem vida. Claro, não havia vivalma diante da Porta das Petições, regularmente tomada de assalto pela multidão nos dias de reunião do Divã, nem tampouco para as bandas dos armazéns de cereais. Apesar disso, pare­cia-me ouvir uma contínua litania vinda das janelas do grande hospital, das marcenarias, da padaria, das estrebarias, dos cavalariços que puxavam seus animais pela rédea antes da Segunda Porta — para cujas torres de flechas pontiagudas eu olhava com temor —, de entre as alamedas de ciprestes ne­gros. Atribuí esse meu alarme ao medo de passar pela Porta da Saudação, ou Segunda Porta, o que eu estava a ponto de fazer pela primeira vez na vida.

Ao passar por aquela porta, fui incapaz de dirigir um olhar sequer para o lugar onde dizem que os carrascos estão sempre a postos, nem esconder minha agitação dos guardas que olhavam desconfiados para o rolo de tecido que eu carregava, de modo que quem nos visse pensasse que eu ajudava o jovem aprendiz de alfaiate, que me servia de guia.

Já na Praça do Divã, um silêncio profundo nos envolveu. Senti meu sangue pulsar nas veias das têmporas, do pescoço. Aquele lugar, tantas vezes descrito por meu Tio e outros que visitavam o palácio, se apresentava aos meus olhos como um jardim paradisíaco de inigualável beleza. Mas eu não sentia a exaltação de um homem entrando no Paraíso, apenas um tremor e uma pia reverência; senti-me um simples servo do Nosso Sultão, que, como eu agora entendia perfeitamente, era de fato o Pilar do Mundo. Observando os pavões que vagavam pelo gramado, os vasos de ouro junto das fontes jor­rando e a guarda do Grão-Vizir, que, passando numa marcha silenciosa e vi­va, nem parecia pisar o chão, eu sentia mais que nunca a vontade de servir ao meu Soberano. Não havia dúvida de que eu terminaria o livro secreto do Nosso Sultão, cujas ilustrações inacabadas eu levava debaixo do braço. Ma­quinalmente, sem perder de vista o alfaiatezinho, ergui os olhos, amedron­tado, para o alto da Torre do Divã, enorme a tão pouca distância.

Um pajem imperial juntou-se a nós e nos conduziu ao longo do auste­ro edifício, silencioso como num sonho, que abriga o Tesouro, ao lado do prédio do Divã. Senti como se já houvesse visto aquele lugar antes e o co­nhecesse muito bem.

Passamos por uma larga porta para entrar na sala dita do Antigo Divã. Sob sua abóbada gigantesca, esperava em fila toda sorte de artesãos, carrega­dos de tecidos, de peças de couro, de cofres de nácar e bainhas de espada de prata. Identifiquei imediatamente ali os representantes das várias corpora­ções: sapateiros, ourives, tecelões, escultores de marfim, fabricantes de insígnias e instrumentos musicais. Esperavam o Tesoureiro-Mor, supunha eu, ca­da qual com suas petições relacionadas a pagamentos, aquisição de materiais e permissão para entrar nas dependências privativas do Sultão a fim de tirar medidas. Fiquei contente ao não ver entre eles nenhum ilustrador.

Pusemo-nos de lado, à espera da nossa vez. De quando em quando ouvía­mos um secretário da tesouraria, que, suspeitando de um erro nas contas, er­guia a voz para pedir um esclarecimento, e a resposta cheia de deferência de por exemplo, um serralheiro. Suas vozes sempre permaneciam no nível do murmúrio, enquanto, no pátio, sob as cornijas, os arrulhos dos pombos ecoa­vam muito mais alto do que as modestas solicitações dos humildes artesãos.

Quando chegou minha vez de entrar na estreita sala abobadada que ser­via de antecâmara do Tesoureiro, só havia lá um secretário e tive de lhe ex­plicar toda a importância, para o próprio Tesoureiro-Mor, da mensagem de que eu era portador e que precisava lhe ser transmitida o mais rápido possí­vel, por se tratar de uma obra encomendada pelo Nosso Sultão e cuja exe­cução se encontrava suspensa. Intrigado com o que eu trazia, o secretário er­gueu os olhos. Mostrei-lhe as miniaturas que trazia, cujo aspecto peculiar e a excepcional estranheza pareceram surpreendê-lo. Apressei-me a lembrar-lhe quem era meu Tio, seu nome e seu ofício, sem omitir que ele acabava de morrer por causa daquelas mesmíssimas imagens. Eu falava depressa, ple­namente consciente de que, se por acaso não conseguisse a audiência solici­tada, me imputariam sem hesitação a responsabilidade por seu horrível fim.

Quando o secretário finalmente saiu para avisar o Tesoureiro-Mor tive de repente um calafrio: será que o Tesoureiro-Mor abdicaria do seu costu­me, que meu Tio me contara, de nunca abandonar a privacidade do Enderun, de modo a estar sempre presente para desenrolar, cinco vezes por dia, o tapete de orações do Nosso Sultão e ao alcance das suas menores confidên­cias? O simples fato de terem despachado, por minha causa, um mensageiro para o setor proibido do Palácio já era por demais inacreditável. Perguntei-me onde Sua Excelência o Sultão podia estar naquele momento: num dos pavilhões à margem do Bósforo? No harém? Ou, justamente, com o Tesou­reiro-Mor?

Bem mais tarde, acabaram me chamando. Fui pego desprevenido, de sorte que a angústia não teve tempo de me cegar o espírito. Mesmo assim fiquei inquieto ao notar a expressão de reverência e espanto no rosto do mestre tecelão que saía pela porta. Mal entrei, senti-me aterrorizado. Achei que seria incapaz de pronunciar uma só palavra! Cobria-lhe a cabeça o turbante bordado de ouro que só ele e os Grão-Vizires usavam — sim, eu estava dian­te do Tesoureiro-Mor! Ele examinava as miniaturas levadas pelo secretário, que as pusera numa mesa de leitura. Eu sentia tanto medo quanto se fosse eu o autor. Beijei a orla da sua túnica.

“Meu querido filho”, disse ele. “Será que entendi mal, ou seu Tio de fa­to faleceu?”

Incapaz de responder, fosse por emoção, fosse por sentimento de culpa, apenas fiz que sim com a cabeça. Foi então que se produziu uma coisa total­mente inesperada: ali, bem na frente do Tesoureiro-Mor, que me olhou com espanto mas com simpatia, uma lágrima escorreu de cada um dos meus olhos e rolou por minhas faces. Eu me sentia estranhamente perturbado por me encontrar dentro do Palácio, recebido por aquele grande personagem que se afastara do Nosso Sultão só para vir falar comigo. As lágrimas começaram a escorrer copiosamente dos meus olhos, mas eu não sentia o mais remoto ves­tígio de vergonha.

“Chore, chore de todo o coração, meu filho”, dizia-me o Tesoureiro-Mor.

Eu soluçava, lamuriava-me. Eu acreditara que os últimos doze anos te­riam me amadurecido, mas encontrar-me tão perto do Nosso Sultão, no co­ração do Império, de repente me fez sentir criança. Pouco importava que os artesãos — ourives, alfaiates — me ouvissem lá fora. Eu sabia que era preci­so contar tudo ao Tesoureiro-Mor.

E confessei tudo, da maneira como me vinha aos lábios. Ter assim nar­rado a morte do meu Tio, minha união com Shekure, as ameaças de Has­san, as dificuldades em que me via com o livro do meu Tio e o segredo que aquelas miniaturas conteriam, ter como que revivido aquilo tudo diante dos olhos do Tesoureiro-Mor fez-me recuperar minha compostura. Eu sentia no fundo de mim que a única escapatória da armadilha em que caíra era confiar-me totalmente, integralmente, à infinita justiça e clemência do Nosso Sultão, Protetor do Universo. Por isso não omiti nada. Quem sabe se, antes de me entregarem aos meus torturadores e carrascos, o Tesoureiro-Mor não transmitiria minha história diretamente ao Nosso Sultão?

“Anunciem sem mais tardar a morte do Tio Efêndi no ateliê”, ordenou o Tesoureiro-Mor. “E que toda a corporação dos artistas esteja presente a seus funerais.”

Pareceu procurar em meus olhos a sombra de alguma objeção. Mas, en­corajado por sua atitude, aproveitei a ocasião para exprimir minha preocu­pação quanto à identidade do assassino e, principalmente, quanto ao móvel dos assassinatos do meu Tio e do Elegante Efêndi. Primeiro, insinuei que talvez estivessem envolvidos neles a súcia que rodeava o hodja de Erzurum e os que atacavam os conventos de dervixes como antros de prazer, por causa da música e das danças que praticavam. Ante sua expressão de dúvida, evo­quei também o fato de que as somas e as honrarias que um trabalho tão ex­cepcional como o livro do meu Tio envolviam certamente suscitaram rivali­dades e ciúmes entre os miniaturistas. O próprio segredo que rodeava a obra atiçava esses ódios, essas intrigas, esses ressentimentos. Mas eu percebia com inquietação que, à medida que eu falava, o Tesoureiro-Mor começava a me incluir em seu rol de suspeitos — e vocês também, sem dúvida. Meu bom Alá, disse comigo mesmo, que a verdade venha à luz, é tudo o que lhe peço!

Durante o silêncio que se seguiu, o Tesoureiro-Mor esquivava meu olhar, como que incomodado por minhas palavras e pelo rumo que as coisas pare­ciam tomar para mim também. Ele mantinha os olhos fixos na mesa de lei­tura e nas imagens.

“Temos aqui apenas nove miniaturas”, disse ele. “Mas havíamos combi­nado com o Tio Efêndi que seriam dez. E ele recebeu mais folhas de ouro do que foram usadas aqui.”

“Com certeza foi o próprio assassino, esse ímpio, que roubou a última, em que muito ouro, todo o resto, deve ter sido usado.”

“Você não mencionou o nome do calígrafo.”

“Meu falecido Tio não havia terminado de escrever o texto do livro. Ele contava comigo para terminá-lo.”

“Meu filho, você acaba de dizer que tinha chegado há pouco a Istam­bul...”

“Faz uma semana. Três dias depois da morte do Elegante Efêndi.”

“Está querendo dizer que o Tio Efêndi trabalhou, durante um ano, num livro de miniaturas cuja história não estava escrita?”

“Isso mesmo.”

“Ele pelo menos lhe revelou o tema deste livro?”

“Ele se referia sempre à vontade expressa por Nosso Sultão de ter um livro que celebrasse, de acordo com nosso calendário, o milenário da Hégira e enchesse de terror o coração dos venezianos, mostrando o poderio militar e a glória do islã e também a força e a opulência da Sublime Casa de Os­man. A intenção era ser um livro que contasse e representasse os mais valo­rosos e vitais aspectos do nosso reino. E, como no Tratado de fisionomia, um retrato do Nosso Sultão deveria figurar no coração da obra. Além disso, co­mo as ilustrações seriam feitas no estilo europeu e usando os métodos euro­peus, provocariam o respeito e o desejo de amizade do doge veneziano.”

“Estou ciente disso tudo, mas acaso estes cães e estas árvores são o que a Sublime Casa de Osman tem de mais valoroso e vital a apresentar?”, inda­gou ele, apontando vivamente para as ilustrações.

“Meu Tio, que descanse em paz, dizia que este livro não se contentaria apenas com exibir as riquezas do nosso Soberano, mas exporia também sua força moral e espiritual, junto com seus íntimos pesares.”

“E o retrato do Nosso Sultão?”

“Não o vi”, respondi. “Deve certamente estar onde esse ímpio assassino o escondeu. Quem sabe não está guardado em sua própria casa, neste exato momento.”

Em vez de um homem que lutou para produzir um livro à altura das so­mas que lhe haviam sido adiantadas, meu falecido Tio havia sido rebaixado ao nível de um excêntrico que teria encomendado um amontoado de imagens bizarras, sem valor aos olhos do Tesoureiro-Mor. Será que o Tesoureiro-Mor pensava que eu havia matado um homem inepto e indigno de confiança para me casar com a sua filha, ou por alguma outra razão — por exemplo, vender aquelas folhas de ouro? Pelo seu olhar, percebi que sua opinião estava a ponto de ser formada, de modo que, falando nervosamente com o que me restava de forças, tratei de me inocentar: fiz-lhe saber que meu Tio desconfiava de que um dos miniaturistas podia ter participado do assassinato do Elegante Efêndi. Procurando ser breve, revelei-lhe que ele suspeitava de Oliva, Cegonha e Bor­boleta, mas que eu não tinha nem provas nem convicção pessoal disso. Tive então a nítida impressão de que o Tesoureiro-Mor não via em mim mais que um vil delator ou, na melhor das hipóteses, um intrigante idiota.

Senti pois um imenso alívio quando ele emitiu a opinião de que era preciso manter em segredo, para a gente do ateliê, as horríveis circunstâncias da morte do meu Tio. Considerei isso como um sinal de que ele acreditava na minha história. Ele ficou com as miniaturas e eu fui embora, atravessando aquela mesma Porta da Saudação que antes me parecera ser a Porta do Pa­raíso. Depois de passar pelo olhar inquiridor dos guardas, relaxei imediata­mente, como um soldado que volta para casa após uma ausência de muitos anos.

37. Eu sou o vosso Tio

Meu enterro foi esplêndido, exatamente como eu queria. Fiquei lison­jeado ao constatar que todos os que eu podia desejar compareceram. Dos vi­zires que estavam em Istambul quando da minha morte, Hadji Hussein Pa­xá, o Cipriota, e Baki Paxá, o Coxo, lealmente lembraram que eu lhes prestara grandes serviços em algum momento. E a presença do Ministro das Contas, Melek Paxá, dito o Vermelho — personagem controverso, cuja estrela, por ocasião da minha morte, estava no zênite —, agitou todo o pátio da nossa modesta mesquita de bairro. Fiquei particularmente tocado ao reconhecer o Mensageiro-Mor do sultão, Mustafá Agá, cujo cargo sem dúvida eu teria ocu­pado, houvesse eu continuado minha carreira pública. Entre os demais pre­sentes à cerimônia, constituindo um vasto, digno e imponente grupo, esta­vam o Secretário do Divã, Kamaluddin Efêndi, todos os mensageiros do Divã fossem eles meus inimigos ou meus amigos do peito —, o Secretário da Correspondência, Salim Efêndi, o Austero, sempre bonachão e sorridente, ex-funcionários da Corte, retirados como eu da vida ativa, além de meus co-legas de estudo, e tantos outros, que eu me espantava terem ficado tão rapidamente a par da minha morte, os parentes, próximos ou distantes, e muitos jovens também.




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