Meu nome é Vermelho



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Aquela grave e triste congregação me enchia de orgulho, sem contar que a sincera emoção que minha morte causava a Nosso Sultão estava mar­cada pela presença do Tesoureiro-Mor, Hazim Agá, e do Jardineiro-Mor. Não sabia dizer se a presença deste último também queria significar que poriam um empenho especial em descobrir meu ignóbil assassino, empregando in­clusive a tortura, mas de uma coisa eu tinha certeza: o celerado estava no pá­tio, entre os outros miniaturistas e calígrafos, olhando para o meu esquife com uma expressão que não podia ser mais nobre e compungida.

Não pensem que estou com raiva, que aspire a me vingar do meu assas­sino, nem que eu esteja atormentado com esse covarde e horrível crime. Pai­ro doravante em outras alturas, e minha alma, depois de ter sofrido tantos anos na Terra, retornou à sua glória primeira.

Minha alma deixou temporariamente meu corpo que se contorcia de dor, quando jazia ensangüentado pelos golpes do tinteiro, e estremeceu um instante numa luz intensa; depois, dois lindos anjos sorridentes de rosto bri­lhante como o sol — tal como eu lera um sem-número de vezes no Livro da alma — aproximaram-se lentamente de mim envoltos nesse resplendor etéreo, agarraram-me pelos braços, como se eu ainda fosse um corpo, e inicia­ram a ascensão. Com grande serenidade e doçura, ascendemos rapidamen­te, como num sonho feliz! Varamos florestas de fogo, atravessamos rios de luz, cortamos oceanos de trevas e montanhas de neve e gelo. Cada etapa to­mava-nos milhares de anos, que não pareciam mais que um piscar de olho.

Ascendemos através dos sete céus, passando pelas mais variadas aglome­rações, pelas mais peculiares criaturas, pântanos e nuvens formigantes de uma infinita variedade de insetos e pássaros. A cada céu, o anjo que ia à fren­te batia no portão e, quando ouvia a pergunta “quem vem lá?”, descrevia-me com todos os meus nomes e qualificações, e concluía dizendo “um servo obediente do Grande Alá!”, o que enchia meus olhos de lágrimas de felici­dade. Eu sabia, no entanto, que ainda faltavam milhares de anos para o Dia do Juízo, quando os que estavam destinados ao Paraíso seriam separados dos que eram destinados ao Inferno.

Salvo algumas diferenças menores, minha ascensão se deu exatamente da maneira como Al-Gazali, Al-Jawziyya e tantos outros lendários eruditos descreveram em suas passagens sobre a morte. Todos aqueles eternos misté­rios e obscuros enigmas que somente os mortos podem entender eram revelados e iluminados, brilhando esplendorosamente um a um em milhares de cores.

Como descrever as cores que contemplei ao longo de toda essa ascen­são maravilhosa? O mundo todo era feito de cor, tudo era cor. Assim como eu havia sentido, na Terra, que a força que me separava de todas as outras coi­sas do mundo consistia em cor, agora sei que era a própria cor que amorosa­mente me abraçava e me ligava ao mundo. Vi céus laranja, corpos de um lindo verde-folha, ovos cor de café e lendários cavalos azul-celeste. Tudo era como nas minhas lendas preferidas e em suas ilustrações, que eu apreciara avidamente por tantos anos. Eu contemplava a Criação com temor e surpre­sa, como se o fizesse pela primeira vez, mas também como se de alguma ma­neira ela tivesse emergido da minha memória. O que eu chamava memória continha todo um mundo: com o tempo se estendendo infinitamente diante de mim em ambas as direções, compreendi que o mundo, tal como o expe­rimentei antes, sobreviveria doravante como memória. Enquanto morria, ro­deado por um festival de cores, descobri também por que eu sentia tamanho bem-estar, como se me houvesse livrado de um grilhão c como se, de agora em diante, sem nada a me restringir, eu tivesse tempo e espaço ilimitados para experimentar todas as eras e todos os lugares.

Assim que percebi essa liberdade, soube com medo e êxtase que estava próximo Dele; ao mesmo tempo, senti humildemente a presença de um ver­melho absolutamente incomparável.

Em pouco tempo, o vermelho impregnava tudo. A beleza dessa cor cobria a mim e a todo o universo. Eu me aproximava cada vez mais do Seu Ser, e isso me fazia sentir a necessidade premente de gritar de alegria. Tive de re­pente vergonha de ser levado à Sua presença empapado de sangue como es­tava. Outra parte do meu espírito recordava entretanto o que eu havia lido nos livros sobre a morte: Ele chamaria Azrail e Seus outros anjos para me le­var à Sua presença.

Seria eu capaz de contemplá-Lo? A excitação cortava-me o fôlego.

O vermelho que de mim se aproximava — o vermelho onipresente den­tro do qual todas as imagens do universo palpitavam — era tão magnífico e lindo que multiplicou minhas lágrimas à idéia de que eu ia me tornar parte dele e ficar próximo Dele.

Mas compreendi também que Ele não chegaria mais perto de mim do que já chegara. Ele havia interrogado os anjos, estes tinham lhe feito meu elogio e, como eu fora Seu servidor zeloso, obedecendo às Suas proibições e aos Seus mandamentos, soube que Ele já me amava.

A alegria crescente e as lágrimas copiosas foram abruptamente envene­nadas por uma dúvida inoportuna. Torturado pela culpa, impaciente na mi­nha incerteza, declarei-Lhe:

“Nos últimos vinte anos da minha vida, sofri a influência das imagens ímpias que vi em Veneza. A certa altura, senti-me inclusive tentado a enco­mendar meu retrato nesse estilo. Mas tive medo. Contentei-me, mais tarde em mandar pintar Teu Universo, Teus Escravos e Tua Sombra aqui — Nos­so Sultão — à memória dos infiéis.”

Não me lembro da Sua voz, mas sim da resposta que Ele me deu em meus pensamentos.

“O Oriente e o Ocidente me pertencem.”

Eu não cabia mais em mim de exaltação!

“Sim! Mas qual o sentido disto tudo... deste mundo?”

“Mistério”, ouvi em meus pensamentos, ou talvez tenha sido “miséria”, mas não tenho certeza.

Quando os anjos se aproximaram de mim, compreendi que, sem dúvi­da, uma decisão a meu respeito já havia sido tomada nesta altura dos céus, mas que, antes de sabermos da nossa sorte, eu e toda a multidão das almas dos que morreram nas últimas dezenas de milhares de anos esperaríamos aqui, no limbo, na divina balança de Berzah, até o dia do Juízo Final. Que tudo se passasse conforme o que está escrito nos livros era, para mim, uma fonte de grande satisfação. Lembrei-me então de que neles está dito que mi­nha alma se reuniria de novo ao meu corpo, quando o descessem na cova, para sepultá-lo.

Mas logo entendi que o fenômeno de “voltar ao meu corpo sem vida” era apenas uma metáfora, felizmente. Apesar do luto, o digno cortejo fúne­bre, que tanto me enchia de orgulho, portava-se com uma ordem espantosa ao descer, recitadas as preces, até o modesto cemitério da Pequena Colina, contíguo à mesquita, carregando o meu esquife. Visto aqui de cima, parecia um fino e delicado fio estendido no chão.

Permito-me citar, para precisar claramente o lugar em que me encon­tro, o conhecido dito do nosso Profeta: “A alma do Crente é um pássaro que se alimentará dos frutos das árvores do Paraíso”. E, de fato, a alma depois da morte esvoaça no firmamento. Isso não significa porém, como pretende Abu Umar bin Abd-ul-Bar, que a alma tome a forma de um pássaro ou mesmo se torne um deles. Não, como esclarece justamente Al-Jawziyya, isso quer ape­nas dizer que a alma pode ser encontrada onde os pássaros se reúnem. E a vista que tenho daqui, o que os mestres venezianos chamariam de meu pon­to de vista ou minha “perspectiva”, confirma plenamente a interpretação de Al-Jawziyya.

Daqui de cima, como dizia, eu podia contemplar o fio do cortejo fúne­bre entrando no cemitério e, com o prazer com que se analisa uma pintura, podia ver um barco ganhar velocidade, suas velas enfunando com o vento ao singrar na direção do promontório do Palácio, onde o Chifre de Ouro en­contra o Bósforo. Porque, olhando desta altura, igual à do mais alto minare­te, o mundo parece um livro magnífico cujas páginas eu examinava uma a uma.

Mas eu também podia ver muito mais coisas do que poderiam, mesmo de uma altura como esta, aqueles cuja alma não se separou do corpo, e ver tudo ao mesmo tempo: na outra margem do Bósforo, para lá de Uskudar, uns garotos pulando carniça num jardim abandonado, entre túmulos; a graciosa progressão do caíque do Vizir dos Assuntos Diplomáticos, movido por sete pares de remadores, doze anos e sete meses atrás, quando acompanhávamos o embaixador veneziano da sua residência no litoral ao encontro do Grão-Vizir Rajib Paxá, o Calvo; uma gorda que levava no colo, como um bebê que ela acalentava, um enorme repolho que acabava de comprar no mercado novo de Langa; minha alegria quando soube que o Grão-Mensageiro do Di­vã, Ramazan, tinha morrido, abrindo caminho para minha promoção; eu, pequenino, fascinado com as camisas vermelhas que minha avó segura nos braços enquanto minha mãe as estende no varal, depois de lavá-las; eu, de novo, correndo como um louco por um bairro distante à procura da parteira quando minha falecida esposa, descanse em paz, entrou em trabalho de par­to para dar à luz Shekure; o lugar em que está meu cinto vermelho que per­di quarenta e tantos anos atrás (agora sei que foi Vasfi que roubou); o esplên­dido jardim que vi uma vez em sonho, há vinte e um anos, que parecia tão distante e que, espero, Alá um dia confirmará que é o Paraíso; as cabeças, as narinas e as orelhas cortadas enviadas a Istambul por Ali Bei, o Governador-Geral da Geórgia, que massacrou os rebeldes da fortaleza de Gori; e minha linda Shekure, que se separou das mulheres da vizinhança que vieram me prantear em casa e que olha chorando para a lareira no fundo do pátio.

Os livros dos autores clássicos ensinam que nossa alma habita quatro moradas: 1. o ventre materno; 2. o mundo terreno; 3. Berzah, o divino lim­bo, onde agora aguardo o Dia do Juízo; 4. o Paraíso ou o Inferno, para onde irei depois do Juízo.

Do local intermediário de Berzah, o passado e o presente se mostram simultaneamente e, enquanto a alma permanece internada em suas lem­branças, não há limites espaciais. E é só então, ao escaparmos dos calabouços do tempo e do espaço, que fica evidente que a vida é um grilhão. No en­tanto, por mais venturoso que seja ser uma alma sem corpo no reino dos mortos, também o é ser um corpo sem alma entre os vivos — pena que nin­guém se dê conta disso antes de morrer! Assim, durante meu simpático fu­neral, enquanto eu via com tristeza minha querida Shekure desfazer-se inu­tilmente em lágrimas, supliquei ao grande Alá que nos concedesse almas sem corpo no Paraíso e corpos sem alma na terra.

38. Eu, Mestre Osman

Vocês já ouviram falar desses velhos rabugentos que sacrificaram gene­rosamente à arte sua interminável existência. Eles se tornam odiosos a todos. Compridos, magros e ossudos, gostariam que o pouco que ainda lhes resta de vida pudesse ser a repetição dos longos anos que deixaram para trás. São irritadiços e estão sempre reclamando de tudo. Querem manter o controle de todas as situações e fazem todos os que com eles convivem baixar os bra­ços de desânimo. Não gostam de ninguém nem de nada. Sei disso, porque sou um deles.

O mestre dos mestres, Nurullah Selim Tchelebi, com quem tive a hon­ra de fazer ilustrações joelho contra joelho no mesmo ateliê, estava na casa dos oitenta, quando eu não passava de um jovem aprendiz de dezesseis anos (mas não era tão mal-humorado quanto eu sou agora). O último dos gran­des mestres, Ali, o Louro, que enterramos trinta anos atrás, também era assim (mas não era tão comprido e magro quanto eu sou). Como as flechas da crítica disparadas contra esses lendários mestres, que dirigiam os ateliês da sua época, hoje costumam acertar as minhas costas, quero que vocês saibam que as acusações corriqueiras feitas a nós eram totalmente infundadas. Eis os fatos:

1. A razão pela qual não gostamos de nada que seja inovador está em que, na verdade, não há nada de novo que preste.

2. Tratamos a maioria das pessoas como um bando de idiotas porque de fato a maioria das pessoas é idiota, e não porque a raiva, a infelicidade ou al­gum vício de caráter nos envenene. (Está claro que tratar melhor essa gente seria mais refinado e sensível.)

3. Se esqueço e confundo tantos nomes e rostos — salvo os dos minia­turistas que eu apreciei e formei desde seu aprendizado —, não é por senili­dade, mas porque esses nomes e rostos são tão sem brilho e sem cor que não valeria a pena recordá-los.

No enterro do Tio, cuja alma foi prematuramente levada por Alá para pôr fim a todas as suas maluquices, tentei esquecer que o falecido tinha me causado certa vez uma indescritível agonia ao me forçar a pintar à maneira dos mestres europeus. Mas, de volta para casa, pensava comigo mesmo: vo­cê já não está longe da cegueira e da morte, essas dádivas de Alá. Claro, se­rei lembrado enquanto minhas miniaturas e meus manuscritos continuarem a deleitar os olhos e fazer a felicidade florescer na alma de vocês. Mas, de­pois que eu morrer, gostaria que soubessem que na minha idade avançada ainda havia muitas coisas que me faziam sorrir. Por exemplo:

1. As crianças. (Elas resumem o que há de vital no mundo.)

2. As boas lembranças. (Formosos efebos, mulheres bonitas, as boas pin­turas que fizemos, as amizades.)

3. Ver as obras-primas dos velhos mestres de Herat. (Isso os ignorantes não podem compreender.)

O que significa tudo isso: que no ateliê do Nosso Sultão, que eu dirijo, já não se podem fazer obras de arte magníficas como as de outrora, e essa si­tuação vai piorar, tudo vai minguar até desaparecer. Tenho a dolorosa cons­ciência de que raramente alcançamos o sublime nível dos velhos mestres de Herat, a despeito de termos sacrificado com amor toda a nossa vida por esse trabalho. Aceitar humildemente essa verdade torna a vida mais fácil. De fa­to, é exatamente porque torna a vida mais fácil que a modéstia é uma virtu­de tão prezada em nossa parte do mundo.

Eu próprio me sujeito, no Livro das festividades para a circuncisão dos príncipes, a exercícios de humildade. Como naquela imagem representan­do, com sua sela toda trabalhada em ouro, sob uma manta de seda vermelha, e sua sombrinha cor de ágata, o cavalinho de madeira — puro-sangue árabe, fogoso, indômita, rápido como um corisco, com seu penacho salpica­do, sua esplêndida pelagem prateada, suas rédeas e seus estribos de pérolas e crisólitas amarelo-esverdeados, seus arreios de ouro e pedrarias — oferecido pelo Governador-Geral do Egito a um dos jovens príncipes, vestido de velu­do vermelho com alamares bordados, levando a tiracolo uma espada toda la­vrada em ouro e com a bainha cravejada de rubis, esmeraldas e turquesas. Eu cuidei da composição e acrescentei pessoalmente, aqui e ali, algumas pinceladas no cavalo, na espada, no príncipe e nos embaixadores misturados à assistência, que eu havia encarregado vários dos meus aprendizes de ilumi­nar separadamente. Pus um pouco de roxo em certas folhas dos plátanos do Hipódromo, guarneci de ouro os botões do cafetã usado pelo emissário do cã dos tártaros e ia fazer a douradura do freio e dos arreios, quando bateram. Eu mesmo fui atender.

Era um pajem da Porta. O Tesoureiro-Mor me chamava ao Palácio. Meus olhos cansados me causavam um doce sofrimento. Pus minha magní­fica lupa no bolso do cafetã e saí, seguindo o rapaz.

Como é bom, como é bonito andar nas ruas depois de uma longa ses­são de trabalho! O mundo aparece então sob um aspecto novo e surpreen­dente, como se acabasse de ser criado por Alá.

Vejo um cachorro: ele é muito mais expressivo do que todos os cachor­ros que os pintores já fizeram. Avisto um cavalo: uma criação não tão boa quanto a que meus mestres miniaturistas são capazes de fazer. Mas aquele plátano no Hipódromo é exatamente o mesmo cujas folhas eu acabava de realçar com toques de roxo.

Caminhar pelo Hipódromo, cujas paradas eu havia ilustrado nos dois úl­timos anos, era como entrar nas minhas próprias pinturas. Digamos que fôs­semos descer uma rua: numa pintura européia, isso nos faria sair tanto da mol­dura como da obra; numa pintura feita seguindo o exemplo dos grandes mestres de Herat, isso nos levaria ao lugar de que Alá olha para nós; numa pintura chinesa, ficaríamos presos, porque as ilustrações chinesas são infinitas.

O jovem pajem, descobri, não estava me levando para a sala do Divã, onde eu costumava me encontrar com o Tesoureiro-Mor para conversar so­bre um destes assuntos: os manuscritos, os ovos ornamentados ou outros pre­sentes que meus miniaturistas estavam preparando para o Nosso Sultão; a saúde dos ilustradores ou o próprio estado do Tesoureiro-Mor e sua paz de espírito; a aquisição de pigmentos, folhas de ouro e outros materiais; as quei­xas e solicitações costumeiras; os desejos, delícias, exigências e disposição do Protetor do Mundo, Nosso Sultão; minha vista, meus óculos ou meu lumbago; o imprestável cunhado do Tesoureiro-Mor ou a saúde do seu gato. Sem fazer barulho, entramos no Jardim Privativo do Sultão. Como se cometêsse­mos um crime, mas com a maior delicadeza, descemos serenamente por en­tre o arvoredo na direção do mar. Como nos aproximávamos do Pavilhão de Beira-Mar, eu disse comigo que talvez estivesse sendo esperado por Nosso Sultão. Mas mudamos de rumo. Demos mais alguns passos, entramos pela arcada de uma grande construção de pedra, atrás do hangar dos botes e caíques. Senti o cheiro de pão assado vindo do forno da guarda antes de avistar os próprios guardas imperiais em seus uniformes encarnados.

O Tesoureiro-Mor e o Jardineiro-Mor estavam juntos numa sala: o Anjo e o Demônio!

O Jardineiro-Mor, que em nome do Nosso Sultão executava os conde­nados nos jardins do palácio — que torturava, interrogava, espancava, cega­va e administrava as bastonadas nas costas e na sola dos pés —, sorria doce­mente para mim. Era como se ele fosse um viajante comum, com o qual eu me via obrigado a dividir uma alcova num caravançará e que ia me contar uma boa história.

Mas não foi o Jardineiro-Mor, e sim o Tesoureiro-Mor, que me expôs os fatos:

“Nosso Sultão, um ano atrás, encarregou-me de mandar fazer um ma­nuscrito iluminado, realizado no mais absoluto sigilo, que faria parte dos pre­sentes destinados a uma delegação diplomática. Em razão do segredo desse livro, Sua Excelência não desejou que Mestre Lokman, o Historiógrafo-Mor, fosse associado a essa obra. Do mesmo modo, não arriscou envolver você, cuja arte ele admira tanto. Além disso, estimou que você já estava suficiente­mente ocupado com seu trabalho no Livro das festividades.”

Ao entrar naquela sala, eu havia imaginado cheio de pavor que algum caluniador, para obter as boas graças do Nosso Sultão, talvez houvesse tacha­do sem o menor escrúpulo uma miniatura minha de sacrílega ou herética e que eu iria, sem nenhuma deferência para com minha elevada idade, ser submetido à tortura. Agora, ao ouvir o Tesoureiro-Mor, que, acreditando me revelar que Nosso Sultão havia encomendado uma obra a outro, tentava re­conquistar minha confiança traída, suas palavras me pareciam mais doces que o mel. Porque não apenas eu estava a par daquela encomenda, mas seu relato não me acrescentava nenhuma novidade. Também já sabia dos boa­tos relativos ao hodja de Erzurum e, é claro, das intrigas internas do Grande Ateliê.

Mas, para entrar no seu jogo, fiz uma pergunta cuja resposta eu já sa­bia: “Quem foi encarregado da encomenda?”.

“O Tio Efêndi, como você sabe”, respondeu-me o Tesoureiro-Mor, fa­zendo uma pausa para me olhar no fundo dos olhos. “Mas talvez você não saiba que ele morreu de morte inesperada, quer dizer, foi assassinado. Ou já sabia?”

“Não”, respondi simplesmente, como uma criança, e me calei.

“Nosso Sultão está furioso”, acrescentou o Tesoureiro-Mor.

Aquele excêntrico do Tio Efêndi não passava de um maluco. Os mes­tres miniaturistas sempre zombaram dele, dizendo ser mais pretensioso que culto e mais ambicioso que inteligente. Em todo caso, em seu funeral, des­confiei que havia algo de estranho. Como será que o mataram, perguntei-me?

O Tesoureiro-Mor me contou. Que horror! Que Alá nos proteja. Quem pode ter sido?

“O Sultão ordenou”, disse o Tesoureiro-Mor, “que o livro em questão tem de ser concluído o mais depressa possível, assim como o Livro das festi­vidades...”

“Ele deu outra ordem”, interveio o Jardineiro-Mor. “Temos de desmas­carar o abjeto assassino, o miserável comparsa do Demônio que se dissimula entre os mestres miniaturistas. Seu castigo será tão exemplar que nunca mais passará pela cabeça de ninguém cometer ato igual.”

Como se já soubesse qual o suplício reservado ao culpado, o Jardineiro-Mor deixou transparecer no seu rosto um lampejo de satisfação.

Nosso Sultão tinha encarregado aqueles dois homens dessa tarefa, sem dúvida para tirar partido de uma espécie de emulação entre os dois, que sa­bidamente se odiavam, para que nenhuma pista fosse negligenciada e ne­nhum esforço poupado na busca da verdade. Isso só me fez sentir pelo Sultão mais ternura e mais admiração. Um pajem veio servir café, e nós nos sen­tamos.

Contaram-me que o Tio Efêndi tinha um sobrinho chamado Negro Efêndi, que ele educara e formara nas artes do pincel e do cálamo. Eu o co­nhecia? Não respondi. Atendendo ao chamado do seu Tio, ele havia voltado havia pouco da fronteira persa, onde trabalhava para Serhat Paxá — expli­cou-me o Jardineiro-Mor medindo-me com um ar desconfiado. Fazendo-se cair nas boas graças deste, foi introduzido no segredo da obra cuja criação seu Tio supervisionava. Depois do assassinato do Elegante Efêndi, as suspei­tas do Tio recaíram sobre os pintores que vinham durante a noite trazer sua contribuição. Ora, o Negro, sabendo que miniaturas cada pintor tinha feito, afirmava não só que o assassino do seu Tio era um deles, como havia rouba­do a miniatura mais ricamente ornada de folhas de ouro, a que representava o Nosso Sultão. Por dois dias, o rapaz havia escondido ao Tesoureiro-Mor e ao palácio a morte violenta do Tio, a fim de poder se casar nesse intervalo com a filha dele, cuja viuvez também se prestava a controvérsia, e se insta­lar na casa do falecido, conduta que parecia muito suspeita a eles dois.

“Se revirarem a casa e o local de trabalho de cada um dos meus mestres miniaturistas e descobrirem a página faltante com um deles, o raciocínio do Negro se mostrará bem fundado”, falei então. “Mas devo dizer que a idéia de que esse crime possa ter sido cometido por qualquer um dos meus filhos queridos, por meus miniaturistas divinamente inspirados, que conheço des­de quando eram aprendizes, é para mim totalmente inconcebível.”

“As casas de Borboleta, Cegonha e Oliva”, disse o Jardineiro-Mor, ca­çoando dos apelidos que eu lhes dera afetuosamente, “vão ser revistadas, bem como, se for o caso, o ateliê e todas as dependências que tiverem. O mesmo acontecerá com o Negro.” Depois, com um ar de deplorar este aspecto da questão: “Obtivemos, caso surja algum problema, queira Alá que não, a au­torização do juiz para recorrer legalmente à tortura durante os interrogató­rios. Como as duas vítimas pertenciam, de uma maneira ou de outra, à cor­poração dos miniaturistas, todos eles, sem exceção, do mestre ao aprendiz, são considerados suspeitos e passíveis de tortura”.

Pensei comigo: 1. Por tortura legal, ele quer dizer que a permissão não vem do Nosso Sultão; 2. Como, para o juiz, todos os miniaturistas eram sus­peitos, eu mesmo, como chefe e responsável pela corporação, também era; 3. Além disso, esperam de mim uma aprovação tácita ou explícita para esse recurso à tortura dos meus queridos Borboleta, Oliva, Cegonha e os outros — os quais, sem exceção, não hesitaram em me trair nestes últimos anos.

“Como Nosso Sultão deseja que terminemos não apenas o Livro das fes­tividades, mas também essa obra, que evidentemente está interrompida. E isso nas melhores condições...”, disse o Tesoureiro-Mor. E me encarando: “Tomaremos o cuidado de preservar as mãos e os olhos dos seus mestres, e tudo o que lhes serve para trabalhar”.

“Isso me faz pensar num outro caso do mesmo gênero”, acrescentou bruscamente o Jardineiro-Mor. “Um dos ourives encarregados de reparar os adornos e as jóias cedeu, como uma criança ávida, a uma tentação do De­mônio e roubou uma xícara de café cravejada de pedras preciosas e asa de rubis, pertencente à própria irmã de Nosso Sultão, a sultana Nedjmiye. Co­mo o roubo desse belo objeto foi cometido no recinto do palácio de Usku­dar, deixando sobremaneira entristecida sua jovem irmã, Nosso Sultão nos encarregou da investigação. Como estava claro que nem Nosso Sultão nem a sultana Nedjmiye desejavam que os olhos e os dedos dos mestres ourives sofressem qualquer dano que comprometesse sua habilidade, eu mandei des­pi-los e jogá-los nas águas glaciais do laguinho do jardim, entre rãs e pedras de gelo. De vez em quando tirava um de lá e, tomando cuidado para não to­car nas mãos e no rosto, mandava açoitá-lo vivamente. Num instante, o cul­pado denunciou-se, aceitando pagar o preço da sua cegueira demoníaca. Apesar do frio, da água gelada e do açoite, os outros ourives, que não tinham nada a se censurar, tiveram assim seus olhos e seus dedos salvos. E o Sultão me fez saber que, além da alegria extrema da sua jovem irmã, os próprios ourives, contentes por terem se livrado daquela ovelha negra, passaram a tra­balhar com redobrado zelo.”




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