Meu nome é Vermelho



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Eu tinha certeza de que o Jardineiro-Mor não seria mais ameno com meus ilustradores do que havia sido com aqueles ourives. Apesar de todo o respeito que deve ao grande amante de manuscritos iluminados que é Nosso Sultão, no fundo, ele considera a caligrafia a única arte nobre e relega, como muitos outros, a iluminação e até o desenho ao nível de atividade vaga­mente herética, inútil e, por isso mesmo, condenável, para não dizer afemi­nada. “Quando você ainda estava na força da idade e no apogeu da sua arte, seus queridos discípulos já estavam intrigando para saber quem iria substi­tuí-lo, depois da sua morte”, disse ele para me provocar.

Será que ainda havia intrigas que eu não conhecia? Estaria ele me in­formando de alguma novidade? Fiquei calado. Naquele momento, creio que meu rancor contra o Tesoureiro-Mor que, pelas minhas costas, havia confia­do a realização de um manuscrito àquele imbecil de quem a morte acabava de nos livrar, devia ser bastante nítido, sem contar a raiva que me davam to­dos aqueles ingratos, aqueles mestres miniaturistas que, às escondidas, ti­nham emprestado seu pincel para aquela obra infame, por algumas miserá­veis moedas a mais e para serem bem-vistos no Palácio.

Devo dizer inclusive que, naquele momento, surpreendi-me imaginan­do que torturas eles iriam infligir. Não iriam esfolá-los durante o interrogató­rio, porque assim morreriam inevitavelmente, nem empalá-los tampouco, pela mesma razão, e por ser um castigo excepcional, exemplar, reservado aos rebeldes. Sendo eles miniaturistas, também estava fora de cogitação quebrar-lhes os braços, as pernas ou os dedos. E, é claro, arrancar um olho só — o que parecia ser uma medida cada vez mais freqüente nestes dias, a julgar pe­lo número crescente de caolhos com que eu cruzava nas ruas de Istambul — seria inadequado no caso de um pintor. Por isso acabei imaginando meus queridos miniaturistas num canto escondido do Jardim Privativo, tremendo na água gelada de um lago e trocando olhares de ódio no meio dos nenúfares. Aquilo me deu vontade de rir. Mas, ao imaginar logo em seguida os ber­ros de Oliva, se queimassem sua carne com um ferro em brasa, ou a cor empalidecida do meu querido Borboleta, se o metessem na prisão, estremeci. Quanto ao meu caro Cegonha, que me trazia lágrimas aos olhos com seu ta­lento e seu amor pela iluminação, a idéia de que pudessem aplicar-lhe o su­plício da bastonada, como se fosse um vulgar aprendiz, era simplesmente in­tolerável. Fiquei ali, abismado e vazio.

Meu cérebro emudeceu, enfeitiçado por seu próprio silêncio interior. Houve uma época em que pintávamos juntos com uma paixão que nos fazia esquecer tudo.

“Esses homens são os melhores miniaturistas do Nosso Sultão”, disse eu por fim. “Não os maltratem muito.”

O Tesoureiro-Mor levantou-se com um ar satisfeito, para ir pegar, nu­ma escrivaninha no fundo de uma sala contígua, um rolo de folhas de papel, que pôs diante de mim e, como se a sala houvesse ficado às escuras, co­locou ao meu lado dois candelabros, cujos braços traziam grandes chamas bruxuleantes, para que eu pudesse estudar as pinturas em questão.

Como explicar a vocês o que vi ao passear minha lupa por elas? Tive vontade de achar graça — não porque fossem humorísticas. Fiquei com rai­va — era como se o Tio Efêndi houvesse instruído assim meus mestres: “Não pintem como vocês, pintem como se fossem outra pessoa”. Era como se ele os houvesse forçado a pintar lembrando-se de coisas que nunca teriam existi­do e sonhando com um futuro ao qual jamais teriam aspirado. O mais incrí­vel porém era que eles tenham se trucidado por essas bobagens.

“Examinando estas ilustrações, você poderia nos dizer qual dos seus mi­niaturistas fez qual delas?”, perguntou o Tesoureiro-Mor.

“Claro”, respondi com irritação. “Onde as encontraram?”

“O próprio Negro as trouxe e nos entregou voluntariamente”, esclare­ceu o Tesoureiro-Mor. “Ele quer provar sua inocência, assim como a do seu falecido Tio.”

“Vocês deveriam torturá-lo durante o interrogatório”, sugeri, “para que saibamos que segredos mais nosso falecido Tio estava ocultando.”

“Já mandamos buscá-lo”, respondeu o Jardineiro-Mor excitado. “E na sua ausência a casa do nosso recém-casado vai ser revistada de cima a baixo.”

O rosto dos dois se iluminou estranhamente e, como se fulminados por um terror sagrado, curvaram-se até o chão.

Sem precisar me virar, compreendi que Sua Excelência, Nosso Sultão, Protetor do Universo, acabava de entrar.

39. Meu nome é Ester

Ó, como é bom chorar todas juntas! Enquanto os homens estavam no enterro do pai da minha querida Shekure, as mulheres, amigas e inimigas, parentes e íntimas, estavam reunidas na casa compartilhando seu choro, e eu também batia no meu peito e pranteava com elas. Ora, molemente en­costada na bonita mocinha sentada ao meu lado, eu chorava balançando suavemente, no mesmo ritmo, ora, mudando de tom, vertia lágrimas since­ras sobre os tormentos da minha triste vida. Se pudesse chorar assim uma vez por semana, a fim de esquecer aqueles vaivéns diários pelas ruelas da cidade para botar comida em casa e todas as humilhações que suporta por ser gorda e judia, com certeza a velha Ester seria ainda mais tagarela.

Gosto das festas porque posso comer à vontade e, ao mesmo tempo, es­quecer que sou a ovelha negra daquela gente. Adoro as baklavas, os doces mentolados, os pãezinhos de amêndoa e as tradicionais frutas secas; nas ceri­mônias de circuncisão, os folhados salgados, o arroz com carne; o suco de cereja que havia no Hipódromo, nos festejos oferecidos por Nosso Sultão. Nos banquetes de casamento, tudo. E as halvahs de gergelim, mel e vários outros sabores que os vizinhos mandam à guisa de condolência quando al­guém do bairro morre.

Saí em direção ao corredor, sem fazer barulho, enfiei meus sapatos e desci. Antes de passar outra vez pela cozinha, como ouvia um ruído estra­nho vindo do aposento ao lado da estrebaria, fui até lá dar uma olhada e vi Shevket e Orhan, que tinham amarrado o filho de uma das mulheres que chorava no andar de cima e pintavam a cara dele com os velhos pincéis do falecido. “Se tentar fugir, você vai ver!”, dizia Shevket dando-lhe um tabefe.

“Crianças, sejam bonzinhos e brinquem sem se machucar, está bem?”, disse a eles com a voz mais macia que pude.

“Meta-se com a sua vida!”, rebateu Shevket.

Ao ver a lourinha, toda trêmula ao lado do irmão que os outros dois martirizavam, identifiquei-me tanto com ela! Bem, deixe isso para lá, Ester!

Na cozinha, Hayriye me recebeu com um olhar desconfiado.

“Chorei até secar, Hayriye”, fui logo dizendo. “Dê-me um pouco d’água, por Alá.”

Ela me deu, sem dizer uma palavra. Antes de beber, olhei-a nos olhos, inchados de tanto chorar, e comentei:

“Pobre Tio Efêndi, dizem por aí que ele morreu antes do casamento da filha. A boca das pessoas não é como os meus sacos, que é só amarrar para fechar. Tem até quem diga que a morte não foi natural.”

Ela olhou com ar absorto para a ponta dos pés, depois disse erguendo a cabeça, mas sem olhar para mim:

“Que Alá nos preserve das calúnias!”

Pelos seus gestos dava para compreender que ela gostaria de ter dito que era verdade, mas o som da sua voz mostrava que ela era obrigada a se calar.

“O que foi que aconteceu?”, perguntei abruptamente, sussurrando com um ar de confidência.

A insegura Hayriye certamente já havia entendido que não tinha a me­nor esperança de exercer qualquer autoridade sobre a Shekure após a morte do Tio Efêndi. Aliás, lá em cima, instantes atrás, ela era a que chorava mais sinceramente.

“O que vai ser de mim agora?”, falou.

“Ora, Shekure gosta muito de você”, respondi no tom com que costu­mava dar notícias. Levantando as tampas dos potes de halvah arrumados entre a grande jarra de xarope de uva e a vasilha de pepinos em conserva, enfiando o dedo num deles para provar ou simplesmente debruçando-me so­bre outro para sentir o cheiro, perguntei à criada quem havia trazido tudo aquilo:

“Este foi a mulher de Kasim Efêndi de Kayseri que mandou. Aquele é do pedreiro que mora a duas ruas daqui. Aquele lá é da mulher que o serra­lheiro Hamdi Canhoto arranjou em Andrinopla. Aquele ali, do jovem noivo de Edirne...”

Ela já ia enumerando todos, quando Shekure interrompeu-a.

“Kalbiye, a viúva do Elegante Efêndi, não veio prestar suas condolên­cias. Não enviou um bilhete nem mandou nada, nem mesmo um pouco de halvah.”

Ela saiu da cozinha na direção da escada. Fui atrás dela, porque enten­di que ela queria esvaziar seu coração longe dos ouvidos indiscretos de Hay­riye.

“Não havia nenhuma intimidade entre meu pai e ele. No dia do enter­ro do Elegante Efêndi, mandamos nossa halvah à casa deles. Gostaria de sa­ber o que houve com eles”, disse-me Shekure.

“Pode deixar, que vou tirar a limpo esse assunto”, respondi adivinhando os pensamentos da minha bela Shekure.

Ela me deu um beijo de agradecimento por não forçá-la a revelar mais nada. Apertei-a em meus braços longamente, tanto mais que vinha do pátio um frio terrível. Acariciei seus cabelos.

“Ester, estou com medo”, disse ela.

“Não tenha medo, querida”, respondi. “Tudo tem seu lado bom. Olhe, agora você está casada de novo.”

“Sim, mas não sei se agi direito. Tanto que nem deixei meu marido se aproximar de mim e passei a noite de núpcias ao lado do meu pai”, contou-me arregalando seus lindos olhos.

“Hassan pretende que, para o juiz, seu casamento não tem validade”, comentei. “Olhe, ele te mandou isto aqui.”

Embora dissesse “agora não”, abriu imediatamente o bilhete e leu, mas dessa vez não o leu para mim.

Fez bem, aliás, porque não estávamos a sós: um marceneiro, que viera consertar o contravento da janela do corredor, no primeiro andar, que caíra e se quebrara naquela manhã por algum motivo que eu não sabia, não tirava o olho de nós e das outras mulheres que choravam o morto dentro de casa. Nesse momento, Hayriye foi abrir o portão para o garoto de um dos vizinhos, que trazia mais halvah.

“Podiam ter mandado antes do enterro”, disse Shekure. “Tenho certeza de que a alma do meu pobre pai voltou hoje pela última vez. Agora já está lá em cima.”

Ela soltou meu braço para fazer, olhos erguidos para o céu luminoso, uma longa prece.

Senti-me de repente tão estranha e distante de Shekure, que era como se eu fosse uma daquelas nuvens para as quais ela estava olhando. Assim que terminou sua prece, ela me beijou carinhosamente nos dois olhos.

“Ester”, disse ela, “enquanto o assassino do meu pai estiver vivo, meus filhos e eu não teremos descanso neste mundo.”

Fiquei contente ao perceber que ela não mencionava seu novo marido.

“Vá à casa do Elegante Efêndi, puxe conversa com a viúva e procure descobrir por que ela não nos mandou nem um pouco de halvah. E traga lo­go a resposta.”

“Tem algum recado para Hassan?”, perguntei.

Senti vergonha. Não por causa da minha pergunta, mas por não ter con­seguido olhá-la nos olhos ao fazê-la. Para ocultar meu embaraço, detive Hay­riye que carregava um prato e levantei a tampa. “Oh! Halvah de semolina com pistache”, exclamei, pegando uma. “E puseram casca de laranja tam­bém!”

O amável sorriso de Shekure, como se tudo corresse às mil maravilhas, reconfortou-me.

Pus meu saco nas costas e saí. Não tinha dado dois passos lá fora quan­do vi o Negro, no fim da rua. Ele vinha com o ar orgulhoso e satisfeito de um recém-casado que acaba de enterrar o sogro. Para não desmanchar seu prazer, entrei pela cerca viva de um pomar, depois passei pelo jardim que fi­ca atrás da casa em que o famoso médico judeu Moshe Hamon escondia o irmão da sua amante, aquele que acabou sendo enforcado. Cada vez que passo por lá, o cheiro de morte que ronda aquele jardim me deixa tão triste que até esqueço que preciso encontrar um comprador para a casa.

O mesmo cheiro de morte pairava na casa do Elegante Efêndi, mas não me provocava tristeza alguma. Eu, Ester, uma mulher que já passou por milhares de casas e conhece centenas de viúvas, posso lhes dizer que as mulhe­res que perdem o marido cedo, ou ficam desesperadas e arrasadas, ou se re­voltam e se tornam verdadeiras fúrias. Shekure ficou um pouco as duas coi­sas ao mesmo tempo, mas Kalbiye optara decididamente por ficar furiosa e percebi de saída que aquilo ia facilitar minha missão.

Como todas as mulheres vítimas do destino, Kalbiye desconfia, com ra­zão, que todas as pessoas que passam por sua casa naquele momento penoso vêm tanto ou muito mais para se felicitar secretamente por estarem em me­lhor situação que ela do que para lhe expressar sua compaixão. Por isso, em vez de se prestar ao jogo da troca de amabilidades, prefere ir direto ao assun­to descartando as conversas floreadas. Por que Ester veio bater à sua porta, bem na hora em que ela tirava uma soneca para esquecer suas desgraças? Eu sabia muito bem que ela não estaria nem um pouco interessada nas últimas sedas vindas da China nem nos lenços de Bursa, por isso nem pensei em abrir minha trouxa, e fui sem rodeios ao que importava, contei-lhe do pesar e das lágrimas de Shekure. “Aumenta ainda mais a tristeza de Shekure ima­ginar que ela tenha magoado você de alguma maneira, quando as duas so­frem a mesma dor”, disse eu.

Ela replicou com altivez que, como Shekure não viera visitá-la para lhe apresentar suas condolências e compartilhar a sua dor, ela também não pu­dera lhe mandar um pouco de halvah. Por trás daquele orgulho escondia-se um prazer que ela não era capaz de ocultar: o de que seu ressentimento fora percebido. Foi graças a essa brecha que esta vossa manhosa Ester pôde des­cobrir os quês e os porquês da raiva de Kalbiye.

De fato, não demorou muito para Kalbiye confessar que ainda estava brava com o falecido Tio Efêndi por causa do manuscrito ilustrado que ele preparava. Ela contou que seu marido, descanse em paz, só tinha aceitado trabalhar no livro por ser uma encomenda do Sultão, como que uma ordem dele, e não por causa de um punhado de moedas de prata. Mas, quando seu falecido marido se deu conta de que as iluminuras que o Tio Efêndi lhe pe­dira para fazer estavam se transformando de simples páginas ornamentadas em verdadeiras pinturas, que ainda por cima traziam as marcas da blasfêmia, do ateísmo e da heresia européias, ficou apreensivo e começou a não mais distinguir direito o que era certo e o que era errado. Como ela era uma pessoa muito mais sensata e prudente que o Elegante Efêndi, apressou-se a acrescentar cautelosamente que todas aquelas desconfianças do seu falecido ma­rido não surgiram de um dia para o outro, mas pouco a pouco, e que ela, por sua vez, creditara as inquietações dele à sua hipocondria, tanto que o faleci­do nunca pôde identificar a menor heresia flagrante. Ouvinte assíduo das pregações de Nusret Hodja de Erzurum, seu marido chegava a passar mal se por acaso perdesse a hora da prece. Ele sabia que certos canalhas do ateliê ridicularizavam essa sua total devoção à fé, mas compreendia perfeitamente que esses deboches ignóbeis eram fruto da inveja por seu talento e sua arte.

Uma grande lágrima, redonda e clara, escorreu naquele momento dos seus olhos, brilhando de raiva. Ao ver sua face molhada, a boa Ester prome­teu consigo mesma arranjar para Kalbiye um marido muito melhor que o precedente.

“Meu falecido marido não costumava me pôr a par das suas preocupa­ções”, disse ela com um ar circunspecto. “Mas remói bem o que podia me lembrar e cheguei à conclusão de que tudo o que aconteceu conosco é cul­pa dessas ilustrações que o levaram à casa do Tio Efêndi na sua última noite de vida.”

Era sua maneira de se desculpar. Em resposta, recordei-lhe que um ini­migo comum tornara sua sorte e a de Shekure idênticas, pois o Tio Efêndi foi provavelmente assassinado pelo mesmo canalha. Os dois orfãozinhos cabeçudos, que olhavam para mim de um canto da sala, sugeriram-me outra semelhança entre aquelas duas mulheres. Mas minha implacável lógica de alcoviteira logo me lembrou que a situação de Shekure era muito mais boni­ta, rica e misteriosa. Fiz Kalbiye saber exatamente o que eu sentia:

“Shekure mandou dizer que ela pede desculpa, se por acaso pareceu grosseira. Ela te oferece a sua amizade, como uma irmã que sofre com o mes­mo luto, e espera de você os mesmos sentimentos e a sua ajuda. Na noite em que o falecido Elegante Efêndi saiu daqui para ir à casa do Tio Efêndi, não ralou de outro encontro? Não tem idéia de onde pode ter ido depois?”

“Isto aqui foi encontrado no corpo dele”, disse Kalbiye.

Tirou de um cesto de vime com tampa — que guardava, tudo mistura­do, agulhas de bordar, pedaços de pano e até uma noz — uma folha de papel dobrada, que me passou.

Aproximando os olhos do papel amarrotado, em que a tinta havia escorrido, discerni uma porção de linhas. Quando por fim compreendi de que se tratava, Kalbiye pôs estas palavras em meus pensamentos:

“Cavalos”, explicou. “Mas o falecido Elegante Efêndi só fazia iluminu­ras. Nunca desenhou cavalos. E ninguém nunca lhe teria pedido para dese­nhá-los.”

A velha Ester olhava para aqueles cavalos que haviam sido rapidamente esboçados, mas não era capaz de chegar a nenhuma conclusão.

“Se eu pudesse levar este papel a Shekure, ela ficaria muito contente” arrisquei.

“Se Shekure deseja ver estes esboços, que venha aqui pegá-los”, respon­deu Kalbiye com altivez.

40. Meu nome é Negro

A esta altura vocês já devem ter compreendido o seguinte: as pessoas co­mo eu, isto é, aquelas que acabam fazendo da paixão e suas agruras, da pros­peridade e da miséria simples pretextos para uma eterna e absoluta solidão, não são capazes nem de grandes alegrias nem de grandes tristezas na vida. Não é que não compreendamos os outros, quando os vemos conturbados; ao contrário, reconhecemos plenamente a profundidade dos seus sentimentos. O que não apreendemos é a natureza dessa espécie de perplexidade que sen­timos então dentro de nós. E esse sentimento, que permanece mudo, tende a tomar, nessas ocasiões, em nosso coração e em nosso espírito, o lugar da alegria ou da tristeza.

Ao voltar para casa — tão depressa que quase corria — depois do enter­ro do pai de Shekure, que Alá o guarde, beijei minha esposa num gesto de condolências; ela desabou de repente numa larga almofada com seus filhos, que olhavam para mim cheios de despeito, e eu fiquei sem saber o que fazer. Sua dor coincidia com a minha vitória. De um só golpe, eu realizava o sonho da minha juventude: livrara-me do seu pai que me menosprezava e tornara-me o dono daquela casa. Quem poderia acreditar na sinceridade das minhas lágrimas? Mas, creiam-me, não era assim. Eu gostaria verdadeiramente de estar triste, mesmo se não conseguia, porque meu Tio sempre foi um pai para mim, mais que meu próprio pai. Mas como o linguarudo do auxiliar do imã, que lavou o corpo, não soube conter a língua, logo depois do enterro eu já ouvia contarem, no pátio da mesquita — e o boato já corria pelo bairro — que meu Tio não havia morrido de morte natural. Por isso eu queria parecer sinceramente aflito, senão, eu me dizia, minha incapacidade de chorar podia ser mal interpretada. Nem preciso lhes contar que a última coisa que eu que­ria era passar por um homem com “coração de pedra”.

As tias velhas compreendem perfeitamente isso, tanto que já têm uma desculpa pronta para evitar que as pessoas na minha situação sejam banidas do grupo: “está chorando por dentro”, garantem. Enquanto eu de fato cho­rava por dentro, hesitando entre a vontade de ir me esconder num canto pa­ra não ser visto por todos aqueles parentes distantes e vizinhos abelhudos que me impressionavam com sua incrível capacidade de derramar torrentes de lágrimas, e o sentimento de que convinha desde já assumir meu papel em meu novo lar, bateram na porta. Por um instante temi que fosse Hassan, mas no fundo até isso era melhor do que ficar no meio daquela choradeira.

Era um pajem da Porta. Chamavam-me ao Palácio. Fiquei estupefato.

Ao sair do pátio, catei na lama do chão uma moeda. O fato de me cha­marem ao Palácio me amedrontava de fato? Claro que sim. Mas fiquei con­tente por estar lá fora, no frio, entre as pessoas, os cavalos, os cachorros e os gatos. Como esses sonhadores que, antes de irem para as mãos do carrasco, têm com o carcereiro uma agradável conversa sobre os prazeres da vida, so­bre a forma insólita das nuvens no céu ou os patos que nadam no lago, ima­ginando aliviar com esses subterfúgios a crueldade da sorte que recai sobre eles, quis fazer amizade com o jovem que tinha vindo me buscar. Mas o ra­paz me desapontou, revelando-se carrancudo, caladão e cheio de espinhas, ainda por cima. Ao passar por Hágia Sofia, admirei a silhueta esguia dos ci­prestes cujas sombras agudas se erguiam na bruma, e o que me arrepiava era muito menos o medo de morrer, agora que eu era por fim, passados tantos anos, marido de Shekure, do que uma obscura sensação de injustiça: a idéia de que eu pudesse expirar no Palácio sob a tortura antes de poder desfrutar as delícias de fazer amor com ela.

Não nos dirigimos à Porta do Meio, atrás das torres para as quais eu mal ousava olhar, porque era lá que os torturadores e executores exerciam com pavorosa destreza seu ofício, mas para a carpintaria. Ao cruzarmos os celei­ros, o gato que se lambia bem no meio de uma poça, entre as patas de um cavalo baio cujas ventas fumegavam, nem sequer se virou para nos ver pas­sar. Como nós, estava preocupado com seus próprios assuntos.

Atrás dos celeiros, dois homens que eu não soube identificar por seus uniformes verde e roxo revezaram o pajem silencioso e me empurraram para a escuridão de uma casinha pequena, recentemente construída, como eu adi­vinhava pelo cheiro das tábuas. Trancaram a porta atrás de mim. Eu sabia que eles tinham esse costume de assustar os prisioneiros encerrando-os no escuro antes de submetê-los à tortura. Tentei me encorajar um pouco, imaginando que eles se contentariam com uma bastonada na sola dos pés e que eu iria me safar daquele aperto inventando alguma mentira. Parecia haver uma mul­tidão no quarto contíguo, a julgar pela barulheira que ouvia, vinda de lá.

Muitos de vocês, vendo-me manter assim um ar galhofeiro e despreo­cupado, certamente devem estar pensando que não falo como alguém pres­tes a ser torturado. Mas eu já lhes disse estar persuadido de que era um dos mais afortunados servos de Alá. Se aqueles últimos dois dias, após tantas tri­bulações, não bastassem para provar que as aves do bom augúrio voavam so­bre a minha cabeça, a moeda de prata que achei ao sair do portão só podia ser explicada por uma causa superior e secreta.

Enquanto esperava os torturadores, eu me consolava com aquela moe­da que, imaginava, ia me salvar e, segurando firme essa garantia de boa sorte enviada por Alá, eu a acariciava e a beijava efusivamente. Mas no momento preciso em que vieram me tirar da escuridão, quando enxerguei as cabeças rapadas dos torturadores croatas do Jardineiro-Mor, entendi que era bem ca­paz de aquela moeda não adiantar grande coisa. Uma voz interior me dizia, sem dó nem piedade, que a moeda que eu guardara no bolso, longe de ter sido jogada por Alá, era uma das que eu próprio, dois dias antes, derramara na cabeça de Shekure e que as crianças do casamento não tinham catado. Por isso, ao chegar diante dos meus carrascos, eu não tinha mais nenhuma esperança em que me agarrar.

Nem percebi as lágrimas que começaram a escorrer dos meus olhos. Quis suplicar, mas minha boca, como nos sonhos, não emitia mais nenhum som. Eu havia aprendido com as guerras, as mortes, os assassinatos políticos e as torturas que testemunhei de longe, que a gente podia passar da vida à morte num átimo, mas até então nunca havia experimentado isso pessoal­mente. Iam me arrancar deste mundo, tal como arrancariam minhas roupas

Eles tiraram pois meu casaco e minha camisa. Um deles prendeu-me no chão, firmando os joelhos nos meus ombros. Outro agarrou minha cabe­ça entre as mãos, com a habilidade e a precisão de uma dona-de-casa prepa­rando a comida, e introduziu-a delicadamente numa gaiola, munida de um parafuso, que começou a apertar lentamente. Não, não era uma gaiola, mas uma morsa que espremia gradativamente meu crânio.




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