Meu nome é Vermelho



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Berrei com toda a força dos meus pulmões. Eu suplicava, mas com pa­lavras incompreensíveis. E chorava, mas sobretudo porque meus nervos ha­viam sucumbido.

Eles pararam e fizeram a pergunta:

“Foi você que matou o Tio Efêndi?”

Tomei fôlego: “Não”.

O parafuso deu outra volta. Dor.

Perguntaram de novo.

“Não.”


“Então quem foi?”

“Não sei!”

Comecei a pensar se não seria melhor dizer que eu era o assassino. Ao redor da minha cabeça, o mundo, as delícias do mundo giravam suavemen­te. Eu relutava: será que não estava me acostumando à dor? Ficamos assim, o carrasco e eu, um longo momento. Não sentia dor alguma. Só medo.

Eu já começava a acreditar novamente que aquela moeda no fundo do meu bolso ia impedi-los de me matar, quando eles me soltaram. Tiraram mi­nha cabeça daquela morsa, que afinal não a machucara tanto assim. O que estava de joelhos nos meus ombros levantou-se. Mas não tive direito a des­culpas. Vesti camisa e casaco.

Fez-se um silêncio interminável.

Na outra extremidade da sala avistei o Grande Mestre Iluminador Os­man Efêndi. Fui beijar-lhe a mão e ele me disse:

“Coragem, meu filho. Eles quiseram pôr você à prova.”

Senti que havia encontrado um novo pai para substituir o Tio, descanse em paz.

“Nosso Sultão ordenou que você não fosse torturado por enquanto”, disse o Jardineiro-Mor. “Ele julga que você poderá ser útil ao Mestre Osman para descobrir qual dos miniaturistas é o assassino dos Seus servidores encar­regados do livro que Ele encomendou. Examinando as obras e conversando com eles, vocês têm três dias para desmascarar o canalha. Nosso Soberano está muito aborrecido com os rumores que os perturbadores da ordem espa­lham a propósito dos seus livros e dos seus miniaturistas. Temos por missão, o Tesoureiro-Mor Hazim Agá e eu, assisti-los na busca do criminoso que se­rá empreendida por vocês. De vocês dois, um era muito próximo do falecido Tio Efêndi, teve oportunidade de ouvir o que ele tinha a contar, sabe que miniaturistas iam visitá-lo à noite e conhece a história do livro; o outro, co­mo Grande Mestre do Ateliê, pode se gabar de conhecer perfeitamente to­dos os miniaturistas que lá trabalham. Se em três dias vocês não consegui­rem encontrar não apenas esse porco mas também as páginas que ele roubou e que são motivo de tanto mexerico, as instruções do Nosso Justo Sultão são submeter primeiro você, meu filho Negro Efêndi, à tortura e ao interrogató­rio. Depois, quanto a isso não restem dúvidas, será a vez de todos os outros mestres miniaturistas.”

Não pude perceber nenhum gesto ou sinal de conivência entre o Te­soureiro-Mor Hazim Agá, responsável pelas encomendas e pelo pagamento das remunerações e do material, e o Grande Mestre Osman, seu amigo e co­laborador de longa data.

“Se um crime é cometido num quartel, numa seção ou numa corpora­ção qualquer do Nosso Sultão”, prosseguiu o Jardineiro-Mor, “o grupo intei­ro é considerado culpado enquanto o criminoso não for entregue à Sua jus­tiça. E se não conseguir identificar o assassino em seu seio, todo o grupo, como se sabe, em primeiro lugar seu chefe ou seu Grande Mestre, será con­siderado culpado e condenado. Portanto, após um exame minucioso e aten­to de todas as páginas, Mestre Osman deverá apontar ao braço armado da impassível justiça do Protetor do Mundo, Nosso Sultão, o responsável, quem quer que seja, por esse diabólico e sedicioso princípio de corrupção que ora ameaça a integridade e a inocência dos seus miniaturistas, para que seja lavada a honra da corporação de vocês. Para tal fim, ordenamos que tudo o que Mestre Osman pedir lhe seja concedido. Neste momento, meus homens estão revistando a casa dos miniaturistas e vão nos trazer todas as páginas do livro que eles tiverem iluminado.”

41. Eu, Mestre Osman

O Jardineiro-Mor e o Tesoureiro-Mor repetiram as ordens do Nosso Sul­tão e saíram, deixando o Negro e eu sozinhos naquela sala. O Negro, é cla­ro, estava esgotado com aquela amostra de tortura que lhe estaria reservada num eventual interrogatório, bem mais sério que este. Depois de ter passado por tanto medo e ter chorado tanto, agora estava triste e calado, como uma criança emburrada. Senti por ele uma ponta de ternura e deixei-o em paz.

Eu tinha portanto três dias para examinar as páginas que os homens do Jardineiro-Mor apreenderiam na casa dos calígrafos e miniaturistas do meu ateliê e determinar quem havia trabalhado nelas. Quanto às miniaturas pro­duzidas para o livro do Tio Efêndi, que o Negro, para se inocentar, havia en­tregue ao Tesoureiro-Mor Hazim Agá, vocês sabem muito bem da aversão que elas me causaram mal as vi. Aliás, vocês hão de convir que, para causar num miniaturista como eu, que dedicou toda a sua vida a essa arte, uma re­pulsão e uma ojeriza tão violentas, essas miniaturas tinham de ter alguma coisa que os olhos não esquecem facilmente. Uma obra ruim não provoca esse gênero de reação. Não foi portanto sem uma espécie de curiosidade que retomei o exame daquelas nove páginas perpetradas, na calada da noite, por meus próprios artistas para aquele velho palerma.

Vi uma árvore numa página em branco, dentro da margem desenhada e ornamentada por nosso pobre Elegante, que emoldurava graciosamente todas as páginas. Tentei imaginar de que relato, de que cena lendária ela ti­nha sido tirada, arrancada. Se mando um dos meus ilustradores pintar uma árvore, seja ele o adorável Borboleta, o inteligente Cegonha ou o esperto Oli­va eles sabem que têm de começar concebendo essa árvore numa história, para poder desenhá-la com total serenidade. Depois ela me deixará perce­ber, pelo detalhe das suas folhas, dos seus galhos, examinados com atenção, que história o pintor tinha na cabeça. Mas esta árvore era solitária, infeliz. Parecia ainda mais desolada porque o horizonte, atrás dela, estava traçado bem alto, num estilo que lembrava as regras editadas pela velha Escola de Shiraz. E, no espaço deixado livre por esse horizonte elevado, só havia va­zio. Assim, o duplo cuidado de pintar uma árvore real, como fazem os pin­tores da Europa, e de observar o mundo à maneira persa, isto é, de cima, pro­duzia um resultado melancólico. Disse para mim mesmo: “Até parece uma árvore perdida nos confins da Terra”. A tentativa de combinar dois estilos di­versos, o dos meus miniaturistas e as idéias estéreis daquele velho doido, ha­via criado um trabalho sem a menor mestria. Sim, não era tanto o fato de aquela ilustração ser feita segundo duas visões diferentes do mundo que me exasperava, mas principalmente aquela falta gritante de mestria.

Senti a mesma coisa ao examinar as outras páginas, o cavalo perfeito, de sonho, e a mulher com a cabeça inclinada. A escolha dos temas também me irritava: aqueles dervixes errantes, aquele Diabo. Como meus pintores ousaram cometer tais horrores no meio de um volume dedicado ao Nosso Sultão? Tinham sido forçados, sem dúvida nenhuma. Compreendi então to­do o sentido da morte do Tio, Providencialmente levado por Alá, que tudo sabe julgar, antes de o livro ser terminado. Nem é preciso dizer portanto que não tenho a mais remota vontade de completar esse manuscrito.

Quem suportaria o olhar desaforado deste cachorro, visto de cima, claro, mas que vem me espiar bem debaixo do meu nariz, como se fôssemos ir­mãos? Se, por um lado, eu estava fascinado com a vulgaridade da sua posição, com a beleza do olhar de viés que ele dava de cabeça abaixada para o chão e com a ameaça dos seus dentes alvos, em poucas palavras com o talento do miniaturista que o pintou (eu estava a ponto de determinar quem havia feito a pintura); por outro lado, eu não podia perdoar que esse talento tenha sido posto a serviço da absurda lógica de um projeto incompreensível Nem o desejo de imitar os pintores europeus, nem o pretexto de que se tra­tava de uma encomenda de Nosso Sultão para ser oferecida ao Doge, reque­rendo portanto técnicas familiares aos venezianos, eram desculpas para tal baixeza.

O vermelho apaixonado de uma pintura de multidão deixou-me aterro­rizado. Eu era capaz de reconhecer, em cada parte, cada pincelada de cada um dos meus miniaturistas, mas em compensação não sabia dizer qual de­les, guiado por uma lógica misteriosa, havia lentamente inundado, com esse vermelho tão forte, o mundo que aquela ilustração revelava. Fiquei algum tempo debruçado sobre aquela pintura formigante de gente mostrando ao Negro qual dos meus miniaturistas tinha feito os plátanos (Cegonha), os na­vios e as casas (Oliva), as flores e as pipas (Borboleta).

“Claro, um grande mestre miniaturista e um artista tão grande quanto o senhor, que vem dirigindo há anos um ateliê de livros de arte, é capaz de reconhecer as características, a disposição de cada linha, a pincelada de ca­da pintor que trabalha sob as suas ordens”, disse o Negro. “Mas, neste caso, em que um excêntrico amante dos livros, como meu falecido Tio, obrigou os pintores a trabalhar de uma maneira original e totalmente nova, como po­derá identificar a contribuição de cada um?”

Resolvi responder com uma parábola: “Era uma vez, na cidade de Isfa­han, um soberano bibliófilo, que vivia recluso na sua fortaleza, distante do mundo. Era um padixá poderoso, inteligente, mas muito cruel também. Só gostava de duas coisas: dos manuscritos iluminados que encomendava e da sua filha. E não se podia dizer que o boato espalhado pelos inimigos desse déspota, de que era apaixonado pela filha, fosse propriamente uma calúnia. De fato, seu humor bilioso e seus ciúmes faziam-no declarar todo dia guerra aos príncipes da vizinhança e aos xás que lhe mandavam embaixadas para pedir-lhe a mão da bela princesa. Não havia para ele nenhum que mereces­se sua filha, que ele confinava num quarto do palácio, atrás de quarenta portas bem trancadas. De acordo com uma crença corrente em Isfahan, ele pen­sava que a beleza da sua filha feneceria se exposta aos olhares de outros homens. Um dia, quando se espalhou a notícia sobre um exemplar de Khos­row e Shirin que ele havia encomendado — caligrafado e pintado no estilo de Herat —, começou a circular pela cidade o boato de que a bela dolente e pálida que aparecia numa imagem de multidão outra não era senão a filha do ciumento xá. Antes mesmo do falatório chegar-lhe aos ouvidos, o xá, des­confiado da misteriosa imagem, com a mão trêmula abriu mais uma vez o livro naquela página e pôde constatar, em meio a uma torrente de lágrimas, que era sua filha que ali estava retratada! Dizem, aliás, que não foi propria­mente a filha do xá, protegida por quarenta portas trancadas, que surgiu cer­ta noite para ser retratada, mas sim sua beleza, que não suportando mais tan­to tédio, escapou do quarto qual um fantasma, passando por baixo das portas e pelos buracos das fechaduras na forma de uma fina voluta de fumaça, e re­fletindo-se de espelho em espelho, como um raio de luz, até alcançar os olhos do pintor que trabalhava noite adentro. O jovem e talentoso artista, diante de tamanha beleza, não pôde se conter e a reproduziu num canto da sua pin­tura. Era a cena em que ele representava Shirin se apaixonando por um re­trato de Khosrow, durante um passeio no campo.”

“Amado mestre, que coincidência!”, disse o Negro. “É a cena de que mais gosto nesse conto!”

“Não são contos, mas fatos que aconteceram”, repliquei. “Escute, não foi com os traços de Shirin, mas de uma aia, que o miniaturista pintou a fi­lha do padixá: apenas uma dama de companhia tocando alaúde ou esten­dendo a toalha, porque a inspiração lhe veio no momento em que ele ia pin­tar a figura dessa personagem. O resultado foi que, ao lado dela, a beleza de Shirin ficou como que obscurecida pela deslumbrante beleza daquela sim­ples aia, que, embora relegada num canto da imagem, rompia o equilíbrio da composição. Mesmo assim, quando o pai viu sua filha naquela miniatu­ra, quis desmascarar o talentoso miniaturista que a pintara. Mas este, temen­do a ira do padixá, havia sido bastante hábil e prudente, assim me parece, pois, para ocultar sua identidade, havia pintado tanto a aia como Shirin num estilo diferente do seu próprio. Além do mais, tinham sido muitos os minia­turistas que contribuíram para essa obra.”

“Como foi então que o xá fez para encontrar o miniaturista que pintou sua filha?”

“Pelas orelhas!”

“As orelhas de quem? Da filha ou da aia?”

“Na verdade, de nenhuma das duas. Ele teve a idéia de pôr diante de si todas as imagens que ilustravam todos os livros produzidos pelos miniaturistas do seu ateliê, a fim de examinar as orelhas de todos os personagens. Pôde constatar mais uma vez o que ele já sabia havia anos: que cada pintor faz as orelhas dos seus personagens de uma maneira diferente, qualquer que seja seu domínio do estilo clássico. Não importava se o rosto que pintava era de um sultão, de uma criança, de um guerreiro ou mesmo, que Alá me perdoe do rosto mal dissimulado por um véu do nosso Louvado Profeta ou até, que Alá me perdoe outra vez, das orelhas do próprio Diabo. Cada miniaturista as desenhava à sua maneira, sempre a mesma em todos os casos. Era como se fosse a sua assinatura.”

“Por quê?”

“Quando os grandes mestres pintam um rosto, eles procuram essencial­mente representar uma beleza superior, de acordo com os cânones consa­grados que a fazem distinta de toda beleza real. Mas quando chega a vez de fazer as orelhas, como não há regra, não podem seguir um modelo e não se dão ao trabalho de estudar uma orelha real nem de imitar o trabalho de um colega ou predecessor. Quando fazem as orelhas, eles não pensam, não têm nenhuma pretensão, nem sequer param para considerar o que estão fazen­do. Simplesmente, deixam sua memória guiar o pincel.”

“Mas os grandes mestres não criam também suas obras-primas de me­mória, sem nunca olhar para os cavalos, as árvores ou os personagens reais?”, perguntou o Negro.

“Sim”, admiti. “Mas é um saber que se adquire ao fim de longos anos de reflexão, de contemplação. Tendo visto na vida um sem-número de cava­los, pintados ou reais, eles sabem que qualquer cavalo de carne e osso que virem apenas desfigurará a imagem perfeita do cavalo que guardam na me­mória. Esse cavalo que o miniaturista desenhou dezenas de milhares de ve­zes acaba se aproximando da visão que Alá tem do Cavalo, pelo menos é es­sa uma convicção íntima que todos os pintores adquirem após longos anos de experiência. O cavalo traçado de memória é fruto de um trabalho de apro­ximação infinita para alcançar o infinito do seu Criador. Mas a orelha que e desenhada antes de a mão ter acumulado qualquer conhecimento, antes de o artista ter ponderado e considerado o que está fazendo, ou antes de prestar atenção nas orelhas da filha do xá, será sempre um defeito. E, por ser um de­feito, uma imperfeição, ela varia de miniaturista a miniaturista. Ou seja, ela equivale a uma assinatura.”

Houve de repente uma grande agitação: os homens do Jardineiro-Mor nos traziam o resultado da sua busca.

“Aliás, as orelhas são um flagelo da nossa espécie”, comentei na espe­rança de fazer o Negro sorrir. “Elas são ao mesmo tempo comuns a todos e sempre diferentes: a feiúra por excelência.”

“O que aconteceu com o miniaturista que foi pego por causa da sua ma­neira de desenhar as orelhas?”

Para não entristecê-lo ainda mais, abstive-me de lhe contar que fura­ram-lhe os olhos, e respondi: “Obrigaram-no a se casar com a filha do padi­xá. Esse método secreto, que tem sido usado desde então para identificar os miniaturistas, é conhecido como ‘método da aia’ por muitos cãs, xás e sul­tões que possuem ateliês de livros de arte. Ele é aplicado sempre que se trata de descobrir quem, por exemplo, pintou uma imagem proibida ou uma in­solência dissimulada num detalhe e se recusa a confessar — e os verdadeiros artistas sempre têm o desejo instintivo de representar o que é proibido! Con­siste em encontrar o ponto fraco: nunca no âmago da cena representada, mas num detalhe trivial, repetido e traçado às pressas, a que o miniaturista nem deu atenção: por exemplo, a relva, as folhas, as orelhas, as mãos, a crina dos cavalos, seus cascos ou suas pernas. Mas, atenção, o artista não pode ter cons­ciência dessa singularidade que é sua assinatura secreta. Por isso, esse méto­do não funciona no caso dos bigodes, porque muitos pintores, sabendo que cada um os trata da sua maneira, não ignoram que são sempre uma assina­tura. Em compensação, no caso das sobrancelhas é possível, porque não se presta atenção nelas. Bem vamos ver como nossos jovens mestres acrescen­taram o toque pessoal do seu pincel e do seu cálamo a cada uma das ima­gens pedidas por seu Tio.”

Começamos pois a cotejar as páginas dos dois manuscritos ilustrados. Um, feito sob o meu controle, no meu ateliê, à luz do dia: o Livro das festivi­dades, que narra a cerimônia da circuncisão do nosso príncipe; o outro, o li­vro do falecido Tio, realizado em segredo, na calada da noite. O Negro e eu examinamos atentamente, com minha lupa, esses dois livros, que se distin­guiam tanto pelos temas tratados como pelo estilo.

1. Primeiro, numa miniatura do meu Livro das festividades, examina­mos a boca entreaberta da raposa cuja pele ornava a gola do cafetã verme-lho com cinto púrpura, arvorado por um representante dos ofícios da peleteria, que passava junto do estrado construído para receber Nosso Sultão. In­dubitavelmente, Oliva era o autor daqueles dentinhos pontiagudos, os mes­mos da imagem de Diabo feita para o livro do Tio: uma criatura horrenda meio demônio, meio gigante, que parecia vinda diretamente de Samarcanda

2. Num outro dia de júbilo consagrado àqueles festejos, sempre sob o olhar do Nosso Sultão, que de seu camarote dominava o Hipódromo, via-se um esquadrão de miseráveis soldados em andrajos. Um deles fazia um pedi­do: “Grande Sultão, combatendo bravamente por nossa religião, caímos nas mãos dos infiéis e só conseguimos obter nossa liberdade graças a nossos ir­mãos que ficaram como reféns. Viemos buscar o resgate. Mas, ao voltarmos a Istambul, achamos tudo tão caro que nos é impossível reunir a soma ne­cessária para libertar nossos irmãos que permanecem prisioneiros dos kafires. Estamos à sua mercê: dê-nos ouro ou escravos para que possamos trocá-los por nossos queridos irmãos”. Aqui não havia dúvida de que foi Cegonha quem fez as unhas do cachorro preguiçoso que acompanha a cena num canto da ilustração, espiando todos aqueles bonitos embaixadores, o Nosso Sultão e todos aqueles pobres heróis das nossas guerras, assim como as do cachorro que aparece na cena sobre as aventuras da moeda de ouro no livro do Tio.

3. Entre os saltimbancos, que dão saltos-mortais e fazem ovos rodopiar na ponta de compridas varetas, um deles, careca, de calça curta e colete ro­xo, ajoelhado num canto do tapete vermelho, segura seu tamborim da mes­ma maneira que a criada que traz a grande bandeja de cobre, na ilustração do Vermelho para o livro do Tio: obra de Oliva.

4. Entre os cozinheiros, cuja corporação se acotovela diante dos olhos do Sultão, cozinhando repolhos recheados de carne e cebola num caldeirão a bordo da sua carroça, o chefe de cozinha, brandindo suas panelas, segue a carroça a pé num chão de terra rosada com pedrinhas azuis. Essas pedras são do mesmo autor das pedras vermelhas sobre a terra azul-escura acima da qual a Morte parece flutuar como um espectro, no livro do Tio: Borboleta.

5. Estafetas tártaros trouxeram a notícia de que o exército do xá da Pér­sia já começava a se mobilizar para a sua próxima campanha nas fronteiras do nosso império, o que levou os otomanos a saquear e demolir o refinado palanque de onde o embaixador persa — que havia afirmado repetidas vezes ao Nosso Sultão, com o maior descaramento, que o xá nutria por ele somen­te pensamentos fraternos e desígnios amistosos — assistia aos festejos. Esse episódio de ódio e destruição levantou tamanha poeira no Hipódromo que foram despachados carregadores de água para assentá-la molhando o chão, além de um grupo carregado de odres cheios de óleo de linhaça para jogar na multidão que se aprestava a justiçar o próprio embaixador. Os pés desses carregadores de água e óleo que acorrem frenéticos são desenhados como os das tropas que lançam seu ataque na página do Vermelho: trabalho de Bor­boleta.

Esta última atribuição foi feita pelo Negro, embora fosse eu que condu­zisse nossa investigação conjunta, movendo minha lente de aumento de cá para lá, neste ou naquele detalhe deste ou daquele desenho. Ele arregalava os olhos, obcecado sem dúvida pelo medo de ser torturado de novo, ou cheio de esperança de voltar para sua jovem esposa e seu novo lar. Pondo em prá­tica esse método da aia, levamos nada menos que aquela tarde inteira para elaborar a lista das contribuições de cada miniaturista e interpretar essas in­formações.

Nenhuma das páginas supervisionadas pelo falecido Tio do Negro foi confiada ao talento de um só miniaturista. Na maioria delas, cada um dos três dava sua contribuição, seu toque particular. Era visível: cada página cir­culara entre os domicílios dos meus três artistas. Mas, ao lado desse traba­lho, que eu era capaz de reconhecer e de atribuir à primeira vista, eu discer­nia uma quinta mão, inábil, e já me dizia, não sem indignação, que o assassino oculto se traía pelo menos por um péssimo dom, quando o Negro de repen­te compreendeu que aquele toque, laborioso e aplicado, outro não era que o do seu Tio! Falsa pista, por conseguinte. Deixando de lado as margens prati­camente idênticas (isso foi um golpe para mim, nem é preciso dizer!) que o Elegante Efêndi havia realizado para o livro do Tio e para o meu Livro das festividades, e sua participação ocasional nos ornamentos murais, nas folha­gens e nas nuvens, estava claro que somente meus três mais brilhantes mes­tres miniaturistas haviam sido solicitados, meus três filhos, meus preferidos, que formei com carinho desde bem jovens: Oliva, Borboleta e Cegonha.

Falar deles, da arte deles, do talento e do temperamento de cada um era tanto um bom meio de descobrir o que procurávamos saber quanto uma ma­neira de evocar a história da minha vida.

AS QUALIDADES DE OLIVA



Seu verdadeiro nome é Velidjan. Não sei se tem outro pseudônimo além do apelido que lhe dei, pela simples razão de que nunca o vi assinar nenhu­ma das suas obras. Na época do aprendizado, ele se apresentava todas as ter­ças-feiras de manhã à minha porta, para me acompanhar. É orgulhosíssimo por isso deixaria sua assinatura bem visível, para que fosse reconhecida, sem dissimulações, se se rebaixasse a assinar suas obras. Alá dotou-o generosa­mente de um talento superior. Sente-se à vontade para pintar o que quer que seja, assim como para fazer as douraduras e traçar as linhas, e sempre com extraordinária mestria. Destacou-se notadamente nas árvores, nos animais e nos rostos. Seu pai, que o trouxe a Istambul quando ele tinha, creio eu, uns dez anos, tinha sido aluno do sombrio Siyavush, o célebre ilustrador espe­cializado em rostos, do ateliê dos safávidas, no palácio de Tabriz, e sua li­nhagem remonta aos artistas mongóis. Como seus ancestrais, sob a influên­cia da Escola chinesa que florescia em Samarcanda, Herat e Bukhara um século e meio atrás, faz os rostos dos amantes parecidos com luas cheias, co­mo se fossem chineses. Eu nunca consegui fazer, nem quando ele era aluno nem quando passou a mestre, que esse cabeça-dura modificasse seu estilo. Mas às vezes eu bem gostaria que renunciasse a ele, melhor ainda, que se li­vrasse dessa pesada herança do estilo oriental, que a apagasse da sua alma. Quando eu lhe dizia isso, ele respondia que, para artistas como ele, que va­gavam entre os países, de um ateliê a outro, esses modelos já estão apagados, esquecidos, se é que de fato um dia os aprendeu. Certos miniaturistas, a maio­ria deles até, são admiráveis primeiro por causa de todos esses maravilhosos modelos que sua memória preserva. Velidjan seria maior miniaturista se os esquecesse. Mas é verdade também que o fato de conservar dentro de si, co­mo um escrúpulo obscuro de que não tem consciência, a lembrança indelé­vel das formas legadas por seus mestres tem esta dupla vantagem: 1. desen­volver um sentimento de culpa e de estranheza em relação aos outros, que dá peso ao talento do artista; 2. ter disponível, em caso de necessidade, um acervo de imagens — destas que ele diz não se lembrar — e tratar sem difi­culdade, à maneira clássica, um tema ou uma cena imprevista e nova. Do­tado de um olho notável, é capaz de adaptar toda esse bagagem de cultura e tradição transmitida pelos artistas da corte do xá Tahmasp à nova pintura, de maneira a realizar uma harmoniosa mistura de estilo afegão e otomano.



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